457: O primeiro retrato de uma família neandertal

CIÊNCIA/PALEONTOLOGIA/NEANDERTAIS

É a primeira vez que uma família neandertal é localizada e os seus perfis genéticos confirmam dados importantes para se entender por que desapareceram para sempre.

© Marco Bertarello / AFP

Os Flinstones originais? O maior estudo genético de neandertais já realizado ofereceu um retrato sem precedentes de uma família, incluindo um pai e a sua filha adolescente, que viviam numa caverna siberiana há cerca de 54.000 anos.

A nova investigação, publicada na revista Nature nesta quarta-feira, usou o sequenciamento de DNA para analisar a vida social de uma comunidade neandertal, descobrindo que as mulheres eram mais propensas a fazer vida afastada das cavernas do que os homens.

Escavações arqueológicas anteriores já tinham mostrado que os neandertais eram mais sofisticados do que se pensava, enterrando os seus mortos e fabricando ferramentas e ornamentos elaborados. No entanto, pouco se sabe sobre a sua estrutura familiar ou a forma como se organizavam em sociedade.

O sequenciamento do primeiro genoma neandertal em 2010, que rendeu ao paleogeneticista sueco Svante Paabo o prémio Nobel da Medicina no início deste mês, ofereceu uma nova forma de descobrir mais sobre os nossos ancestrais extintos.

Uma equipa internacional de investigadores concentrou-se em vários restos neandertais encontrados nas cavernas Chagyrskaya e Okladnikov, no sul da Sibéria. Os fragmentos dispersos de ossos estavam principalmente numa única camada na terra, sugerindo que os neandertais viveram na mesma época.

“Primeiro tivemos que identificar quantos indivíduos tínhamos”, disse à AFP Stephane Peyregne, geneticista evolucionista do Instituto Max Planck da Alemanha e co-autor do estudo.

“Parecem muito mais humanos”

A equipa usou novas técnicas para extrair e isolar o DNA antigo dos restos mortais. Ao sequenciar o DNA, os investigadores estabeleceram que havia 13 neandertais, sete machos e seis fêmeas. Cinco elementos do grupo eram crianças ou adolescentes.

Onze dos elementos eram da caverna de Chagyrskaya, muitos deles da mesma família, incluindo um pai e a sua filha adolescente, além de um menino e uma mulher que eram parentes de segundo grau, como primo, tia ou avó.

Os investigadores também descobriram que um homem era parente materno do pai porque tinha um fenómeno genético chamado heteroplasmia, que só passa de geração em geração.

“O nosso estudo fornece uma imagem concreta de como poderia ser uma comunidade neandertal”, disse Benjamin Peter, do Instituto Max Planck, na Alemanha, que supervisionou o estudo juntamente com o sueco Paabo, em comunicado. “Isto faz com que os neandertais pareçam muito mais próximos dos humanos”, acrescentou.

A análise genética mostrou que o grupo não se cruzou com os seus parentes próximos, como humanos e denisovanos, hominídeos descobertos por Paabo em cavernas a apenas algumas centenas de quilómetros de distância.

No entanto, sabemos que os neandertais se cruzaram com o homo sapiens em determinado momento – os estudos de Paabo também revelaram que quase todos os humanos modernos têm um pouco de DNA neandertal.

Endogamia

A comunidade de cerca de 10 a 20 neandertais parece ter-se reproduzido em grande parte entre si, exibindo muito pouca diversidade genética, segundo o estudo. Estima-se que os neandertais existiram entre há 430.000 e há 40.000 anos, pelo que este grupo terá vivido perto da extinção da sua espécie.

O estudo comparou o nível de endogamia da comunidade com o dos gorilas das montanhas ameaçados de extinção. Outra explicação para a endogamia pode ser a de que os neandertais viviam numa região isolada.

“Provavelmente estamos a lidar com uma população muito subdividida”, disse ​​​​​​​Peyregne.

Os investigadores descobriram que os cromossomos Y do grupo, que são herdados de pai para filho, eram muito menos diversos do que seu DNA mitocondrial, que é herdado das mães.

Isso sugere que as mulheres viajavam com mais frequência para interagir e procriar com diferentes grupos de neandertais, enquanto os homens ficavam em casa.

Diário de Notícias
DN/AFP
19 Outubro 2022 — 21:18



432: Neandertais e humanos modernos coexistiram na Europa durante mais de 2.000 anos

CIÊNCIA/BIOLOGIA/NEANDERTAIS/PALEOGENETICISTAS

Os investigadores “não sabem em qual região específica” ocorreram os possíveis encontros e a duração da coexistência entre as espécies também permanece sujeita a debate.

© DR

Os Neandertais coexistiram com os humanos modernos em vários lugares da actual França e no norte da Espanha durante mais de 2.000 anos, período em que estas duas espécies humanas tiveram tempo de se misturar, segundo um modelo científico.

O estudo, baseado em descobertas de fósseis, divulgado esta quinta-feira na revista Scientific Reports, não apresenta evidências directas de uma interacção entre estas duas populações, ocorrida há cerca de 40.000 anos.

Mas os cientistas sabem que existiu contacto entre estas, como revelado, entre outros, pelo recente Prémio Nobel de Medicina, o paleogeneticista sueco Svante Paabo.

Grande parte da população mundial tem algum ADN de Neandertal.

Os investigadores “não sabem em qual região específica” ocorreram os possíveis encontros, sublinha o principal autor do estudo, Igor Djakovic, estudante de doutoramento na Universidade neerlandesa de Leiden.

A duração da coexistência entre as espécies também permanece sujeita a debate.

Na tentativa de responder a estas perguntas, a equipe de Leiden examinou a datação por carbono-14 de 56 objectos, metade atribuídos aos Neandertais e a outra aos humanos modernos, encontrados em 17 sítios arqueológicos em França e no norte da Espanha.

Os cientistas utilizaram as datas desses objectos, incluindo ossos e utensílios de pedra atribuídas aos últimos Neandertais, em modelos estatísticos e probabilísticos.

A conclusão aponta que os Neandertais desapareceram entre 40.870 e 40.457 anos atrás, enquanto os humanos modernos apareceram nesta parte do continente europeu há cerca de 42.500 anos.

Isto significaria que as duas espécies coexistiram por um período de 1.400 a 2.900 anos.

Este período coincide com uma grande “difusão de ‘ideias'” entre estas duas populações, referiu Igor Djakovic à agência France-Presse (AFP).

O período de coexistência está “associada a transformações substanciais na forma como os humanos (modernos) produziam objectos culturais”, como ferramentas ou ornamentos, segundo o investigador.

Os objectos produzidos pelos Neandertais também mudaram “dramaticamente” e começaram a assemelhar-se aos elaborados pelos humanos modernos.

O estudo sustenta a tese que explica o desaparecimento dos Neandertais através da sua absorção progressiva dentro da população de humanos modernos.

“Os Neandertais teriam sido, por cruzamento, absorvidos na nossa herança genética”, destaca o investigador da Universidade de Leiden.

Mas, como “a maioria dos habitantes da Terra tem ADN Neandertal, pode-se dizer que, de certa forma, este nunca desapareceu realmente”, aponta Igor Djakovic.

Diário de Notícias
Lusa/DN
14 Outubro 2022 — 08:11