521: Mudança da hora. Depois de 100 anos continua a ser relevante alterar a rotina?

– Em termos pessoais. não tenho qualquer tipo de problema com a mudança da hora duas vezes por ano. É tudo questão de uma pequena adaptação à nossa rotina.

MUDANÇA DA HORA

Duas vezes por ano os portugueses alteram os ponteiros do relógio, marcando o início do horário de verão e inverno. Esta madrugada, o processo repete-se. Astrónomo debate impactos e questiona viabilidade da mudança.

© Pedro Granadeiro/Global Imagens

A partir desta madrugada os dias passarão a ser mais curtos e as manhãs mais luminosas: vêm aí mais uma mudança da hora.

Desde 27 de Março que Portugal Continental e a Região Autónoma da Madeira transitaram para o horário de verão e na madrugada de hoje, assinala-se a entrada oficial na hora de inverno, atrasando-se os ponteiros do relógio 60 minutos quando estes marcarem as 02:00.

Na Região Autónoma dos Açores, esta alteração será feita à 01:00 desta madrugada, passando para a meia-noite.

A mudança da hora é vista pela positiva por muitos, que hoje vêm esta medida como sinónimo de mais uma hora de sono. Para outros nem tanto, uma vez que significa que os dias passarão a ser mais curtos, ficando de noite mais cedo.

A primeira vez que se alterou a hora foi durante a Primeira Guerra Mundial, em 1916, com o intuito se de poupar recursos indispensáveis, como por exemplo o carvão, e potencializar as horas de luz solar. Estando agora a Europa a enfrentar uma situação crítica dado as consequências da Guerra da Ucrânia – nomeadamente uma crise energética – é inevitável manter esta decisão. No entanto, é pertinente ponderar se esta opção continuará a fazer sentido no futuro.

Esta é uma discussão que se mantém há muitos anos e cada vez mais se tem questionado o porquê de se continuar a adiar ou a atrasar os relógios uma hora. Isto porque, se por um lado se ganham horas de luz ao final da tarde, a verdade é que estas se perdem no período da manhã (e vice-versa). Porém, ainda não se chegou a um consenso, havendo especialistas de diferentes áreas que defendem as várias hipóteses.

Gustavo Rojas, especialista em astronomia do NUCLIO – Núcleo Interactivo de Astronomia e Inovação em Educação, conta ao DN que a mudança de horário que ocorre duas vezes por ano é um processo que implica as áreas da saúde, da economia e da ciência em simultâneo. Logo, “não existe um consenso entre os estudiosos, porque há muitos factores a ter em conta”, diz.

Tendo em conta a sua área de estudos, Gonçalo revela que do ponto de vista da astronomia a maior condicionante para esta mudança é “o aumento e a diminuição da luz natural”, sendo assim esta a sua única “preocupação” face à alteração das rotinas.

Contudo, adianta que o factor da iluminação acaba por não ter tanto poder como outrora devido ao uso da iluminação artificial.

“A questão da iluminação natural pode já não ter tanto peso hoje em dia, em comparação ao século XX, quando implementaram esta mudança. Agora já não dependemos exclusivamente da luz natural para iluminar as casas e as ruas, por exemplo”, diz.

Assim, Gustavo Rojas questiona: “Até que ponto esta hora a mais de luz permite as pessoas aproveitarem melhor os dias? Depois de mais de 100 anos, será que os argumentos para mudar a hora ainda continuam relevantes?”. “Tudo é muito debatível”, considera.

O astrónomo sublinha ainda as implicações desta situação na saúde e bem-estar da população, podendo causar perturbações no sono e desregular o corpo humano.

“Dividir os nossos ritmos duas vezes por ano interfere muito no nosso ritmo circadiano, que é associado ao período de luz e regula o nosso sono”, clarifica.

Peritos pedem mudança

Já um grupo de peritos internacionais defende o fim da mudança da hora na União Europeia e o alinhamento dos fusos horários dos diferentes países.

Estes especialistas, citados pela Agência Lusa, acreditam que as mudanças na hora legal actualmente “não têm efeitos significativos na poupança energética” e, em contrapartida, a manutenção da mesma hora “melhora a saúde, a economia, a segurança e o meio ambiente”.

Face a este longo debate – depois de um inquérito de 2018 que ditou que a esmagadora dos europeus se mostra a favor do fim da mudança da hora – em Março de 2019, o Parlamento Europeu aprovou, sob proposta da Comissão Europeia, o fim desta medida nos Estados-Membros da União Europeia. Contudo, a adopção desta proposta depende ainda de uma tomada de posição que aguarda resposta do Conselho da União Europeia.

Assim sendo, continuaremos a alterar os ponteiros dos relógios. De acordo com o Observatório Astronómico de Lisboa, a próxima mudança da hora está prevista para 26 de Março de 2023, dia em que voltaremos a adiantar os relógios uma hora, transitando para o horário de verão.

ines.dias@dn.pt

Diário de Notícias
Inês Dias
29 Outubro 2022 — 07:00