1013: Um povo inimigo?

– Toda a retórica do colunista tem de ser interpretada no contexto em que, considerando a Rússia um estado terrorista, pelo Parlamento Europeu – e não só -, existe muito povo russo que aplaude o terrorismo assassino do Putinocrata. E um Estado, seja ele qual for, é formado pelo seu Povo onde também existem anti-putinocratas. Se esses aplausos pró-terrorismo são fruto da ignorância, face ao congelamento de informação credível, falta de liberdade de expressão, esse é um problema que terão de ser os russos a resolver. Pela minha parte, apoio a decisão de designar a Rússia de Estado Terrorista. É bom que não se esqueça da destruição de um país soberano e do assassínio de milhares de civis desde crianças a idosos, violações, crimes sexuais, etc.. E quem não quer ser lobo, não lhe vista a pele,

OPINIÃO

Num dos seus repentes misóginos de amante traído, Cesare Pavese escreveu a seguinte frase: As mulheres são um povo inimigo, como o povo alemão.

Pondo entre parênteses a questão das mulheres (e há hoje autoras feministas radicais que consideram os homens como um povo inimigo…), podemos compreender que, à data em que Pavese escrevia, no meio dos horrores da Segunda Guerra Mundial, ele pudesse ver o povo alemão como um povo inimigo da Humanidade.

Mas há povos amigos e povos inimigos, essencialmente e por cima de todas as circunstâncias?

Carl Schmitt, um importante jurista alemão da mesma época, considerava os conceitos de “amigo” e “inimigo” como fundadores do pensamento e da ação política. Mas entre os Estados, como é sabido, não há amigos permanentes, há apenas interesses mais ou menos permanentes.

Se uma determinada situação geopolítica pode condicionar duradouramente os agentes internacionais, não é menos certo que os conceitos de “amigo” e “inimigo” só se podem referir às lideranças concretas e às acções específicas dos agentes num momento dado e não a raciocínios abstractos fora da História.

Vem isto a propósito da recente e infeliz (a meu ver) caracterização da Rússia como “Estado terrorista” feita pelo Parlamento Europeu. Repare-se que, ao condenar um Estado e não um governo ou um regime, o Parlamento Europeu parece dar um passo no sentido do desabafo de Pavese, considerando a Rússia como um inimigo estrutural, e não conjuntural, da Europa e da Humanidade.

Um jovem alemão dizia, há tempos, com ironia, a um amigo russo: “Vais habituar-te agora a desempenhar o papel que nós tivemos durante muitos anos de inimigo da Humanidade.

Embora fatalmente eu vá ser considerado putinista e não sei mais o quê por defender que se distinga a nação russa das acções e políticas de Putin, reitero aqui, por descargo de consciência, que considero Putin um dirigente de extrema direita belicista e agressivo, extremamente perigoso para o equilíbrio internacional e para o seu próprio povo.

Apoio naturalmente a defesa da Ucrânia, nação barbaramente agredida. Mas considerar a Rússia como um Estado terrorista equivale a dizer que qualquer poder na Rússia e qualquer regime que ela possa vir a ter continuará inevitavelmente a ser inimigo e pária da Europa e da Humanidade.

Não aceitar a existência independente da Ucrânia e querer aniquilar o seu Estado soberano é um desafio à realidade, de alguém que se julga Pedro o Grande. Mas pretender a destruição da Rússia como Estado é um outro desafio à realidade, de alguém que se julga senhor absoluto dos tempos e dos destinos.

A Rússia, com as suas tentações eslavófilas e euro asiáticas e o seu messianismo irredentista, sempre viveu uma relação problemática com a Europa a que pertence e a Europa sempre manteve uma relação de desconfiança com o território que, ligando-a à Ásia, lhe lembra que geograficamente não somos mais, como dizia Valéry, do que um cabo dessa mesma Ásia.

Mas nem tudo é determinado pela geografia, pois são os povos e as suas lideranças que, mal ou bem, fazem a História. E assim como não há povos amigos por natureza, também não há povos inimigos por essência.

Por isso, aplaudo o voto das quatro deputadas do PS português que se abstiveram na votação desta declaração do Parlamento Europeu.

Um jovem alemão dizia, há tempos, com ironia, a um amigo russo: “Vais habituar-te agora a desempenhar o papel que nós tivemos durante muitos anos de inimigo da Humanidade”.

E, no entanto, o mundo move-se…

Diplomata e escritor

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
29 Novembro 2022 — 00:31



 

619: A mãe preta

OPINIÃO

Tira a mãe preta do cerrado
(Ary Barroso, Aguarela do Brasil)

Os surtos neofascistas que assombram o mundo de hoje assumem, naturalmente, configurações diferentes conforme os países e culturas onde brotam.

A questão racial é um interessante ponto de clivagens entre esses movimentos. Se o racismo e a rejeição dos imigrantes e dos estrangeiros são traços comuns a todos eles, verificamos que a um anti-semitismo, ainda bem presente na Europa Central e Oriental, se contrapõe no lado ocidental da Europa a islamofobia e o racismo anti-negro.

A identificação e rejeição dos corpos estranhos à pretensa “identidade da nação” faz-se seguindo os sentimentos populares prevalecentes em cada país e, desse modo, entre nós só os ciganos tiveram (por enquanto) o anátema do Chega.

No trumpismo e no bolsonarismo, manifestações deste mesmo fenómeno nas Américas, há questões de origem na base desses movimentos, que têm que ver com o peso comum do legado esclavagista e de um racismo que se exprime de formas diferentes nos Estados Unidos e no Brasil.

Tem sido difícil aos brasileiros “tirar a mãe negra do cerrado”, se atendermos à desproporção entre a enorme população negra e mestiça do Brasil e a sua presença mínima nas elites sociais e políticas do país.

Tendo a acreditar que o bolsonarismo, tal como o trumpismo nos Estados Unidos, tem também na sua base (para além de todas as explicações económicas e sociais) o pavor de uma classe média e média-baixa branca face à crescente tomada de consciência pela população negra (a que se junta agora a população índia) desta discriminação objectiva.

O fascismo e o racismo assentam sempre na necessidade de ter alguma camada social “por baixo de nós”.

Em 1873 o diplomata e escritor francês Arthur de Gobineau, nomeado embaixador no Rio de Janeiro, assistia no Brasil, com horror e repugnância, à confirmação da tese que desenvolvera vinte anos atrás no seu Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas. Encontrava uma população brasileira em que “não existia nenhuma família que não tivesse sangue negro e índio nas veias”.

Fruto da mestiçagem, que conduzia fatalmente à degeneração das civilizações, os brasileiros eram assim “avessos ao trabalho”, “dados a vícios”, “pouco férteis” e “fisicamente enfraquecidos”, o que levaria, em dois séculos, à saída do Brasil da civilização, a menos que fosse introduzida em terra brasileira uma forte corrente de povoamento branco europeu.

Estas ideias, apoiadas numa ideologia biológica predominante no século XIX, encontraram eco nas elites brasileiras, que, preocupadas com a degenerescência da raça, viram o princípio de solução no “branqueamento” progressivo do Brasil, através do incremento das migrações europeias, no sentido de uma “arianização progressiva”, nos termos de Oliveira Viana.

Temo-nos focado muito na rejeição das teses de Gilberto Freyre, pelo papel indesculpável que este grande estudioso e escritor assumiu na defesa e propaganda do colonialismo salazarista.

Esquecemos que as ideias de Freyre sobre a formação e a identidade do Brasil vieram contrariar frontalmente as ideias dominantes do “branqueamento” como garantia da civilização, dominantes até então no pensamento brasileiro.

Mas, se constituiu em qualquer caso um progresso que o louvor da miscigenação tenha substituído nos discursos oficiais a apologia do branqueamento, a realidade social brasileira continua muito formatada pelas ideias e estratégias do branqueamento, apoiadas num fluxo migratório europeu que cresceu exponencialmente no século XX.

O bolsonarismo resulta de uma agregação de mitos e ressentimentos que reflectem descontentamentos diversos e heterogéneos com a sociedade vigente.

As consciências negra e índia, que cresceram nos últimos anos, junto com a atribuição de direitos às empregadas domésticas, mostram que a rejeição de Lula não provém de um medo do comunismo ou do radicalismo social (que, em 14 anos de mandato, Lula nunca promoveu), antes de uma resistência feroz das estruturas profundas racistas e esclavagistas, que nas sociedades americanas estão bem mais arreigadas que no nosso continente (onde existiu e existe racismo, mas onde o esclavagismo era coisa das colónias do ultramar…).

Que a derrota de Bolsonaro nos traga de volta o Brasil forte, luminoso e criador, que nós amamos e que faz falta ao mundo.

Diplomata e escritor

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
08 Novembro 2022 — 00:35



 

359: À espera dos Bárbaros

OPINIÃO

O que esperamos nós em
multidão no
Forum?
Os Bárbaros, que chegam hoje.
Konstantin Kavafis

A situação do nosso tempo parece descrita pelo poema de Kavafis, cujos dois primeiros versos servem de epígrafe a este texto. Todos nós, que temos a felicidade geográfica de viver fora dos actuais teatros de guerra, estamos na situação daqueles romanos do poema de Kavafis que, suspendendo todas as suas actividades, esperam a chegada dos Bárbaros, porque os consideram como “uma espécie de solução” para os impasses em que vivem. Mas no final do poema revela-se o anticlímax:

Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram. E umas pessoas que chegaram da fronteira dizem que não há lá sinal de Bárbaros.

Donde a desesperada conclusão:

E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros? Essa gente era uma espécie de solução.

Talvez a explicação deste poema e a chave da nossa situação presente, tão desesperada como a daqueles romanos, seja simples e, aliás, conforme ao que a mais recente História da decadência e queda do Império Romano tem vindo a demonstrar: os Bárbaros já estão connosco e não é preciso ir esperar por eles às portas da cidade!

Os Bárbaros não eram povos inteiramente alheios ao Império, estrangeiros de outras raças e leis que vinham ocupar violentamente o lugar dos Romanos de raiz: desde o édito de Caracalla que todos os povos do Império podiam aceder à plena cidadania romana.

Os Bárbaros chegaram durante séculos, pertenciam legitimamente ao Império, seguiam as suas leis e adoravam os deuses romanos como os seus próprios.

Não vale a pena ir aí procurar os bárbaros, eles não estão fora de nós e nós não os iremos encontrar nem na miserável discriminação dos imigrantes, nem na condenável agressão russa.

A analogia com a situação do nosso tempo paramo-la aqui, para não forçarmos os paralelos históricos. Nós esperamos, e com toda a razão, qualquer coisa terrível e devastadora, que identificamos com a barbárie.

E é muito fácil (mas profundamente injusto) olhar como bárbaros todos os imigrantes e, no limite, todos os estrangeiros, como é igualmente fácil e errado, embora não destituído de alguma parte de justiça, identificar a barbárie com essa guerra anacrónica de reconquista nacional em que os líderes russos decidiram afundar o seu país.

Mas não, não vale a pena ir aí procurar os bárbaros, eles não estão fora de nós e nós não os iremos encontrar nem na miserável discriminação dos imigrantes, nem na condenável agressão russa.

Como aconteceu durante a queda do Império Romano, os bárbaros vivem connosco: constroem redes de mentiras e teias de dinheiro sujo, encontram soluções fascistas para a crise, perseveram na destruição climática do planeta, privilegiam os voláteis capitais financeiros sobre os investimentos produtivos e os salários justos, orquestram a destruição e a ruína.

Nós continuamos a parar as nossas actividades e a acorrer às portas da cidade à espera dos bárbaros, sem nos darmos conta que eles estão junto de nós.

Os bárbaros que se anunciam por todo o lado, de Trump a Meloni, de Le Pen a Bolsonaro, como portadores daquela “espécie de solução”, que os líderes políticos romanos do poema de Kavafis (senado, imperador, cônsules e pretores) esperavam da barbárie, representam o lado mais espalhafatoso da decadência. A queda está a ser tecida pela nossa própria máquina social.

Mas, tal como sucedeu na queda do Império Romano, não será o fim da Humanidade! Apenas um ligeiro atraso de séculos…

Diplomata e escritor

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
27 Setembro 2022 — 00:15



 

153: Canção de Setembro

OPINIÃO

Oh, it”s a long, long while
from May to December
But the days grow short
When you reach September

(Kurt Weill e Maxwell Anderson,
September Song)

Para quem se habituou a contar os anos pelo calendário escolar, Setembro, mais do que o mês em que nos abandona o verão, é o princípio de um ano novo, de um ciclo novo e ganha, sob os seus tons outoniços, um brilho de promessa.

É verdade que os dias se fazem mais curtos e o tempo mais contado, mas dos nossos dias de estudantes e de trabalhadores trazemos, mesmo quando já pouco o justifica, esta ideia de que o novo ciclo que se abre em cada outono é portador potencial de surpresa e novidade.

À medida que avançamos nos anos tornamo-nos menos capazes de sentir os sinais da mudança e o brilho do novo. Lemos demasiados livros para podermos suportar as novidades literárias e isso faz-nos perder aquela obra inovadora que se esconde, como o desenho no tapete da novela de Henry James, no meio do tumulto das novas edições.

Vivemos demasiados ciclos históricos para podermos sentir, por detrás de toda a dominação e de toda a impostura, o apelo forte da mudança. Caímos num pessimismo estéril que, aliás, o Velho do Restelo não partilhava, uma vez que o seu discurso é todo ele de denúncia e desmistificação.

A beleza de Setembro está toda no diluir do verão em luzes calmas e frios súbitos, no anúncio do outono que vem devagar até nós. Não sei o que nos preparam as mudanças climáticas, talvez a secura e o fogo, talvez o anular das estações, mas sempre ficarei apegado a esta tranquila transição de Setembro, mesmo que ela venha um dia a desaparecer.

Continuo, assim, mesmo agora, na disponibilidade em termos profissionais, a sentir este mês que agora chega como um recomeço e um regresso. Há na minha mente um novo ano lectivo que se abre, livros e cadernos para comprar, tarefas a cumprir, acontecimentos que esperam.

Regresso de férias com poucos livros lidos e pouca matéria escrita, mas com a sensação de ter vivido comigo próprio e de ter estado com os outros, isto de uma maneira mais funda e mais íntima e sem outros limites que os da minha incurável distracção…

Nessa melancólica tendência, que caracteriza esta idade, de reler os conhecidos em vez de abrir os livros novos, troquei a certa altura, nestas férias, os livros que trazia para ler por um exemplar de O Mundo de Ontem de Stefan Zweig, que já li várias vezes.

Partilho (e não partilharemos todos?) com estas memórias de Zweig a consciência aguda de que a nossa velhice nos fez chegar a um país estrangeiro. Trazemos connosco o desejo e a memória, seguem-nos os sonhos todos por cumprir, mas somos já pouca coisa para a vida.

Viajantes nocturnos, olhamos para as estrelas e passamos a entender do lado de fora tudo o que vive à nossa volta, como uma língua estrangeira que não desconhecemos, mas que levamos algum tempo a traduzir.

Ser fiel à vida é saber entender a língua que se fala neste país estranho, e não obstante familiar, a que viemos ter, sabendo-nos a ele estrangeiros, mas aprendendo a conhecer os seus termos e os seus modos. Foi o mesmo que afinal fiz durante toda a minha vida, saltando de lugar em lugar e de país em país.

É como se a nossa casa tivesse fugido de nós, numa irreversível migração para outro lado, deixando-nos sem defesas diante da estranheza que afinal sempre trouxemos connosco. Talvez encontrarmo-nos assim, como num país estrangeiro na nossa própria terra, seja a revelação de nós a nós próprios que nos faltava viver.

Mas eu não sei se conseguirei ainda ver o desenho no tapete e sentir outra vez no declínio de Setembro a promessa do novo.

Diplomata e escritor

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
30 Agosto 2022 — 00:32

108: Um velho do Restelo

– Como o Luis Castro Mendes, eu também me considero um Velho do Restelo e sofro das mesmas preocupações que ele. Coisas da idade…

OPINIÃO

“Mísera sorte! Estranha condição!”
Camões, Os Lusíadas, IV – 104

Será o declínio que vem com a idade que nos torna pessimistas? Ou a consciência de a realidade se ter afastado vertiginosamente das nossas expectativas? Todas as gerações se puseram esta questão a si próprias, mas o que acontece agora é que acelerou incomparavelmente a velocidade da História e nós nos vamos sentindo mais e mais “sem tecto entre ruínas” (Raúl Brandão).

Os sinais que o mundo nos manda vemo-los cada vez mais com temor e sem esperança. Não conseguimos entrever, nas ruínas de ideias e ideais que habitamos, o anúncio do inesperado, que sempre chega e tudo transforma.

Os velhos do Restelo como eu não esquecem a alegria de um governo que considerava o empobrecimento dos portugueses como um momento necessário para o crescimento do país (“os portugueses estão pior, mas Portugal está melhor”) e vivia com entusiasmo a nossa e sua humilhação pelos terceiros oficiais de Finanças da troika que sobranceiramente nos visitavam.

Eles traziam consigo o “Homem Novo” e mandavam “um povo piegas”, que vivera até ali em permanente “regabofe”, para fora da sua “zona de conforto” e para a dureza, sem protecções nem abrigos, do mercado todo poderoso.

Consideram os velhos do Restelo como eu uma ingenuidade perigosa, ou uma interessada má fé acreditar que entregar todos os recursos do país ao critério dos privados nos viria trazer a prosperidade geral.

É que não esquecem aqueles que jogaram os activos da economia do país no casino financeiro, para depois da falência universal irem pôr os seus pés de meia no recato dos paraísos fiscais, deixando os contribuintes (nós) a pagar os estragos. E não os surpreendem as revoltas cegas da extrema direita, que vão alastrando quanto mais se vincam e aprofundam as desigualdades.

Meu saudoso primo Leonardo Ferraz de Carvalho, que não era um homem de esquerda, definiu, lá pelos anos noventa, o conceito de “tansos fiscais”. Tansos somos nós, os piegas que vivem do seu trabalho e não conseguem pagar os impostos na Holanda ou evadi-los, num processo de optimização fiscal, pelas várias zonas francas deste mundo.

Nada nos dá sossego. Um interessante analista político, Bruno Maçães, regozija-se com a perspectiva de uma Europa em que “ucranianos e polacos serão maioritários”, sem dúvida por considerar desejáveis para todos os europeus os modelos políticos da Ucrânia e da Polónia. Já repararam que de repente deixou de se falar em “democracias iliberais”?

Mas como posso eu, com este sol e este mar, com esta permanente promessa de felicidade que o verão traz (esqueçamos, por um momento, tudo o que por aí arde) comprazer-me num pessimismo que não vejo os meus filhos e os meus sobrinhos, com diferentes posições políticas e experiências do mundo, partilhar?

Não será este azedo pessimismo exclusivo fruto do avançar da idade e do estreitar das ilusões? Não estaremos a medir a realidade pelas nossas antigas grelhas mentais, caindo na mesma armadilha desses eternos discípulos de Milton Friedman que nos assombram?

Keynes dizia que o nosso drama vinha de analisarmos a realidade presente com os mesmos conceitos em que fomos formados no passado, o que levaria os decisores invariavelmente a tomar decisões desfasadas das necessidades históricas do momento.

Os mil e um discípulos tardios da senhora Thatcher, que nos enchem os ouvidos todos os dias, deveriam pensar nisto. E a nossa esquerda também.

O mar e o sol brilham mais intensamente para os novos. E o inesperado, para o bem ou para o mal, virá para eles.

Diplomata e escritor

Diário de Notícias
Luís Castro Mendes
23 Agosto 2022 — 00:17