821: O Mundial em que o negócio está acima dos direitos humanos

MUNDIAL/FUTEBOL/QATAR/DIREITOS HUMANOS

Uma década, muitas mortes e controvérsias, e mais de 200 mil milhões de euros depois, a prova mais polémica da história do futebol, arranca hoje no Qatar e termina a 18 de Dezembro.

O “Mundial da vergonha”, como tem sido insistentemente chamado, tem hoje início com o jogo de abertura entre o Qatar, o país anfitrião, e o Equador (16.00, RTP1).

Uma competição marcada por polémicas e uma enorme contestação devido a temas sensíveis, como as 6750 vidas perdidas na construção dos estádios, o desrespeito pelos direitos humanos, as perseguições à comunidade LGBTQI+ e a corrupção envolvida na escolha do país para organizar a prova, que será a última de dois dos melhores jogadores de sempre: Ronaldo e Messi.

Para chegar a Doha, o Mundial percorreu um longo e tortuoso caminho, por entre montanhas de dinheiro, símbolo da corrupção que fez cair a cúpula do futebol mundial, e vales de corpos sem vida de milhares de trabalhadores, num absoluto desprezo pelos direitos fundamentais e dignidade humana. Contra os críticos, o Qatar prometeu o melhor Campeonato do Mundo de Futebol de sempre.

Pretensão assente no maior investimento alguma vez feito num evento desportivo – a factura já passou dos 200 mil milhões de euros, nove vezes mais do que os 11 mil milhões gastos no Rússia2018.

Segundo várias organizações de direitos humanos, incluindo a Amnistia Internacional (AI), desde o início das obras (2010) até Outubro, morreram 6750 trabalhadores na construção dos estádios. Todos oriundos da Índia, Bangladesh, Nepal e Sri Lanka.

A FIFA e o Qatar admitem apenas três (!) mortes nas obras e mais 36 trabalhadores que perderam a vida devido a causas naturais. Como no país não há autópsias, é impossível saber ao certo o número de vítimas.

Mas, confiando nas embaixadas dos países de origem, cerca de um quarto dos 30 mil operários (com salários de 264 euros) não chegou a ver o início do Mundial que ajudou a construir.

O que levou a AI a pedir aos organizadores 433 milhões de euros para o fundo de apoio às famílias das vítimas e aos sobreviventes. Um pedido recusado, apesar do organismo estimar lucros de três mil milhões.

As tímidas e esporádicas intervenções públicas de jogadores, treinadores e federações, também envergonham o mundo do futebol, tantas vezes elogiado pelo humanismo e carácter solidário.

Jogadores como Bruno Fernandes e Mats Hummel lembraram que o torneio “custou a vida a milhares de pessoas”, e, pelo menos, oito capitães, incluindo os da Alemanha, Dinamarca e Inglaterra, prometeram usar braçadeiras arco-íris em homenagem à oprimida comunidade LGBTI+.

Para evitar o escalar de protestos nos relvados, a FIFA endereçou uma carta a pedir às selecções que “não deixem que o futebol seja arrastado para batalhas políticas e ideológicas”, lembrando que “respeita todas as opiniões e crenças, sem pretender dar lições de moral ao resto do mundo”.

Na realidade, a FIFA e o Qatar andaram sempre de mãos dadas. Ainda ontem, Gianni Infantino, líder do organismo que rege o futebol mundial, acusou os europeus de hipocrisia na questão dos migrantes que morreram na construção dos estádios.

“Não quero dar nenhuma lição de vida, mas o que está a acontecer aqui é profundamente injusto. Pelo que nós, europeus, temos feito nos últimos 3000 anos, devemos desculpar-nos nos próximos 3000 anos antes de começar a dar lições de moral às pessoas que são apenas hipocrisia”, atirou.

Entre os líderes mundiais, quase todos levantaram a voz em defesa dos direitos humanos, mas foram muito poucos os que que boicotaram a competição – as poucas excepções foram a família real e o governo da Dinamarca.

Blatter: o porta voz do “erro”

Em 2010, a atribuição da organização do maior evento desportivo a seguir aos Jogos Olímpicos a um país do tamanho de Trás os Montes, com menos de três milhões de habitantes (72% homens) e sem tradição futebolística causou perplexidade.

O cheque em branco convenceu a FIFA, mas saiu caro à cúpula do futebol mundial, com o então presidente da FIFA, Joseph Blatter, e o então líder da UEFA, Michel Platini, destituídos e acusados de corrupção em tribunal.

O francês terá retirado o apoio à candidatura dos EUA e influenciado os membros do Comité a votarem no Qatar, depois de um encontro no Eliseu promovido pelo então presidente Sarkozy com o príncipe e actual emir do Qatar, Tamim bin Hamad bin Khalifa Al Thani, que prometeu reforçar os investimentos em França, incluindo a aquisição do PSG (o que aconteceu em 2011).

O Qatar venceu os EUA (14 votos contra 8) e Platini não demorou a ser perseguido pela justiça suíça, com o apoio do FBI, por crimes fiscais dos quais foi absolvido.

Blatter também foi acusado de corrupção e absolvido, embora condenado por irregularidades financeiras durante o mandato como presidente da FIFA. Ele que em 2010 justificou a escolha do Qatar com a aposta em “novos territórios”, há dias admitiu ter sido “um erro”.

Não só pela questão dos direitos humanos, como pelos constrangimentos na calendarização, por ser jogado no inverno e a meio da época na Europa, que fornece 70% dos 831 jogadores. Em Portugal, a I Liga só será retomada a 28 de Dezembro.

O primeiro Mundial num país do Médio Oriente obrigou ainda a adiar a pretensão do novo presidente da FIFA, Gianni Infantino, de aumentar de 32 para 48 as selecções na fase final, por falta de estádios para o alargamento – oito em vez dos habituais 12.

Estádios faraónicos, topo de gama, climatizados, reutilizáveis e alguns com apenas um mês de vida, como o inovador Estádio 974, que receberá o Portugal-Gana, no dia 24, construído com 974 contentores.

Mundial amigo do ambiente?

Independente desde 1971, o Qatar é um símbolo de ostentação entre os biliões do petróleo, a grandiosidade e a modernidade, sem esquecer os arcaísmos islâmicos que o fazem regredir aos olhos do mundo quando negam direitos às mulheres ou criminalizam as opções sexuais.

Um relatório da ONU descreveu o país como “quase uma sociedade de castas baseada na nacionalidade”, onde o emir controla os poderes executivo, legislativo e judicial.

O dinheiro nunca foi um problema, mas o bolso dos adeptos promete sofrer com isso. Um bilhete pode custar até 800 euros (ver a final pode chegar 2225) e uma cerveja 15 euros, e tem de ser consumida em locais próprios para não ir contra as regras do país (foi proibida a venda nos estádios e zonas circundantes), que é o terceiro mais rico do Mundo, graças ao ouro negro (petróleo) e à maior reserva de gás natural do mundo, que o torna num dos maiores emissores de gases com efeito de estufa.

Apesar disso, os organizadores atestam um Mundial amigo do ambiente e o primeiro de sempre a atingir a neutralidade carbónica, embora um relatório do Carbon Market Watch conclua que se trata de uma “contabilidade criativa”.

Certo é que Doha nunca teve tanta vida nas ruas, mesmo sem a beleza feminina despida de preconceitos que fez das bancadas de outros Mundiais um espectáculo dentro do próprio jogo.

Agora, será o Mundo capaz de assistir ao futebol sem pensar em conjunturas geopolíticas, fundamentalismos religiosos e opressão de mulheres e migrantes?

Perante tanta discórdia e polémica, só mesmo o futebol dentro das quatro linhas poderá salvar esta competição. Portugal “não é favorito, mas é candidato”, nas palavras de Fernando Santos.

E os principais candidatos são os suspeitos do costume: Brasil, Argentina, Alemanha e a campeã França. Até à final de dia 18, haverá muito futebol todos os dias. Mas a cruzada pelos direitos humanos não vai parar certamente.

isaura.almeida@dn.pt

Diário de Notícias
Isaura Almeida
20 Novembro 2022 — 00:48



 

799: A “sinistra viagem” de Marcelo e Costa ao Qatar. “Tenham vergonha!”

– “… Vão “pagos por quem? Por contribuintes, quando estamos em crise económica, com inflação e guerra? Ora tomem juízo! Decência, decoro e frugalidade exigem-se!”“. Eu respondo: vão pagos pelos tótós dos contribuintes, especialmente aqueles de baixos recursos financeiros mas de altas taxas de impostos! Não lhes sai da algibeira deles! Viajam, comem e bebem por esse mundo fora à pala dos impostos cobrados e esbulhados aos contribuintes! Alguma dúvida?

SINISTRA VIAGEM/QATAR/FUTEBOL

Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa admitem ir ao Qatar durante o Mundial 2022, alegando que vão apoiar a Selecção e defender os direitos humanos. E recebem uma onda de críticas a lembrar os gastos do Estado em tempos de crise e sendo acusados de estar a legitimar uma “monarquia arcaica e repressiva”.

Tiago Petinga / Lusa

Nas vésperas da abertura do Mundial 2022, há uma chuva de críticas quanto à organização do torneio no Qatar, um país onde a homossexualidade é crime e onde os direitos das mulheres não estão consagrados, além de ser acusado de violar os direitos humanos, nomeadamente no caso de trabalhadores imigrantes.

Em Portugal, o tema é a possível ida de Marcelo Rebelo de Sousa, de António Costa e também do presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, ao país, um tema que tem sido muito discutido na praça pública e que vai ser votado pelo Parlamento na próxima segunda-feira.

Nas redes sociais, há muito quem proteste contra essa possibilidade, incluindo a socialista Ana Gomes que questiona “a que título” o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República, o primeiro-ministro, qual “gato e periquito”, vão ao Qatar “em representação do Estado, esquecendo Direitos Humanos”.

Vão “pagos por quem? Por contribuintes, quando estamos em crise económica, com inflação e guerra? Ora tomem juízo! Decência, decoro e frugalidade exigem-se!”, escreve Ana Gomes no seu perfil no Twitter.

Mais adiante, Ana Gomes acrescenta que “apoiar a Selecção Nacional de futebol ou de caça a gambuzinos não é tarefa que se exija a primeiro-ministro ou Presidente da República”. “Pelo contrário, deviam era combater promiscuidade entre futebol, negócios e política“, acrescenta, frisando que só se entende que se esqueçam da “corrupção e calquem direitos humanos” por um “despudorado populismo”.

Pelo meio destas mensagens, Ana Gomes também partilha a publicação de um utilizador do Twitter que lembra que Marcelo alega que vai ao Qatar defender os direitos humanos, mas que “nunca foi a Odemira, nos últimos três anos, para fazer valer a voz de imigrantes que são vítimas de patrões selvagens e de redes mafiosas acolhidas de bolsos aberto pelo regime”.

A economista Susana Peralta fala, por seu turno, da “sinistra viagem das três mais altas figuras do Estado” português ao Qatar numa crónica no Público, onde defende que a ida àquele país “legitima a lavagem desta monarquia arcaica e repressiva, em nosso nome”.

Susana Peralta nota ainda que subscreve “a carta dirigida às três figuras cimeiras do Estado pelo presidente e pelo vice-presidente da Frente Cívica, Paulo de Morais e João Paulo Batalha, na qual lhes apelam para que não se desloquem ao Qatar“.

Os autores desta carta consideram “imorais e ilegítimos quaisquer gestos de legitimação, e até de celebração” da “barbárie civilizacional” que é o Qatar 22.

A economista nota ainda que Marcelo, Costa e Santos Silva “não são uns adeptos quaisquer”. “Se não têm eles vergonha, pensem na nossa e fiquem em casa“, aconselha.

Marcelo diz que vai ao Qatar defender os direitos humanos

Na passada quinta-feira, Marcelo assumiu que “o Qatar não respeita os direitos humanos”, mas recomendou “esqueçamos isto”, frisando que pretende assistir ao Portugal-Gana naquele país, na estreia da Selecção no Mundial 2022 a 24 de Novembro.

Essas declarações causaram muita polémica e o Presidente da República veio, entretanto, justificar que estava “nervoso” com o futebol.

As declarações de Marcelo deixaram o director executivo da Amnistia Internacional (AMI) Portugal, Pedro Neto, “estupefacto”. Pedro Neto também desafiou o Presidente da República a não ir ao Qatar.

Ora, Marcelo já disse que se o Parlamento aprovar, vai assistir ao jogo da Selecção naquele país, reforçando que é sócio da AMI e que não tem visto “muitos chefes de Estado a serem tão veementes e tão claros na condenação do que se passa em termos de direitos humanos no Qatar”.

O Presidente da República também reforça que quando um chefe de Estado visita países com um regime não democrático, fá-lo “pelo interesse nacional”, caso contrário “não se poderia visitar três quartos do mundo”, nem receber ou ter relações com esses países, porque são “ditaduras”.

Marcelo defende ainda que uma das razões para ir ao Qatar são “os direitos humanos em termos de liberdades das pessoas” e dos “trabalhadores que trabalharam na construção dos estádios e cuja situação é dramática”.

“Apoiamos a Selecção no Qatar, em França, na China, na Rússia”

O primeiro-ministro nota também que os responsáveis políticos portugueses estarão no Mundial 2022 a apoiar a Selecção Nacional e não a violação dos direitos humanos ou a discriminação das mulheres no Qatar.

“O Campeonato do Mundo é onde é. Todos temos uma posição sobre o que é o Qatar”, mas “quando formos lá não vamos seguramente apoiar o regime do Qatar, a violação dos direitos humanos e a discriminação das mulheres no Qatar”, realça António Costa.

“Quando formos lá, vamos apoiar a Selecção Nacional, a Selecção de todos os portugueses, a Selecção que veste a bandeira”, sublinha o primeiro-ministro.

Apoiamos no Qatar, em França, na Índia, na China, na Rússia. Apoiamos onde a Selecção estiver. É a nossa Selecção. E nós estamos sempre com a nossa Selecção, porque a Selecção veste a nossa bandeira”, constata ainda António Costa.

Susana Valente, ZAP // Lusa
19 Novembro, 2022