701: Uma Polónia independente como fundamento da segurança do Ocidente

OPINIÃO

11 de Novembro de 1918. A Polónia recuperou a sua independência. 123 anos antes, a Primeira República tinha deixado de existir como resultado de um acordo entre três potências – Rússia, Prússia e Áustria. A Polónia não aparecia nos mapas por 123 anos, mas existia nos corações dos polacos.

Durante 123 anos de subjugação, os polacos tentaram de várias formas construir a sua autonomia, lutaram pela liberdade em numerosas revoltas, mas só a Primeira Guerra Mundial criou as condições geopolíticas para a reconstrução de um Estado independente e soberano.

A história da queda e do renascimento da Polónia após 123 anos é um conhecimento elementar para cada polaco. Infelizmente, essa história é bastante desconhecida no Ocidente. Entretanto, estamos a falar da destruição de um dos maiores países do continente.

A República das Duas Nações (Rzeczpospolita Obojga Narodów – como era chamado o país) foi atacada e assolada pelos seus vizinhos. Não só a nação polaca, mas também os povos lituano e ucraniano foram levados cativos.

A Primeira República foi o primeiro projecto republicano tão desenvolvido na Europa. Enquanto a experiência ocidental da modernidade se baseava no desenvolvimento de um Estado forte e centralizado, a Polónia queria ser um país mais descentralizado e com maior liberdade para os seus cidadãos.

Este projecto não era isento de falhas e acabou por ser destruído em confronto com a força bruta dos partidores. Ao mesmo tempo, a ambição do projecto de criar um espaço para a coexistência de muitos povos e culturas continua a ser relevante nos dias de hoje. Este caminho alternativo de modernidade poderia ser uma inspiração para a UE de hoje.

“A consciência das ameaças desenvolveu nos polacos um sentido geopolítico específico – uma precaução que nos torna mais capazes de ver os desafios e as ameaças que nos esperam. Ao longo dos séculos, aprendemos a estar atentos.”

Na Polónia, celebramos a restauração da independência a 11 de Novembro. No dia 10 de Novembro de 1918, Józef Piłsudski, o homem que mais contribuiu para a libertação do país, chegou a Varsóvia. No dia seguinte, a Primeira Guerra Mundial terminou. Todavia, para a Polónia, foi apenas o início da luta.

O jovem país enfrentou ameaças tanto do leste como do oeste durante os próximos dois anos. Nem a Rússia revolucionária, nem a Alemanha concordaram com a independência da Polónia. Já no ano 1920 o Exército Vermelho esteve às portas de Varsóvia.

Ao mesmo tempo, a propaganda alemã declarava que a Polónia era apenas um Estado temporário. Parecia que o destino da Segunda República inevitavelmente caminhava para a sua conclusão. No entanto, aconteceu o contrário. O Exército de Piłsudski opôs-se à invasão bolchevique e salvou não só a Polónia, mas toda a Europa.

Há uma semelhança impressionante na história da luta polaca pela independência com a luta que a Ucrânia está hoje a ter com a Rússia. A propaganda de Putin está também a tentar provar que a Ucrânia como Estado independente não tem razão de existir e que a própria nação ucraniana não existe.

Em Fevereiro, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, ninguém pensava que os ucranianos pudessem ganhar. O seu destino parecia inevitavelmente caminhar para a sua conclusão. No entanto, aconteceu o contrário.

Os destinos da Polónia e da Ucrânia provam que a História não é uma armadilha da qual não se pode escapar, e que mesmo a super-potências mais poderosa deve considerar a força de uma nação que anseia por liberdade. A nossa história muitas vezes tem mostrado aos que acreditavam no darwinismo histórico que estavam errados.

Há quem considere o posicionamento da Polónia no mapa do mundo como uma maldição. No entanto, em vez de uma maldição, preferiria falar de uma bênção. A consciência das ameaças tem cultivado um sentido geopolítico específico nos polacos – uma precaução que nos torna mais capazes de ver os próximos desafios e ameaças.

Não é por acaso que a Polónia foi a primeira a alertar para que o ressurgimento do imperialismo russo estava a acontecer. Ao longo dos séculos, aprendemos a estar atentos.

Esta atenção também nos faz tratar a independência como uma tarefa contínua a ser cumprida. É por isso que num futuro próximo gastaremos 3 por cento do PIB em segurança.

É por isso que construímos o Baltic Pipe, um gasoduto que atravessa o Nord Stream, contra os interesses russos. É por isso que estamos a investir na construção de centrais nucleares. A questão da independência está hoje a ser decidida em muitas frentes, e a protecção das fronteiras é apenas uma delas.

Preocupamo-nos com a independência polaca não só por um sentido de responsabilidade para com as futuras gerações de polacos. Como líder do flanco oriental da NATO, protegemos toda a aliança. Assim como há 100 anos, hoje o Ocidente também pode contar com a Polónia.

Primeiro-ministro da República da Polónia.

(Texto publicado em conjunto com a revista mensal polaca Wszystko co najważniejsze – O Mais Importante – num projecto histórico com o Instituto de Memória Nacional e a Fundação Nacional Polaca).

Diário de Notícias
Mateusz Morawiecki
14 Novembro 2022 — 00:00