389: Inês tem 17 anos e irá morrer nos próximos meses, se tudo correr bem

1. Andamos tantas vezes pela vida a achar que somos grandes.

Ou a achar que não valemos a “ponta de um corno”.

Tantas vezes a tornar os problemas maiores do que são. Ou a desistir por medo. Ou tão gordos de arrogância e soberba. Ou a acreditar que ter dinheiro nos salva de um fim igual ao da pessoa que a esta hora que me escutas não sabe ainda se irá jantar.

2. Tanta gente anestesiada e depois conhecemos a Inês, uma miúda de 17 anos, filha da Mariana e do Filipe, que irá morrer nos próximos meses, se tudo correr bem.

Porque pode correr mal e morrer na próxima semana ou na outra.

Ou amanhã.

Conheci a Inês numa reportagem escrita pela excelente jornalista Ana Tulha, na última Notícias Magazine.

Apaixonei-me pela sua esperança sem esperança.
Pela sua força frágil.

A Nini…

(ela prefere ser chamada assim)

… a quem foi diagnosticada uma leucemia terminal.

A Nini a quem a mãe, depois de tanto sofrimento, após um transplante de medula que todos acharam que fora bem-sucedido, depois de tantas quimioterapias que lhe rebentaram algumas vezes o ânimo e muitas o corpo, a Nini a quem a mãe, em Dezembro passado, num dia de frio no IPO do Porto, lhe contou que mais nada poderia ser feito.

Que não havia cura.
Que os médicos lhe haviam dito que mais valia parar com os tratamentos.

A Nini, de lágrimas nos olhos, a Nini incrédula pela morte da esperança, a perguntar para que as dúvidas fossem desfeitas.

“Mas mãe estás a dizer-me que vou morrer?

– Estás a dizer-me que não vou poder ter filhos?

– Que não me vou apaixonar?”

3. Andamos nós pela vida como se esta nos devesse alguma coisa e depois somos confrontados com a nossa pequenez.

Com a Nini – a quem chamarei Inês se um dia a puder conhecer – uma menina mulher que após essa revelação decidiu enfrentar a morte com um sorriso.

Foi aí que nasceu uma página de TikTok a que chamou “A Morrer Comigo”.

Foi aí que, mais do que nunca, fez de cada manhã uma oportunidade de recomeço e de fome de vida.

As viagens com os pais tornaram-se constantes.

As brincadeiras com o irmão.

A escrita, o ir ao Dragão ver o seu FC. Porto, o fazer legos.

Há uns meses conheceu o Papa Francisco, em Roma – um encontro patrocinado por padres jesuítas do Porto. Nesses dias “habitava” uma cadeira de rodas, acreditava-se que a sua partida estava para breve. O abraço de Francisco deu-lhe força e Inês não morreu a meio do verão.

Chegámos ao outono e ela continua.

Sabendo que não há milagre possível, que talvez já não veja o Mundial de Futebol.

A Inês que parece ter nascido para sofrer. Que aos dois anos teve um cancro que lhe afectou a visão e a fragilizou para sempre.

Mas a Inês sorri.

A Inês grita ao mundo que não há razões para o medo, que não há razões para que as pessoas percam tempo com coisas pequenas.

A Inês prepara-se para a chegada do frio com o seu melhor sorriso de boas-vindas.

TSF
Por Luís Osório
30 Setembro, 2022 • 18:21



 

370: Roger Federer, dá-me a tua mão

1. Roger Federer fez o último jogo da sua carreira no final da passada semana, em Londres.

Foi um dos melhores atletas da história, para a maioria dos especialistas o mais completo jogador de ténis de todos os tempos.

O seu corpo já não aguentava mais operações aos joelhos e sofrimento físico. Ainda assim resistiu até ao limite e tentou adiar o fim da sua história.

Não dava mais e marcou na agenda do mundo o seu ponto final parágrafo.

2. Não estávamos preparados para o que aconteceu.

Quando o milagre do bem acontece, quando o milagre do belo nos surge à frente dos olhos, é-nos difícil aguentar por não estarmos habituados.

Estamos à espera, isso sim, é que estes monstros de competição, estas máquinas humanas viciadas em vitórias, se despeçam com estrondo e virilidade, se despeçam como imperadores romanos após a sua última conquista.

3. Mas Roger Federer escolheu outro fim.

Quis jogar ao lado do seu grande rival, ao lado do jogador com quem teve os mais épicos confrontos – o espanhol e também lendário Rafael Nadal.

Os dois, lado a lado, num jogo de pares.

E os dois, lado a lado, lutaram por uma vitória em conjunto, sem conseguirem disfarçar que cada ponto era uma memória, que cada ponto era uma oportunidade de trocarem um olhar e um sorriso.

O público comoveu-se.

Comoveu-se com cada olhar entre os dois campeões.
Com cada sorriso.
Com cada bola ganha.
Com cada bola perdida.

E nas pausas de descanso, vozes nas bancadas apelavam a Federer para não ir, para não desistir, para continuar.

4. Não estamos habituados ao belo que não seja o das vitórias que esmagam um adversário.

Mas quando o vemos à frente dos nossos olhos percebemos que talvez ainda persista uma luz de esperança na humanidade.

Percebemos que ainda conseguimos reconhecer o que nos faz maiores, o que nos faz gigantes.

5. No final do jogo o público aplaudiu de pé.

Não havia quem não estivesse comovido com o adeus de Federer.

Só que o final ainda não chegara.

Para surpresa de todos, Roger Federer e Rafael Nadal estavam sentados e choravam compulsivamente.

Roger por se ir embora.
Nadal porque uma parte de si também ia.

Estavam de mão dada e o silêncio foi esmagador.

Foi como se o tempo tivesse parado.
As guerras miseráveis.
A cegueira dos que obsessivamente desejam o poder e a vitória a qualquer preço.
As pequenas e grandes invejas.
A loucura dos adeptos capazes do inominável para defender a sua equipa e odiar as outras.

De repente, os dois mais ferozes exemplos de força e precisão, frios e implacáveis, choravam como se fossem crianças a quem a mãe grita para voltarem para casa.

Roger Federer e Rafael Nadal, naquele momento, eram iguais ao que de melhor eu e tu somos.

Crianças a brincar na rua que têm de interromper o jogo.
Ou crianças que se despedem para sempre de um amigo por saberem que terão de partir para um outro país, para uma outra cidade.

Só temos mesmo de agradecer…

… por nos terem provado que ganhar não é a coisa mais importante do mundo.

TSF
Por Luís Osório
26 Setembro, 2022 • 18:22



 

336: Se Francisco pudesse escolher, Tolentino seria o próximo Papa

1. O jornal online “7 Margens”, sempre bem informado sobre a Igreja Católica, noticiou hoje que José Tolentino de Mendonça será “ministro” da Cultura e Educação do Vaticano.

Um cargo esmagador para o cardeal português que o Papa Francisco escolheu para ser uma das suas sombras. Tolentino era o guardião da biblioteca da Santa Sé, o guardião dos segredos, dos livros proibidos, dos pecados e iluminações da Igreja.

E agora isto.
Tolentino, o grande poeta Tolentino de Mendonça, filho de um pescador humilde de Machico, filho da pobreza e do mar alto, tornou-se o ideólogo da Igreja, o cardeal que terá a seu cargo uma rede de escolas e milhões de alunos.

2. Ainda me lembro do dia em que o Papa o fez cardeal.

Tolentino, reclinado perante Francisco, perguntou-lhe: “Santo Padre, o que me fez?”.

Sabem o que Francisco respondeu?
“José, tu és a poesia”.

E Tolentino continua a escrever poemas.

Mas continua também a ser um habitante do silêncio, continua a procurá-lo para se proteger do chinfrim do mundo, da balbúrdia.

José, o poeta que nunca parou de subir a montanha e que nunca deixou de se sentir uma criança a atravessar o mundo – tal e qual como no dia em que saiu de casa para nunca mais regressar.

3. Tolentino ocupará um lugar novo, o de Prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação na Santa Sé, um cargo que não existia e parece ter sido desenhado para ele.

O filho do pescador que está mais próximo de um dia, quem sabe, ser um pescador de homens.

O filho de um pescador que continua em plena viagem.

Como nós.
Como tu que me ouves ou lês, mesmo que não acredites em Deus.
Estamos todos num comboio sem saber o destino ou as estações onde poderemos sair.

4. E Deus, Tolentino?

Como o ver se somos cegos?
Como o ouvir se somos surdos?
Como lhe tocar se os nossos dedos continuam sem sensibilidade?

Tens a certeza de que existe?
Absoluta certeza de que existe fora das palavras dos poetas?
Diz-me que sim e eu acreditarei.

Que mundo é este?
Que barulho é este, Tolentino?

Escrevo-te daqui para aí. Espero que te chegue.

E não me esqueço do que me contaste em casa do Bernardo e da Isabel, nossos amigos comuns.

Lembras-te?

Quando conheceste o Papa Francisco e ele te perguntou num retiro: “Sr. Padre Tolentino, quando puder acha que me pode conceder uns minutos?”.

E tu respondeste, “Santo Padre, eu é que lhe tenho de pedir uns minutos”.

Foi ele quem se dirigiu ao teu quarto.
E falaram de poesia de Borges e Pessoa.
E de Deus.

O comboio acabara de parar para tu saíres, era a tua estação.

Mas agora é que as sombras serão perigosas.

E hoje que te celebro será a última vez que te tratarei por tu. Afinal, és filho de um pescador e trazes já muito peixe na rede.
Um mar alto que é também deserto.
Que nos próximos três dias afugentes o inferno.
Cá estaremos para te celebrar e te ajudar com o peixe.

TSF
Por Luís Osório
23 Setembro, 2022 • 18:45



 

328: Putin não conhece o senhor Samju – espero que hoje o apresentem

1. Muitos de nós acordaram hoje a pensar que tudo se pode desmoronar de um momento para o outro.

Que um dia podemos ser despertados com uma notícia que não desejamos.

É isso que Putin quer.
Fazer-nos medo que é, sem dúvida, a arma principal de ditadores e terroristas – degolar, estripar, ameaçar, aterrorizar.

Acordámos hoje a pensar que pode acontecer o inominável e eu só consigo lembrar-me do senhor Samju.

2. Que encontrei numa estação de serviço a caminho de não sei onde. Conversou com a minha mulher que o tratou como se fosse família – não há nenhum médico que tenha estudado na Faculdade de Medicina de Lisboa que não o trate como se não pertencesse à família.

Vladimir Putin ameaça-nos com o holocausto e confesso-te que é nele que penso.

3. Talvez não tenha a noção da importância do senhor Samju para todos os alunos de Medicina nos últimos trinta anos.

Livros fotocopiados, livros que de tão caros só assim poderiam ser estudados.

É verdade, é mesmo isso.

O senhor Samju é família para quase todos os médicos que se formaram em Lisboa nas últimas três décadas.

Sabem dos seus dramas e da sua generosidade.
E quase todos, assim que se tornavam médicos, assim que podiam começar a fazer clínica, iam ao senhor Samju que lhes plastificava os valores laboratoriais de referência.

Era o seu modo de lhes dar os parabéns por agora serem médicos e médicas, oferecer-lhes o cartão plastificado que celebrava o fim daqueles anos de formação e juventude.

4. Putin ameaçou tudo o que somos.
Tudo o que temos.
Ameaçou o mundo com a sua ignomínia.

E eu só penso no último Natal quando o senhor Samju, vindo de um jantar de família, começou a sentir dores no peito.

Ele vendia fotocópias, mas era um bocadinho médico. Conhecia os sinais, reconheceu ser um enfarte.

Dirigiu-se ao hospital mais próximo do lugar onde estava.

As dores tinham aumentado fortemente quando chegou às urgências do Hospital da Luz e pediu por ajuda.

Puseram-no numa maca e o primeiro médico que o viu gritou: “Senhor Samju, o que se passa?”.

E quando os outros médicos na urgência ouviram o nome correram na sua direcção.

Era noite de Natal, o hospital não tinha muito movimento, mas todos os médicos disponíveis voltaram a ser os estudantes que na Faculdade de Medicina desejavam o futuro.

Os médicos na urgência telefonaram ao cirurgião que estava de prevenção.

Uma hora depois Miguel Abecassis chegou ao hospital. A sua voz ouviu-se à distância.

“Onde está o Samju?”.

5. Putin tentou incendiar o mundo com a gasolina dos cobardes, mas a história de Natal do senhor Samju prova-nos que nada há a recear quando não perdemos a memória do tempo em que fomos miúdos.

Enquanto tivermos sonhos, enquanto quisermos abraçar os senhores “samjus” de cada uma das nossas vidas, a esperança e a luz ganharão sempre à morte e à escuridão dos ditadores.

TSF
Por Luís Osório
22 Setembro, 2022 • 18:17



 

317: O campeão Jorge Fonseca não é digno de vestir a farda da PSP

1. Jorge Fonseca, bicampeão do mundo de judo e medalhado olímpico, tem um sonho desde criança: o de ser polícia.

O campeão afirmou-o em várias entrevistas, apelando até à possibilidade de alargar na idade o prazo para se poder candidatar à PSP – o que agora o Ministério da Administração Interna, para seu contentamento, aprovou.

A PSP abriu concurso e alargou para 30 anos o prazo de validade para se ser candidato. Jorge Fonseca candidatou-se, mas segundo notícia do Correio da Manhã, reprovou no teste escrito de cultura geral. Teve 7,8 valores e não poderá sequer seguir para as provas de aptidão física.

2. Portugal tem destas coisas.

O Estado Novo terminou há quase 50 anos, mas a mentalidade de alguns continua ao nível da caserna, da paróquia, da pornográfica burocracia.

Jorge Fonseca tem feito mais pela PSP do que dezenas de campanhas de marketing pagas a peso de ouro. As suas entrevistas, as suas medalhas, a vontade de ser polícia quando cresceu num bairro onde os miúdos pareciam condenados a estar sempre do lado dos que desconfiam da polícia.

3. Jorge Fonseca é um dos maiores campeões portugueses de sempre.

Negro.

Patriota ainda assim.

Com vontade de vestir uma farda e de cumprir um desígnio que ele considera ser de bem.

Com vontade de dar o exemplo aos miúdos que, como ele quando era criança, são humilhados todos os dias por serem pretos, por serem pobres, por não terem hipótese de ter uma vida digna.

E quando a PSP (e o Estado português) pode usar o trunfo de ter um campeão mundial e medalhado olímpico a usar uma farda chumba-o burocraticamente num exame de cultura geral?

4. O mesmo exame de cultura geral que não impediu que dezenas de agentes da PSP tivessem estado envolvidos em manifestações de cariz populista, racista e até fascista.

O mesmo exame de cultura geral que não impediu que energúmenos pudessem ser polícias é agora impeditivo de Jorge Fonseca poder cumprir o sonho da sua vida?

É só ridículo.

E um crime atentatório contra a própria PSP que perde a possibilidade de ter uma referência absoluta nos seus quadros – como é possível e de quem é a responsabilidade?

5. É que não são apenas as medalhas.

Não me esqueço da lágrima que lhe caiu na cara quando recebeu a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos.

Uma lágrima triste, mas ainda assim feliz. Forte, mas ainda assim frágil. Sedenta de futuro, mas ainda assim magoada com um passado em que nada lhe foi dado de borla.

Comeu o pão que o diabo amassou.

Tantas portas que se fecharam na cara, tantos sonhos que carregava numa infância na Amadora.

Era pobre, era preto, era dos subúrbios.

Jorge, o nosso Jorge, que me fez chorar com aquela lágrima de uma tristeza feliz. Porque ele estava condenado a não ser, mas conseguiu subir ao céu em vida.

Aquela lágrima ao ver a bandeira portuguesa, aquela medalha que ele quis tanto que fosse de ouro para poder ser finalmente abraçado por um país que ama, o seu país, que tantas vezes ele achou que o via como um estrangeiro, um indesejado.

6. Jorge Fonseca, bicampeão do mundo, medalhado olímpico e esperança para o ouro nos próximos Jogos, atingiu o topo dos topos. Foi recebido e condecorado pelo Presidente da República, mas não pode ser polícia por ter chumbado no teste de cultura geral.

1.200 lugares em aberto, mas os “mangas de alpaca” que decidem já o excluíram de qualquer possibilidade de poder ser escolhido.

Que tenha a palavra o poder político.

TSF
Por Luís Osório
20 Setembro, 2022 • 18:13



 

311: Siza Vieira pode agora partir descansado – tudo ficou saldado

– Como eu compreendo esse estado d’alma…

1. Deve ter-lhe sido muito doloroso doar as obras de Maria Antónia.

Afinal, as pinturas, as gravuras, os desenhos, bordados e cartas, eram o que Álvaro Siza Vieira guardava de mais valioso da mulher da sua vida.

2. Mas antes de vos falar sobre ela deixem-me contextualizar.

Conheci Siza num jantar em casa da pintora Armanda Passos, numa casa desenhada por si que fica, curiosamente, a dois passos de Serralves onde agora testemunhámos o talento fulgurante de Maria Antónia.

Disse-me, entre cigarros e whisky, que nos seus esquissos iniciais nunca se lembrava de desenhar janelas, as janelas só lhe chegavam depois, nunca no momento em que deixava a mão tocar intuitivamente a página em branco.

Perguntei-lhe se o podia definir como o homem que apenas é capaz de projectar casas para os outros serem felizes.

Respondeu-me que preferia definir-se como um “homem solitário com uma televisão ligada”.

3. Desde a morte de Maria Antónia que foi assim.

Teve de sobreviver, os miúdos eram adolescentes e ele precisou de seguir em frente, não havia outra hipótese.

Sobreviver, enganar o ruído da ausência, ligar a televisão todos os dias, desenhar para que o trabalho ocupasse o espaço vazio.

Um espaço que era único. O jazz a dois, verdadeiro pacto de liberdade. Os filmes e as canções, os projectos discutidos pela noite.

A felicidade do nascimento dos seus dois filhos, o Álvaro e a Joana.

O orgulho que tinham no talento um do outro.

E sonhavam com um Portugal que fosse livre.

Mas Maria Antónia não viu a ditadura a desmoronar-se.

Morreu em 1973, tinha 32 anos.

Álvaro Siza Vieira criou os filhos e depois de criados tornou-se um homem solitário, um homem que desenha pela noite e se esquece das janelas quando o desenho é livre e instintivo.

4. O arquitecto dos arquitectos doou o que dela tinha.

Talvez se tenha esvaziado da matéria que o prendia.

Esteve na inauguração da exposição de Maria Antónia a quem chamava Tótó. Ouviu os aplausos, leu as críticas, comoveu-se.

As cartas.
As pinturas.
Os desenhos.

Siza seria capaz de falar sobre cada um deles.
Porque cada um deles é uma marca de memória, de saudade, de raiva também, de incredulidade.

5. Maria Antónia não viu o 25 de Abril.

Não viu os filhos a crescer.

Não fez as viagens que existiam na sua cabeça.

Não se tornou o que tantos e tantas vaticinavam.

Mas Siza Vieira ficou por cá e tudo está saldado.

Tudo se completou agora, tudo fez agora sentido.

As portas de Serralves abriram-se para a aplaudir quase 50 anos após a sua morte. Para aplaudir o seu brutal talento, a sua sede de futuro e urgência de escuta.

As portas de Serralves abriram-se também para celebrar os que ficaram, os que nunca a esqueceram, os que continuaram a viver com ela de uma outra maneira.

Os dois filhos.
E Siza, o genial Siza Vieira, o arquitecto dos arquitectos que, a partir de agora, já não precisa de ligar a televisão quando chegar a casa.

Apostaria que todos os ruídos que existiam dentro de si se tornaram silêncio e apaziguamento.

TSF
Por Luís Osório
19 Setembro, 2022 • 18:19



 

289: Os pais das vítimas do Meco voltaram a acordar a meio da noite

1. Estreou na plataforma de streaming da SIC uma série baseada na terrível tragédia do Meco que, na noite de 13 de Dezembro de 2013, vitimou seis caloiros da Universidade Lusófona.

A maioria dos portugueses recorda-se de muito do que se disse na altura. Da indignação, dos abaixo-assinados contra as praxes, das lágrimas e do choque dos pais, das promessas de justiça, da raiva contra os idiotas que organizam todos os anos potenciais tragédias em algumas das universidades do país.

Como muitos fiquei chocado com as notícias.

Vi as fotografias em vida daqueles seis miúdos.

Catarina.
Carina
Joana
Andreia
Pedro
Tiago

E do João Gouveia, o “dux” ou lá o que é.
O único que sobreviveu.
O que foi ilibado em tribunal por não se ter provado que não fora um acidente.

2. A série que agora estreou na plataforma da SIC é legítima. A ficção pode e deve imaginar a partir de factos reais, há inúmeros exemplos e não valerá a pena argumentar com o óbvio.

Mas também é verdade que existe a obrigação moral de se ser digno. De se ser sério, justo e moralmente inatacável quando se abordam histórias que envolvem um sofrimento para lá da conta.

Os pais daqueles seis miúdos souberam da série quando viram os trailers e a informação nas revistas.

Souberam-no quando viram actrizes e actores a fazer o papel dos seus filhos, dos miúdos que não voltaram para casa.

Passaram menos de dez anos pelos dias em que os miúdos se tinham matriculado e estavam felizes. Alguns nunca tinham namorado, viajado para fora do país ou encontrado razões para duvidar que eram eternos e indestrutíveis como todos os que têm tanto futuro e tão pouco passado.

Tinham todos menos de vinte anos.

3. A série produzida pela SIC chama-se Praxx. É legítima e certamente que por lá passarei.

Não é a sua legitimidade que está em causa.

O que está em debate é o telefonema que não foi feito, o aviso aos pais, uma coisa que sendo desagradável e incómoda era bastante simples.

“Olhe, a SIC irá produzir uma série a partir da tragédia do Meco, da tragédia do seu filho ou da sua filha”.

Ou, para ser menos polémico.

“Olhe, a SIC irá produzir uma série sobre praxes. Poderá encontrar paralelismos com a história do seu filho, mas é uma obra de ficção. Que esperamos possa sensibilizar o país para este tema”.

Era o mínimo.

Porque aqueles pais e aquelas mães continuam certamente a acordar a meio da noite com qualquer barulhinho. Continuam certamente a achar que os seus filhos os despertarão com o barulho da chave na fechadura. Continuam no mais ínfimo pensamento a acreditar que se trata de um pesadelo, que os seus filhos não se afogaram na praia do Meco naquela noite de quase Natal.

4. Não custava nada.

E eu, que admiro o talento do director de programas da SIC, que reconheço a capacidade e a liderança de Daniel Oliveira, não posso deixar de lhe dizer que a sua resposta à polémica foi lamentável.

“Compreendo os pais e as associações, mas é uma obra de ficção. E não está relacionada com aquilo que aconteceu no Meco.”

Daniel Oliveira um dia compreenderá uma coisa boa. É que ele é mais do que o director de programas da SIC. Criou uma marca baseada na empatia que é apenas sua, a sua marca de água, o seu privilégio.

Nas suas entrevistas há longos anos ele oferece a possibilidade de o país poder abraçar o que nas histórias das pessoas é sombra, tragédia, medo, culpa.

Por isso, não poderia ter dito o que disse.

Porque a série, sendo legítima, baseia-se no que aconteceu naquela praia do Meco, basta ver o trailer.

E aqueles seis miúdos têm pais e mães.
Que não mereciam não ter sido informados.
Que não merecem ser ludibriados com mentiras tácticas.

Era apenas isso.
Empatia.
Respeito pela dor.
Respeito pelo que andamos aqui a fazer.

Por vezes esquecemo-nos do essencial
E essa é a semente da destruição do que nos faz maiores.

TSF
Por Luís Osório
16 Setembro, 2022 • 18:20



 

269: Na coroação de Carlos não encontrei Diana

– Já fedem as notícias sobre a morte de Isabel II. Jornalixos e TVlixos nacionais, ainda não pararam de noticiar a sua morte. Basta! Não existem notícias mais prementes para irem para o ar? A fome e as doenças que grassam pelo mundo, atingindo desde crianças a idosos; as guerras cometidas por invasores que se julgam deuses e que possuem poder bélico para assassinar civis inocentes, sem que por isso sejam condenados?

OPINIÃO

1. Não acredito em príncipes e princesas.

Não acredito no privilégio dos bem-nascidos, dos ungidos por Deus, dos que crêem em direitos adquiridos por terem nascido no lado certo da margem.

Acredito no ser humano com a mesma força que nele desacredito.

Acredito que todos merecem as mesmas oportunidades, que todos deveriam ter as mesmas oportunidades. Mesmo os que nascem em barracos feitos de miséria e condenação.

2. Não acredito em príncipes e princesas, mas a única princesa que desejei rainha não assinou os papéis para agora se sentar no trono.

Diana, a triste e luminosa Diana que chegou ao palácio assumindo as suas diferenças, assumindo desejar viver, desejar conhecer o mundo, abraçar os pobres abraçando-os mesmo, abraçar os doentes e ostracizados, mas abraçando-os mesmo.

Procurei-a entre as notícias da coroação de Carlos, mas não encontrei a doce Diana, a única a quem chamaria sem esforço, “Sua Majestade”.

3. Diana, a primeira mulher com uma dimensão pública global a abraçar um seropositivo quando a SIDA ainda era vista pela maioria como um castigo divino.

Quando o mundo fugia dos seropositivos, ela fez questão de tocar e ser tocada por um doente que estava a morrer. Fê-lo na inauguração da primeira clínica em Inglaterra a tratar exclusivamente doentes com SIDA, em 1987.

Como fez questão de ser a primeira a ir a Angola denunciar as minas terrestres. Não me esqueço das crianças mutiladas nos seus braços.

Fazem ideia do que isso significava na altura?

E a coragem que era necessária para o fazer?

4. Diana não esteve nas cerimónias.

Não será rainha.

Mas será a minha rainha, como são reis e rainhas todos os que ousam ser livres pagando o preço por isso.

As pessoas que fazem acontecer, que desafiam o status quo, que não se colocam fora do mundo, que não vivem numa bolha e que têm verdadeira empatia pelos outros, pelo sofrimento dos outros.

Uma princesa que viveu atormentada e em tormento, mas sem nunca perder o brilho de uns olhos que a distinguiam e nos faziam acreditar que com ela nos podíamos identificar.

5. Morreu a Rainha Isabel II.

Carlos, o seu filho mais velho, é o Rei.

As televisões têm feito directos atrás de directos.

Em Portugal os directos atrás de directos são esmagadores.

E incompreensíveis.

O jornalismo e as audiências.

A confusão de palcos.

As fronteiras todos os dias mais ténues, o puro entretenimento mascarado de rigor.

Especialistas de protocolo, especialistas de monarquia inglesa, especialistas de Parker Bowles, especialistas de Windsor e Balmoral.

As pessoas entretidas em permanência.

O jornalismo passou a ter a obrigação de agradar, de manter as pessoas com a televisão ligada, o jornalismo televisivo passou a ser, demasiadas vezes, um prolongamento dos programas de entretenimento.

6. Digo-o sem saudosismos.

É isto.

Horas infindas a cantarem cantigas de príncipes e princesas, histórias de encantar, pequenas pulhices também, estimular as audiências com pequenas e grandes invejas, sonhos, tudo.

Mas sem a Diana.

A única princesa a quem chamaria “Sua excelência”.

A Rainha sem trono.

A Rainha com um trono do tamanho do mundo.

TSF
Por Luís Osório
13 Setembro, 2022 • 17:25



 

259: O sexo na cabeça de Henrique Raposo

– Deparei-me com este Postal do Dia, de Luís Osório, por mero acaso porque nem sou leitor ou ouvinte da TSF. Mas um artigo com o título “Pensões de reforma: a palavra de António Costa não conta“, de Henrique Raposo, chamou-me a atenção pela forma como o mesmo se encontrava escrito.

OPINIÃO

1. Li um texto de Henrique Raposo, no Expresso.

Um texto sobre os transexuais que, de repente (palavras suas) querem ser mulheres iguais a todas as outras.

Na sua opinião esse desejo é um desrespeito pela mulher e pelas “lutas feministas que ainda estão em curso”.

O Henrique fala da falta de útero e fala também do sofrimento que um transexual nunca conseguirá compreender – o sofrimento de não ter de se preocupar todos os meses com a menstruação e as suas dores.

2. É um texto profundamente ofensivo.

Muitos poderão dele gostar – não há como um texto idiota de um intelectual num jornal de referência para acicatar os ânimos dos que não suportam o mundo virado do avesso – um mundo entregue aos bichos e às bichas, aos freaks, aos homens que põem mamas, aos homens ou mulheres que fazem operações, aos “maricas” que influenciam o curso das políticas e da cultura.

Henrique Raposo talvez não o pense desta maneira, mas basta passear pelas caixas de comentários para perceber que há malta que apenas está à espera para sair à rua esganada de maus pensamentos e ressentimento.

3. Vamos lá a ver.

Uma mulher não é uma mulher por ter o período.

Ou por poder ou não ter filhos.

Extraordinário como Henrique Raposo consegue escrever um texto tão ortodoxo, de um bafiento conservadorismo, assumindo estar a defender as lutas feministas ainda em curso – isso é, ainda assim, o que realmente agride pela falta de seriedade.

O resto é apenas tolo.

Um transexual não pode ser mulher por não ter o período.

E por não ter um útero.

Que terrível a constatação de que para esta cabeça uma mulher se define pelo sangue que lhe corre pelas pernas e pelo útero que o homem não pode ter.

Sendo Henrique Raposo um católico empenhado nos temas da Igreja dá ideia de que não lhe é suportável existirem mulheres que assim se assumem sem pagar o preço que Deus decretou até ao fim dos tempos: uns dias de impureza para sofrerem em paga do que fizeram no Jardim do Éden num pacto com a maldita serpente.

4. Não, caro Henrique Raposo.

Ser mulher não é apenas isso.

Ser mulher é tudo o que existe apesar disso.

Como ser homem não é apenas ter uma pila.

Ser mulher ou ser homem é sempre o que nos vai por dentro.

É sempre o que somos por dentro.

Diz o Henrique que os transexuais “de repente” não podem querer ser uma mulher como as outras.

“De repente”?

Porventura fará alguma ideia do sofrimento e do preço que tantos tiveram de pagar?

Do que os rapazes tiveram de sofrer nas escolas que frequentaram? Dos que os gozaram, do que foram agredidos, escarrados, humilhados?

Dos que morreram espancados em esquinas até à morte como Gisberta?

Do que tiveram de sofrer em casa por serem vistos como maricas pelos pais, como aberrações e uma vergonha para a sua família?

Dos empregos que não tiveram, da fome que passaram, do que tiveram que fazer?

Dos que não aguentaram o sofrimento e se enforcaram, atiraram de pontes ou se asfixiaram com comprimidos?

O Henrique Raposo tem a coragem de escrever “de repente”?

Grandes malucos os transexuais!

Gostam de ser espancados, violados e tudo o resto apenas para poderem gritar ao mundo que são mulheres.

5. Tanta missa, tantas leituras, tanta hóstia e tanto Papa Francisco, mas depois esta desilusão de não saberem nada sobre o ser humano e as suas contradições e paradoxos.

Talvez o Papa Francisco um dia o possa ensinar.

Talvez a ele o oiça e volte atrás com o que escreveu.

“De repente”, parece-me uma excelente ideia.

TSF

Postal do Dia © DR
Luís Osório
03 Junho, 2022 • 22:45