756: E se um míssil causar nova guerra mundial?

OPINIÃO

O famoso artigo 5.º da NATO, que implica a solidariedade militar imediata de todos os membros com o parceiro atacado, só foi activado uma vez em 73 anos de existência da Aliança Atlântica.

Aconteceu a seguir aos atentados terroristas contra Nova Iorque e Washington em 2001, mas como o atacante não era um país ou grupo de países e sim a Al-Qaeda a sua concretização foi diluída na chamada Guerra ao Terror, a forma como o então presidente americano George W. Bush classificou uma ofensiva contra as redes jihadistas, que incluía acções militares clássicas e outras mais ao estilo policial.

Ao contrário do sucedido a 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos, a destruição causada na terça-feira no leste da Polónia poderia vir de um país, no caso a Rússia. Intencionalmente ou não.

Em ambas as situações, a Polónia poderia sentir-se ameaçada ao ponto de accionar o artigo 5.º e pedir que viessem em sua defesa os outros 29 países da NATO.

Apesar do tom acusatório inicial, o bom-senso imperou e os próprios polacos, tal como os Estados Unidos e depois o secretário-geral da NATO, vieram a reconhecer que possivelmente o míssil era ucraniano e foi disparado contra mísseis russos, acabando por ir cair em território polaco sem qualquer intencionalidade (a Ucrânia contesta esta versão e insiste ter provas de que foi, de facto, um míssil russo).

O Artigo 4.º ponderado por Varsóvia, e com vários antecedentes já de utilização, acabaria por ser o mais acertado, pois permitiria que a Aliança Atlântica discutisse o nível de ameaça que estava em causa, mas sem uma escalada gravíssima, que seria a NATO passar de fornecedor de material militar à Ucrânia a beligerante com a Rússia.

O alerta fica, porém, e deve ser levado muito a sério. E foi evidente o alívio tanto em Washington, como em Moscovo, quando a informação disponível permitiu perceber o que provavelmente se tinha afinal passado.

A Rússia não deixa de ser a principal responsável pelo sucedido, pois disparou vários mísseis contra alvos na Ucrânia, país que continua parcialmente ocupado. Mas se um dia a linha vermelha for ultrapassada, a discussão sobre quem teve a maior responsabilidade será mera bizantinice perante o terrível conflito global que se poderá seguir.

Que se saiba não há negociações em curso, nem entre ucranianos e russos, nem, a outro nível, entre Washington e Moscovo. Mas ao fim de quase nove meses de conflito na Ucrânia, sente-se que falta o tal país mediador que obtivesse, pelo menos, um cessar-fogo (que evitaria mais mortos enquanto se negociasse, algo que a própria liderança da NATO considera inevitável) e ajudasse a evitar que uma guerra no leste da Europa se transformasse na Terceira Guerra Mundial.

Director adjunto do Diário de Notícias

Diário de Notícias
Leonídio Paulo Ferreira
17 Novembro 2022 — 00:02



 

442: Depois de Xi, mais Xi

OPINIÃO

Uma primeira leitura do impacto da guerra da Ucrânia, logo em Fevereiro, até poderia permitir ver nesta algumas consequências indirectas positivas para a China: por um lado, a Rússia tornar-se pária aos olhos do Ocidente e, logo, cada vez mais dentro da órbita chinesa; por outro, os Estados Unidos, vindos em socorro financeiro e militar dos ucranianos, deixarem durante algum tempo de ter o Pacífico como prioridade da sua política externa.

Assim, não se vislumbrava então na nova tensão Ocidente-Rússia algo capaz de prejudicar a prevista confirmação, em Outubro, do terceiro mandato de Xi Jinping como secretário-geral do Partido Comunista Chinês, o que significa a sua continuidade como presidente da República Popular da China.

Xi terá mesmo o seu terceiro mandato, pois o XX Congresso do PC Chinês, que agora se inicia, tem como principal missão confirmar a liderança do homem que na última década se tornou sinónimo de China, ao ponto de se dizer que o seu poder pessoal só é comparável ao de Mao Tsé-tung, o fundador em 1949 do regime comunista.

E a sua continuidade confirmará a ruptura parcial com o legado de Deng Xiaoping, o dirigente que depois da morte de Mao tomou as rédeas do país, modernizou a economia, mas impôs o limite de dois mandatos aos futuros líderes.

Jiang Zemin cumpriu, Hu Jintao também, Xi, porém, crê que precisa de mais tempo (quanto?) para levar a cabo a sua missão de conduzir a China a Número Um mundial, ultrapassando num futuro próximo os Estados Unidos.

Voltemos ao impacto da guerra na Ucrânia e do choque que esta criou entre o Ocidente e a Rússia: afinal, o conflito no Leste da Europa, embora limitado geograficamente, prolongou-se e afectou a economia do planeta e isso prejudica uma China que apostou na globalização.

Os 5,5% de crescimento do PIB chinês, anunciado em 2022 como objectiva oficial, dificilmente serão atingidos, e isso é motivo de preocupação para um partido que já não sendo comunista na ideologia vai buscar à promessa de prosperidade a legitimidade para o monopólio do poder.

Em simultâneo, a outra promessa de Xi, a da reunificação com Taiwan, foi também afectada pelas comparações com a Ucrânia, que, embora abusivas, culminaram nos Estados Unidos a declarar que combateriam pela ilha rebelde caso a China tentasse concretizar pela força o seu projecto de unidade nacional.

Mas se o contexto internacional não é o mais propício à China e internamente a política de covid-zero desgasta o partido, há, mesmo assim, condições para Xi brilhar no XX Congresso do PC Chinês: quando boa parte da comunidade internacional olha para o líder chinês como o mediador certo para tentar a paz na Ucrânia, percebe-se o estatuto que a China já conquistou aos olhos do mundo, como uma grande potência responsável; e ao povo chinês, frustrado com o mediano desempenho da economia e os confinamentos por causa da pandemia, Xi pode bem lembrar que a riqueza nacional duplicou na década em que tem estado no poder. Tudo somado, pois, após dez anos de Xi, vem aí mais Xi.

Director adjunto do Diário de Notícias

Diário de Notícias
Leonídio Paulo Ferreira
16 Outubro 2022 — 00:02



 

399: Nuclear: aprender com a crise dos mísseis de Cuba

OPINIÃO

Dos seis cenários de guerra nuclear estudados recentemente pela americana Rutgers University, seria o conflito total entre os Estados Unidos e a Rússia, dois países que detêm juntos 90% do arsenal global desta arma, o mais destrutivo.

Provocaria a morte de cinco mil milhões de pessoas, em boa parte pelas próprias bombas nucleares, mas também por causa da persistente radioactividade e impactos vários, desde a total perturbação das redes de comércio alimentar mundial até às alterações climáticas imediatas.

Só este número, cinco mil milhões de pessoas, mais de metade da humanidade, deveria fazer pensar duas vezes os líderes políticos ou militares que com tremenda facilidade falam hoje da arma nuclear e da possibilidade do seu uso – sobretudo nos últimos meses responsáveis russos, mas não só -, tudo por causa da guerra na Ucrânia e do choque que esta está a gerar entre o Ocidente e Moscovo.

Qualquer narrativa do sofrimento, há 77 anos, em Hiroxima e Nagasaki, quando as duas cidades foram bombardeadas pelos Estados Unidos para forçar o Japão à rendição na Segunda Guerra Mundial, deveria ser suficiente para controlar os espíritos mais belicistas actuais.

E, no entanto, o SIPRI, instituto sueco para a paz, calcula que uma ogiva colocada nos mísseis a bordo dos submarinos americanos é hoje 40 vezes mais poderosa do que a bomba Little Boy, lançada a 6 de Agosto de 1945, de avião, sobre Hiroxima. Mais poderosa significa mais destrutiva.

Estive em Semipalatinsk, no actual Cazaquistão, onde em Agosto de 1949 um teste nuclear permitiu aos soviéticos alcançar a paridade estratégica com os americanos.

Depois, foi sempre em nome da dissuasão que sucessivas potências adquiriram armas nucleares: Reino Unido, França e China de início, a seguir, já em desafio de tratados internacionais, também Israel, Índia, Paquistão e Coreia do Norte.

Em sentido contrário foram raríssimas as situações: crê-se que a África do Sul desistiu do nuclear em vésperas de passar do regime de apartheid para a democracia multirracial, o Cazaquistão entregou as ogivas herdadas da União Soviética à Rússia e passou a defender o fim do armamento nuclear, a Ucrânia renunciou também à sua parte nas partilhas soviéticas em troca de garantias de soberania, agora desrespeitadas.

Além das nove potências nucleares, incluindo Israel, que teima oficialmente em desmentir que tem um arsenal, são vários os países no mundo com tecnologia para montar uma bomba em questão de horas, bastando que a tensão geopolítica os ameace e as opiniões públicas nacionais apoiem. O que significa que está longe de fechado o número de sócios do clube nuclear.

Faz agora 60 anos sobre a crise dos mísseis de Cuba, quando a Guerra Fria esteve prestes a tornar-se quente. O mundo pode ter estado à beira da catástrofe nuclear naquela época, com americanos e soviéticos perto de ultrapassar todos os limites do bom senso.

Talvez rever os acontecimentos daquela crise – e acaba de sair, de Max Hastings, o livro O Abismo (D. Quixote) – ajude quem governa a perceber que há ameaças que não devem ser feitas. E a nuclear é uma delas. A bomba existe e essa é a mensagem toda.

Director-adjunto do Diário de Notícias

Diário de Notícias
Leonídio Paulo Ferreira
08 Outubro 2022 — 00:10



 

374: Já não se brinda a Estaline

OPINIÃO

Estive há umas semanas em Gori, a cidade de Estaline. Ainda lá está a casa onde nasceu e também o museu que lhe é dedicado, afinal estamos a falar do homem que liderou a União Soviética durante três décadas.

Georgiano, de seu nome de batismo Iossif Vissarionovitch Djougachvili, começou por ser chamado Sosso em criança, Koba no início das actividades revolucionárias e finalmente Estaline, ou “homem de aço“, quando se começou a aproximar do topo do aparelho comunista, que acabaria por tomar apesar da desconfiança de Lenine, o homem que transformou o Império Russo no primeiro país comunista do mundo.

Sinceramente, não me pareceu que houvesse muita admiração por Estaline hoje na Geórgia, mesmo que nos primeiros anos da independência a população de Gori tenha resistido aos planos das novas autoridades para derrubar a grande estátua que ficava na praça principal.

Resta agora um pedestal vazio (mas permanece intacta a pequena estátua junto ao museu), e do culto a Estaline não há sinais, mesmo que a sua carruagem pessoal gere curiosidade e uma loja venda garrafas de chacha, a aguardente georgiana, com a forma de busto do antigo líder soviético, com o inconfundível bigode.

Gori esteve ocupada pelas tropas russas em agosto de 2008, durante a breve guerra russo-georgiana. O governo de Tiblíssi tentou recuperar o controlo sobre as repúblicas separatistas da Ossétia do Sul e da Abkházia, rebeldes desde o fim da União Soviética, e Moscovo veio em socorro destas, derrotando os militares georgianos. De certo modo foi também uma punição russa à ambição georgiana de integrar a NATO e a UE.

Os soldados russos terão até obrigado os soldados georgianos capturados a fazer brindes a Estaline, forma de humilhação e também de relembrar que Moscovo já mandou em Tiblíssi, fosse no século final dos czares, fosse na era comunista.

A Geórgia, porém, não desistiu do seu destino Ocidental, e os edifícios públicos até ostentam bandeiras da UE.

A relação de forças entre o pequeno país da Transcaucásia e a gigantesca Rússia é evidente, mas também é evidente a força da identidade nacional georgiana, que sobreviveu às arremetidas de impérios como o romano, o bizantino, o árabe, o persa, o otomano ou o russo (este, de início, apresentou-se como o protector da cristã Geórgia, rodeada por potências islâmicas).

Há quase década e meia que não existem relações diplomáticas e Moscovo reconheceu mesmo, entretanto, a independência sul-osseta e abkhaze.

Não tive dúvidas, pelo que vi em Tiblíssi, Gori ou Batumi, que é enorme a desconfiança em relação a Moscovo, e ainda mais de quem manda no Kremlin.

E há aqui e acolá umas frases ofensivas contra a liderança russa pintadas no chão ou muros, tal como são comuns as bandeiras ucranianas expostas em varandas e janelas em sinal de apoio à outra ex-república soviética invadida em Fevereiro deste ano. Contudo, conversei com russos que, sem abertamente criticarem os seus governantes, me disseram preferir viver em Tiblíssi.

E que não sentiam animosidade por parte dos georgianos. Pelos vistos, esse sentimento de segurança e de à-vontade em Tiblíssi (desde que não se elogie Vladimir Putin) é bem conhecido de quem vive na Rússia e daí as recentes imagens de filas para atravessar a fronteira rumo à Geórgia, sobretudo depois das notícias de reforço do recrutamento para as unidades militares a combater na Ucrânia.

A capital georgiana tem os seus encantos, desde os bairros históricos onde há banhos velhos de vários séculos, até ao cosmopolitismo da Shota Rustaveli, a principal avenida, mas quem conhece Moscovo ou São Petersburgo sabe bem como são cidades fascinantes, pelo que não é turismo que esses russos procuram agora, mesmo tendo em conta os famosos vinhos georgianos e a riqueza da gastronomia e a tradição na era soviética de destino de férias para as elites do regime.

Que Tiblíssi, a pró-NATO e pró-UE, se tenha tornado refúgio primeiro para os russos que discordam da intervenção na Ucrânia e, agora, para aqueles que não querem combater é sinal de que nem todas as guerras se ganham com tanques e aviões.

E certamente não é para brindar à memória de Estaline que os russos chegam desta vez à Geórgia. Talvez venham em busca de uma capital que historicamente nunca desistiu de querer ser europeia, com todos os valores que isso encerra em si. O país de Estaline pode ensinar algo ao país de Putin.

Director adjunto do Diário de Notícias

Diário de Notícias
Leonídio Paulo Ferreira
29 Setembro 2022 — 00:02



 

340: Quando a etiqueta fascista não faz mossa

OPINIÃO

Duas novidades podem sair das eleições italianas deste domingo: a primeira mulher a chefiar um governo em Itália e também a primeira vez que a liderança do país recai num líder de inspiração fascista desde o final da Segunda Guerra Mundial.

Curiosamente, tem sido só a segunda novidade a merecer título, como se uma primeira-ministra num grande país europeu se tivesse tornado banal, depois das Damas de Ferro britânica Margaret Thatcher e alemã Angela Merkel, até porque com Liz Truss o Reino Unido vai agora na terceira e, com Élisabeth Borne, a França na segunda.

Contudo, a insistência em catalogar Giorgia Meloni como a reencarnação de Benito Mussolini, feita por alguma imprensa internacional, mas sobretudo pelos seus adversários de esquerda, acabou por não afectar as intenções de voto nas sondagens e, hoje, nas urnas, o partido Irmãos de Itália pode obter um quarto dos votos, o que somado aos resultados previsíveis das outras forças de direita a põe na calha para ser primeira-ministra.

Mais do que por Meloni ter inteligentemente aqui e ali marcado distâncias com o fascismo do Duce, a ameaça do regresso da ideologia que levou a Itália a uma aliança desastrosa com a Alemanha nazi não assusta o eleitorado porque partidos na linha do Irmãos de Itália já estiveram outras vezes no governo e foram pragmáticos.

E perante personalidades conflituosas como Matteo Salvini, líder da Liga e ex-ministro do Interior, e Silvio Berlusconi, líder da Força Itália e por três vezes chefe do governo, Meloni até sabe dar alguns ares de moderação, ganhando na comparação com os seus aliados políticos.

Com uma estratégia de ataque a Meloni errada, a esquerda italiana, nomeadamente o Partido Democrático, esqueceu os seus dois pontos fracos: a falta de carisma de Enrico Letta, que já foi primeiro-ministro; e as cisões que fazem com que Matteo Renzi, também ex-primeiro-ministro e figura mais empolgante do que o antigo camarada, encabece agora outro partido. Falta ao centro-esquerda italiano um líder e um projecto político que cativem o eleitorado.

Em Itália, desde que há três décadas os escândalos de corrupção destruíram a tradicional competição entre democratas-cristãos e euro-comunistas, cada eleição costuma ser marcada pelo repúdio do governo em funções, o que favorece o Irmãos de Itália, pois esteve ausente do Executivo de unidade nacional liderado pelo tecnocrata Mario Draghi. Penalizado por essa pertença ao governo surge, por exemplo, o Movimento 5 Estrelas, difícil de definir ideologicamente, mas que recentemente deu ao país um primeiro-ministro.

Tudo, pois, a jogar a favor de Meloni, que pode passar de 4% para 25%, e que se é vista como eurocéptica não deixa de se proclamar atlantista, com o apoio à Ucrânia a contrastar com outros populistas europeus e até com parte da classe política italiana, atraída pela Rússia, casos de Salvini e de Berlusconi.

Vem aí um momento, pois, complicado para a Itália e para a Europa, mas a procura de respeitabilidade por Meloni mostra que ela própria sabe ter limites e que não só a sua coligação é estruturalmente frágil, como existem contrapoderes a zelar por um país fiel à democracia e aos seus compromissos com a União Europeia, como o presidente Sergio Mattarella, que aceitou um segundo mandato, e o próprio Draghi, ex-presidente do BCE, que andará por aí.

Director adjunto do Diário de Notícias

Diário de Notícias
Leonídio Paulo Ferreira
25 Setembro 2022 — 00:10



 

303: Nações aguerridas

OPINIÃO

Ao contrário da sua antecessora Sociedade das Nações, que nunca chegou a ter os Estados Unidos como membro e foi-se tornando inútil à medida que a Segunda Guerra Mundial se afigurava inevitável, as Nações Unidas têm uma dimensão quase universal (193 Estados membros) e um historial que vai já quase nas oito décadas.

Os seus críticos, numa perspectiva simplisticamente destrutiva, sublinham sempre as discussões bizantinas no Conselho de Segurança e o impasse criado pelo direito de veto dos cinco grandes (Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França), mas uma avaliação séria tem que olhar também para toda a bem-sucedida cooperação internacional, em especial através de agências com a Organização Mundial da Saúde, ainda há pouco chamada a coordenar a luta global contra a covid-19, mas também no seu currículo com êxitos como a erradicação de doenças como a poliomielite a nível mundial. E o que dizer do trabalho do Alto Comissariado para os Refugiados ou do esforço do Programa Alimentar Mundial para evitar fomes dramáticas entre populações mais frágeis?

A actual guerra na Ucrânia, que envolve um membro permanente do Conselho de Segurança como invasor, a Rússia, apresenta um tremendo desafio para as Nações Unidas e sobretudo para o secretário-geral, o português António Guterres, que começou a condenar Moscovo, e foi muito aplaudido por isso no Ocidente, mas agora quer ser o árbitro, única forma tradicionalmente de conseguir resultados, mesmo que pequenos, pois qualquer acordo tem de implicar os russos, seja a troca de prisioneiros de guerra, seja a possibilidade de se reatar as exportações de cereais via Mar Negro. Ou as negociações de paz, tardem o que tardar, que ponham fim a tanto sofrimento.

É de esperar que tanto as palavras como os silêncios, tanto do presentes como dos que participam à distância, tenham muito que ver com conflito ucraniano, até porque afecta o uso de energia global e também as redes de abastecimento alimentar.

Mas não se espere grandes novidades. A haver será mais à frente e talvez fruto de algumas conversas de corredor que nunca surgirão em nenhuma agenda oficial.

Nem tudo nas Nações Unidas é formalismo, pois há sempre espaço para alguma inovação na sede nova-iorquina da organização fundada em 1945, estava a Segunda Guerra Mundial a terminar.

Talvez por essa mistura de formalismo e de inovação, se tenha evitado uma terceira guerra mundial entre nações aguerridas. Não é pouco, admita-se.

Director adjunto do Diário de Notícias

Diário de Notícias
Leonídio Paulo Ferreira
20 Setembro 2022 — 00:01



 

91: Os Kim e o bolo de milho

OPINIÃO

Qualquer comparação entre a reunificação alemã de 1990 e um eventual fim da separação entre as duas Coreias, que dura até ao presente, é um absurdo. Os dois países foram divididos pelas potências ocupantes no final da Segunda Guerra Mundial, e essa divisão perpetuou-se por convir aos interesses opostos de americanos e soviéticos durante a Guerra Fria, mas nunca houve um conflito entre as duas Alemanhas, ao contrário da sangrenta guerra de três anos entre as duas Coreias, e, sobretudo no momento da reunificação concretizada, o fosso económico entre as partes da nação europeia dividida era muito menor do que aquele que separa ainda hoje as duas metades da nação asiática.

Contudo, a principal diferença entre a Alemanha dividida e a Coreia dividida é que o regime comunista leste-alemão caiu juntamente com o Muro de Berlim, enquanto o regime comunista que criou a Coreia do Norte evoluiu para uma dinastia que tem a sua perpetuação no poder como principal objectivo.

É à luz, sobretudo, dos interesses da Dinastia Kim que deve ser lida a resposta ofensiva da Coreia do Norte à mais recente oferta da Coreia do Sul para baixar a tensão na península. Por ocasião do assinalar dos primeiros cem dias da sua tomada de posse, o presidente sul-coreano Yoon Suk-yeol ofereceu ajuda económica ao regime de Kim Jong-un em troca de medidas no sentido da desnuclearização.

Tendo em conta que a posse da arma nuclear, embora garanta um lugar entre o restrito clube nuclear do planeta, não alimenta uma população que a ONU teme que esteja de novo em risco de fome, a ideia mereceria, pelo menos, ser o ponto de partida para negociações, procurando recuperar o tempo perdido depois das cimeiras patrocinadas pelos Estados Unidos durante a presidência de Donald Trump.

Mas Kim Yo-jong, irmã do líder norte-coreano, descreveu a oferta como “o cúmulo do absurdo”, sublinhando que “ninguém negoceia o seu destino em troca de um bolo de milho”.

A influente irmã de Kim Jong-un, que chegou a negociar com a Coreia do Sul noutras ocasiões, disse mesmo que o presidente Yoon “devia calar-se” e classificou a proposta de “simples e infantil”.

Se algum destino poderia estar aqui a ser negociado seria, exatamente, o da Dinastia Kim, que através de Kim Il-sung fundou a Coreia do Norte em 1948 e depois de ser governada por um filho deste, Kim Jong-il, é agora liderada por um neto. O comunismo original, que lhes valeu o apoio histórico de Pequim e de Moscovo, foi substituído por uma espécie de monarquia ultranacionalista, que nem sempre agrada à China ou à Rússia, apesar de lhes ser útil.

E a posse de armas nucleares é considerada a maior garantia de que não haverá intervenção externa para derrubar Kim, que sabe bem que o iraquiano Saddam Hussein e o líbio Muammar Kadhafi abandonaram um dia as ambições nucleares e acabaram depostos e executados, o primeiro depois de julgamento, o segundo por uma multidão irada.

O sucesso da Coreia do Sul – vibrante democracia, potência económica e colosso cultural – mostra até que ponto o povo norte-coreano sofre com uma liderança que, apesar da cosmética de ir acrescentando arranha-céus a Pyongyang para impressionar os raros visitantes estrangeiros, tem dificuldade em assegurar a alimentação da população, sobretudo quando fecha a fronteira com a China por causa da covid-19 (a com a Coreia do Sul está totalmente minada) e assim se fecha ao mundo, dificultando a economia informal que colmata como pode as incapacidades do governo.

Só podemos imaginar o que seria a médio prazo, como país, uma Coreia única com 78 milhões de habitantes (dois terços no Sul) se a reunificação pudesse, em algum momento, iniciar-se com passos muito, muito graduais, mas seguros e sobretudo sem guerra.

Director-adjunto do Diário de Notícias

Diário de Notícias
Leonídio Paulo Ferreira
21 Agosto 2022 — 00:08