“Medida de emergência” da Ajuda contra trotinetas obrigou câmara a negociar lugares de estacionamento

– Se fossem só as trotinetes… Continua a inexistência de medidas de monitorização por parte da Polícia Municipal, a infracções ao Código da Estrada, nomeadamente ao estacionamento selvagem em cima dos passeios, das passadeiras e, principalmente, das paragens dos transportes públicos, fazendo com que a circulação pedonal seja efectuada pela estrada, com risco de vida! Jorge Marques, presidente da Junta de Freguesia da Ajuda, garante que se a situação voltar a piorar não hesitará em recorrer à mesma solução. “Temos a competência e a obrigação de manter as ruas limpas, desocupadas e seguras, como tal faremos isso com trotinetas ou com qualquer outro equipamento que coloque isto em causa”. Esta decisão deveria estender-se às viaturas estacionadas em cima dos passeios, em infracção ao Código da Estrada nos artigos 48º e 49º.!

TROTINETES/PASSEIOS/PASSIVIDADE

O caos nos passeios e passividade das autoridades levou a Junta da Freguesia da Ajuda a levar as trotinetas abandonadas para o depósito de Higiene Urbana. Uma medida que obrigou a maior fiscalização da Polícia Municipal e fez com que a autarquia ouvisse a proposta da junta.

As trotinetas eram recolhidas pelas carrinhas da junta e levadas para o depósito de Higiene Urbana.
© Facebook Junta de Freguesia da Ajuda

“Se não vai com conversa, irá com outras medidas.” Foi com este espírito que Jorge Marques, presidente da Junta de Freguesia da Ajuda, decidiu começar a recolher as trotinetas que se amontoavam nos passeios da Ajuda, depois de tentar, sem sucesso, que Câmara de Lisboa, Polícia Municipal e PSP tomassem medidas para resolver a situação.

Tratou-se de uma solução de emergência da qual resultou a melhoria da circulação pedonal dos moradores, mas também fez com que polícia e as empresas concessionárias destes veículos passassem a ser mais activas.

Permitiu ainda que junta de freguesia e autarquia estejam agora a negociar a colocação de dezenas de espaços legais para o estacionamento das trotinetas.

“Até este ano, não tínhamos este problema na Ajuda não era um problema. Sabíamos que no centro da cidade era muito intenso, mas aqui era pontual e vivíamos bem com isso.

Em Junho ou Julho surgiram um conjunto de circunstâncias que despoletaram uma situação que se tornou completamente impossível de gerir, nomeadamente o verão, o aumento de turistas na cidade e a abertura do Museu do Tesouro Real.

Passou a haver uma procura muito maior de trotinetas na freguesia, tornou-se impossível percorrer algumas das artérias da freguesia. Tínhamos pessoas que caíam constantemente, tinham de ir para a estrada porque havia um amontoado de quatro, cinco ou seis trotinetas”, conta Jorge Marques ao DN.

As trotinetas eram recolhidas pelas carrinhas da junta e levadas para o depósito de Higiene Urbana.
© Facebook Junta de Freguesia da Ajuda

O presidente da Junta de Freguesia da Ajuda diz ter falado, na altura, com Ângelo Pereira, vereador da Câmara de Lisboa para a Mobilidade, com Carlos Moedas, presidente da autarquia, com a Polícia Municipal e até com a PSP para tentar resolver a situação.

“Não via maneira de resolver o problema, as pessoas continuavam a ter dificuldades em usar o espaço público e era até um risco para quem o usava. No fundo, eram objectos que ocupavam indevidamente os passeios.

Por isso, começámos a tratá-los como tratamos qualquer outro equipamento”, contou Jorge Marques, revelando a solução encontrada: “Quando encontramos um televisor no passeio, levamo-lo para o depósito municipal de Higiene Urbana. Foi isso que fizemos com as trotinetas durante umas semanas e pelos vistos surtiu efeito.”

A partir desse momento “a Polícia Municipal passou a aparecer mais vezes, os operadores também começaram a ter mais cuidado com os sítios onde deixavam as trotinetas mal paradas”. “Hoje a relação com as trotinetas é um pouco mais pacífica, não é a melhor, pois ainda se veem trotinetas espalhadas nos passeios, mas já diferente do que tivemos nos meses de Julho e Agosto”, sublinhou.

As trotinetas eram recolhidas pelas carrinhas da junta e levadas para o depósito de Higiene Urbana.
© Facebook Junta de Freguesia da Ajuda

No entanto, Jorge Marques garante que se a situação voltar a piorar não hesitará em recorrer à mesma solução. “Temos a competência e a obrigação de manter as ruas limpas, desocupadas e seguras, como tal faremos isso com trotinetas ou com qualquer outro equipamento que coloque isto em causa”, assumiu.

À espera das bicicletas GIRA

Esta “medida de emergência”, como lhe chama Jorge Marques, teve também o mérito de a junta e a câmara iniciarem uma negociação relativamente à localização de sítios adequados para estacionar as trotinetas. “Fizemos uma proposta de mais de 30 locais que nos pareceram adequados para os utilizadores poderem deixar as trotinetas.

A câmara, entretanto, respondeu-nos e estamos em negociações sobre as várias soluções”, referiu, revelando que está a ser preparada, em conjunto com a autarquia, “uma solução” legal para o estacionamento em determinadas zonas. Jorge Marques indica que, actualmente, existem cerca 15 locais na freguesia.

Quanto às datas para que os novos espaços entrem em funcionamento, o presidente da Junta de Freguesia da Ajuda diz que depende da Câmara de Lisboa. “Estamos a negociar lugar a lugar, até porque alguns deles conflituam com o espaço público e com a perda de estacionamento automóvel”, revela, lembrando que é preciso acautelar todas as situações.

A decisão de recolher as trotinetas das ruas da Ajuda, levando-as para o depósito de Higiene Urbana, suscitou a mais variadas reacções. “Alguns não concordaram porque associavam isto a um ataque às bicicletas e às trotinetas, bem como aos seus utilizadores.

Nada disso, quem nos dera até ter as bicicletas GIRA na Ajuda. Não as temos, mas já fizemos o pedido”, justifica Jorge Marques.

O presidente da junta não sabe quando serão instaladas as estações GIRA na sua freguesia, mas diz ter a promessa do presidente Carlos Moedas e do vereador Ângelo Pereira.

“Não é só importante para a população que cá reside, mas também para uma população flutuante do nosso pólo universitário no Alto da Ajuda com o ISCSP, a Arquitectura. Temos ainda, ao lado, o Instituto de Agronomia, a Veterinária.

São mais de nove mil alunos diariamente, para quem era fundamental a estação e a rede de bicicletas GIRA”, refere Jorge Marques, lembrando que “estas novas bicicletas eléctricas resolvem o problema das inclinações” típicas da freguesia da Ajuda.

ana.meireles@dn.pt

Diário de Notícias
Ana Meireles
06 Novembro 2022 — 00:23

Neste local, chegam a estar trios de trotinetes atravessadas nos passeios, ou caídas no chão.



 

Uso “desenfreado” de trotinetes aumentou “medo de usar o espaço público” em invisuais

– No local onde resido, existem primatas que deixam as trotinetes deitadas no passeio, em diagonal, ocupando toda a largura do mesmo. Só de primatas… E já não mencionando os outros primatas que depois de fazerem o exame de código da estrada e na posse da tão almejada licença de condução, desatam a fazer dos passeios parques de estacionamento, ocupando-os na totalidade, em cima das passadeiras, nas paragens dos transportes públicos, etc.. São os primatas labregos “civilizados”…

SOCIEDADE/TROTINETES

A Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal recebe inúmeras denúncias de acidentes relacionados com o mau uso de trotinetes.

© Pedro Correia/Global Imagens

O uso “desenfreado e sem civismo” de trotinetes aumentou o medo de usar o espaço público nas pessoas invisuais, agudizando o sentimento de isolamento de quem não vê, denunciou esta terça-feira a Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal.

“O que acontece a muitos invisuais é que quando a bengala se apercebe da trotinete já está demasiado perto e o choque já não é evitável. O medo que isto aconteça leva a que muitos invisuais deixem de circular no espaço público”, explicou à Lusa o presidente da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO), Rodrigo Santos.

As dificuldades em circular num passeio público não são de hoje, as trotinetes são só o mais recente item da lista: “É o carro parado só cinco minutos, é a carrinha de caixa aberta que só está a fazer uma descarga, é a mota estacionada em cima do passeio. A juntar a estas, uma mais nova, as trotinetes”, apontou o responsável.

Em muitos municípios, o uso de trotinetes está regulamentando, como acontece, por exemplo, no Porto, onde o regulamento dos Serviços de Partilha em Modos Suaves de Transporte da Câmara Municipal estipula que é “proibida a circulação de veículos de serviços de partilha em arruamentos pedonais, praças, jardins urbanos e passeios”, mas são diários os relatos de desrespeito pela lei.

“Infelizmente, chegam-nos vários relatos de trotinetes a circular nos passeios, em velocidades de automobilismo, em corridas. É muito giro para os turistas mas perigoso para um peão, ainda mais para um invisual. O problema não está na trotinete, mas no uso desenfreado e sem civismo de quem a usa”, salientou.

Rodrigo Santos explicou que “são inúmeros” os acidentes relatados pelos associados da ACAPO: “São várias as mazelas físicas de encontrões, atropelamentos, quedas. E depois há a questão das bengalas que ficam partidas e isso para um invisual é ficar duplamente impedido de ver”, chamou a atenção.

Além das trotinetes a circular, à ACAPO chega outra queixa, as trotinetes mal estacionadas: “É ver junto dos interface de transportes públicos, seja no Cais do Sodré, no Oriente, em Lisboa, seja na Trindade ou em S. Bento, no Porto, as inúmeras trotinetes abandonadas, amontoadas e espalhadas. É em passadeiras, é junto às paragens. Vai além da imaginação”, enumerou.

Segundo o responsável, o mau uso de trotinetes e o desrespeito pelas leis de circulação daquele veículo têm consequências “além das físicas” e “até mais graves”.

“O medo de ter acidentes, de se magoarem, de tropeçarem numa trotinete mal parada leva a que muitos invisuais evitem sair de casa. O que é que isto provoca? Aumenta o sentimento de solidão, isolamento, de falta de integração na vida das cidades. São mazelas que vão muito além das físicas”, denunciou.

Diário de Notícias
DN/Lusa
16 Agosto 2022 — 17:17

53: Portugal inacessível. Pessoas com mobilidade reduzida não entram em lojas e restaurantes

… ““É impossível sair à rua sem encontrar um obstáculo. Por muito que uma pessoa com deficiência planeie o seu percurso, haverá sempre dificuldades… quer seja uma passadeira mal rebaixada ou a falta de acesso ao interior dos estabelecimentos”“… E ainda o mais visível, o estacionamento selvagem em cima dos passeios, das passadeiras, nas paragens dos transportes públicos, bloqueios de portas de prédios, etc.. E que faz a Polícia e as entidades competentes sobre estas infracções, apesar de estarem notificadas? ABSOLUTAMENTE NADA porque os infractores ao Código da Estrada, continuam diária e ininterruptamente a praticar as mesmas infracções, 24 horas por dia, obrigando as pessoas a circularem pela estrada com risco da própria vida! Portugal é uma república de e das Bananas, onde os labregos são reis e senhores dos passeios! O lema desta escumalha é: eu estou bem, os outros que se fodam!

SEGURANÇA PESSOAL/MOBILIDADE REDUZIDA

Falta de acesso a estabelecimentos e discriminação nos transportes públicos são algumas das dificuldades das pessoas com mobilidade reduzida em Portugal.

Em 2018 a associação Savador entregou na Assembleia da República um dossier com reclamações por dificuldade de acessibilidade.
© Orlando Almeida / Global Imagens

Posso não mudar todas as mentalidades, mas se conseguir mudar uma ou duas já causa efeito”. Nuno de Carvalho Mata é utilizador de cadeira de rodas e “dá visibilidade à causa” da falta de acessibilidade que se faz sentir pelos caminhos de Portugal, através das redes sociais.

Recentemente, enquanto passeava pela Baixa de Lisboa, Nuno viu-se numa situação de impotência: não conseguia entrar em praticamente nenhuma loja. Assim, partilhou a história com os seus seguidores, tendo em vista alertar as autarquias e levá-las a tomar uma decisão face às dificuldades de muitos cidadãos com mobilidade reduzida.

Em conversa com o DN, Nuno Mata explica que “Lisboa não é uma cidade muito acessível. Dá para andar de cadeira de rodas na rua apenas nas partes mais planas”. Porém, “o maior problema é o acesso aos estabelecimentos, tais como lojas, restaurantes e cafés… a maior parte não cumpre as leis de acessibilidade”, revela.

No entanto, esta não é uma adversidade específica da cidade de Lisboa, mas sim “um problema transversal no nosso país”, aponta.

Nuno alerta que “todos somos potenciais deficientes e podemos ter um acidente que nos muda a vida”. Assim, é necessário que a sociedade tenha mais consciência e empatia pelas pessoas com dificuldades motoras. “Além disso, somos um país com uma população bastante envelhecida, onde muitos têm dificuldade em aceder a certos sítios”, diz.

Resolver estes problemas é urgente e, segundo Nuno Mata, para se criarem soluções “tem que se começar na base”. “As escolas de arquitectura e engenharia têm de acordar para este problema”, admite. “Semanalmente abrem estabelecimentos novos em Lisboa… muitos fizeram obras e continuam sem as condições de acessibilidade. Tanto no Terreiro do Paço como na Baixa-Chiado, fazem-se constantemente obras e as lojas continuam na mesma”, frisa.

Assim, considera que “as Câmaras Municipais deviam dar incentivos fiscais para os estabelecimentos se adaptarem”. Contudo, isto não chega: “Os responsáveis deviam receber realmente as pessoas com necessidades e perceber o que está a correr mal.

Deviam vir ao terreno e entender quais são as necessidades das pessoas com mobilidade reduzida. Por mais pequenas que sejam as atitudes, os pormenores fazem uma grande diferença”.

As dificuldades das pessoas com mobilidade reduzida são diárias e um ato tão simples como visitar uma loja ou restaurante pode tornar-se um pesadelo. “Em 70% dos casos uma simples rampa resolvia o problema. Para a maior parte das pessoas, cinco centímetros não é nada, mas para alguém como eu isso pode ser um obstáculo ou um muro”, sublinha.

Através da Associação Nuno Mata, pretende alertar para situações do quotidiano em que se evidenciem os (muitos) problemas das pessoas com dificuldades motoras. E mais recentemente, nas redes sociais, tem sido motivo de conversa, com os seus testemunhos que surpreendem os mais distraídos.

Outra associação, a Salvador, tem como missão auxiliar pessoas com mobilidade reduzida. Entre os vários pedidos de ajuda diários, Joana Gorgueira, gestora de projecto na área das acessibilidades da associação, conta que “hoje em dia ainda não existe uma rua completamente acessível em Portugal”.

“É impossível sair à rua sem encontrar um obstáculo. Por muito que uma pessoa com deficiência planeie o seu percurso, haverá sempre dificuldades… quer seja uma passadeira mal rebaixada ou a falta de acesso ao interior dos estabelecimentos”, informa.

Tendo em conta as dificuldades que se sentem na cidade de Lisboa, Joana acredita que “sendo a capital, deveria dar o exemplo neste tipo de situações”. Logo, “tem que existir um bom plano de acessibilidades com áreas específicas de execução.

Isto é, temos que pensar as cidades para toda a gente e planeá-las bem. Além disso, uma fiscalização activa, e não só por consequência de uma reclamação, tem de existir. Tanto em espaços públicos como também em estabelecimentos privados, é essencial acontecer uma mudança”.

Mais importante do que isto, “tem que haver uma mudança de mentalidades da sociedade em geral. As pessoas têm que começar a pensar: se tiver a possibilidade de tornar um espaço acessível, mesmo que a lei não o obrigue, porque não pensar nesse cenário?”.

Joana e Nuno destacam ainda as dificuldades sentidas pelas pessoas de acessibilidade reduzida na calçada portuguesa e alertam para testemunhos de discriminação em transportes públicos – nomeadamente em autocarros e comboios e nos TVDE. “Parece estranho uma pessoa ser discriminada desta maneira, mas ainda acontece”, reconhece Joana.

Apesar de terem sido feitos esforços nos últimos anos para melhorar a acessibilidade, todos concordam que duas coisas são certas: “ainda existe um longo percurso a ser feito” e “Portugal não é um país inclusivo para as pessoas com mobilidade reduzida”.

ines.dias@dn.pt

Diário de Notícias
Inês Dias
16 Agosto 2022 — 00:09