881: Embaixador foi chamado. Governo do Qatar desagradado com declarações de Marcelo e Costa

– Até é bem feito, um puxão de orelhas. Se estes personagens vão “apenas” apoiar a selecção portuguesa, não têm nada que abordar e imiscuirem-se nos assuntos políticos internos do Qatar. Se tivessem ficado em Portugal, teriam feito melhor figura! Mas o problema continua a ser o mesmo de sempre: estes tipos misturam tudo no mesmo saco!

MUNDIAL/QATAR/POLÍTICA

Vice-primeiro-ministro do Qatar disse a embaixador português que essas declarações não são aceitáveis e que só a histórica amizade que une os dois países vai evitar que sejam tomadas medidas drásticas.

© ABIR SULTAN/EPA

O embaixador português em Doha, no Qatar, foi chamado pelo vice-primeiro ministro daquele país do Médio Oriente para lhe mostrar o desagrado do governo local perante as declarações consideradas “hostis” de figuras do Estado português como o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o primeiro-ministro, António Costa, avança a CNN Portugal.

O governante do Qatar declarou a Paulo Pocinho que essas declarações não são aceitáveis e que só a histórica amizade que une os dois países vai evitar que sejam tomadas medidas drásticas.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros confirmou à CNN Portugal que o embaixador de Portugal em Doha esteve, “conforme prática habitual”, no Ministério dos Negócios Estrangeiros do Qatar, no quadro da preparação da deslocação de Marcelo Rebelo de Sousa ao país a fim de assistir ao primeiro jogo da selecção do Mundial de futebol, mas sem adiantar detalhes.

O Presidente da República, muito criticado por ter mudado o assunto quando questionado sobre os direitos humanos após a vitória de Portugal sobre a Nigéria em Alvalade há cerca de uma semana e mais recentemente por ir ao Qatar assistir ao encontro, garantiu que vai falar sobre a questão dos direitos humanos quando estiver naquele país e explicou que Portugal mantém “relações diplomáticas com a maioria dos Estados do mundo e a esmagadora não é democrática”.

Já António Costa disse que os responsáveis políticos portugueses vão estar no Qatar a apoiar a selecção e não a violação dos direitos humanos, a discriminação das mulheres ou o regime do Qatar.

“O Campeonato do Mundo é lá e quando formos lá não vamos seguramente apoiar o regime do Catar, a violação dos direitos humanos no Catar e a discriminação das mulheres no Catar.

Quando formos lá vamos apoiar a selecção nacional, a selecção de todos os portugueses, a selecção que veste a bandeira”, frisou o primeiro-ministro, que vai assistir ao terceiro encontro de Portugal na fase de grupos, diante da Coreia do Sul.

Também o presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, vai estar no Qatar.

A deputada do PS e antiga ministra Alexandra Leitão defendeu, no domingo, que Portugal não devia fazer-se representar ao mais alto nível no Mundial de futebol que está a decorrer no Qatar. Para a ex-governante, as três mais altas figuras do Estado não deveriam assistir aos jogos da selecção no Mundial do Qatar, país que “não merece nenhum respeito do ponto de vista dos direitos humanos”.

A estreia de Portugal no Mundial 2022 vai ser esta quinta-feira frente ao Gana, em jogo a contar para o Grupo H da competição que termina a 18 de Dezembro.

Diário de Notícias
DN
23 Novembro 2022 — 23:24



 

838: PS, PSD e PCP aprovam ida de Marcelo ao Qatar

– Além de mais uma, entre tantas, passeata à pala dos contribuintes, por aqui se vê, entre os “representantes” do Povo Português, que o futebol encontra-se muito acima da violação dos Direitos Humanos… Pobre Povo a quem deste carta branca!

QATAR/MUNDIAL/MARCELO

A deslocação do Presidente da República ao Mundial de futebol mereceu votos contra de IL e BE e abstenção do Chega.

Ricardo Castelo/LUSA

PS, PSD e PCP aprovaram esta segunda-feira o parecer da Comissão de Negócios Estrangeiros que autoriza a deslocação do Presidente da República ao Catar, que mereceu votos contra de IL e BE e abstenção do Chega.

PAN e Livre não têm assento na Comissão parlamentar de Negócios Estrangeiros, onde decorreu a votação.

A autorização da deslocação do chefe de Estado para ver o primeiro jogo da selecção nacional de Futebol no Mundial 2022 do Catar será votada na terça-feira pelo plenário da Assembleia da República.

O Presidente da República não pode ausentar-se do território nacional sem o assentimento da Assembleia da República, de acordo com a Constituição.

Apesar dos votos favoráveis, a viagem de Marcelo Rebelo de Sousa não está isenta de polémica, com muitas personalidades políticas a pedir ao chefe de Estado para que não viaje, no que pode ser interpretado como uma forma de apoio ao regime qatari, conhecido pelas suas violações dos Direitos Humanos.

ZAP //
21 Novembro, 2022



 

829: Bares alemães boicotam jogos do mundial

MUNDIAL/FUTEBOL/BARES ALEMÃES/BOICOTE

Para o dono de um bar em Colónia era mais importante tomar posição sobre o Qatar do que lucrar à custa do torneio. O boicote ganhou adeptos entre outros bares da cidade.

“Cartão vermelho para o Qatar” lê-se num protesto junto à Porta de Brandemburgo, Berlim.
© John MACDOUGALL / AFP

O Lotta tem as portas abertas há 27 anos e incontáveis jogos de futebol transmitidos nos dois ecrãs gigantes. Mas quando o Campeonato do Mundo iniciou, o seu proprietário decidiu que o bar estaria fechado.

Na segunda-feira, à hora dos Estados Unidos-País de Gales, os clientes vão estar a jogar um concurso de cultura geral. E na terça-feira, enquanto a França joga contra a Austrália, o pub dá voz a um painel que vai discutir a situação no Qatar, a FIFA e o boicote.

Peter Zimmermann, um dos proprietários do espaço, nada tem contra o futebol, bem pelo contrário. É sócio do Colónia (ou FC Köln) e acha que não pode valer tudo no negócio do futebol.

“Queremos dar o exemplo contra este sistema completamente corrupto da FIFA, onde o que realmente importa é o dinheiro e os direitos humanos e a cultura futebolística não interessam”, disse Zimmermann à Deutsche Welle. “E claro que o Qatar supera tudo: a opressão das mulheres, a discriminação contra os homossexuais e as chocantes condições de trabalho”, prosseguiu.

“Claro que o Campeonato do Mundo de futebol é sempre um bom negócio adicional, especialmente quando a Alemanha está a jogar. Mas temos os nossos clientes regulares e espero que outras pessoas venham aqui para a nossa programação alternativa”, disse.

Instalação num estádio em Herne, cidade na Renânia do Norte-Vestefália, em memória dos que morreram na construção dos estádios no Qatar..
© Roberto Pfeil / afp

A iniciativa de Zimmermann foi decidida em Abril, altura em que pendurou uma faixa com os dizeres “Boicote Qatar”. À medida que o tempo passou outros bares em Colónia associaram-se à iniciativa.

A DW realça que o sentimento geral alemão é, senão de boicote, pelo menos de indiferença perante o torneio. Numa recente sondagem Infratest Dimap, quase metade dos inquiridos considerava passar totalmente ao lado do mundial.

O sentido crítico alemão ressente-se no comércio, com as cadeias de lojas a registarem uma quebra nas vendas de camisolas do Campeonato do Mundo até 50% em comparação com o último mundial de 2018.

Diário de Notícias
DN
21 Novembro 2022 — 00:17



 

821: O Mundial em que o negócio está acima dos direitos humanos

MUNDIAL/FUTEBOL/QATAR/DIREITOS HUMANOS

Uma década, muitas mortes e controvérsias, e mais de 200 mil milhões de euros depois, a prova mais polémica da história do futebol, arranca hoje no Qatar e termina a 18 de Dezembro.

O “Mundial da vergonha”, como tem sido insistentemente chamado, tem hoje início com o jogo de abertura entre o Qatar, o país anfitrião, e o Equador (16.00, RTP1).

Uma competição marcada por polémicas e uma enorme contestação devido a temas sensíveis, como as 6750 vidas perdidas na construção dos estádios, o desrespeito pelos direitos humanos, as perseguições à comunidade LGBTQI+ e a corrupção envolvida na escolha do país para organizar a prova, que será a última de dois dos melhores jogadores de sempre: Ronaldo e Messi.

Para chegar a Doha, o Mundial percorreu um longo e tortuoso caminho, por entre montanhas de dinheiro, símbolo da corrupção que fez cair a cúpula do futebol mundial, e vales de corpos sem vida de milhares de trabalhadores, num absoluto desprezo pelos direitos fundamentais e dignidade humana. Contra os críticos, o Qatar prometeu o melhor Campeonato do Mundo de Futebol de sempre.

Pretensão assente no maior investimento alguma vez feito num evento desportivo – a factura já passou dos 200 mil milhões de euros, nove vezes mais do que os 11 mil milhões gastos no Rússia2018.

Segundo várias organizações de direitos humanos, incluindo a Amnistia Internacional (AI), desde o início das obras (2010) até Outubro, morreram 6750 trabalhadores na construção dos estádios. Todos oriundos da Índia, Bangladesh, Nepal e Sri Lanka.

A FIFA e o Qatar admitem apenas três (!) mortes nas obras e mais 36 trabalhadores que perderam a vida devido a causas naturais. Como no país não há autópsias, é impossível saber ao certo o número de vítimas.

Mas, confiando nas embaixadas dos países de origem, cerca de um quarto dos 30 mil operários (com salários de 264 euros) não chegou a ver o início do Mundial que ajudou a construir.

O que levou a AI a pedir aos organizadores 433 milhões de euros para o fundo de apoio às famílias das vítimas e aos sobreviventes. Um pedido recusado, apesar do organismo estimar lucros de três mil milhões.

As tímidas e esporádicas intervenções públicas de jogadores, treinadores e federações, também envergonham o mundo do futebol, tantas vezes elogiado pelo humanismo e carácter solidário.

Jogadores como Bruno Fernandes e Mats Hummel lembraram que o torneio “custou a vida a milhares de pessoas”, e, pelo menos, oito capitães, incluindo os da Alemanha, Dinamarca e Inglaterra, prometeram usar braçadeiras arco-íris em homenagem à oprimida comunidade LGBTI+.

Para evitar o escalar de protestos nos relvados, a FIFA endereçou uma carta a pedir às selecções que “não deixem que o futebol seja arrastado para batalhas políticas e ideológicas”, lembrando que “respeita todas as opiniões e crenças, sem pretender dar lições de moral ao resto do mundo”.

Na realidade, a FIFA e o Qatar andaram sempre de mãos dadas. Ainda ontem, Gianni Infantino, líder do organismo que rege o futebol mundial, acusou os europeus de hipocrisia na questão dos migrantes que morreram na construção dos estádios.

“Não quero dar nenhuma lição de vida, mas o que está a acontecer aqui é profundamente injusto. Pelo que nós, europeus, temos feito nos últimos 3000 anos, devemos desculpar-nos nos próximos 3000 anos antes de começar a dar lições de moral às pessoas que são apenas hipocrisia”, atirou.

Entre os líderes mundiais, quase todos levantaram a voz em defesa dos direitos humanos, mas foram muito poucos os que que boicotaram a competição – as poucas excepções foram a família real e o governo da Dinamarca.

Blatter: o porta voz do “erro”

Em 2010, a atribuição da organização do maior evento desportivo a seguir aos Jogos Olímpicos a um país do tamanho de Trás os Montes, com menos de três milhões de habitantes (72% homens) e sem tradição futebolística causou perplexidade.

O cheque em branco convenceu a FIFA, mas saiu caro à cúpula do futebol mundial, com o então presidente da FIFA, Joseph Blatter, e o então líder da UEFA, Michel Platini, destituídos e acusados de corrupção em tribunal.

O francês terá retirado o apoio à candidatura dos EUA e influenciado os membros do Comité a votarem no Qatar, depois de um encontro no Eliseu promovido pelo então presidente Sarkozy com o príncipe e actual emir do Qatar, Tamim bin Hamad bin Khalifa Al Thani, que prometeu reforçar os investimentos em França, incluindo a aquisição do PSG (o que aconteceu em 2011).

O Qatar venceu os EUA (14 votos contra 8) e Platini não demorou a ser perseguido pela justiça suíça, com o apoio do FBI, por crimes fiscais dos quais foi absolvido.

Blatter também foi acusado de corrupção e absolvido, embora condenado por irregularidades financeiras durante o mandato como presidente da FIFA. Ele que em 2010 justificou a escolha do Qatar com a aposta em “novos territórios”, há dias admitiu ter sido “um erro”.

Não só pela questão dos direitos humanos, como pelos constrangimentos na calendarização, por ser jogado no inverno e a meio da época na Europa, que fornece 70% dos 831 jogadores. Em Portugal, a I Liga só será retomada a 28 de Dezembro.

O primeiro Mundial num país do Médio Oriente obrigou ainda a adiar a pretensão do novo presidente da FIFA, Gianni Infantino, de aumentar de 32 para 48 as selecções na fase final, por falta de estádios para o alargamento – oito em vez dos habituais 12.

Estádios faraónicos, topo de gama, climatizados, reutilizáveis e alguns com apenas um mês de vida, como o inovador Estádio 974, que receberá o Portugal-Gana, no dia 24, construído com 974 contentores.

Mundial amigo do ambiente?

Independente desde 1971, o Qatar é um símbolo de ostentação entre os biliões do petróleo, a grandiosidade e a modernidade, sem esquecer os arcaísmos islâmicos que o fazem regredir aos olhos do mundo quando negam direitos às mulheres ou criminalizam as opções sexuais.

Um relatório da ONU descreveu o país como “quase uma sociedade de castas baseada na nacionalidade”, onde o emir controla os poderes executivo, legislativo e judicial.

O dinheiro nunca foi um problema, mas o bolso dos adeptos promete sofrer com isso. Um bilhete pode custar até 800 euros (ver a final pode chegar 2225) e uma cerveja 15 euros, e tem de ser consumida em locais próprios para não ir contra as regras do país (foi proibida a venda nos estádios e zonas circundantes), que é o terceiro mais rico do Mundo, graças ao ouro negro (petróleo) e à maior reserva de gás natural do mundo, que o torna num dos maiores emissores de gases com efeito de estufa.

Apesar disso, os organizadores atestam um Mundial amigo do ambiente e o primeiro de sempre a atingir a neutralidade carbónica, embora um relatório do Carbon Market Watch conclua que se trata de uma “contabilidade criativa”.

Certo é que Doha nunca teve tanta vida nas ruas, mesmo sem a beleza feminina despida de preconceitos que fez das bancadas de outros Mundiais um espectáculo dentro do próprio jogo.

Agora, será o Mundo capaz de assistir ao futebol sem pensar em conjunturas geopolíticas, fundamentalismos religiosos e opressão de mulheres e migrantes?

Perante tanta discórdia e polémica, só mesmo o futebol dentro das quatro linhas poderá salvar esta competição. Portugal “não é favorito, mas é candidato”, nas palavras de Fernando Santos.

E os principais candidatos são os suspeitos do costume: Brasil, Argentina, Alemanha e a campeã França. Até à final de dia 18, haverá muito futebol todos os dias. Mas a cruzada pelos direitos humanos não vai parar certamente.

isaura.almeida@dn.pt

Diário de Notícias
Isaura Almeida
20 Novembro 2022 — 00:48