536: “Não se pode classificar o Estado Novo como fascista”

– Cairam-me os 🍅🍅 ao chão quando li o título desta peça! Nem sei por onde começar mas penso que para não entrar em divagações, o melhor é parar por aqui. Apenas acrescentando: o Estado Novo um estado fascista? Nop, nem o Estado Novo, nem Salazar, nem Marcelo, nem todos os fascistas que transitaram para partidos políticos pós golpe militar do 25’Abr’74 e que se camuflaram de “democráticos” alguma vez, em tempo algum, foram fascistas… Coitados do Mussolini, do Franco que nunca foram fascistas e do Adolfo que nunca foi nazi! Tudo gente revolucionária, esquerdista, defensora da Liberdade de expressão, de reunião… Nunca a lixívia cultural, através de um livro foi tão bem aplicada para limpar o passado! Ainda me recordo, no tempo da escola primária (1952), quando entrava um professor na sala de aula, tínhamos de nos levantar da carteira e fazer a saudação nazi!

LITERATURA DE VÃO DE ESCADA

ZAP // Desassosego / Wikipedia

Segundo o autor de uma tese de doutoramento sobre a ideologia de líderes de movimentos fascistas europeus, todo o fascismo é condenável, mas nem tudo o que é condenável é fascismo — e o Estado Novo não pode ser classificado como “fascismo”.

Em entrevista ao Diário de Notícias, Carlos Martins, doutorado em Política Comparada pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, sustenta que não se pode classificar o Estado Novo como fascista.

De acordo com o investigador, o Estado Novo foi um fenómeno político de características únicas, que, apesar das semelhanças, é distinto “de outras ideologias antidemocráticas habitualmente colocadas no extremo direito do espectro político”.

Carlos Martins, autor do livroFascismos para além de Hitler e Mussolini“, explica ao DN que, para compreender o fenómeno, é necessário que se use o conceito de fascismo “de forma rigorosa e precisa”.

Segundo o investigador, o Estado Novo foi um regime conservador, que, “numa época em que o conservadorismo se deixava influenciar pelo fascismo, integrou elementos vincadamente fascistas que, não sendo suficientes para modificar o regime, lhe dão ali um cunho fascizante — que não é o mesmo que ser fascista”.

O investigador considera necessário clarificar os perigos concretos que o fascismo representa, “em particular numa altura em que novos actores políticos [a direita radical populista, por exemplo], com propostas questionáveis”, se procuram legitimar dizendo-se “distintos do fascismo histórico”.

Mas, alerta, também não se pode conceder legitimidade a regimes como os de Salazar ou Franco, por exemplo, apenas por não deverem dever ser “incluídos no universo do fascismo”.

O fascismo puro, diz Carlos Martins, “não teve um impacto duradouro em Portugal, o que não quer dizer que não tenha havido uma fase do regime do Estado Novo que não tenha tido uma aproximação” — que considera ter acontecido na segunda metade dos Anos 30.

O Estado Novo foi, resume o investigador, um “regime conservador fascizante”.

O mais longo regime autoritário na Europa

O Estado Novo foi um regime autoritário, conservador, nacionalista, corporativista de Estado de inspiração fascista, parcialmente católica e tradicionalista, de cariz antiliberal, anti-parlamentarista, anti-comunista, e colonialista, que vigorou em Portugal sob a Segunda República durante 41 anos ininterruptos, de 1933 até ao seu derrube pela Revolução de 25 de Abril de 1974.

Como regime político, o regime foi também chamado de salazarismo, em referência a António de Oliveira Salazar, seu fundador e líder.

A Ditadura Nacional (1926-1933) e o Estado Novo de Salazar e Marcello Caetano (1933-1974) foram, conjuntamente, o mais longo regime autoritário na Europa Ocidental durante o séc. XX, estendendo-se por um período de 48 anos.

O regime criou a sua própria estrutura de Estado e um aparelho repressivo sustentado na polícia política PIDE, característico dos chamados Estados policiais, apoiando-se na censura, na propaganda, em organizações paramilitares (Legião Portuguesa), nas organizações juvenis (Mocidade Portuguesa), no culto do líder e na Igreja Católica.

Para muitos historiadores e politólogos, parece não haver dúvida de que se tratou de um regime fascista, de um fascismo catedrático, de um quase fascismo ou, até, segundo o politólogo Manuel de Lucena, de um “fascismo sem movimento fascista”.

Após 41 anos de vida, o regime caiu no dia 25 de Abril de 1974, após um golpe militar que contou com o apoio de uma população cansada da repressão, da censura, da guerra colonial e do abrandamento económico — e sem ter quase quem o defendesse.

ZAP //
31 Outubro, 2022

Carlos Martins é autor da tese de doutoramento sobre a ideologia de líderes de movimentos fascistas europeus.
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