Mercearia solidária em Ponta Delgada “é bóia de salvação” para famílias de fracos recursos

– Seria excelente existirem mais “mercearias solidárias” pelo País dado que a inflação, o aumento do custo de vida, o desemprego, os (des)apoios das instituições sociais a quem mais necessita, seriam uma ajuda fantástica para atenuar a (sobre)vivência de muitas pessoas em dificuldades extremas de sobrevivência. E seria também uma forma dos produtores colocarem os seus produtos directamente à venda por preços mais acessíveis.

MERCEARIAS SOLIDÁRIAS // BÓIAS DE SALVAÇÃO

A mercearia solidária pretende proporcionar aos habitantes do bairro na freguesia do Livramento alimentos de primeira necessidade a preços mais baixos do que os praticados no mercado. Esta abre três vezes por semana.

Foto EDUARDO COSTA/LUSA

Inaugurada há um mês, a mercearia solidária do bairro social Santo António, em Ponta Delgada, nos Açores, tem clientes fidelizados e é uma “bóia de salvação” para os moradores, a maioria em situação de desemprego e com baixos rendimentos.

O projecto nasceu pelas mãos da associação Solidaried’Arte, para proporcionar aos habitantes do bairro na freguesia do Livramento, concelho de Ponta Delgada, ilha de São Miguel, alimentos de primeira necessidade a preços mais baixos do que os praticados no mercado.

“Essa mercearia é um pouco uma bóia de salvação”, disse à agência Lusa Carmen Bettencourt, coordenadora do projecto da mercearia solidária e comunitária.

© EDUARDO COSTA/LUSA

Além de proporcionar preços mais baixos num bairro onde existem “dificuldades sócio-económicas e várias problemáticas”, como o desemprego, o projecto tem outra mais-valia identificada pela responsável: evita a deslocação dos moradores para pequenas compras do dia-a-dia.

“Na maioria, estas pessoas não têm transporte próprio. Estão distantes das lojas e os horários dos autocarros não são muito compatíveis com a população”, acrescentou a coordenadora do projecto.

Com a ajuda de voluntários e crianças do bairro, os responsáveis instalaram a mercearia solidária em contentores cedidos pela autarquia de Ponta Delgada.

No interior, as prateleiras exibem dezenas de produtos de primeira necessidade, como alguns enlatados, leite, massas ou fraldas e ainda artigos de higiene.

Existem também produtos frescos, fruto de uma parceria com o projecto de inclusão social Casa dos Manaias, desenvolvido pela autarquia de Ponta Delgada, e que tem uma horta.

Segundo Carmen Bettencourt, esses produtos cultivados são adquiridos pela associação para comercialização na mercearia, onde também estão à venda algumas peças de cerâmica elaboradas pelos utentes do projecto Casa dos Manaias.

“A ideia é termos os bens de primeira necessidade para qualquer morador, no seu dia a dia. Se faltar, por exemplo polpa tomate para o jantar, já têm um local bem perto, em vez de andarem quilómetros”, explicou.

Foto EDUARDO COSTA/LUSA

Entre os produtos mais solicitados, segundo a responsável, estão “artigos mais pesados”, como as caixas de pó para a máquina de lavar roupa ou “vários pacotes de leite.

“Estamos a apostar um pouco naquilo que a população pede”, assinalou.

A mercearia já conta com “cerca de 10 clientes fidelizados” que compram regularmente determinados produtos.

“Acreditamos que, no futuro, essa fidelização será em maior número”, referiu a responsável do projecto, implementado num bairro onde residem 64 famílias.

A mercearia solidária abre três vezes por semana, às terças, quintas e sextas-feiras, entre as 10:00 e 12:30.

“Este horário vai ao encontro das necessidades da população, na sequência de um questionário que elaboramos junto dos moradores”, explicou Carmen Bettencourt.

O acesso é exclusivo para os 64 agregados familiares que residem no bairro, mediante a apresentação de um cartão próprio para as compras.

“Numa fase inicial, os moradores foram à Junta de Freguesia solicitar um atestado de residência que comprova a composição do agregado familiar e ficaram com um cartão de acesso à mercearia”, especificou a coordenadora do projecto.

Para a associação Solidaried’Arte, a intenção “não é fazer concorrência desleal” ao mercado, mas “ajudar” as famílias de fracos recursos.

“Estamos aqui de ombro a ombro com a população e nunca com o objectivo de lucro. A percentagem que conseguimos angariar será toda aplicada na compra de mais produtos para a mercearia, porque não vivemos apenas de doações”, frisou Carmen Bettencourt.

Outra das ideias do projecto da mercearia solidária e comunitária passa também por promover uma educação ambiental, sensibilizando a população para a aquisição de produtos frescos.

“Seleccionamos, por mês, um produto e colocamos em exposição receitas de culinária que podem ser feitas com o produto seleccionado”, descreveu.

A coordenadora considera que “já se criou uma relação com a população”.

“E somos muito bem aceites”, assegurou.

Além da parceria com a Câmara Municipal de Ponta Delgada, o projecto é financiado pela Direcção Regional da Juventude, através do programa Jovens Mais.

Diário de Notícias
DN/Lusa
04 Dezembro 2022 — 07:00



 

1074: Fundamental proteger 30% do planeta e travar mineração em mar profundo

PLANETA TERRA // PROTECÇÃO // COP15

A cimeira das Nações Unidas sobre biodiversidade (COP15) será positiva se for aprovada a protecção de 30% do planeta até 2030 e houver uma moratória da mineração em mar profundo, considera Ana Matias, da organização Sciaena.

© Paulo Jorge Magalhães/Global Imagens

A propósito da COP15, que teve uma primeira parte no ano passado na China e que se conclui em Montreal, no Canadá, de 07 a 19 de Dezembro, a ambientalista Ana Matias disse à Lusa que há sempre “expectativas altas” sobre resultados, mas lamentou que neste tipo de conferências os oceanos fiquem quase sempre “em segundo plano”.

Ana Matias faz parte da Sciaena, uma associação ambientalista que defende a melhoria do ambiente marinho e formas de exploração dos oceanos que sejam sustentáveis, e por isso lamenta que para muitos decisores ainda não pareça claro que as crises climática e de biodiversidade não se podem separar do que se passa no mar.

O oceano e o clima têm “uma ligação muito, muito forte” e têm essencialmente sido feitos esforços em terra para resolver a crise climática, quando são os oceanos que têm absorvido muitos dos impactos dos humanos, diz.

“Apesar disso, os oceanos parecem postos de parte. Mas o relógio está a contar”, avisa Ana Matias, lembrando a poluição, a sobre-pesca, a destruição de habitats, a acidificação, a perda de biomassa e o aquecimento como alguns dos problemas. E não se julgue, acrescenta, que os oceanos não se estejam a queixar.

“Não se vê directamente o que se passa no oceano, e se for no mar profundo então ainda menos, mas o oceano tem dado muitas indicações de que as coisas estão a acontecer”, diz a ambientalista, afirmando que de alguma forma entende a pouca importância que se dá à perda de biodiversidade oceânica. “Não é fácil mobilizar-nos para algo que possa estar a acontecer no meio do Pacífico”.

Mas, não sendo fácil, é fundamental porque é o mar que tem absorvido grande parte do excesso de calor gerado pela actividade humana, porque é o mar “o amigo silencioso” que permite que em terra se tenha uma qualidade de vida aceitável, diz.

Por tudo isto, Ana Matias considera que da conferência de Montreal deve sair a decisão de proteger 30% do planeta, em terra e no mar, até 2030, sublinhando a importância de as áreas serem de facto eficazmente protegidas. E que tal não signifique, alerta também, que os outros 70% de superfície do planeta sejam sujeitos a “exploração selvagem”.

E a conferência deve ainda tomar outra decisão, que a Sciaena considera fundamental: “que seja dado um sinal muito forte quanto à mineração em mar profundo. É fundamental que seja dado um sinal claríssimo”.

A possibilidade de se começar a fazer mineração no fundo do mar na procura de metais raros, já admitida por países e empresas, está a suscitar preocupações, nomeadamente das organizações ambientalistas.

Ana Matias admite que não haja ameaças à biodiversidade tão grandes como a mineração em mar profundo, lembrando que alguns países se mostraram contra, assinando uma moratória até haver mais informação e acrescentando que Portugal deve dizer “por agora não”, o que ainda não aconteceu.

Sempre com esperança de que “a urgência se sobreponha aos interesses privados”, lamentando que as decisões sejam “demasiado lentas”, a ambientalista teme que o facto de não estar prevista a presença de qualquer líder mundial na COP15 seja “sintomático da falta de interesse e de sensibilidade para estas questões”.

“Tenho pena que Portugal, que tem em matéria de oceanos mais responsabilidade do que muitos outros países, não se faça representar ao mais alto nível”, afirmou.

A COP15 deve adoptar um quadro global de protecção da biodiversidade pós-2020, com uma estratégia e um roteiro global de conservação, protecção, restauração e gestão sustentável da biodiversidade e dos ecossistemas para a próxima década.

Diário de Notícias
DN/Lusa
04 Dezembro 2022 — 10:11



 

1073: Isto não é um jogo de futebol

OPINIÃO

Porque gritam os adeptos de futebol? Recuemos algumas décadas, afastemo-nos das tragédias do Mundial e, por momentos, embora correndo o risco de ofender a pátria, acreditemos que a nossa felicidade poderá não estar dependente do próximo piscar de olhos de Cristiano Ronaldo – não custa tentar. Tentemos outra pergunta: porque grita Marlon Brando?

Quem conhece o filme Um Eléctrico Chamado Desejo, de Elia Kazan, adaptado da peça de Tennessee Williams, lembrar-se-á que Brando é Stanley Kowalski, casado com Stella.

Vivem no “bairro francês” de Nova Orleães. Com a chegada de Blanche DuBois, a irmã de Stella que transporta as memórias e os fantasmas de uma riqueza perdida no Mississippi, o casal vai ser profundamente abalado.

Esta imagem possui o poder de um lendário ícone do cinema, a ponto de simbolizar uma personagem complexa, um actor genial e, por fim, a primeira e gloriosa geração do Actors Studio. Que acontece, então? Desesperado com o efeito perverso de Blanche nas atribulações do seu território conjugal, Stanley grita: “Stella!”

Stanley Kowalski, aliás, Marlon Brando em 1951: “Stella!”

Estava-se em 1951. Que é como quem diz: a imagem pertence a uma “pré-história” cinéfila, agora muitas vezes reduzida a clichés paternalistas, esmagada pelo poder de “super-heróis” e “efeitos especiais”.

Apesar da sua intensidade e beleza, incólume à passagem das décadas, a imagem remete-nos para um passado tristemente desconhecido de muitos cidadãos, a ponto de alguns participantes nos concursos televisivos tenderem a ridicularizá-lo como coisa dispensável porque, como às vezes dizem a propósito de temas desse passado, “eu ainda não tinha nascido”…

Ainda assim, falemos de gritos. Através de um rudimentar, mas sugestivo, esquematismo histórico, conseguimos perceber que, entre 1951 e 2022, algo mudou na relação dos extremismos humanos com as câmaras. Repito e sublinho: na relação com as câmaras.

O grito de Brando é apenas um detalhe de uma performance (e um filme) que, de facto, lançou o primeiro acto de uma verdadeira revolução cinematográfica.

Os intérpretes ligados ao Actors Studio (de que Kazan tinha sido um dos fundadores, em 1947) definiram uma nova teatralidade dos corpos e das palavras que, paradoxalmente ou não, gerou uma fascinante linguagem cinematográfica – lembremos que nessa primeira vaga do Actors Studio encontramos nomes como James Dean, Paul Newman, Joanne Woodward, Montgomery Clift, Ellen Burstyn… sem esquecer que Marilyn Monroe também por lá passou.

“Stella!” é um grito que não se esgota na angústia amorosa do colérico e frágil Stanley. Não existe como mero apontamento “psicológico” para definir a personagem.

É um gesto de representação que, em cinema – através do olho clínico da câmara de filmar -, encontra a sua razão narrativa, consolidando-se no nosso olhar como acontecimento visceralmente dramático.

A câmara existia, assim, como testemunho técnico e formal de um evento singular, singularmente humano. Saltando mais de 70 anos, deparamos com a tragédia contemporânea dos olhares: o papel revelador da câmara perdeu poder cultural, deixou de suscitar a paixão contraditória das linguagens, dando lugar à promiscuidade visual de que os nossos telemóveis e as redes (ditas) sociais são o novo teatro.

No futebol televisivo, isso traduz-se num comportamento que, como se prova, se instituiu como fórmula global de espectáculo. A saber: os adeptos de futebol vêem uma câmara e desatam aos gritos para… Para quem?

Vivemos tempos de metódica desqualificação da complexidade do factor humano. Tal fenómeno é mesmo exponenciado como linguagem triunfante do quotidiano e dos seus valores “sociais”.

De tal modo que berrar para o mundo – encarando a câmara como oráculo redentor, sem fronteiras, realmente global – passou a funcionar como gesto de afirmação individual e, mais do que isso, ritual de pertença a um determinado colectivo que, garantem-nos, corresponde a uma saudável forma de patriotismo.

O que, enfim, nos abre mais um inusitado espaço de reflexão. A saber: o do sofrimento. Porquê? Porque, num plano meramente contabilístico, para lá da gritaria, a palavra “sofrimento” associada ao futebol se tornou muito mais frequente do que em qualquer abordagem da guerra na Ucrânia.

Como lidar com esta banalização cognitiva? Talvez escolhendo a companhia de Marlon Brando e arriscando um grito catártico: “Stella!”

Jornalista

Diário de Notícias
João Lopes
04 Dezembro 2022 — 07:00



 

1072: Aeroporto: há novidades

OPINIÃO

Nenhuma conclusão substitui o estudo que o Governo mandou fazer sobre a melhor localização para o aeroporto de Lisboa. Mas há novas pistas, fruto do debate promovido pelo Conselho Económico e Social e o Público.

No quadro abaixo ficam alguns dos pontos fortes e fracos de cada projecto apresentados na terça-feira. As premissas da análise são estas:

IMPACTO NO AMBIENTE: não há tema mais crítico para a construção de um aeroporto em qualquer ponto do mundo. Olhando para as seis hipóteses em análise, talvez apenas Alverca (que já tem uma pista, numa área menos crítica do estuário) ou Santarém (numa zona menos sensível) escapem. Alcochete e Montijo são indubitavelmente as piores pelas consequências ecológicas em redor.

Manter a Portela tem um impacto pesado sobre os habitantes da capital – daí as dúvidas sobre se se deve diminuir a operação, ou pura e simplesmente acabar. Nem o presidente da Câmara, Carlos Moedas, consegue dizer qual escolhe…

CUSTO DE INVESTIMENTO: a grande novidade veio da Vinci-ANA. Afinal, não há aeroportos grátis, ao contrário do que António Costa deu a entender quanto ao Montijo. Ficou subentendido nas afirmações do líder da Vinci que ou a ANA paga o aeroporto com os lucros que não entrega ao Estado, ou o Estado paga tudo.

Só a melhoria da Portela fica por conta dos franceses (ou não?). Portanto, não é indiferente querermos um aeroporto + acessos cuja escala pode ir de 500 milhões (Alverca) até 8 mil milhões (Alcochete).

Não sendo certo, Santarém começou por assinalar mil milhões para a primeira fase, tal como o Montijo. Acessos já construídos: Alverca e Santarém são claramente os melhores.

ATÉ 30 MINUTOS DE LISBOA: este ponto é decisivo e não se mede em quilómetros, mas em tempo de acesso. A Portela é imbatível – já está na cidade. Alverca e Montijo estão mais perto, Alcochete, Ota e Santarém mais longe. No entanto, todas as soluções de transporte os colocam a 30 minutos da capital.

Mais: se a alta velocidade ficar no subterrâneo do aeroporto escolhido, não é por este critério que Santarém – o mais distante – fica de fora. E quanto ao resto das regiões em redor da capital? Em população abrangida, Santarém também é o que marca mais pontos neste item.

NAVEGAÇÃO AÉREA: o maior argumento contra Alverca sempre foi o de ter uma pista conflituante com a da Portela, mas a nova proposta traz até três pistas sem conflitos de tráfego. A presidente da autoridade de navegação aérea (NAV) confirmou essa plausibilidade na terça-feira.

Ora, se é assim, Alverca passa a ser uma hipótese muito próxima, barata e de impacto mais reduzido do que, por exemplo, Montijo – apesar de também estar no estuário e ambas terem contra si a questão das aves.

A Ota, com a serra da Montejunto a limitar a operação aérea, e os frequentes nevoeiros, sempre foi má hipótese. A Portela, com uma só pista, tem os problemas conhecidos. Santarém e Alcochete parecem ser os que têm menos limitações de expansão.

FUTURO: no estudo do professor de Coimbra, Pais Antunes, especialista em mobilidade, o crescimento do tráfego aéreo global até 2050 é de apenas 2 a 4%. Nas suas contas, a capital portuguesa só necessitaria de construir mais uma pista, além da actual.

Queremos um aeroporto que possa crescer muito mais? O ministro Pedro Nuno Santos não quer um futuro pequenino. Só que a vantagem deste processo é que qualquer solução só crescerá por fases e o dinheiro impõe a realidade. Alcochete, Ota, Santarém, mas até Alverca (ainda que mais limitada), têm espaço para crescer gradualmente. Se houver procura.

Conclusão: não perdemos 50 anos a adiar. Pura e simplesmente não tivemos capacidade de realizar mais endividamento para um enorme investimento público.

Entretanto, se levarmos o comboio de alta velocidade ao novo aeroporto, garantirmos um custo decente e gradual, e minimizarmos o impacto na capital pela chegada de aviões mais limpos, o tempo deu-nos uma melhor solução. E não destruímos nem o estuário do Tejo, nem a muralha de sobreiros e biodiversidade ambiental da margem Sul. Seria notável.

Jornalista

Diário de Notícias
Daniel Deusdado
04 Dezembro 2022 — 07:00



 

‘Gone with the wind’ (‘Foi com o vento’)

OPINIÃO

Atenas, na pandemia, andou livre de turistas, havendo espaço e vagar para a vermos na beleza antiga, graças a Zeus.

Entre as muitas maravilhas, a Torre dos Ventos, ou Horológio de Andrónico, do nome do seu erector, o astrónomo macedónio Andrónico de Cirro.

Construída por volta de 50 a.C., com doze metros de altura, todos inteirinhos em mármore, tem planta octognal, com cada um dos lados a representar uma divindade eólica: Bóreas, do norte, Kaikias, de nordeste, Eurus, de leste, Apeliotes, de sueste, Lips, de soeste, Zéfiro, de oeste, e Siroco, de noroeste. No interior, houve em tempos uma clepsidra, movida a água vinda da Acrópole, e no topo um cata-vento, naturalmente, pois era a Torre dos Ventos.

Ao início, o cata-vento de Atenas tinha no cimo uma enorme figura de bronze do Tritão, o deus do mar com cauda de peixe cujo tridente apontava para o nome do vento que o arejava, mas é possível, até provável, que mais tarde passasse a ostentar um galo, pois assim foi determinado no século IX, quando o Papa Nicolau I ordenou que os cata-ventos das igrejas e das abadias tivessem no topo um galináceo cantante, em alusão ao galo que cantou três vezes antes da aurora raiar e, sobretudo, à indecisão de São Pedro, que tanto jurava Cristo como O negava a pés juntos.

À semelhança do santo, também os cata-ventos viram para um lado e para outro, consoante o vento que levam ou trazem, não sendo essa, obviamente, a primeira nem a última associação entre os ventos e os deuses.

Na Grécia antiga, existiu, inclusive, a crença numa imaculada concepção eólica, pois dizia-se que Bóreas, o vento gelado setentrional, soprava com tal vigor que era capaz de engravidar as éguas que estivessem a pastar nos campos com os quartos traseiros virados para norte, e que assim eram fecundadas sem qualquer intervenção de um macho.

De resto, já os antigos egípcios acreditavam que não havia abutres machos, e que a fertilização das fêmeas se fazia pela força do vento, algo que Plínio aplicaria às perdizes, mas com uma nuance: segundo ele, existiam perdizes machos e fêmeas, mas estas engravidavam por um vento soprado pelos machos, não havendo, pois, qualquer contacto carnal, tese que, por seu turno, Virgílio aplicaria às éguas da Lusitânia.

Em árabe, a palavra para vento é ruh, que tanto pode significar “respiração” como “espírito” e em hebraico usa-se ruach, que também pode querer dizer “criação” ou “divindade”.

As antigas divindades helénicas do vento chamavam-se Anemoi, que deriva de anima, “alma”, e que por sua vez deu o nome às anémonas; e é também grega a palavra pneuma, que tanto poderia dizer “respiração”, como “sopro”, como “alma” ou “espírito”, abrangendo, portanto, desde os pneus dos automóveis até pneumologia, ramo dos estudos teológicos que se ocupa do Espírito Santo. Sem maçar muito com etimologias, diga-se tão-só que ventilação vem de ventus, obviamente, e que no inglês e no nórdico antigos se usavam as palavras windoge ou vindauge, ambas com o significado de “olho do vento”.

Das crenças e tradições ligadas ao vento, uma das mais belas que conheço é a dos moinhos ingleses, desde sempre foram usados como fonte de energia e tracção, mas também como sinal de aviso para o perigo próximo, seja um incêndio a galopar ao longe, seja a aproximação de um exército inimigo, seja, enfim, a aparição indesejada de um cobrador de impostos.

E a tradição era esta: quando morria um moleiro, tiravam-se as vinte de tábuas dos braços do moinho, e este permanecia silencioso e imóvel durante um tempo – dez, quinze, vinte dias, ou mais -, fazendo luto pelo seu dono (se fosse a mulher do moleiro, tiravam-se dezanove tábuas; num filho criança tiravam-se treze tábuas, na morte dos pais, onze tábuas; na morte do filho de um primo, uma tábua apenas).

Noutras paragens, muitas, acredita-se que os ventos são espíritos de gente que morreu recentemente e em várias culturas existe uma figura que serve de guardião dos ventos, como Éolo, na Grécia clássica, ou Feng Po Po, o deus do vento na sabedoria chinesa antiga, um ancião de barbas brancas e barrete azul, que consigo transporta um saco amarelo chamado “Mãe dos Ventos”, de onde vai libertando ventos em várias direcções.

Muitos povos índios da América, como os Iroqueses ou os Algonquinos, acreditavam que um deus maligno tinha os ventos aprisionados numa caverna, crença também partilhada pelos Batuk da Malásia ou pelos Maori da Nova Zelândia, numa comunhão universal de mitos e lendas que sempre surpreende e intriga, mas que talvez se explique por uma razão singela: nunca conseguimos ver um vento, mas apenas os seus efeitos, que ora surgem sob a forma de suaves brisas, ora de tempestades arrasadoras. A invisibilidade do vento e a volatilidade dos seus humores prestam-se, pois, e muito, a que os associemos aos deuses.

Os ventos são sempre masculinos, ou quase sempre, e há-os bons e maus (“de Espanha nem bom vento…”). Entre estes últimos, destaca-se o föhn, um vento quente e descendente dos Alpes, cujo nome vem do gótico fôn, que significa “fogo”, pois o föhn traz consigo um risco real de incêndio; ou o sirocco, um vento quente de Primavera, vindo do Saara, e que tem vários nomes, mas também o mistral, do latim magistralis, esse um sopro frio de noroeste, com rajadas que percorrem o Vale do Reno, e do qual já Estrabão dizia ser “um vento impetuoso e terrível”.

Se os Himalaias protegem a Índia das frentes frias mais vigorosas, a Itália está salvaguardada pelos Alpes e a Espanha pelos Pirenéus. Já a América Norte não tem uma cordilheira que bloqueie o fluxo para sul dos ventos frios setentrionais e, por vezes, uma maré de ar polar chega até ao Golfo do México.

Em contrapartida, no Canadá e a leste das Montanhas Rochosas há um vento bom, quente e seco, o chinook, considerado um “devorador de neve”, cujos uivos são prenúncio de que o Inverno acabou.

Ao que parece, a maior rajada de vento do mundo, produzida por um tornado, foi registada em 12 de Abril de 1934, no cume do Monte Washington, na cordilheira dos Apalaches, e atingiu a incrível velocidade de 370 quilómetros por hora. E o sítio mais ventoso do planeta é uma montanha na extremidade da Antárctida, onde há um vento constante, que sopra a 60 quilómetros por hora, todos os dias todas as noites do ano.

E que dizer da “Tornado Alley”, uma região que atravessa o Kansas, o Oklahoma e o Missouri, e de onde nascem cerca de 700 tornados por ano? Ou que pensar quando nos dizem que um furacão mediano precipita cerca de 20 000 milhões de água por dia, o equivalente em energia a 500 mil bombas atómicas? (o furacão Betsy, de 1965, é considerado o maior desastre natural da história dos EUA, tendo provocado prejuízos superiores a mil milhões de dólares).

Mais espantoso ainda é sabermos que o interior de um monstro desses – ou seja, o “olho” do furacão, com cerca de 20 quilómetros de diâmetro – é anormalmente calmo e sereno e muitas vezes está cheio de aves que tranquilamente rodopiam em seu seio.

Numa vertigem imparável, a intensidade e a violência das tempestades tem vindo a aumentar de forma assustadora: em Outubro de 2018, uma tempestade de vento e de chuva atingiu extensas zonas dos Alpes orientais, com rajadas de velocidade superior a 200km/hora, que destruíram dezenas de milhares de hectares de bosque.

Como mamíferos que andam erectos sobre uma base de sustentação reduzida (ou, se quisermos, sobre uma superfície que corresponde apenas a 2% de todo o nosso corpo), geralmente não gostamos dos ventos, desde logo por essa razão biológica elementar.

Dos poucos ventos que apreciamos, e que consideramos benignos, destacam-se as brisas de curta duração, suaves e refrescantes, ou moderadamente tépidas, como o imbat, que aflora as costas quentes da Tunísia; o datoo, que traz ar fresco da costa oeste do Atlântico através de Gibraltar; o vento de baixo de Portugal; o medina, de Cádis; o kapalihua, no Havai; ou o libeccio, que ameniza os escaldantes (e porquíssimos) Verões napolitanos.

Tudo quanto aqui é dito encontra-se num tratado completíssimo, Uma História Natural do Vento, do malogrado Lyall Watson, obra que a esclarecida editora Bazarov, de Arcozelo, deu à estampa em 2020, e que no final traz um exaustivo dicionário de todos os ventos que neste mundo existem.

Ali sabemos, entre tantas coisas, que as névoas e secas avermelhadas vindas do Saara (lembram-se delas, há poucos meses?) são transportadas em direcção aos pólos e pousam em sítios tão distantes como a Cornualha e Devon e produzem chuvas de lama tão vermelhas que por vezes são confundidas com sangue.

É fenómeno antigo: já Gregório de Tours dizia que, no ano 582 d.C., uma “chuva de sangue” aterrorizou de tal forma os habitantes de Paris que estes rasgaram as vestes em sinal de pânico.

E é fenómeno cíclico: em 1846, as sarjetas da Provença ficaram cheias de lama vermelha e, em 1859, na Alemanha, uma área de 30 mil quilómetros quadrados ficou toda coberta por um manto róseo, arenoso; em 1901, houve copiosas “chuvas de sangue” em Espanha e em Portugal e, em Abril de 1926, estima-se que a Europa tenha sido inundada por dois milhões de toneladas de lama do Saara, a qual voltou a atacar a Suíça, em 1936, e o Luxemburgo, em 1947.

Se dúvidas houvesse sobre a interacção entre clima e cultura humana, bastaria dizer que o nascimento de todas as civilizações primitivas ocorreu ao longo de uma isotérmica em que a temperatura média anual é de 20º C e, sempre que essa temperatura coincidia com uma humidade razoável e terra arável, florescia uma nova civilização com uma regularidade infalível. Assim foi com os egípcios, com os fenícios, com os assírios e com os babilónios, com os persas, com os chineses, com os aztecas, os maias e os incas.

Terá havido, sem dúvida, civilizações que despontaram e medraram em ambientes mais agrestes e a temperaturas mais baixas, mas só o fizeram depois de terem desenvolvido técnicas que lhes permitiram controlar os efeitos do clima e manter a temperatura na média amena de 20º C, não mais, não menos.

Aliás, muito do que lemos na Bíblia, mormente no Velho Testamento, mais não são do que narrativas sobre desastres climáticos e, segundo se crê, o registo mais antigo de um tornado foi feito pelo profeta Ezequiel, no ano 600 a.C., quando disse: “Então olhei e contemplei uma terrível tempestade que se aproximava vinda do Norte: uma nuvem enorme, com relâmpagos e raios intensos, cercada por forte luz brilhante.

O centro do fogo parecia metal reluzente” (e para quem julgue que a Bíblia é um livro sensaborão, atente-se no versículo hard core de Ezequiel 23:20, “desejou ardentemente os seus amantes, cujos membros eram com os de jumentos e cuja ejaculação era como a dos cavalos”).

O clima e os ventos foram de tal forma importantes para dominar o mundo que em torno deles sempre existiram mistérios e ocultações. Os marinheiros árabes guardavam ciosamente os seus segredos dos ventos, pois aqui residia o senhorio das costas de África e do Golfo Pérsico, numa área que se estendia pelo Mar Vermelho e pelo Índico adentro, até aos ricos domínios de Oriente, que Alexandre tentou em vão conquistar, mas que só seriam abertos pela intrepidez do nosso camarada Vasco, o da Gama.

Foram os ventos alísios, de resto, que favoreceram o achamento do Brasil e, como nota Lyall Watson, é essa “propensão para oeste” dos alísios, que persistiu até aos dias das grandes embarcações de aço do início do século XX, que explica, em larga medida, o superior desenvolvimento do Brasil, em contraste com a estagnação e o esquecimento a que Angola foi votada.

Ao longo da História, o curso de muitas batalhas foi determinado pelos ventos, ou ajudado por eles, como sucedeu com a derrota da Invencível Armada, em 1588, e, três séculos antes, em 1281, com a destruição da frota de Kublai Khan pelos shimpu, os “ventos divinos” que protegeram o Japão dos invasores mongóis (ainda hoje se encontram destroços dos navios do Khan nas costas de Takashima), para não falarmos do triunfo de Temístocles sobre Xerxes, em Salamina: se os gregos não tivessem vencido os persas, não teria existido o século de Péricles, as esculturas de Praxiteles, a democracia ateniense, a filosofia de Platão e de Sócrates e, no fundo, toda a civilização ocidental, tal como a conhecemos e vivemos. É grande o poder do vento.

Não admira, assim, que os homens desde sempre tenham tentado dominá-lo. No Árctico canadiano, quando o vento soprava semanas a fio, impedindo os inuítes de saírem para caçar, estes faziam longos chicotes com algas marinhas e açoitavam o ar, gritando “Taba! Já chega!”.

Na Gronelândia, escolhia-se uma mulher que tivesse dado à luz recentemente e que se dirigia para a tempestade, enchia os pulmões de ar e regressava para casa com os ventos cativos no interior do seu corpo.

Nos Xhosa da África do Sul, um sacerdote cuspia uma poção na direcção do vento, para que este serenasse, e, na Índia, homens santos enfrentavam as tempestades sozinhos, munidos de um bastão e de uma tocha flamejante.

Na antiga Gália, venerava-se uma sacerdotisa, a barbagouin, que tinha o poder de gerar ventos e, no século XIX, Walter Scott ainda encontrou várias “bruxas dos ventos” na ilha de Man, havendo mulheres nas Shetland que vendiam ventos sob a forma de lenços atados.

Hoje, pouco resta dos moinhos de vento que pontuaram os cumes da Europa e que se calavam à morte dos seus moleiros. Chegaram a ser mais de 18 mil só na Alemanha, sete mil entre Portugal e Espanha, dez mil na Inglaterra, outros tantos na Holanda. Vemo-los agora sob novas vestes, as das eólicas que desfiguram a paisagem, mas que tão necessárias são para nos livrarmos das energias fósseis.

No recente A Planta do Mundo – Aventuras de Plantas e Pessoas (Pergaminho, 2022), diz-nos Stefano Mancuso que a principal adversidade com que as árvores se debatem, pelo menos na Europa, é o vento, ao qual se devem mais de 50% dos danos sofridos pelos nossos bosques, os quais são ameaçados não apenas pelos incêndios (apenas 16% dos danos), nem pelos elementos patogénicos ou pelos insectos, mas simplesmente por acção eólica.

As perdas de árvores causadas pelo vento não cessam de crescer desde os anos 1950 e duplicaram de 1970 a 2010, passando de cerca de 50 milhões a 100 milhões de metros cúbicos. Desse modo, reduz-se em cerca de 30% a capacidade de fixação do CO² nas áreas afectadas por este massacre ventoso.

E, numa vertigem imparável, a intensidade e a violência das tempestades tem vindo a aumentar de forma assustadora: em Outubro de 2018, uma tempestade de vento e de chuva atingiu extensas zonas dos Alpes orientais, com rajadas de velocidade superior a 200km/hora, que destruíram dezenas de milhares de hectares de bosque.

Desde há muito que se sabe que a deflorestação aumenta exponencialmente o poder destruidor dos ventos. Há quem diga, inclusivamente, que o mistral teve origem no abate em massa das árvores das Cevenas, perpetrado nos tempos do imperador Augusto.

Subitamente desnudado, o bosque impenetrável deu lugar a uma paisagem desolada, feita de calhaus e de arbustos, que Robert Louis Stevenson, montado num burro, descreveu admiravelmente em Os Prazeres dos Lugares Inóspitos (Relógio D”Água, 2016).

Talvez seja exagero atribuir a origem de um vento à acção de um só homem, mesmo que imperador de Roma, mas o facto é que abundam exemplos, tristes exemplos, em que a imprevidência e a avidez humanas potenciaram brutalmente o poder destruidor dos ventos.

Num livro acabado de sair, As Últimas Colheitas (Vogais, Outubro de 2022), um relato demolidor dos efeitos da agricultura intensiva sobre as alterações climáticas, Philip Lymbery fala-nos da chegada em massa, nos anos 1920, de novos colonos às Grandes Planícies americanas, atraídos pelas promessas de prosperidade feitas pelos poderes públicos, por grupos económicos e por especuladores.

Encorajados pelos preços elevados dos cereais a seguir à Primeira Guerra, milhares ou milhões de famílias precipitaram-se então sobre a terra virgem. O Departamento Federal dos Solos garantia que aquele era “o único recurso que não pode ser esgotado, não pode ser gasto”.

Na década de 1920, naquilo que ficou conhecido como “a grande lavra”, foram revolvidos, destruídos, milhões de hectares de cobertura de erva, para em sua substituição se plantar trigo numa escala nunca vista, com o auxílio de máquinas e tractores. No imediato, a produção disparou 300%, houve excedentes colossais de cereais e, logo, uma abrupta queda de preços.

Os agricultores viram-se então no dilema de diminuírem a produção para manter os preços em alta ou de a aumentarem ainda mais, optando por esta última solução, que veio a revelar-se desastrosa. Enquanto continuavam a lavrar cega e incessantemente, vieram oito anos de seca, instalou-se a aridez, e, como nos conta Philip Lymbery, a ausência de chuvas implicou que as plantas recém-cultivadas não conseguiram crescer, deixando o solo exposto.

Os campos outrora verdes acabaram por secar. Os preços caíram mais, ainda mais, milhares de agricultores entraram em falência, milhões de hectares de antigo prado ficaram despidos, expostos aos ventos que sopravam ferozmente sobre a terra seca e poeirenta, levando a que grandes extensões se fendessem e separassem, uma dor de alma.

Então ergueram-se grandes ventos, começaram as tempestades de poeira. Em alguns locais, as nuvens de pó e terra seca chegavam aos três quilómetros de altura, ofuscando a luz do sol, cobrindo campos e cidades de um manto denso, acastanhado, impedindo as pessoas de saírem sequer à rua.

O Dust Bowl, nome por que ficou conhecido, devastou, como uma praga bíblica, o oeste do Kansas, o leste do Colorado, o nordeste do Novo México e zonas enclave do Oklahoma e do Texas.

Estima-se que, em 1934, 40 milhões de terra agrícola tenham perdido a totalidade ou a maior parte do seu solo arável para os ventos. Em certas localidades, a poeira matou 90% das galinhas, as vacas deixaram de dar leite, o gado solto no pasto ficou cego, com os olhos como que colados.

Cerca de dois milhões de pessoas abandonaram os estados da Dust Bowl na década de 1930, um êxodo terrível que seria narrado por John Steinbeck em As Vinhas da Ira e captado em imagens cruciantes de fotógrafos como Walker Evans, Dorothea Lange, Russell Lee ou Arthur Rothstein.

No rescaldo das tempestades, surgiram as lebres famintas. Os agricultores tinham matado os coiotes, o que agravou a praga dos coelhos bravos, que agora competiam com os humanos pelo pouco que restava no solo.

As comunidades organizaram então batidas impiedosas, em que os coelhos eram encaminhados para enormes redis e aí açoitados até à morte com bastões e mocas, numa orgia de sangue e dor.

Ainda hoje há quem não consiga esquecer os berros lancinantes de milhares de coelhos massacrados, o barulho ensurdecedor que faziam enquanto eram mortos à paulada por homens, por mulheres, por crianças.

O Dust Bowl e os seus ventos foram um trágico exemplo, mais um, daquilo a que podem conduzir a cupidez e a estupidez humanas. Estupidez que ainda hoje em dia persiste naqueles que ainda teimam em negar as alterações climáticas e a sua origem humana.

Alguns, por ignorância ou má-fé, vão ao ponto de invocar a História e convocar o passado, com isso pretendendo dizer que outrora também houve mudanças do clima, pelo que as de hoje não serão certamente diferentes, seja na sua gravidade e alcance, seja na ausência de responsabilidade humana na sua génese.

Há um par de meses, um terço do Paquistão ficou submerso pelas cheias, que causaram de imediato 800 vítimas mortais, esperando-se muitas mais, devido às epidemias e às doenças. António Guterres afirmou nunca ter visto uma “carnificina climática” semelhante.

Por cá, perante uma tragédia daquelas, alguns imbecis (sem surpresa, os mesmos imbecis que questionam os confinamentos e as vacinas da Covid, que salvaram 19,8 milhões de vidas) não acharam melhor do que caricaturar Guterres e os seus insistentes alertas, alertas que, note-se, são partilhados de forma esmagadora pela comunidade científica: um estudo de 2021, publicado na revista Environmental Research Letters, concluiu que 99% dos trabalhos publicados sobre a matéria reconhecem que as actuais alterações climáticas têm origem humana.

De um lado, 99% de cientistas; do outro, 1% de idiotas. Parole al vento, dizem os italianos. E nós também.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

Diário de Notícias
António Araújo
04 Dezembro 2022 — 07:00



 

1066: Iluminação de Natal em Lisboa arranca oficialmente segunda-feira

🇵🇹 LISBOA // ILUMINAÇÃO NATAL

As iluminações de Natal este ano estarão com um horário reduzido, decisão da Câmara Municipal de Lisboa para garantir poupanças de 50% no consumo de energia.

© Gerardo Santos / Global Imagens

O arranque oficial das iluminações de Natal em Lisboa está marcado para esta segunda-feira, dia 5 de Dezembro, às 19h na Praça do Comércio. O evento irá contar com a presença do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, e a União de Associações de Comércio e Serviços.

As iluminações de Natal este ano estarão com um horário reduzido, decisão da Câmara Municipal de Lisboa para garantir poupanças de 50% no consumo de energia. As luzes vão estar nos habituais locais da cidade, mas com recurso a lâmpadas de baixo consumo com tecnologia LED”.

Segundo o comunicado enviado às redacções, a CML “já tinha informado que as tradicionais iluminações de Natal em Lisboa só iriam entrar em funcionamento mais tarde do que o habitual, e decidiu também reduzir o período em que as mesmas estarão em funcionamento”

“A poupança dos recursos do planeta é algo que nos preocupa verdadeiramente. E com isso em mente procuramos sempre optar por garantias na utilização das mais recentes técnicas de poupança”, lê-se em comunicado da CML, acrescentado ainda que as iluminações “têm sido um dos pontos altos de estímulo ao comércio em Lisboa e constituem uma tradição fortemente enraizada por todos”.

As luzes vão estar acesas das 18h às 23h de domingo a quinta-feira. Sextas e sábado as luzes vão estar ligadas até à meia-noite. Na noite de Natal e de passagem de ano ficarão ligadas até à 1 da manhã.

Diário de Notícias
DN
03 Dezembro 2022 — 16:18



 

1056: Passes e bilhetes da Carris Metropolitana sem aumentos em 2023 na região de Lisboa

– Seria excelente que o sr. Carlos Moedas não se “esquecesse” e agisse rapidamente no sentido de conceder GRATUITIDADE de passes aos DESEMPREGADOS DE LONGA DURAÇÃO que, já sem subsídios de qualquer espécie por parte da “Segurança” Social, têm de (sobre)viver à custa de familiares (enquanto estes puderem e/ou forem vivos!). Esta gratuitidade apenas foi concedida a >65 anos e a estudantes. Os DESEMPREGADOS não são seres humanos?

CARRIS  // TRANSPORTES PÚBLICOS // PASSES E BILHETES

Preços não mudam “mesmo tendo em conta que a Taxa de Actualização Tarifária permitida pela Autoridade de Mobilidade e Transportes para os títulos de transporte ocasionais (bilhetes) em 2023 é de 6,11%, e que essa mesma taxa irá ser aplicada, com grande probabilidade, na generalidade do país”, declarou a Área Metropolitana de Lisboa (AML)

© (Câmara Municipal da Moita)

Os passes do tarifário “Navegante” e os bilhetes ocasionais da Carris Metropolitana vão manter em 2023 os preços que são praticados este ano, anunciou esta sexta-feira a Área Metropolitana de Lisboa (AML).

Numa nota, a AML, que é autoridade de transporte, revela que tomou a decisão de manter os valores de 2022 dos títulos ocasionais da Carris Metropolitana para, entre outros objectivos, promover a utilização dos transportes públicos colectivos em toda a região.

Esta decisão acontece “mesmo tendo em conta que a Taxa de Actualização Tarifária permitida pela Autoridade de Mobilidade e Transportes para os títulos de transporte ocasionais (bilhetes) em 2023 é de 6,11%, e que essa mesma taxa irá ser aplicada, com grande probabilidade, na generalidade do país”, salientou a AML.

A Carris Metropolitana gere as redes municipais de 15 dos 18 municípios (uma vez que dentro dos concelhos do Barreiro, Cascais e Lisboa mantém-se tudo como está) e a totalidade da operação intermunicipal dos 18 concelhos metropolitanos.

A marca única Carris Metropolitana passa, em 01 de Janeiro de 2023, a assegurar o transporte de passageiros dentro de cada um dos concelhos de Amadora, Oeiras, Sintra, Loures, Mafra, Odivelas e Vila Franca de Xira, todos na margem norte do Tejo, onde deixam de operar as actuais empresas de transporte.

Desde 01 de Junho já é responsável pelo transporte de passageiros dentro dos municípios de Almada, Seixal, Sesimbra, Alcochete, Moita, Montijo, Palmela e Setúbal, na margem sul.

Na rede municipal do Barreiro, o transporte continua a ser feito pelo operador interno Transportes Colectivos do Barreiro (TCB), em Cascais pela Mobi Cascais e em Lisboa pela Carris.

Para quem se desloca de um concelho para outro (incluindo Barreiro, Cascais e Lisboa), o transporte público rodoviário intermunicipal será sempre feito pela Carris Metropolitana.

A operação na margem norte deveria ter sido iniciada em Setembro, mas os problemas verificados na margem sul fez com que fosse adiada para 01 de Janeiro.

Diário de Notícias
DN/Lusa
02 Dezembro 2022 — 18:38



 

1055: B-21 Raider. Este é o novo bombardeiro nuclear furtivo dos EUA

🇺🇸 EUA // FORÇA AÉREA // BOMBARDEIROS

Trata-se do primeiro bombardeiro norte-americano a ser exibido em mais de 30 anos.

A nova geração do bombardeiro de longo alcance B-21, que substituirá os já antiquados B-52, fabricados pela Northrop Grumman.
© HO / US AIR FORCE / AFP

A Força Aérea dos Estados Unidos apresentam esta sexta-feira o mais novo bombardeiro nuclear furtivo, como parte da resposta do Pentágono às crescentes preocupações sobre um futuro conflito com a China.

O B-21 Raider é o primeiro bombardeiro norte-americano a ser exibido em mais de 30 anos.

“Precisávamos de um novo bombardeiro para o século XXI que nos permitisse enfrentar ameaças muito mais complicadas, como as ameaças que tememos um dia enfrentar da China e da Rússia”, disse a secretária da Força Aérea norte-americana, Deborah Lee James, quando o B-21 Raider foi anunciado em 2015.

“O B-21 tem mais capacidade de sobrevivência e pode enfrentar essas ameaças muito difíceis”, acrescentou na ocasião.

Quase todos os pormenores do programa são confidenciais.

Antes da sua apresentação numa instalação da Força Aérea em Palmdale, Califórnia, apenas as representações artísticas do avião de guerra haviam sido divulgadas. As imagens revelam que o Raider se assemelha ao bombardeiro furtivo nuclear preto que substituirá, o B-2 Spirit.

O bombardeiro faz parte dos esforços do Pentágono para modernizar todas os três sectores da sua tríade nuclear, que inclui mísseis balísticos nucleares em silos e ogivas lançadas por submarinos, para atender à rápida modernização militar da China.

A China está a caminho de ter 1.500 armas nucleares até 2035, e os proveitos em hipersónica, guerra cibernética, capacidades espaciais e outras áreas apresentam “o desafio mais consequente e sistémico para a segurança nacional dos Estados Unidos e o sistema internacional livre e aberto”, adiantou o Pentágono esta semana no seu relatório anual sobre a China.

Actualmente, encontram-se seis B-21 Raiders em produção.

A Força Aérea Norte-Americana planeia construir 100 que podem implantar armas nucleares ou bombas convencionais e podem ser usados com ou sem tripulação humana.

O custo dos bombardeiros é desconhecido.

No entanto, a Força Aérea dos Estados Unidos estabeleceu, em 2010, o preço para a compra de 100 aeronaves a custo médio de 550 milhões de dólares (cerca de 475 milhões de euros) cada — cerca de 753 milhões de dólares (cerca de 715 milhões de euros) hoje — mas não é claro quanto está a ser gasto.

Diário de Notícias
03 Dezembro 2022 — 00:16



 

1046: Kremlin rejeita termos de Biden para negociações na Ucrânia

– Este putinofantoche russonazi 🇷🇺☠️卐☠️🇷🇺 está incluído na lista de terroristas criminosos de guerra. Mais tarde ou mais cedo, vais deixar de cantar de galo!

🇷🇺 RUSONAZSʹKI VBYVTSI 🇷🇺

🇷🇺 RÚSSIA – ESTADO TERRORISTA 🇷🇺

ORCS RUSSONAZIS 🇷🇺☠️卐☠️🇷🇺 / UCRÂNIA / INVASÃO/ TERRORISTAS

Porta-voz do governo russo disse que “a operação militar especial vai continuar” e que Kremlin não aceita deixar a Ucrânia para possibilitar negociações.

© EPA/MAXIM SHIPENKOV

O Kremlin rejeitou esta sexta-feira os termos do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, para negociações na Ucrânia com o líder russo, Vladimir Putin, dizendo que a ofensiva de Moscovo vai continuar.

“O que o presidente Biden disse realmente? Ele disse que as negociações só são possíveis depois de Putin deixar a Ucrânia”, afirmou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, aos jornalistas, acrescentando que a Rússia “certamente” não está pronta para aceitar essas condições.

“A operação militar especial vai continuar”, disse Peskov, usando o termo utilizado pelo Kremlin para descrever o invasão russa da Ucrânia.

Durante uma visita de estado do presidente francês, Emmanuel Macron, Biden referiu esta quinta-feira que estaria disposto a falar com Putin se o líder russo realmente quiser encerrar os combates.

“Estou preparado para falar com o senhor Putin se de facto houver interesse em que ele decida que quer encontrar uma forma de acabar com a guerra”, revelou o presidente dos Estados Unidos.

Peskov disse esta sexta-feira que Putin está pronto para negociações de forma que os interesses da Rússia sejam respeitados, mas acrescentou que a posição de Washington “complica” qualquer conversa possível.

“Os Estados Unidos não reconhecem os novos territórios como parte da Federação Russa”, disse o porta-voz do governo russo, referindo-se às regiões ucranianas que o Kremlin afirma ter anexado.

Em Setembro, Moscovo realizou supostos referendos em quatro regiões da Ucrânia – Donetsk, Kherson, Lugansk e Zaporizhzhia – e disse que os moradores votaram a favor de se tornarem parte da Rússia.

As Nações Unidas condenaram a “tentativa de anexação ilegal” de territórios ucranianas.

Peskov disse que antes de enviar tropas para a Ucrânia a 24 de Fevereiro, Putin propôs repetidamente manter conversações com a NATO, a OSCE e os Estados Unidos, mas essas tentativas mostraram-se “infrutíferas”.

Diário de Notícias
DN/AFP
02 Dezembro 2022 — 10:30



 

1041: Musk quer implantar dispositivos de interface em cérebros humanos dentro de seis meses

– O Mundo está ROTO…!!!  Este, é um daqueles que necessita URGENTEMENTE de ir ao psiquiatra, psicólogo ou neurologista!

PSICOMANIAS / ELON MUSK

Intenção do empresário é a de colocar o cérebro humano a comunicar com um computador. Na apresentação da empresa, foram usados macacos com um implante cerebral a jogar jogos de computador básicos ou a mover um cursor num ecrã através do seu implante.

Elon Musk
© JIM WATSON / AFP

O multimilionário norte-americano Elon Musk afirmou que uma das suas empresas seria capaz de implantar, em seis meses, um dispositivo num cérebro humano que permitisse a comunicação com um computador.

A interface, produzida pelo Neuralink de Musk, permitiria ao utilizador comunicar directamente com os computadores através dos seus pensamentos, disse o também dono da SpaceX e do Twitter.

“Submetemos a maior parte da burocracia à FDA (US Food and Drug Administration) e pensamos que provavelmente dentro de cerca de seis meses poderemos ter o nosso primeiro Neuralink num humano”, afirmou numa apresentação da empresa.

“Temos trabalhado arduamente para estarmos prontos para o nosso primeiro (implante) humano, e obviamente queremos ser extremamente cuidadosos e certos de que funcionará bem antes de colocarmos um dispositivo num humano”, disse.

Musk – que comprou o Twitter no mês passado e também é proprietário do SpaceX, Tesla e várias outras empresas – tem sido conhecido por fazer previsões ambiciosas sobre as suas empresas, com várias a não se tornarem realidade.

Em Julho de 2019, prometeu que a Neuralink seria capaz de realizar os seus primeiros testes em humanos em 2020. Os protótipos, que têm o tamanho de uma moeda, foram implantados nos crânios dos macacos. Na apresentação de quarta-feira, a empresa mostrou vários macacos a “jogar” jogos de vídeo básicos ou a mover um cursor num ecrã através do seu implante cerebral.

Musk disse que a empresa iria tentar usar os implantes para restaurar a visão e a mobilidade nos humanos. “Inicialmente, permitiríamos a alguém que quase não tem capacidade para operar os seus músculos… operar o seu telefone mais rapidamente do que alguém que tem mãos a trabalhar”, disse ele.

“Por milagroso que pareça, estamos confiantes de que é possível restaurar a funcionalidade de todo o corpo a alguém que tenha a medula espinal cortada”, disse.

Além do potencial para tratar doenças neurológicas, o objectivo final de Musk é assegurar que os humanos não sejam intelectualmente sobrecarregados pela inteligência artificial, disse ele.

Outras empresas que trabalham em sistemas semelhantes incluem a Synchron, que anunciou em Julho que tinha implantado a primeira interface cérebro-máquina nos Estados Unidos.

Diário de Notícias
DN/AFP
01 Dezembro 2022 — 21:11