893: Meteorito reforça a tese de que a água da Terra veio do Espaço

CIÊNCIA/ESPAÇO/ÁGUA

Um meteorito que caiu na cidade de Winchcombe, no sudeste da Inglaterra, no ano passado, continha água que correspondia quase perfeitamente com a existente na Terra.

Museu de História Natural
Um dos fragmentos recuperados do meteorito Winchcombe.

Isso reforça a ideia de que rochas do Espaço podem ter trazido componentes químicos importantes, incluindo água, para o nosso planeta no início da sua história, há mil milhões de anos. Este meteorito é considerado o mais importante alguma vez recuperado no Reino Unido.

Os cientistas, que acabaram de publicar a primeira análise detalhada, dizem que o objecto rendeu informações fascinantes.

Mais de 500g de detritos escuros foram recolhidos de jardins residenciais, calçadas e campos depois de uma bola de fogo gigante iluminar o céu nocturno de Winchcombe.

Os restos fragmentados foram cuidadosamente catalogados no Museu de História Natural de Londres e depois emprestados a equipas de toda a Europa para serem investigados.

A água representava até 11% do peso do meteorito — e continha uma proporção muito semelhante de átomos de hidrogénio à da água na Terra.

Alguns cientistas dizem que quando a Terra era jovem era tão quente que teria expelido grande parte do seu conteúdo volátil, incluindo água.

O facto de a Terra ter tanta água hoje — 70% da sua superfície é coberta por oceanos — sugere que deve ter havido um acréscimo posterior.

Alguns afirmam que isso pode ser proveniente de um bombardeio de cometas gelados — mas a composição química deles não coincide tanto. Mas os condritos carbonáceos — meteoritos como o de Winchcombe — certamente coincidem. E o facto de ter sido recuperado menos de 12 horas após a queda significa que absorveu muito pouca água terrestre, ou até mesmo quaisquer contaminantes.

“Todos os outros meteoritos foram comprometidos de alguma forma pelo ambiente terrestre”, diz Ashley King, co-autor principal do estudo, do Museu de História Natural de Londres, à BBC News. “Mas o de Winchcombe é diferente por causa da rapidez com que foi recolhido”.

“Isso significa que, quando analisamos (o meteorito), sabemos que a composição que estamos a ver leva-nos de volta à composição no início do Sistema Solar, há 4,6 mil milhões de anos”.

“Fora buscar amostras de rocha de um asteróide com uma nave espacial, não poderíamos ter um espécime mais intocado”.

Trajectória precisa

Os cientistas que examinaram os compostos orgânicos que continham carbono e azoto do meteorito, incluindo os seus aminoácidos, tiveram uma imagem igualmente nítida. É o tipo de química que poderia ter sido matéria-prima para a biologia começar nos primórdios da Terra. A nova análise também confirma a origem do meteorito.

As imagens dos vídeos da bola de fogo permitiram que os investigadores elaborassem uma trajectória muito precisa. Um cálculo retroactivo indica que o meteorito veio da parte externa do cinturão de asteróides entre Marte e Júpiter.

Outros estudos revelam que se desprendeu da parte superior de um asteróide maior possivelmente devido a uma colisão.

De seguida, levou apenas de 200 mil a 300 mil anos para chegar à Terra, conforme revela o número de átomos específicos, como o néon, criados na matéria do meteorito através da irradiação constante de partículas espaciais de alta velocidade, ou raios cósmicos.

“0,2 a 0,3 milhão de anos parece muito tempo — mas, do ponto de vista geológico, é realmente muito rápido”, explica Helena Bates, do Museu de História Natural de Londres.

“Os condritos carbonáceos precisam chegar rapidamente aqui ou não sobrevivem, porque são tão quebradiços, tão frágeis que simplesmente se desintegram”.

“Mais segredos”

A primeira análise dos cientistas, publicada na edição desta semana da revista Science Advances, é apenas uma visão geral das propriedades do meteorito de Winchcombe.

Mais uma dúzia de artigos sobre temas mais específicos devem ser publicados em breve em uma edição da revista Meteoritics & Planetary Science.

E não deve parar por aí.

“Os investigadores vão continuar a estudar este espécime nos próximos anos, desvendando mais segredos sobre as origens do nosso Sistema Solar”, afirmou Luke Daly, co-autor do estudo, da Universidade de Glasgow, na Escócia.

ZAP // BBC
23 Novembro, 2022



 

649: O mistério de um meteorito de Marte que faz os porcos vomitarem

CIÊNCIA/MARTE

Em 1929, o meteorito Lafayette, uma rocha marciana que caiu na Terra, foi encontrado numa gaveta da Purdue University, em Indiana (EUA). Mas o que estava a fazer aquela rocha ali? Ninguém fazia menor ideia. Quase 100 anos depois, um cientista escocês, de Glasgow, estabeleceu uma estreita ligação com uma toxina que fazia os porcos vomitarem.

Curiosamente, o meteorito Lafayette é uma das poucas rochas marcianas a ter caído na Terra. Estudos recentes sugerem que esta rocha interagiu com uma salmoura hidrotérmica com uma temperatura até 150 °C, possivelmente numa cratera de impacto há 700 milhões de anos. Contudo… ainda não estava tudo descoberto!

Toxina de vómito de porco é a chave para o mistério do meteorito marciano

De acordo com uma teoria, o meteorito marciano foi trazido por um estudante negro (precisão importante) que o viu pousar numa lagoa enquanto pescava. No entanto, nada parecia confirmar esta hipótese antes de Áine O’Brien, geoquímica da Universidade de Glasgow, iniciar a investigação após receber em 2020 parte do meteorito localizado no Museu de História Natural de Londres.

O objectivo original da experiência era realizar uma espectrometria de massa para obter evidências sobre a possibilidade de vida em Marte. Mas foi bem diferente:

Acabamos com uma lista de centenas de compostos químicos diferentes. A maioria deles tinha nomes muito longos e chatos, mas um em especial chamou-me a atenção: vomitoxina.

Referiu a investigadora, Aine O’Brien da Universidade de Glasgow.

O’Brien descobriu mais tarde que este composto estava presente num fungo que contamina cereais como milho, trigo e aveia. No entanto, ao ingerir estes alimentos em momentos específicos, os suínos foram consideravelmente afectados pela propriedade emética (que provoca o vómito) dessa toxina.

A investigação realmente começou quando a geoquímica mencionou a vomitoxina ao seu supervisor.

Ele sugeriu que este fungo poderia estar a afectar as plantações no Indiana. E de facto acabou por se tornar um fenómeno enorme nesse estado americano. Foi assim que nasceu a investigação.

Referiu a investigadora.

Dra Áine O’Brien, da Universidade de Glasgow, no laboratório do Centro de Investigação Ambiental das Universidades Escocesas (SUERC) (Crédito fotográfico: Universidade de Glasgow / Chris James)

De Glasgow a Indiana

Foram os registos da prevalência do fungo no condado de Tippecanoe, Indiana, que revelaram ser este o elemento que causou declínios significativos nos rendimentos das colheitas em 1919 e 1927, a maior queda já registado nos vinte anos anteriores a 1931 (ano em que Lafayette foi identificado como um meteorito marciano).

Resta saber como e por quem Lafayette foi encontrado. E tudo parecia encaixar-se na teoria do aluno.

Primeiro, as equipas rapidamente perceberam que a poeira das plantações afectadas poderia ter transportado a vomitoxina para os cursos de água ao redor. O meteorito marciano poderia, portanto, ter sido contaminado ao cair numa lagoa, como a história implicava.

À medida que descem pela atmosfera da Terra, os meteoritos aquecem e causam um rastro de fogo pelo céu. A equipa de investigação então catalogou avistamentos de bolas de fogo no sul de Michigan e no norte de Indiana. Bingo: um destes eventos foi relatado em 1919 e um segundo em 1927. Tudo parecia coincidir.

Por outro lado, o mistério em torno da identidade do aluno ainda pairava. Dada a condição imaculada da rocha, os cientistas deduziram que ela havia sido recolhida logo após a sua queda, o que significava que o indivíduo estava nos bancos da universidade em 1919 ou 1927.

Da esquerda para a direita: Hermanze Edwin Fauntleroy, Clinton Edward Shaw, Julius Lee Morgan e Clyde Silance

De acordo com os anuários dos estudantes negros matriculados na época listou apenas quatro nomes: Julius Lee Morgan, Clinton Edward Shaw, Hermanze Edwin Fauntleroy e Clyde Silance. Impossível, no entanto, ir mais longe na investigação – no momento, pelo menos.

Esta amostra de meteorito permitiu-nos aprender muitas informações sobre Marte. Então, só por isso, o aluno merece crédito, certo?

Pergunta Aine O’Brien.

Mesmo que a identidade deste homem provavelmente nunca seja conhecida, a geoquímica está feliz por ter conseguido entender como este meteorito poderia ter caído numa gaveta.

Pplware
Autor: Vítor M
10 Nov 2022