720: A causa das causas

OPINIÃO

A quantos debates se tem assistido sobre o afastamento dos eleitores da vida pública? Quantas infindáveis teorias e teses foram já redigidas sobre a falta de comparência dos cidadãos? Entre a análise dos porquês, especialmente junto dos mais novos, importa perceber as causas do seu afastamento e do que move esta nova geração.

Na semana passada os jovens saíram à rua para lutar contra as alterações climáticas. A mancha de juventude viu-se um pouco por todo o lado e foi “curiosamente” na mesma semana em que se falou da revisão do texto máximo da República.

Portanto, da saída à rua dos jovens em defesa do seu ideal e do futuro colectivo, à sensação que os mesmos apenas se representam nas redes sociais, há uma grande distância. Os nativos digitais são efectivamente fortes nas redes, mas também muito atentos aos detalhes da vida quotidiana que os rodeia.

As novas gerações saem da “bolha virtual” tal e qual como as anteriores o fizeram quando havia que lutar por algo maior do que cada um.

Sem pretender entrar na discussão do que motivou a saída à rua e o respeito que essa merece, importa talvez realçar a amplitude e peso dessa causa colectiva. Afinal de contas ainda vigora a semana da COP 27, onde com mais ou menos bluff se discute o futuro de todas as gerações e espécies do planeta.

Paralelamente, essa foi também a semana em que se deu início ao debate político sobre a Revisão Constitucional. Nesse, um dos temas chave é a mudança da idade do voto, dos 18 para os 16 anos.

A proposta é, no mínimo, intrigante. Por exemplo, nos Estados Unidos da América é possível obter a carta de condução aos 16 anos em vários estados. O mesmo já não se verifica para o exercício do voto com a mesma idade. Os poucos estados que o autorizam permitem-no apenas ao nível das eleições locais.

Quer isto dizer que nos EUA, onde se conduz aos 16 anos na generalidade dos estados, ou se pode comprar uma arma aos 18 (de acordo com a última legislação aprovada), só se pode votar aos 18 anos.

Já na Europa, à excepção do Reino Unido onde se conduz aos 17, para votar aos 16 só mesmo na Áustria, Escócia ou Malta. Os restantes países europeus só permitem o voto aos 18 anos de idade.

Sem retirar mérito à questão (bem pelo contrário), pergunta-se: porque é que Portugal quer permitir que jovens de 16 anos votem quando não os deixa conduzir com a mesma idade?

A resposta pode ser mais simples do que parece: estes jovens são os mesmos que, de facto, estão realmente interessados no que os rodeia, ou seja, nos tópicos mais prementes da sociedade.

O que por vezes sucede é uma espécie de conflito geracional, no qual eles e as gerações anteriores discordam no timing e na hierarquização dos assuntos. Assim, por todas as razões, é preciso estar atento e, acima de tudo, dar voz a quem dela faça uso. Só desse modo se apreenderá a causa das causas.

Advogado, membro da Comissão Nacional do Partido Socialista

Diário de Notícias
Manuel Portugal Lage
14 Novembro 2022 — 17:55



 

363: Lisboa sem lugar à mesa

OPINIÃO

Há um ano os portugueses encontravam-se nas urnas a expressar o seu voto nas eleições autárquicas. Com os efeitos da pandemia a acalmar e um governo nacional impedido de levar o seu mandato até ao fim, tudo parecia encaminhar-se para o mesmo rumo que as eleições italianas testemunharam ontem.

Independentemente de ser ter assistido a algumas mudanças de cores, nalguns casos muito significativas, o que se passou em Lisboa não deve ser esquecido: contra todas as expectativas, a coligação de direita liderada por Carlos Moedas venceu as eleições.

Quase de imediato, anunciaram-se “novos tempos” e novos ventos. Segundo essas promessas, tudo seria diferente e Lisboa iria conhecer inovação sem precedentes. Todavia, a realidade rapidamente tomou conta do sonho e dos compromissos apregoados.

Perante um novo edil experiente e internacionalmente reconhecido (como o próprio tanto gosta de se autoproclamar), os lisboetas depressa ficaram a conhecer a outra face da moeda de Moedas: um presidente sem maioria e incapaz de construir pontes e consensos, de dialogar com a oposição, optando sempre por um bom momento de televisão em detrimento de uma produtiva reunião de Câmara ou de Assembleia Municipal.

Ao invés da resolução dos problemas usuais da cidade, absolutamente expectáveis num período pós pandémico e no qual o turismo voltou em força, assiste-se a uma novela repetitiva onde o presidente da câmara é uma vítima constante, oprimido por todas e todos.

Esse mesmo presidente, em vez de fomentar e praticar uma política de consenso, prefere criticar a oposição que lhe aprova (a bem da Cidade) mais de 97% das propostas. Cada vez que algo não lhe corre à feição ou se esqueceu de preparar previamente um dossier, lá vem a martirização e as saídas para a comunicação social. Tudo é uma opção viável desde que não envolva sentar-se à mesa e resolver os verdadeiros problemas dos lisboetas.

Não há dúvidas que Lisboa vive há um ano “novos tempos”, tempos esses conturbados e com uma câmara inábil perante os diversos desafios de gestão da capital do país. Os problemas exigem uma abordagem estrutural, na qual todos são parte integrante para chegar às soluções. Contudo, o que se percebeu é que nestes tempos novos apenas há espaço para as vontades e birras de uma só pessoa.

Mesmo com este cenário adverso, afirmar que nada foi feito seria desmerecido. É justo elevar os grandes feitos desde há um ano para cá, até porque são na verdade o legado que ainda subsiste do passado recente. Porque o espaço é limitado, ficam dois exemplos concretos: o Plano Geral de Drenagem e a atribuição de mais de uma centena de chaves de casas na cidade.

Quer isto dizer que um ano passou e Carlos Moedas ainda procura o seu espaço, a sua vocação e afirmação. A mais recente prova disso mesmo foi a polémica do aeroporto de Lisboa, onde o autarca da capital quase implorou por um lugar à mesa.

Sucede que nas negociações entre o Governo e o PSD, Luís Montenegro optou por se fazer acompanhar do Vice-Presidente da Câmara de Cascais em vez do Presidente da Câmara de Lisboa. O que daí se conclui? Que sem saber se houve murro na mesa, sabe-se que não houve Lisboa à mesa, o que diz muito sobre estes novos tempos em que vivemos.

Felizmente, no meio desta desorientação de Moedas, a oposição está norteada e conhece bem o seu desígnio: contribuir para que Lisboa não fique pior. Moedas, como sempre, conte connosco.

Diário de Notícias
Manuel Portugal Lage
26 Setembro 2022 — 17:02

(Manuel Portugal Lage é membro da Comissão Nacional do Partido Socialista)