60: Telescópio do ESO observa dança cósmica

CIÊNCIA/ASTRONOMIA/ESO

O Very Large Telescope (VLT) do ESO observou o resultado de uma colisão cósmica — a galáxia NGC 7727. Esta gigante nasceu da fusão de duas galáxias, um evento que se iniciou há cerca de um milhar de milhões de anos. No seu centro encontramos o par de buracos negros mais próximo alguma vez descoberto, dois objectos destinados a coalescer num buraco negro ainda mais massivo.

Tal como podemos chocar com alguém numa rua movimentada, também as galáxias podem chocar umas contras as outras. Mas, enquanto as interacções galácticas são muito mais violentas que um choque na rua, as estrelas individuais não chocam geralmente entre si, já que, comparadas ao seu tamanho, as distâncias entre elas são muito grandes.

Em vez disso, as galáxias “dançam” em torno uma da outra, com a gravidade a criar forças de maré que mudam drasticamente a forma dos dois parceiros de dança. “Caudas” de estrelas, gás e poeira são tecidas em torno das galáxias à medida que elas formam eventualmente uma nova galáxia, dando origem a uma bonita e desordenada forma assimétrica como a que vemos aqui na NGC 7727.

As consequências deste choque cósmico são muito evidentes nesta imagem da galáxia, obtida com o instrumento FORS2 (FOcal Reducer and low dispersion Spectrograph 2) montado no VLT do ESO. Apesar desta galáxia ter já sido previamente observada com outro telescópio do ESO, esta nova imagem mostra detalhes mais intrincados, tanto no corpo principal da galáxia como nas ténues caudas que a rodeiam.

Nesta imagem do VLT do ESO podemos ver os trilhos emaranhados criados à medida que as duas galáxias vão coalescendo, arrancando estrelas e poeira uma à outra para formar os longos braços que envolvem a NGC 7727. Partes destes braços encontram-se salpicadas de estrelas, as quais aparecem como pontos brilhantes azul-lilás na imagem.

Também visíveis na imagem estão dois pontos brilhantes no centro da galáxia, outro sinal do seu passado dramático. O núcleo da NGC 7727 é ainda composto pelos dois núcleos galácticos originais, cada um com um buraco negro super-massivo. Situados a cerca de 89 milhões de anos-luz de distância da Terra, na constelação do Aquário, trata-se do par de buracos negros super-massivos mais próximo de nós.

Os buracos negros da NGC 7727 observam-se a uma distância entre si no céu de apenas 1600 anos-luz, esperando-se que coalesçam dentro de 250 milhões de anos, um piscar de olhos à escala astronómica. Quando os buracos negros se fundirem completamente teremos um buraco negro ainda mais massivo.

Prevê-se que a procura de pares de buracos negros super-massivos escondidos, como este, dê um grande passo em frente com o futuro Extremely Large Telescope (ELT) do ESO, que está previsto começar a operar mais para o final desta década, no deserto chileno do Atacama. Com o ELT, esperamos descobrir muitos mais destes objectos no centro das galáxias.

A nossa Galáxia, a Via Láctea, que também alberga um buraco negro super-massivo no seu centro, vai acabar por coalescer com a nossa vizinha próxima, a galáxia de Andrómeda, daqui a milhares de milhões de anos. Talvez a galáxia resultante se pareça com a dança cósmica que vemos na NGC 7727, por isso esta imagem até nos pode estar a dar um vislumbre do futuro.

Informações adicionais

Esta imagem foi criada no âmbito do programa Jóias Cósmicas do ESO, uma iniciativa que visa obter imagens de objectos interessantes, intrigantes ou visualmente atractivos, utilizando os telescópios do ESO, para efeitos de educação e divulgação científica. O programa utiliza tempo de telescópio que não pode ser usado em observações científicas. Todos os dados obtidos podem ter igualmente interesse científico e são por isso postos à disposição dos astrónomos através do arquivo científico do ESO.

O Observatório Europeu do Sul (ESO) ajuda cientistas de todo o mundo a descobrir os segredos do Universo, o que, consequentemente, beneficia toda a sociedade. No ESO concebemos, construimos e operamos observatórios terrestres de vanguarda — os quais são usados pelos astrónomos para investigar as maiores questões astronómicas da nossa época e levar ao público o fascínio da astronomia — e promovemos colaborações internacionais em astronomia.

Estabelecido como uma organização intergovernamental em 1962, o ESO é hoje apoiado por 16 Estados Membros (Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Irlanda, Itália, Países Baixos, Polónia, Portugal, Reino Unido, República Checa, Suécia e Suíça), para além do Chile, o país de acolhimento, e da Austrália como Parceiro Estratégico.

A Sede do ESO e o seu centro de visitantes e planetário, o Supernova do ESO, situam-se perto de Munique, na Alemanha, enquanto o deserto chileno do Atacama, um lugar extraordinário com condições únicas para a observação dos céus, acolhe os nossos telescópios. O ESO mantém em funcionamento três observatórios: La Silla, Paranal e Chajnantor.

No Paranal, o ESO opera o Very Large Telescope e o Interferómetro do Very Large Telescope, assim como dois telescópios de rastreio: o VISTA, que trabalha no infravermelho, e o VLT Survey Telescope, concebido para mapear o céu no visível. Ainda no Paranal, o ESO acolherá e operará o Cherenkov Telescope Array South, o maior e mais sensível observatório de raios gama do mundo.

Juntamente com parceiros internacionais, o ESO opera o APEX e o ALMA no Chajnantor, duas infra-estruturas que observam o céu no domínio do milímetro e do submilímetro. No Cerro Armazones, próximo do Paranal, estamos a construir “o maior olho do mundo voltado para o céu” — o Extremely Large Telescope do ESO. Dos nossos gabinetes em Santiago do Chile, apoiamos as nossas operações no país e trabalhamos com parceiros chilenos e com a sociedade chilena.

ESO – European South Observatory
eso2211pt — Foto de Imprensa
16 de Agosto de 2022