611: Vai fogoso e não seguro

– MRS é o presidente dos eleitores que votaram nele. Ultimamente tem-se dedicado a protagonizar elogios a elementos do seu partido, notoriamente abandonando a independência política que deveria assumir com o seu cargo. Por isso, não o considero o presidente de todos os portugueses mas apenas o presidente do seu eleitorado político.

OPINIÃO

Há um problema sério com Marcelo Rebelo de Sousa e temos de lhe pedir que o resolva, porque uma maioria absoluta no Parlamento sem um Presidente absolutamente determinado em combater os abusos dessa maioria, é um desperdício de tempo e de talento.

O talento de um comunicador que soube captar a atenção de uma parte dos portugueses que estava desligada da política, que rebentou com as audiências do comentário político na televisão, que se fez do povo vindo da elite, que virou a estrela das selfies aquém e além mar.

Não aproveitar esse talento para exigir que o Executivo explique prontamente todos os casos que se dão à estampa, incluindo o do secretário de Estado-adjunto do primeiro-ministro, é deixar no governo a sensação de que pode andar em roda livre. Daí para o rolo compressor é um passinho.

Miguel Alves veio, entretanto, dar algumas explicações, numa entrevista ao JN/TSF, mas não deixou escapar a oportunidade de apontar o dedo ao mensageiro, apresentando-se como vítima do “preconceito” em relação a quem está fora da “corte” mediática de Lisboa. Um preconceito que existe, sobretudo, na sua opinião, porque as coisas aconteceram em Caminha.

Tendo demorado dez dias para responder, o tempo que considerou necessário para escrever uma carta à PGR, o secretário de Estado lamenta que “estes dias, com este enredo de insinuações e suspeições, acabam por prejudicar e atacar a minha credibilidade”, mas reconhece que sem este escrutínio do jornalista José António Cerejo não se conheceriam algumas mentiras do currículo do promotor. Não tivesse havido notícia e, provavelmente, também não teriam existido os desenvolvimentos positivos nesta história.

Agora, é difícil o dinheiro ficar perdido no imaginário de uma obra não concretizada. Miguel Alves precisou de 10 dias para dar explicações e o que queria, afinal, é que o víssemos como a vítima da história.

Regressemos ao fogoso comentador, inquilino do Palácio de Belém, que corre atrás de cada notícia e que nelas tem andado a tropeçar com muita frequência, obrigado a corrigir o tiro. Dele nada se ouviu sobre o adjunto de António Costa e bem que lhe podia ter lembrado que “quando se aceitam funções políticas é para o bem e para o mal.

Não somos obrigados a aceitar, sabemos que são difíceis e sujeitas ao controlo e escrutínio crescentes”. Isto foi dito por Marcelo, mas dirigido a uma ministra com quem o Presidente entendeu fazer troça.

Coragem era ter lançado a ameaça sobre a número dois do governo (Mariana Vieira da Silva), que é quem tem a gestão do PRR, ou mesmo sobre António Costa, responsável por tudo o que acontece no governo. Mas é já evidente que o Presidente tem receio da reacção do primeiro-ministro.

Marcelo sempre foi divertido e essa é uma característica que joga a seu favor. Seja a fazer análise política, seja no exercício da função presidencial, convém é que nunca perca a noção dos limites, o povo na sua imensa sabedoria está cá para lembrar ao Presidente que “mais vale cair em graça do que ser engraçado”.

Jornalista

Diário de Notícias
Paulo Baldaia
07 Novembro 2022 — 06:15



 

539: O bolsonarismo venceu, está a vencer

OPINIÃO

Escrevo a uma hora em que os brasileiros ainda não acabaram de votar. O título desta crónica não é, portanto, sobre o resultado da segunda volta das Presidenciais brasileiras, é sobre uma sociedade que chegou a estas eleições profundamente dividida e, não apenas no Brasil, insuportavelmente reaccionária. Na verdade, o bolsonarismo, o trumpismo, ou o venturismo em terras lusas, representam o mesmo, são fruto do oportunismo mais básico.

Jogam com o medo das pessoas, que cresce nos tempos de maior incerteza; oferecem soluções simplistas que parecem tremendamente eficazes, mas que nunca funcionam, limitando-se a jogar a responsabilidade sobre o adversário político, visto como inimigo.

Esta marcha dos reaccionários, que se opõe aos avanços e transformações sociais (a começar pelos direitos das mulheres), é a base social destes políticos oportunistas e populistas.

E só é assim porque os partidos tradicionais, pilares essenciais do sistema democrático, estão, eles próprios, a não saber lidar com uma desregulação do mercado de trabalho, que o torna retrógrado.

Trabalhadores que passaram a colaboradores e recibos verdes que passaram a empreendedores acreditam cada vez mais que são os pobres e os imigrantes que os impedem de ter uma vida melhor, porque é suposto os pobres serem pobres, porque não lutam para sair da pobreza, e os imigrantes não se adaptam, porque querem impor-nos a sua cultura, transformando-se uns e outros num peso para o país.

Marcelo chegou a Belém já Costa estava em São Bento e tem medo de sair deixando Costa no mesmo lugar, mas muito pior que isso será deixar André Ventura como fazendo parte do seu legado ao país.

A este populismo mais básico que consolida o poder da extrema-direita no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa e em tantos outros lados do mundo, respondem os democratas com um populismo mais soft, que coloca igualmente as culpas do que corre mal nos outros. Como se vê agora pela Europa, procurando atribuir ao Banco Central Europeu os males do mundo que estão para chegar.

Isto é também uma vitória dos movimentos reaccionários que procuram normalizar os comportamentos mais perversos e aproveitam todas as brechas abertas na Democracia. Uma trupe de políticos, comentadores e influencers, para quem não há liberdade de expressão sem o direito de mentir e ofender.

O que se segue, na rota da crise, aponta para dificuldades cada vez maiores dos trabalhadores, pobres ou com medo da pobreza, aumentando o potencial de crescimento dos populistas de extrema-direita.

Em Novembro há Intercalares nos Estados Unidos e poderemos confirmar que o trumpismo também está a vencer e se mantém forte, mesmo depois de os norte-americanos terem experimentado todas as misérias da presidência de Trump.

Por cá, seguimos cantando e rindo, reféns de um poder socialista que se diverte a dar primazia ao Chega, de uma oposição social-democrata que anda a toque de caixa com o que Ventura faz e diz, nem cuidando de perceber que estão todos a trabalhar para que um dia também seja possível em Portugal ter os reaccionários no poder.

Marcelo chegou a Belém já Costa estava em São Bento e tem medo de sair deixando Costa no mesmo lugar, mas muito pior que isso será deixar André Ventura como fazendo parte do seu legado ao país.

Jornalista

Diário de Notícias
Paulo Baldaia
31 Outubro 2022 — 00:30



 

448: Deixar o poder cair de podre

– Marcelo Rebelo de Sousa continua a ser, embora presidente da República Portuguesa dos portugueses que nele votaram, um comentador de TV, ávido de protagonismo seja ele de que tipo for e não escondendo as suas raízes políticas. Tiros nos pés não têm faltado.

OPINIÃO

A evidência de que Marcelo Rebelo de Sousa elogiou Pedro Passos Coelho para que se deixasse de falar dele e do abuso sexual de menores na Igreja não esconde outra evidência, a de que Marcelo vive no pesadelo de deixar Belém com a sua família política afastada do poder e sem perspectivas de lá chegar.

A melhor maneira de atingir esse objectivo não é, no entanto, disparatar a despropósito elogios ao “sempre primeiro-ministro” como quem está a escolher um sucessor.

Talvez por estar bastante menos nervoso do que o Presidente, e sem necessidade de mudar o foco, o actual líder do PSD, em entrevista à TSF e ao JN, mostrou-se esperançado de que o poder lhe caia no colo daqui a quatro anos. É a verbalização de uma convicção repetida inúmeras vezes por Rui Rio, a de que o poder não se ganha, perde-se.

Luís Montenegro vai fazendo o seu caminho com paciência e alimentando uma narrativa que é a única que lhe pode valer, tendo em conta que a anterior, a de que o PSD é de contas certas contra o PS que desbarata o dinheiro público, já não está disponível. O líder social-democrata quer ser o sucessor de Passos Coelho e de Durão Barroso na arte de agarrar o poder que o PS perde.

É isso que leva Montenegro a juntar Guterres, Sócrates e Costa no mesmo saco, mesmo sabendo que as circunstâncias são hoje completamente diferentes.

Marcelo parece acreditar que o contexto económico é hoje favorável ao governo socialista. Mesmo depois de uma crise pandémica e uma hiper-inflação numa economia de guerra, o Presidente acredita que Costa tem condições para levar o país a bom porto.

Tanto mais que o acordo de Concertação Social é visto como sendo suficientemente forte para a evitar que o regresso da contestação social, promovida pela esquerda, faça o governo perder popularidade. Talvez, as coisas à esquerda possam minar a coesão interna do governo, do próprio Partido Socialista.

Dividido, aliás, até na relação que Executivo e PS mantêm com Marcelo Rebelo de Sousa. Isso pode ajudar, mas será capaz de fazer cair o governo?

O Presidente também parece convencido de que o resultado das Europeias, em 2024, primeiras eleições em todo o território depois da maioria absoluta, dirá se o governo está ou não desgastado e, sobretudo, que compromisso António Costa ainda mantém com o partido e o país.

A ideia de que Costa pode acabar por rumar a Bruxelas não morreu com as ameaças presidenciais de convocar eleições, nem com as juras do primeiro-ministro de que levaria o mandato até ao fim.

Se os socialistas europeus ganharem as eleições e Costa estiver bem colocado para fazer o percurso que fez Barroso, essa hipótese nunca será descartada.

Para Montenegro, no entanto, se isso significar que o PS também terá um bom resultado nessas eleições, mesmo com os socialistas a perderem o seu principal activo, disputar eleições antecipadas não será o melhor cenário.

Pode ser o que mais convém a Marcelo mas, para o líder do PSD, o melhor é que as eleições se façam apenas em 2026, com um desgaste acumulado pelo exercício do poder durante dez anos.

Até lá convém construir uma alternativa que as pessoas percebam. Um poder que cai de podre não se conserta só porque muda o partido que lá está.

Jornalista

Diário de Notícias
Paulo Baldaia
17 Outubro 2022 — 00:37



 

410: O que o PSD pode aprender com a IL

OPINIÃO

Basta recuperar o debate da proposta do Chega sobre a castração química dos pedófilos para confirmar que o PSD ainda não percebeu nada do filme em que se meteu. Não me parece que Luís Montenegro tenha alguma dúvida sobre as propostas de André Ventura.

Talvez goste de algumas, mas nunca terá coragem de as apoiar, até ao dia em que se puder desculpar com a necessidade de fazer cedências em nome da constituição de uma maioria parlamentar, usando o “sublime” argumento de que o PS fez o mesmo com a extrema-esquerda.

Primeiro erro do PSD: está a contar que a Iniciativa Liberal dê o dito por não dito e aceite fazer parte de uma tríade de assalto ao poder.

A questão para o PSD, que a IL parece já ter resolvido, é não perceber que não se pode criticar o PS por fazer uma coisa e fazer o que se diz ser exactamente igual.

Segundo erro do PSD: não perceber que o inaceitável no PCP e no Bloco (estatização da economia, saída da NATO ou do Euro) pode ser colocado na gaveta e o inaceitável no Chega (xenofobia e racismo) contamina a sociedade, tornando-a mais violenta, mesmo que, obviamente, fique fora de qualquer acordo.

A questão para o PSD, que a IL parece querer resolver, é que tornar aceitável alguma dose de xenofobia e racismo nos seus eleitores e militantes serve apenas para fazer crescer o eleitorado do Chega.

Digo que a IL parece querer resolver porque ainda comete erros nesta matéria, como considerar uma questiúncula o facto de um militante seu utilizar as redes sociais para insultar com termos racistas o primeiro-ministro.

Exige-se que estes comportamentos sejam condenados, dispensando comentários que desvalorizam essa mesma condenação.

Ainda assim, em mais um debate que mostrou a falta de respeito que os deputados do Chega têm pelo debate democrático, mais parecendo estar num reality show com interrupções constantes das intervenções dos outros partidos, por vezes com insultos, foi a deputada Patrícia Gilvaz, da Iniciativa Liberal, que se destacou, sublinhando que a importância de discutir os abusos sexuais “contrasta com a falta de seriedade” com que o Chega aborda o tema.

Bem andaria o PSD se percebesse que aquilo que faz bem à democracia, a completa demarcação de um partido intolerante, racista e xenófobo, juntamente com a apresentação de uma alternativa concreta para o país, é o único caminho que pode levar ao crescimento do apoio eleitoral e, por aí, de regresso ao poder. Este é o caminho que a IL mostra querer percorrer.

A necessidade de uma afirmação urgente e inequívoca do PSD como alternativa de poder torna-se tão mais evidente quanto mais parece que o governo de António Costa anda completamente à deriva.

A sucessão de casos e incompatibilidades do Executivo não apenas o enfraquecem como fortalecem as soluções menos democráticas, sempre que a democracia não consegue gerar outro tipo de alternativas.

Foi disto que nos falou o Presidente da República no 5 de Outubro. Era bom que todos estivéssemos atentos, a começar pelos dirigentes políticos do PS e do PSD, que são os primeiros responsáveis pelo caminho que a extrema-direita vem fazendo em Portugal.

Jornalista

Diário de Notícias
Paulo Baldaia
10 Outubro 2022 — 07:00



 

352: Um governo com medo da própria sombra

OPINIÃO

1 O ministro António Costa Silva ou está naturalmente cansado de estar num governo Sem rei, nem roque, ou a sua vontade era ter sido ministro das Finanças e a única forma que encontrou de o dizer ao primeiro-ministro António Costa foi a de anunciar o que faria se estivesse no Terreiro do Paço. Em sua defesa é preciso lembrar que foi dele a ideia primeira, neste governo, de taxar os lucros extraordinários das empresas de energia.

É certo que o mandaram calar-se e que ele se viu obrigado a recuar no tema. E é certo também que o primeiro-ministro negou três vezes essa hipótese, mas que depois chegou o dia em que António Costa anunciou que votaria favoravelmente a proposta da Comissão Europeia, dando razão a ACS.

Espero que o ministro já tenha percebido que estas afrontas dificilmente são perdoadas pelo PS. Mais ainda se lhe acrescenta um anúncio de redução do IRC que cheirava à distância à descida da TSU que o governo de Passos queria aplicar às empresas, quando o povo andava a comer o pão que o Diabo amassou. Como anda agora!

Sendo que o ministro António Costa Silva não tem grande peso político no governo, o batalhão que avançou para o desmentir só pode significar que o governo está com medo da própria sombra.

Um secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, um ministro das Finanças e um líder parlamentar para pôr na ordem um ministro, que o mais que consegue é ter razão antes do tempo, significa que esse ministro passou a estar a prazo. Para que serve um ministro da Economia que os empresários já perceberam que não tem rigorosamente peso político nenhum e é o bombo da festa da máquina socialista? Para nada.

Se tiver percebido que a sua saída já está a ser cozinhada em lume brando, sairá pelo seu próprio pé, se acreditar que a lealdade entre ele e o primeiro-ministro é o azimute para a sua presença no governo, acabará por sair quando der jeito a António Costa.

Para que serve um ministro da Economia que os empresários já perceberam que não tem rigorosamente peso político nenhum e é o bombo da festa da máquina socialista? Para nada.

2 Com peso político no partido, mas esvaziado de funções no governo, Pedro Nuno Santos foi uma vez mais obrigado a ficar na trela do chefe, enquanto se anunciava um acordo, feito entre António Costa e Luís Montenegro (o que se diria, quanta tinta se gastaria, se fosse Rui Rio a negociar), que acrescenta mais uns anos de espera à decisão sobre o novo aeroporto para servir Lisboa.

Bem ironiza Marcelo Rebelo de Sousa quando manifesta o desejo de ver as obras começarem antes do final do seu mandato (2026). Também aqui será preciso fazer a prova dos nove e ver se o tempo, como já fez com a taxa extraordinária e ACS, não acabará por dar razão a PNS.

O que seguramente António Costa já percebeu é que as amarras do governo nas respostas que pode dar à crise que vivemos, protagonizadas pelo seu pupilo Fernando Medina nas Finanças, acabam por beneficiar a imagem política do seu ministro mais à esquerda.

Quando se ouve o PS a pedir a sobretaxa para os lucros extraordinários, se percebe o partido embaraçado com a actualização das pensões e adivinha a luta dos funcionários públicos, mesmo os militantes do partido, contra os aumentos previstos para 2023, sabemos que haverá um dia em que uma parte significativa dos socialistas acabará a desejar ter Pedro Nuno Santos na liderança do partido e do governo.

É bem provável que esse desejo venha a acontecer antes do final da legislatura, sem ser como necessidade da consequência de ter de preencher uma vaga pela eventual ida de António Costa para um lugar na Europa, em 2024.

Jornalista

Diário de Notícias
Paulo Baldaia
26 Setembro 2022 — 06:24



 

337: Nenhum partido é eterno

OPINIÃO

Na política, é sempre possível dizer uma coisa e fazer outra, mas não se espera que isso aconteça de forma tão descarada como a que foi feita por Luís Montenegro a respeito do Chega. Onde Rui Rio falhou com estrondo e Montenegro parecia querer fazer diferente, o PSD não muda nada.

A normalização de um partido racista e xenófobo, de tal forma avesso à Democracia que entende como ditadura o simples exercício livre do voto, mereceu de André Ventura um agradecimento sentido ao PSD.

O agridoce desta relação que nunca foi nem carne, nem peixe, com a anterior liderança, chegando ao profundo disparate de admitir, nos últimos dias de campanha, uma geringonça com a extrema-direita, parecia ter passado a assunto muito bem resolvido pelo novo líder.

Quem criticava o PS por ter feito uma aliança com a extrema-esquerda que não quer a NATO nem o euro, mesmo depois de os socialistas terem deixado estas matérias fora do acordo, e prometia que, com ele, coisa parecida nunca aconteceria, era suposto estar a dizer ao Chega que nunca seria poder.

Esta é uma estratégia que acaba por favorecer o PS, afastando do PSD eleitores cansados do governo socialista mas que nunca aceitarão votar nos social-democratas se desconfiarem que esse voto pode ser transformado num cavalo de Tróia para levar racistas ao poder. O PSD transforma-se assim num partido a quem os adversários agradecem.

Ninguém duvida que o poder acabará por cair no colo de um partido da oposição e do líder que lá estiver na hora certa. O risco para os partidos de centro-direita, aqui como pela Europa fora, é do acabarem secundarizados e usados pelos extremistas, perdendo o respeito dos eleitores moderados.

O PSD parece ainda não ter percebido que nenhum partido é eterno.

TSF
Por Paulo Baldaia
23 Setembro, 2022 • 09:05



 

299: Costa e Marcelo, o Senhor Feliz e o Senhor Contente

OPINIÃO

A curta reunião do Presidente da República com o primeiro-ministro, no dia da posse dos secretários de Estado, substituindo a reunião de quinta-feira que não houve, deixou em sobressalto Marcelo Rebelo de Sousa.

O chefe de Estado, que tanto partilha espaço numa selfie, como tem uma crença exagerada nas capacidades dos portugueses, também não gosta de viver sozinho a angústia em relação aos tempos que se aproximam.

É certo que o verão está a acabar e o outono, avisou-nos já o Banco Central Europeu, não vai trazer boas notícias. As projecções macroeconómicas estão sempre a ser alteradas e as que o governo vai apresentar como base para o Orçamento do Estado é muito provável que já estejam desactualizadas quando o OE entrar em vigor.

Antecipar esse cenário não vai ajudar grande coisa, como bem pode confirmar o Presidente ouvindo-se a si próprio no início do verão, altura em que afirmava que as pensões podiam subir mais de 10%, sem que isso produzisse um efeito “para ficar para sempre”.

Marcelo, nesse mesmo dia, lembrou que “é nestas situações imprevisíveis que é fundamental não nos afastarmos da certeza nos princípios, lucidez na análise e perspicácia na decisão”, essenciais para “enfrentar esta situação crítica”.

O abrandamento do crescimento económico, com o BCE a falar de uma estagnação ou mesmo recessão nos próximos trimestres, a recessão em 2023 na Europa, por causa da crise energética e dos efeitos da política monetária do banco central para travar a inflação, não surpreendem ninguém.

Como não é novidade nenhuma que a inflação muito acima dos desejáveis 2% vai durar muito tempo, ficará nos 8% este ano na Europa e não virá para baixo de 5% em 2023, mesmo com o BCE obrigado a continuar a subir fortemente as suas taxas directoras.

Se os mais altos dirigentes da Nação estivessem sempre a falar verdade com os contribuintes, sem mascarar as más notícias, os portugueses estariam mais capacitados para tomar as melhores decisões, quer a nível de consumo, quer a nível de poupança.

Se os mais altos dirigentes da Nação estivessem sempre a falar verdade com os contribuintes, sem mascarar as más notícias, os portugueses estariam mais capacitados para tomar as melhores decisões, quer a nível de consumo, quer a nível de poupança.

A verdade que Marcelo pede não é sequer para ajudar os cidadãos a tomar as melhores decisões financeiras. Parece estar mais interessado em justificar decisões impopulares do governo e a preparar a resposta aos tempos de luta que se aproximam na Administração Pública.

Talvez não fosse preciso estar a antecipar cenários, se Costa e Marcelo não fossem demasiadas vezes o Senhor Feliz e o Senhor Contente, a anunciar subidas históricas das pensões, que Bruxelas nunca deixaria acontecer.

É claro que a vida vai ficar mais difícil, com a crise energética, com a inflação a comer o poder de compra e a prestação da casa a atingir níveis insuportáveis para muitas famílias.

É a Europa que não nos permite entrar novamente em aventuras, mas a culpa do Estado não poder ter uma resposta mais robusta para ajudar os que mais precisam não é da Europa. Manter as contas certas, aí Marcelo tem razão, tem de manter-se uma “realidade perfilhada pela sociedade portuguesa”.

Os próximos meses serão politicamente muito difíceis para o governo, seguro pela maioria absoluta que o sustenta na Assembleia da República, mas em vias de perder a rua.

Jornalista

Diário de Notícias
Paulo Baldaia
19 Setembro 2022 — 00:05



 

296: Truques do Bloco Central

OPINIÃO

O PSD colocou um cartaz na rua garantindo que se fosse governo aumentava as pensões em 8% de acordo com a lei, e o governo garante que os pensionistas não perderão um euro, face ao que estava previsto, no próximo ano.

Em 2024 a história será outra, o PSD não estará no governo e poderá continuar a dizer o que acha mais conveniente, mas o governo do PS não actualizará as pensões tendo por base os aumentos que deveriam ter ocorrido e não ocorreram.

Estes mil milhões que andam perdidos na propaganda política, com um bocadinho de esforço, vamos encontrá-los no célebre debate das rádios, faz amanhã exactamente sete anos.

Na altura, como agora, António Costa não conseguiu ser claro sobre o que pretendia fazer com a sustentabilidade da Segurança Social e acabou vencido, neste particular, por Passos Coelho, que até queria cortes maiores.

Luís Montenegro era líder parlamentar do PSD e alinhava com Passos na necessidade de cortar nas pensões em pagamento, como forma de dar esperança de vida às pensões que se formavam para quem ainda estava no activo.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e muda-se a percepção de que, afinal, o voto dos pensionistas não são um feudo socialista. Não é provável que o PSD consiga fazê-los regressar, mas talvez a ideia seja apenas a de evitar que o PS tenha neste eleitorado o maior dos trunfos para coleccionar vitórias.

Estes truques do Bloco Central, de partidos gémeos que dizem uma coisa quando estão na oposição, mas mudam de ideias quando chegam ao governo é que ainda vai permitindo dar esperança aos pensionistas do futuro. Mas é possível fazer muito mais.

Regressamos ao debate de 17 de Setembro de 2015. Talvez fosse bom que, tanto Luís Montenegro como António Costa, escutassem o momento em que Passos desafia o líder do PS para uma convergência: “Estou tão convencido da relevância de uma reforma séria na Segurança Social que, quer ganhe, quer perca as eleições, estou disponível para a discutir no dia seguinte”, disse Passos, perguntando a Costa se também estava disponível. Costa rejeitou: “A vossa proposta de cortar 600 milhões de euros não terá o nosso apoio.”

Como agora o corte é de mil milhões e pode não chegar, talvez seja altura de acabar com os truques e colocar o Bloco Central a defender a sustentabilidade futura da Segurança Social.

TSF
Por Paulo Baldaia
16 Setembro, 2022 • 10:00



 

Costa & Marcelo, Saúde SA

OPINIÃO

Muito antes de Marta Temido se ter demitido por causa de “um episódio de grande gravidade”, mas que os responsáveis do Hospital de Santa Maria consideraram que o desfecho poderia ter sido igual se a grávida não tivesse sido transferida, já São Bento e Belém tinham decidido que a ministra estava a prazo.

A verdade sobre a sua demissão está muito mais perto da percepção, partilhada pela própria ministra, de que “o sector da saúde a via mais como parte do problema do que da solução”.

Por se tratar de um problema estrutural onde abundam soluções conjunturais, é natural que os titulares da pasta sejam apresentados como os primeiros responsáveis pelos falhanços e acabem sacrificados, como forma de nos convencer que o governo foi enganado.

A substituição de uma ministra pode servir para pôr o conta-quilómetros a zero, mas a habilidade para vender carros velhos como se estivessem a sair da fábrica atinge nesta história um nível de profissionalismo político só ao alcance de António Costa.

Adalberto Campos Fernandes caiu num fim-de-semana, logo depois do Orçamento do Estado ter sido aprovado, e foi substituído por Marta Temido, crítica das relações do ministério com as Finanças.

Os “críticos” levaram o ministro a queixar-se dos que o fazem “apenas para desestabilizar”. Marta Temido é agora substituída por um dirigente do PS que ainda este ano acusava “o Ministério da Saúde de centralismo exacerbadíssimo” e criticava o fim das PPP na Saúde.

Por mais palmadinhas nas costas que as televisões mostrem na hora de uns partirem e outros chegarem, substituir alguém por um dos seus críticos permite ao chefe do governo passar a ideia de que culpa nunca é dele, nem do governo que chefia, mas de quem recebeu guia de marcha.

Quanto a Marcelo Rebelo de Sousa, é evidente que se cansou muito rapidamente de Temido, uma ministra que se afirmou à esquerda e que o obrigou a intervir na Lei de Bases da Saúde para permitir as PPP e que verá agora com bons olhos a chegada de um ministro que é favorável a essas parcerias e a uma descentralização efectiva na gestão do Serviço Nacional de Saúde.

A cumplicidade entre o primeiro-ministro e o Presidente da República é evidente desde que apareceu este bloco central de palácios (expressão original do agora ministro Pedro Adão e Silva), mas talvez nunca tenha atingido uma comunhão de interesses tão flagrante.

Ouvir António Costa dizer que “quem quer mudança da política tem de fazer cair o governo” não nos pode levar a pensar que o primeiro-ministro está a dizer que a linha seguida na Saúde não vai ser alterada.

A literalidade no discurso político é coisa rara e, portanto, é bem provável que Costa nos esteja a dizer que Temido caiu por ter feito perigar a política de Costa & Marcelo SA, no ramo da Saúde.

Aliás, a primeira escolha do primeiro-ministro para esta área, Adalberto Campos Fernandes, dizia que havia quem no PS tivesse o fascínio de fazer do partido “um Bloco 2.0”. Costa acha exactamente o mesmo e quer o PS na Saúde de regresso ao centro, onde conquistou a maioria absoluta como resultado de um braço-de-ferro orçamental, com PCP e Bloco, que tinha epicentro no SNS.

A firma vai de vento em popa e, por mais erros que cometa, continua a funcionar em monopólio quase absoluto. Estamos ainda muito longe de viver a política portuguesa sem Costa e Marcelo em perfeita simbiose.

É por isso que os dois arranjam sempre forma de se encontrarem ao centro. Luís Montenegro não parece ser o líder da oposição para levar a firma à falência. Será o povo ou um cargo feito à medida em Bruxelas para o sócio fundador.

Jornalista

Diário de Notícias
Paulo Baldaia
12 Setembro 2022 — 07:00



 

205: O general Inverno voltará a ser aliado de Moscovo

– Por cá, a pseudo extrema-esquerda social fascista e a direita e extrema-direita fascistas, também vão alimentado o populismo pró-putin. Uns, porque pertencem à escumalha nazi zoviética e são porta-vozes deles, outros porque não tendo soluções, vão vomitando acusações aos potes! Esta governança não é flor que se cheire, mas já se esqueceram da governança do rapazola que foi além da troika, alinhou servilmente com o Merkelreich e destruiu tudo o que havia a destruir. Gente de memória fraca! Este país deixou de ser um Estado de Direito! É uma autêntica falácia democrática onde imperam os DDT encasacados e engravatados que vão modelando as suas conveniências aos seus gostos e aos das suas clientelas, continuando a encher a pança a uns e empobrecendo, cada vez mais, os miseráveis que respiram miséria por todos os poros do corpo!

OPINIÃO

Estando ainda longe do Inverno é já evidente que o apoio do Ocidente à Ucrânia, com as sanções económicas contra o regime de Putin, está a ser apontado como sendo responsável pela crise energética e inflacionista que está a deixar as classes médias e baixas à beira de um ataque de nervos.

Os apoiantes de Moscovo, estejam na extrema-direita ou na extrema-esquerda, jogam com a falácia de que os povos das democracias ocidentais não precisariam de estar a sofrer com esta crise e que isso só acontece porque os seus governos os levaram para a guerra. Nesta falácia, obviamente, a defesa da Democracia não entra na equação, porque os radicais não a consideram essencial.

É claro que a guerra que resulta da invasão da Ucrânia pela Rússia agravou a crise energética e alimentou uma espiral inflacionista em que a contenção da maioria dos salários é o único ponto a contribuir para que a inflação não seja ainda mais alta.

Só que esta perda de poder de compra provocada pela existência de salários que não acompanham a inflação, continuando, acabará por ser utilizada pelos populistas aliados de Putin para minar a confiança dos cidadãos nos governos democráticos que elegeram.

Convém lembrar que a inflação, que o BCE e a FED consideravam transitória, começou em 2021 e não resultou apenas das dificuldades nas cadeias de abastecimentos e da alta generalizada da energia mas, sobretudo, da existência de demasiado dinheiro no circuito.

Os bancos centrais alimentaram a inflação, que deviam combater, despejando dinheiro na economia a juros muito baixos ou mesmo negativos. Uma vez mais, com medo do arrefecimento prolongado da economia, criaram uma nova crise com a estratégia utilizada para combater a crise instalada.

Dá medo, quando se ouvem os responsáveis políticos, como este fim de semana o Presidente da República, lançar sem grandes explicações a ideia de que o monstro da “inflação pode descer a partir de Outubro ou Novembro”.

Como se os milhares de milhões de euros das diferentes bazucas por essa Europa fora, mais os programas específicos de cada país para ajudar famílias e empresas a ultrapassarem uma crise energética, que se vai agravar no inverno, não fossem garantias suficientes de que a inflação se vai manter alta.

Pode não ser de 9%, como está agora em Portugal, e ser de 8,5 ou 8 ou 7,5 no acumulado de 12 meses, ou descer dos 20% nos países bálticos, mas continuará a ser, ainda durante muito tempo, um problema sério para as famílias de menores recursos.

A questão é que é preciso dizer aos cidadãos, como sugere Emmanuel Macron, que o tempo de abundância acabou. A começar na abundância de dinheiro que governos irresponsáveis gostam de despejar em cima de todos os problemas, passando pela abundância de energia que governos irresponsáveis gostam de usar como se ela fosse ilimitada.

Com a agravante, no caso dos países europeus, de terem de importar parte essencial da energia que consomem. A factura aí está, cada vez mais pesada.

É com isso que conta Vladimir Putin. O inverno vai chegar e as opiniões públicas ocidentais não acharão tanta piada a apoiar a Ucrânia combatendo a Rússia com sanções, se isso significar uma recessão provocada pela falta do gás russo na indústria do centro da Europa e casas geladas. Em Moscovo, esfregam-se as mãos à espera da chegada do famoso general.

Jornalista

Diário de Notícias
Paulo Baldaia
05 Setembro 2022 — 00:51