951: Como seria o mundo se os dinossauros não se tivessem extinguido? E que aspecto teriam?

CIÊNCIA/PALEONTOLOGIA/DINOSSAUROS/EXTINÇÃO

Há 66 milhões de anos, um asteróide atingiu a Terra com a força de 10 mil milhões de bombas atómicas e mudou o curso da evolução.

Eleanor Kish / Museu da Natureza do Canadá
Modelo do dinossauróide

O céu escureceu e as plantas pararam de fazer fotossíntese. As plantas morreram, depois os animais que se alimentavam delas. A cadeia alimentar entrou em colapso. Mais de 90% de todas as espécies desapareceram. Quando a poeira baixou, todos os dinossauros, excepto um punhado de pássaros, foram extintos.

Mas este evento catastrófico tornou possível a evolução humana. Os mamíferos sobreviventes floresceram, incluindo pequenos proto-primatas que evoluiriam para nós.

Imagine que o asteróide tinha errado e os dinossauros sobreviveram. Imagine aves de rapina altamente evoluídas a plantar a sua bandeira na Lua. Cientistas dinossauros, a descobrir a relatividade ou a discutir um mundo hipotético no qual, incrivelmente, os mamíferos dominaram a Terra.

Isto pode soar a ficção científica má, mas aborda algumas questões filosóficas profundas sobre a evolução. A Humanidade está aqui apenas por acaso, ou a evolução dos utilizadores de ferramentas inteligentes é inevitável?

Cérebros, ferramentas, linguagem e grandes grupos sociais tornam-nos a espécie dominante do planeta. Existem 8 mil milhões de Homo sapiens em sete continentes. Em peso, existem mais humanos do que todos os animais selvagens.

Modificamos metade da terra da Terra para nos alimentarmos. Poderia argumentar que criaturas como os humanos estavam destinadas a evoluir.

Na década de 1980, o paleontólogo Dale Russell propôs uma experiência mental no qual um dinossauro carnívoro evoluiu para um utilizador de ferramentas inteligente. Este “dinossauróide” tinha cérebro grande com polegares opositores e andava erecto.

Não é impossível mas é improvável. A biologia de um animal restringe a direcção da sua evolução. O seu ponto de partida limita os seus pontos finais.

Se alguém abandonar a faculdade, provavelmente não será um neurocirurgião, advogado ou cientista de foguetões da NASA. Mas pode ser um artista, actor ou empresário. Os caminhos que percorremos na vida abrem algumas portas e fecham outras. Isso também é verdade na evolução.

Corpos grandes, cérebros pequenos

Consideremos o tamanho dos dinossauros. Começando no Jurássico, dinossauros saurópodes, brontossauros e parentes evoluíram para gigantes de 30 a 50 toneladas de até 30 metros de comprimento – 10 vezes o peso de um elefante e tão longo quanto uma baleia azul. Isto aconteceu em vários grupos, incluindo Diplodocidae, Brachiosauridae, Turiasauridae, Mamenchisauridae e Titanosauria.

Isto aconteceu em diferentes continentes, em diferentes épocas e em diferentes climas, de desertos a florestas tropicais. Mas outros dinossauros que vivem nesses ambientes não se tornaram super-gigantes.

O traço comum que ligava esses animais era que eles eram saurópodes. Algo sobre a anatomia dos saurópodes – pulmões, ossos ocos com uma alta relação força-peso, metabolismo ou todas essas coisas – desbloqueou o seu potencial evolutivo. Permitiu que eles crescessem de uma forma que nenhum animal terrestre tinha feito antes, ou desde então.

Da mesma forma, os dinossauros carnívoros transformaram-se repetidamente em predadores enormes, de 10 metros e de várias toneladas. Ao longo de 100 milhões de anos, megalossaurídeos, alossaurídeos, carcarodontossaurídeos, neovenatorídeos e, finalmente, tiranossauros tornaram-se predadores gigantes.

Os dinossauros desenvolveram corpos grandes com facilidade. Cérebros grandes nem tanto. Os dinossauros mostraram uma tendência fraca para aumentar o tamanho do cérebro ao longo do tempo. Dinossauros jurássicos como Allosaurus, Stegosaurus e Brachiosaurus tinham cérebros pequenos.

Nick Longrich
Dinossauros e mamíferos gigantes ao longo do tempo

No final do Cretáceo, 80 milhões de anos depois, os tiranossauros e os dinossauros da família Hadrosauridae desenvolveram cérebros maiores. Mas, apesar do seu tamanho, o cérebro do T. rex ainda pesava apenas 400 gramas. Um cérebro Velociraptor pesava 15 gramas. O cérebro humano médio pesa 1,3 kg.

Os dinossauros entraram em novos nichos ao longo do tempo. Os pequenos herbívoros tornaram-se mais comuns e as aves diversificaram-se. Formas de pernas longas evoluíram mais tarde, sugerindo uma corrida entre predadores velozes e as suas presas.

Os dinossauros parecem ter tido vidas sociais cada vez mais complexas. Começaram a viver em grupo e desenvolveram chifres elaborados para luta e exibição. No entanto, os dinossauros parecem repetir-se, evoluindo até serem herbívoros gigantes e carnívoros com cérebros pequenos.

Há poucas pistas nos 100 milhões de anos de história dos dinossauros que sugerem que eles teriam feito algo radicalmente diferente se o asteróide não tivesse caído. Provavelmente ainda teríamos aqueles herbívoros super-gigantes de pescoço comprido e enormes predadores parecidos com tiranossauros.

Poderiam ter desenvolvido cérebros ligeiramente maiores, mas há poucas evidências de que tenham evoluído para génios. Também não é provável que os mamíferos os tivessem deslocado. Os dinossauros monopolizaram os seus ambientes até ao fim, quando o asteróide os atingiu.

Diferenças dos mamíferos

Os mamíferos, por sua vez, tinham restrições diferentes. Nunca desenvolveram herbívoros e carnívoros super-gigantes. Mas desenvolveram cérebros grandes repetidamente. Cérebros maciços (tão grandes ou maiores que os nossos) evoluíram em orcas, cachalotes, baleias, elefantes, focas leopardo e macacos.

Hoje, alguns descendentes de dinossauros – pássaros como corvos e papagaios – têm cérebros complexos. Podem usar ferramentas, falar e contar. Mas foram os mamíferos como os macacos, elefantes e golfinhos que desenvolveram os maiores cérebros e os comportamentos mais complexos.

Então, a eliminação dos dinossauros garantiu que os mamíferos desenvolveriam inteligência? Bem, talvez não.

Os pontos de partida podem limitar os pontos finais, mas também não os garantem. Steve Jobs, Bill Gates e Mark Zuckerberg abandonaram a faculdade.

Mas se desistir automaticamente tornasse alguém um multi bilionário, todos os que abandonaram a faculdade seriam ricos. Mesmo começando no lugar certo, é preciso ter oportunidades e sorte.

A história evolutiva dos primatas sugere que a nossa evolução foi tudo menos inevitável. Na África, os primatas evoluíram para macacos com cérebros grandes e, ao longo de 7 milhões de anos, produziram humanos modernos. Mas noutros lugares a evolução dos primatas tomou caminhos muito diferentes.

Quando os macacos chegaram à América do Sul, há 35 milhões de anos, eles evoluíram para mais espécies de macacos. E os primatas chegaram à América do Norte pelo menos três vezes distintas, há 55 milhões de anos, há 50 milhões de anos e há 20 milhões de anos.

No entanto, não evoluíram para uma espécie que fabrica armas nucleares e smartphones. Em vez disso, por razões que não entendemos, eles foram extintos.

Em África, e somente em África, a evolução dos primatas tomou uma direcção única. Algo sobre a fauna, a flora ou a geografia da África impulsionou a evolução dos símios: primatas terrestres, de corpo grande e cérebro grande, que usam ferramentas. Mesmo sem os dinossauros, a nossa evolução precisou da combinação certa de oportunidade e sorte.

ZAP // The Conversation
27 Novembro, 2022



 

801: No Egipto, os escravos eram tratados como animais. As marcas no corpo confirmam

CIÊNCIA/PALEONTOLOGIA/EGIPTO/ESCRAVOS

Ferros em chamas eram utilizados para marcar os escravos, como sinal de propriedade do faraó.

Johann Moritz Rugendas / Wikimedia
Pintura mostra cenário de um navio que transportava escravos para as Américas

O Egipto ficou na história como um local de grandes avanços, de grandes pirâmides, de inovações significativas.

Mas, tal como em quase todo o lado – recordemos os ‘Descobrimentos’ feitos pelos portugueses – há registos igualmente marcantes, mas menos positivos.

“Marcantes” é uma palavra adequada para o estudo revelado no The Journal of Egyptian Archaeology, citado pelo portal The Jerusalem Post.

A investigação demonstra – ou confirma – que os escravos eram literalmente marcados, tal como gado, no antigo Egipto.

As marcas eram feitas para identificar aquelas pessoas como propriedade de um determinado faraó.

As marcas realizadas com ferro em chamas serviam, não só para sinalizar a propriedade, mas também para mostrar que os escravos estavam ao nível do gado, naquela sociedade.

Os escravos tinham no corpo marcas diferentes das outras pessoas da época. Não eram uma espécie de tatuagem ou “arte corporal” daquela altura. Seriam mesmo marcas propositadas.

A descoberta de diversos ferros que eram demasiado pequenos para marcar gado originou esta associação por parte dos investigadores.

Foram 10 ferros descobertos, que datam aproximadamente do período entre o ano 1292 a.C. até 656 a.C..

Ou seja, mais de 600 anos a marcar pessoas.

Os séculos passaram e houve coisas que não mudaram: no século XIX, há tão “pouco” tempo, foram utilizados ferros semelhantes para marcar escravos na Europa.

ZAP //
19 Novembro, 2022



 

759: 8 mil milhões. Quão diferente seria o mundo se os Neandertais tivessem prevalecido?

CIÊNCIA/NEANDERTAIS/PALEONTOLOGIA

Em termos evolutivos, a população humana disparou em segundos. A notícia de que já chegou a 8 mil milhões parece inexplicável quando se pensa na nossa história.

Randii Oliver / NASA

Durante 99% do último milhão de anos de nossa existência, as pessoas raramente se depararam com outros humanos. Havia apenas cerca de 10 000 neandertais a viver ao mesmo tempo. Hoje, cerca de 800 mil pessoas ocupam o mesmo espaço que um Neandertal ocupava.

Além disso, como os humanos vivem em grupos sociais, o próximo grupo neandertal mais próximo provavelmente estava a mais de 100 km de distância. Encontrar um companheiro fora da sua própria família foi um desafio.

Os neandertais eram mais inclinados a permanecer nos seus grupos familiares e eram mais cautelosos com novas pessoas. Se tivessem superado a nossa própria espécie (Homo sapiens), a densidade populacional provavelmente seria muito menor.

É difícil imaginá-los a construir cidades, por exemplo, visto que eram geneticamente dispostos a ser menos amigáveis ​​com aqueles além de sua família imediata.

As razões para o nosso dramático crescimento populacional podem estar nos primórdios do Homo sapiens, há mais de 100.000 anos. As diferenças genéticas e anatómicas entre nós e espécies extintas, como os neandertais, tornaram-nos mais semelhantes às espécies de animais domesticados.

Grandes rebanhos de vacas, por exemplo, podem tolerar melhor o stress de viver juntos num pequeno espaço do que os seus antepassados selvagens que viviam em pequenos grupos, espaçados. Estas diferenças genéticas mudaram as nossas atitudes em relação às pessoas fora do nosso próprio grupo. Ficamos mais tolerantes.

Theofanopoulou C PLoS ONE 12(10): e0185306, CC BY

Como o Homo sapiens era mais propenso a interagir com grupos fora de sua família, criaram um acervo genético mais diversificado que reduziu os problemas de saúde.

Os neandertais de El Sidrón, na Espanha, apresentaram 17 deformidades genéticas em apenas 13 pessoas, por exemplo. Tais mutações eram praticamente inexistentes em populações posteriores da nossa própria espécie.

Mas as populações maiores também aumentam a propagação de doenças. Os neandertais podem ter tido vidas mais curtas do que os humanos modernos, mas o seu relativo isolamento protegeu-os das doenças infecciosas que às vezes destruíram populações inteiras de Homo sapiens.

Pôr mais comida na mesa

A nossa espécie também pode ter tido taxas de reprodução 10% a 20% mais rápidas do que as espécies humanas anteriores. Mas ter mais bebés só aumenta a população se houver comida suficiente para eles comerem.

A nossa inclinação genética para a amizade tomou forma há cerca de 200 000 anos. A partir desta época, há evidências arqueológicas de que as matérias-primas para fazer ferramentas são movimentadas pela paisagem de forma mais ampla.

Desde há 100.000 anos, criamos redes ao longo das quais novos tipos de armas de caça e jóias, como contas de conchas, poderiam espalhar-se. As ideias eram amplamente partilhadas e havia agregações sazonais onde o Homo sapiens se reunia para rituais e socialização. As pessoas tinham amigos de quem depender em diferentes grupos quando estavam com falta de comida.

E talvez também precisássemos de mais contacto emocional e novos tipos de relacionamento fora dos nossos mundos sociais humanos. Num mundo alternativo onde os neandertais prosperaram, pode ser menos provável que os humanos tenham nutrido relacionamentos com animais por meio da domesticação.

Mudanças dramáticas no ambiente

As coisas também poderiam ter sido diferentes se os ambientes não tivessem gerado tanta escassez repentinos, como declínios acentuados de plantas e animais, em muitas ocasiões. Se não fosse por estas mudanças casuais, os neandertais poderiam ter sobrevivido.

Partilhar recursos e ideias entre os grupos permitiu que as pessoas vivessem da terra com mais eficiência, distribuindo tecnologias mais eficazes e dando comida umas às outras em tempos de crise.

Esta foi provavelmente uma das principais razões que explica a sobrevivência da nossa espécie quando o clima mudou enquanto outras morreram. O Homo sapiens adaptou-se melhor às variáveis ​​climáticas e condições de risco. Isso ocorreu em parte porque a nossa espécie pode depender de redes sociais em tempos de crise.

Durante o auge da última era do gelo, há cerca de 20 000 anos, as temperaturas em toda a Europa eram entre 8 a 10º. C graus mais baixas do que hoje, com as da Alemanha sendo mais parecidas com as do norte da Sibéria agora. A maior parte do norte da Europa ficava coberta de gelo durante seis a nove meses do ano.

As conexões sociais forneceram os meios pelos quais as invenções poderiam espalhar-se entre os grupos para nos ajudar na adaptação. Isso incluía lançadores de lanças para tornar a caça mais eficiente, agulhas finas para se fazer roupas ajustadas e manter as pessoas mais quentes, armazenamento de alimentos e caça com lobos domesticados. Como resultado, mais pessoas sobreviveram à roda da fortuna da natureza.

O Homo sapiens geralmente tomava cuidado para não consumir recursos como veados ou peixes, e provavelmente era mais consciente dos seus ciclos de vida do que muitas espécies anteriores de humanos. Por exemplo, as pessoas na Colúmbia Britânica, no Canadá, só pescavam machos quando pescavam salmão.

Em alguns casos, no entanto, estes ciclos de vida eram difíceis de ver. Durante a última Idade do Gelo, animais como os mamutes, que percorriam imensos territórios invisíveis aos grupos humanos, foram extintos.

Existem mais de 100 representações de mamutes em Rouffignac, na França, que datam da época do seu desaparecimento, o que sugere que as pessoas lamentaram essa perda. Mas é mais provável que os mamutes tivessem sobrevivido se não fosse pelo surgimento do Homo sapiens, porque haveria menos neandertais para caçá-los.

Inteligentes demais para o nosso próprio bem

O nosso gosto pela companhia uns dos outros estimulou a nossa criatividade e foi importante para a formação de nossa espécie. Mas teve um preço.

Quanto mais tecnologia a humanidade desenvolve, mais o nosso uso dela prejudica o planeta. A agricultura intensiva está a drenar os nossos solos de nutrientes, a pesca excessiva está a destruir os mares e os gases de efeito estufa estão a causar  desastres extremos.

Podemos esperar que a evidência visual da destruição no nosso mundo natural mude as nossas atitudes com o tempo. Mudamos rapidamente quando precisamos ao longo de nossa história. Afinal, não existe planeta B. Mas se os neandertais tivessem sobrevivido em vez de nós, nunca precisaríamos de um.

ZAP // The Conversation
16 Novembro, 2022



 

564: Neandertais não foram extintos pela guerra. Foi pelo sexo

NEANDERTAIS/PALEONTOLOGIA

Mihin89 / Deviant Art
“Caçadores de mamutes” por Mihin89

Uma nova teoria sugere que os neandertais não foram extintos pela guerra com os Homo sapiens, mas sim devido ao cruzamento entre as duas espécies.

Os neandertais foram uma espécie prima extinta com o qual o homem moderno conviveu. Acredita-se que se tenham extinguido há 28 mil anos. Até agora, os especialistas sugeriam que a sua extinção estava associada a uma guerra entre neandertais e Homo sapiens.

A guerra entre Homo sapiens e neandertais terá durado mais de 100 mil anos, segundo evidências científicas de Nicholas Longrich, da Universidade de Bath. Após tantos anos de guerras, algo terá mudado e a tecnologia dos Homo sapiens destacou-se, mudando completamente a guerra entre ambos e resultando na extinção da espécie prima.

Um novo artigo publicado recentemente na revista PalaeoAnthropology levantou a possibilidade de que a reprodução cruzada com os nossos antepassados poderá ter resultado no cruzamento de alguns neandertais uns com os outros, levando à sua extinção.

“O nosso conhecimento da interacção entre Homo sapiens e neandertais ficou mais complexo nos últimos anos, mas ainda é raro ver discussão científica de como o cruzamento entre os grupos aconteceu”, disse Chris Stringer, co-autor do estudo juntamente com Lucile Crété, em comunicado.

“Propomos que esse comportamento poderá ter levado à extinção dos neandertais se eles estivessem a reproduzir-se regularmente com o Homo sapiens, o que poderia ter erodido a sua população até que desaparecessem”, lê-se ainda no comunicado.

Dados genéticos sugerem que as duas espécies encontraram-se pela primeira vez quando o Homo sapiens começou a viajar para fora de África, há cerca de 250.000 anos.

“Sem saber exactamente como é que os neandertais se pareciam ou se comportavam, só podemos especular o que o Homo sapiens terá pensado dos seus parentes”, disse Stringer.

“As diferenças linguísticas provavelmente terão sido maiores do que conseguimos imaginar, dada a profundidade do tempo da separação, e teriam sido muito maiores do que aquelas entre quaisquer línguas modernas”.

Curiosamente, a comunicação entre ambos poderá ter sido feita através de subtis sinais com as sobrancelhas. Embora a comunicação fosse limitada, os encontros entre as duas espécies levaram à reprodução sexual. Os cientistas não sabem ao certo como, escreve o Interesting Engineering.

Uma descoberta interessante é a falta de ADN mitocondrial, que é herdado através das fêmeas, apontando para a evidência de que apenas os neandertais machos e as Homo sapiens fêmeas poderiam acasalar.

“Não sabemos se o aparente fluxo genético unidireccional é porque simplesmente não estava a acontecer, que a reprodução estava a acontecer, mas não teve sucesso, ou se os genomas neandertais que temos não são representativos.

À medida que mais genomas neandertais são sequenciados, devemos ser capazes de ver se algum ADN nuclear do Homo sapiens foi passado para os neandertais e demonstrar se essa ideia é precisa ou não”, acrescentou Stringer.

Daniel Costa, ZAP //
3 Novembro, 2022



 

515: Descoberta reescreve a história de como os peixes evoluíram para homens

CIÊNCIA/PALEONTOLOGIA/PALEOANTROPOLOGIA

IVPP
Cinco peixes silurianos da China

Investigadores do Instituto de Paleontologia e Paleoantropologia de Vertebrados (IVPP) da Academia Chinesa de Ciências encontraram recentemente dois repositórios de fósseis nos primeiros do sudoeste de Guizhou e Chongqing.

Quatro estudos diferentes que descrevem as suas análises foram recentemente publicados na revista Nature [artigo 1, artigo 2, artigo 3, artigo 4].

A história evolutiva “desde o peixe ao humano” foi reescrita depois de os investigadores analisarem estas novas descobertas.

No entanto, a forma como esta inovação ocorreu permanece um mistério, devido ao facto de os fósseis de vertebrados de mandíbula precoce não terem sido descobertos em grande número até ao início do Devoniano — há 419 milhões de anos —, apesar dos dados moleculares indicarem que a origem dos vertebrados de mandíbula deveria ter ocorrido há mais de 450 milhões de anos.

Como resultado, existe uma lacuna significativa no registo fóssil de vertebrados de mandíbula precoce, que dura pelo menos 30 milhões de anos, desde o Ordoviciano tardio ao Siluriano, segundo a Sci Tech Daily.

A equipa encontrou dois novos depósitos de fósseis, lançando luz sobre a ascensão de vertebrados de mandíbulas. Estes peixes já prosperavam nas águas do Sul da China há pelo menos 440 milhões de anos.

No final da Silúria, os peixes de mandíbula tornaram-se mais diversos e maiores. Evoluíram e começaram a espalhar-se pelo mundo, dando início à era dos peixes em terra. Depois, os humanos começaram a evoluir.

As descobertas de fósseis de peixe dos dois repositórios ajudam a rastrear muitas estruturas do corpo humano até aos peixes antigos, há cerca de 440 milhões de anos, e preenchem algumas lacunas fundamentais na evolução “do peixe para o humano”, dando mais provas que mostram o caminho evolutivo.

O depósito fóssil de peixes em Chongqing tem 436 milhões de anos. É o único Lagerstätte siluriano precoce do mundo (depósito fóssil com preservação excepcional) que preserva peixes com mandíbulas completas, cabeça a cabeça, proporcionando uma oportunidade inigualável de espreitar o “amanhecer dos peixes“.

Este “depósito fóssil de tesouros” ergue-se entre outros grandes Lagerstätten chineses: Chengjiang Biota e o Jehol Biota. Todos fornecem quebra-cabeças chave.

  ZAP //
29 Outubro, 2022



 

504: Humanos antigos. Canibais oportunistas ou predadores?

CIÊNCIA/PALEONTOLOGIA/ANTROPOLOGIA/ARQUEOLOGIA

Randii Oliver / NASA

Os nossos antepassados do Paleolítico comiam-se uns aos outros. Os Homo sapiens e os neandertais também, tal como Homo erectus e o seu antecessor. É altamente provável que quase todos os hominídeos tenham praticado o canibalismo de alguma forma. As questões são “porquê” e “até que ponto”?

Segundo um artigo do Big Think, actualmente o canibalismo é visto como algo “abominável”. Mas será que essa aversão existia entre os nossos antepassados?

Os cientistas geralmente consideram o canibalismo paleolítico como uma excepção, não uma norma, “mas talvez isso seja apenas o desejo” de “imaginar os nossos ancestrais “como nobres caçadores e colectores” e não “como canibais brutais e oportunistas”.

James Cole, professor de Arqueologia na Universidade de Brighton, que recebeu um Prémio IgNobel pela investigação publicada em 2017 na Nature, referiu que “dada a natureza esparsa do registo fóssil de hominídeos, o facto de termos provas de canibalismo indica que o comportamento era talvez mais comum dentro das populações pré-históricas do que o número sugerido pelos sítios arqueológicos”.

Cole descreveu alguns sinais claros sobre ossos humanos fossilizados que apontam para o canibalismo: ausência de uma base craniana (para chegar ao cérebro) em esqueletos completos ou quase completos; ausência de vértebras (devido a esmagamento ou fervura para chegar à medula óssea e à gordura) e marcas de corte.

Além disso, outros sinais são as técnicas de abate comparáveis em restos humanos; provas de cozedura sob a forma de osso queimado e marcas de dentes humanos.

Estes indicadores foram observados em sítios humanos antigos em todo o mundo. Nas Cavernas Goyet, na Bélgica, os investigadores encontraram provas de que, há cerca de 45.000 anos, os neandertais massacraram alguns dos seus mortos e utilizaram os seus ossos como ferramentas.

E na caverna de Gough, no Reino Unido, os antropólogos descobriram marcas de mordeduras em ossos de Homo sapiens com 15.000 anos. Também descobriram centenas de marcas de filetagem e incisões ritualísticas nos ossos e crânios desenterrados aparentemente modificados para utilização como copos.

Será que os humanos praticavam o canibalismo de forma oportunista, devido à morte de um membro do grupo? Terá sido por necessidade, em situações de fome? Ou será que os humanos de grupos rivais caçavam-se uns aos outros?

Cole calculou o número de calorias que teria um homem adulto. Descobriu que seria de 143.771, o suficiente para alimentar um grupo de 25 humanos adultos durante meio dia.

Na sua opinião, “não valeria o esforço, especialmente em comparação com a caça a um cavalo, um boi selvagem ou um mamute, excluindo a ideia de que os humanos antigos caçavam-se uns aos outros regularmente”, lê-se no artigo.

“Um único grande indivíduo da fauna fornece muito mais calorias sem as dificuldades de caçar grupos de hominídeos, que eram tão inteligentes e engenhosos como os caçadores”, escreveu Cole.

Isso significa que, provavelmente, o canibalismo paleolítico era praticado de forma oportunista, por necessidade ou para fins ritualísticos, acrescentou.

  ZAP //
28 Outubro, 2022



 

491: Nova espécie de pterossauro encontrado em Angola

CIÊNCIA/PALEONTOLOGIA

Uma equipa de cientistas identificou em Angola os restos fósseis de um pterossauro que habitou o local há entre 210 milhões e 65 milhões de anos. Estas criaturas viveram ao mesmo tempo que os dinossauros.

Alguns pterossauros, tais como os azhdarchidae gigantes, foram os maiores animais voadores da Terra, com asas que chegavam aos 12 metros e uma altura comparável à das girafas. As espécies recém-identificadas tinham uma envergadura estimada de 4,8 metros, revelou o Sci News.

Designada epapatelo otyikokolo, esta espécie viveu no que é hoje o território angolano no período Cretáceo, há entre 71,6 e 71,4 milhões de anos, segundo um estudo publicado na Diversity.

“As descobertas de pterossauros em África têm sido relativamente esparsas, com as principais concentrações de fósseis no continente a ocorrer em países do norte, com ocorrências díspares mais a sul”, indicou Alexandra Fernandes, paleontóloga do Museu da Lourinhã, da Universidade NOVA de Lisboa e da Bayerische Staatssammlung für Paläontologie und Geologie.

“Esta distribuição deve-se, provavelmente, à escassa amostragem de campo e à potencial indisponibilidade de exposições mesozóicas em toda a África subsariana. Além disso, a maior parte do que tem sido desenterrado em África são ossos isolados”, indicou a especialista.

De acordo com os investigadores, o epapatelo otyikokolo pertence à família dos pterossauros Pteranodontia.

Os restos fossilizados de vários indivíduos de Epapatelo otyikokolo e outros pterossauros foram encontrados na parte superior da Formação Mucuio, perto da comuna de Bentiaba, na província do Namibe, em Angola.

“Colocamos a hipótese de que os pterossauros angolanos entraram no reino marinho enquanto se alimentavam, da mesma forma que as modernas aves marinhas – como os alcatrazes e os pelicanos castanhos”, disseram os autores.

  ZAP //
26 Outubro, 2022



 

457: O primeiro retrato de uma família neandertal

CIÊNCIA/PALEONTOLOGIA/NEANDERTAIS

É a primeira vez que uma família neandertal é localizada e os seus perfis genéticos confirmam dados importantes para se entender por que desapareceram para sempre.

© Marco Bertarello / AFP

Os Flinstones originais? O maior estudo genético de neandertais já realizado ofereceu um retrato sem precedentes de uma família, incluindo um pai e a sua filha adolescente, que viviam numa caverna siberiana há cerca de 54.000 anos.

A nova investigação, publicada na revista Nature nesta quarta-feira, usou o sequenciamento de DNA para analisar a vida social de uma comunidade neandertal, descobrindo que as mulheres eram mais propensas a fazer vida afastada das cavernas do que os homens.

Escavações arqueológicas anteriores já tinham mostrado que os neandertais eram mais sofisticados do que se pensava, enterrando os seus mortos e fabricando ferramentas e ornamentos elaborados. No entanto, pouco se sabe sobre a sua estrutura familiar ou a forma como se organizavam em sociedade.

O sequenciamento do primeiro genoma neandertal em 2010, que rendeu ao paleogeneticista sueco Svante Paabo o prémio Nobel da Medicina no início deste mês, ofereceu uma nova forma de descobrir mais sobre os nossos ancestrais extintos.

Uma equipa internacional de investigadores concentrou-se em vários restos neandertais encontrados nas cavernas Chagyrskaya e Okladnikov, no sul da Sibéria. Os fragmentos dispersos de ossos estavam principalmente numa única camada na terra, sugerindo que os neandertais viveram na mesma época.

“Primeiro tivemos que identificar quantos indivíduos tínhamos”, disse à AFP Stephane Peyregne, geneticista evolucionista do Instituto Max Planck da Alemanha e co-autor do estudo.

“Parecem muito mais humanos”

A equipa usou novas técnicas para extrair e isolar o DNA antigo dos restos mortais. Ao sequenciar o DNA, os investigadores estabeleceram que havia 13 neandertais, sete machos e seis fêmeas. Cinco elementos do grupo eram crianças ou adolescentes.

Onze dos elementos eram da caverna de Chagyrskaya, muitos deles da mesma família, incluindo um pai e a sua filha adolescente, além de um menino e uma mulher que eram parentes de segundo grau, como primo, tia ou avó.

Os investigadores também descobriram que um homem era parente materno do pai porque tinha um fenómeno genético chamado heteroplasmia, que só passa de geração em geração.

“O nosso estudo fornece uma imagem concreta de como poderia ser uma comunidade neandertal”, disse Benjamin Peter, do Instituto Max Planck, na Alemanha, que supervisionou o estudo juntamente com o sueco Paabo, em comunicado. “Isto faz com que os neandertais pareçam muito mais próximos dos humanos”, acrescentou.

A análise genética mostrou que o grupo não se cruzou com os seus parentes próximos, como humanos e denisovanos, hominídeos descobertos por Paabo em cavernas a apenas algumas centenas de quilómetros de distância.

No entanto, sabemos que os neandertais se cruzaram com o homo sapiens em determinado momento – os estudos de Paabo também revelaram que quase todos os humanos modernos têm um pouco de DNA neandertal.

Endogamia

A comunidade de cerca de 10 a 20 neandertais parece ter-se reproduzido em grande parte entre si, exibindo muito pouca diversidade genética, segundo o estudo. Estima-se que os neandertais existiram entre há 430.000 e há 40.000 anos, pelo que este grupo terá vivido perto da extinção da sua espécie.

O estudo comparou o nível de endogamia da comunidade com o dos gorilas das montanhas ameaçados de extinção. Outra explicação para a endogamia pode ser a de que os neandertais viviam numa região isolada.

“Provavelmente estamos a lidar com uma população muito subdividida”, disse ​​​​​​​Peyregne.

Os investigadores descobriram que os cromossomos Y do grupo, que são herdados de pai para filho, eram muito menos diversos do que seu DNA mitocondrial, que é herdado das mães.

Isso sugere que as mulheres viajavam com mais frequência para interagir e procriar com diferentes grupos de neandertais, enquanto os homens ficavam em casa.

Diário de Notícias
DN/AFP
19 Outubro 2022 — 21:18



339: Novo estudo aponta para declínio dos dinossauros antes da colisão com asteróide

CIÊNCIA/PALEONTOLOGIA/PALEOANTROPOLOGIA/DINOSSAUROS/EXTINÇÃO

Mais de mil amostras de casca de ovo de dinossauro foram recolhidas por investigadores da China.

Dariusz Sankowski / Pixabay

A maioria das pessoas associa a extinção total dos dinossauros, há milhões e milhões de anos, a uma colisão entre a Terra e um asteróide.

Os pássaros passaram a ser os únicos descendentes vivos, após esse fenómeno ocorrido há cerca de 66 milhões de anos.

No entanto, e apesar de essa colisão ter mesmo “eliminado” os dinossauros, essa espécie já estava em declínio antes desse momento.

Já não havia muita diversidade de dinossauros durante os últimos 2 milhões de anos do período Cretáceo, reforçam investigadores Instituto de Paleontologia e Paleoantropologia de Vertebrados da Academia Chinesa de Ciências.

No estudo publicado no PNAS, a publicação oficial da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos da América, os especialistas escrevem que havia “baixa biodiversidade de dinossauros” e esses dados indicam um declínio na biodiversidade de dinossauros milhões de anos antes da fronteira entre Cretáceo e Paleogeno – precisamente há quase 66 milhões de anos.

“Os eventos catastróficos do final do Cretáceo provavelmente actuaram sobre um ecossistema já vulnerável e levaram à extinção de dinossauros não aviários”, defendem os chineses.

Para chegar (repetir) esta conclusão, foram analisadas mais de mil amostras de casca de ovo de dinossauro na Bacia de Shanyang, na China. Esse local é um dos mais ricos do planeta, em registos de dinossauros mais abundantes de uma sequência do Cretáceo Superior.

E, entre o mais de milhar de fósseis analisados, só estavam representadas três espécies: Macroolithus yaotunensis, Elongatoolithus elongatus e Stromatoolithus pinglingensis.

Os investigadores conseguiram estimativas detalhadas de idade das camadas de rocha analisando e aplicando modelagem computacional a mais de 5.500 amostras geológicas.

O portal EurekAlert! acrescenta que este desaparecimento gradual dos dinossauros esteve relacionado com flutuações climáticas e erupções vulcânicas maciças.

  ZAP //
Nuno Teixeira da Silva
24 Setembro, 2022