854: O infame Infantino

“… No fundo, em linguagem simples, o que acontece é que a FIFA manda e nós obedecemos. E quando digo nós, somos nós todos – cada um individualmente”.

ERRADO…!!! Ná… em mim a FIFA não manda um chavelho! Já deixei de gostar de futebol desde que este se tornou num negócio de negreiros, mercenários e escravos endinheirados. Não usam correntes e grilhetas agarrados aos pés, mas são comprados e vendidos no mercado futeboleiro como os antigos escravos.

OPINIÃO

Gianni Infantino dirige uma das mais poderosas corporações do mundo, que não passa, no entanto, do ponto de vista do direito, de uma associação privada de federações de futebol.

A FIFA detém um poder supranacional, que tem força que muitos governos, sem qualquer escrutínio democrático e público, com uma política de opacidade, imposição e impunidade sem paralelo.

(Há uma outra, semelhante, a UEFA, mas esse tema fica para outros dias). A FIFA pratica um regime semelhante ao de uma ditadura musculada, opressiva e feudal.

Há algo de errado na ordem mundial quando a FIFA decreta sanções, proíbe actos de liberdade individual de jogadores ou adeptos, ameaça federações de futebol suas associadas que, essas sim por serem de “interesse público”, representam países soberanos, com a exclusão de competições internacionais ou castigos desportivos ou financeiros.

E, pasme-se, mesmo os países ocidentais mais “avançados” e, por isso, mais fortes, acabam por acatar as decisões da UEFA, recuando em intenções firmes e proclamações já anunciadas.

Todas as federações que queriam usar a braçadeira arco-íris neste mundial para chamar a atenção dos direitos das mulheres, dos homossexuais e das minorias, foram ameaçadas e cederam.

Cederam de forma cobarde e medrosa. Recuaram, com medo de enfrentar “a FIFA”, essa organização que tudo decide, tudo pode e tudo manda.

A ideia de que futebol e política não se misturam, o “conceito” de que quem joga ou assiste ao mais popular desporto do mundo tem de se abstrair do contexto em que vive em nome do mais importante acontecimento desportivo do mundo, não só não serve, como, repito, castra a liberdade individual de atletas e espectadores.

No fundo, em linguagem simples, o que acontece é que a FIFA manda e nós obedecemos. E quando digo nós, somos nós todos – cada um individualmente, as selecções enquanto grupo e as federações de futebol dos países que o permitem.

A força do negócio, do dinheiro, dos patrocínios, de tudo o que está fora das quatro linhas é hoje muito mais importante para a FIFA do que a essência do futebol e o que fez dele o jogo mais apreciado do mundo – a célebre máxima são onze contra onze e a bola é redonda e que ganhe o melhor.

Não quero, agora, escalpelizar porque é que este mundial é no Qatar, como foi lá parar e porque é que os indignados só se lembraram da indignação a semanas da abertura do torneio.

Se, na verdade, as federações de futebol tivessem bolas que não apenas as de futebol, teriam tomado posições conjuntas, afrontado o poder da FIFA, recusado participar na prova e, no limite, assumir que deixavam fugir a oportunidade de ganhar um troféu.

E seriam decisões em nome da dignidade, dos direitos humanos, da decência e da igualdade. Mas deveriam tê-lo feito logo em 2010, quando a escolha foi feita. Não agora, depois de seis – ou quinze, conforme as fontes – mil trabalhadores mortos na construção de estádios.

Infantino sente-se “qatari”, “árabe”, “gay” e envergonhado pelas lições que os povos europeus querem dar a outros povos, sem olhar para os “três mil anos” (?) de opressão dos europeus sobre “os outros povos”.

Além de não saber de história, também parece não ter a mínima noção de que a sociedade está a mudar, de que o que há 20 anos era “admitido” hoje já não é tolerado e que uma sociedade livre, justa e igual implica o empenho de todos, sobretudo dos poderosos e, mais do que isso, dos poderosos que lideram uma federação que tem o impacto que tem a nível global.

Queremos ver Ronaldo, Messi e outros atletas que nos deslumbram e fazem sonhar. Vamos gritar pelas nossas selecções, que são parte de nós; mas, senhor Infantino, depois de todas as infâmias que disse e que permitiu, faça-nos o favor de se ir embora.

E, já agora, talvez este seja o momento em que faz sentido repensar toda a FIFA. Ou acabar com ela e construir algo novo. Que não seja uma ditadura feudal.

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Cruz
22 Novembro 2022 — 00:15



 

622: Sem perdão

– MRS entrou numa de ralhete fora de competência. As infelizes palavras dele e do “não perdoa” à ministra, publicamente, relega-o para um plano inferior presidencial. Este tipo de “conversas” não são para ser efectuadas da forma e do modo que ele fez. Mas já estamos habituados às controvérsias de MRS. E a religião não serve de desculpa para absolutamente nada!

OPINIÃO

A religião que Marcelo Rebelo de Sousa professa obriga-o a perdoar. O perdão é uma forma de limpeza da alma, de dar a mão ao próximo, de proporcionar uma segunda oportunidade, de encarar as faltas, erros e omissões do semelhante como uma fraqueza momentânea que a concessão do perdão ajuda a ultrapassar. Na religião que Marcelo Rebelo de Sousa professa, nada está escrito sobre o esquecimento.

Embora a velha frase “perdoo, mas não esqueço”, nos remeta para uma espécie de perdão apenas parcial, uma vez que a causa da ofensa que mereceu perdão permanece viva, pelo menos na memória. E sabemos como é a memória, que às vezes nos atraiçoa, outras nos confunde e, não raras outras, se torna selectiva, imprecisa, nebulosa e, às vezes, traiçoeira.

Sem culpa. Porque esse sentimento, o da culpa, também é uma característica da religião que Marcelo Rebelo de Sousa professa. Carregar a culpa, expiar a culpa, atribuir a culpa faz parte do quadro de referências e de vivências dos católicos que vivem fervorosamente a sua fé.

Outras religiões, bem menos implacáveis, se assim podemos dizer, (con)vivem bem melhor com a culpa. Marcelo Rebelo de Sousa terá sempre a tendência para perdoar. Mas este católico, de que falo, não é o Presidente da República. É o cidadão.

Já o Presidente da República, não obstante o facto de ser a mesma pessoa, só tem poder constitucional para perdoar no Natal, quando o ministério da justiça lhe leva casos de reclusos que pedem perdão. Perdão, lá está, das penas a que estão sujeitos, depois de apurada a culpa.

Fora esta cerimónia natalícia, a constituição não prevê que o perdão possa ser aplicado à vida democrática do país. Acontece que, este fim de semana, o Presidente da República anunciou que “não perdoa” à ministra da Coesão, caso os fundos do PRR não sejam executados, depressa e bem, e sobretudo até ao último cêntimo.

Disse-o cara a cara, olhos nos olhos e, tal como fez questão de sublinhar, perante “milhares de testemunhas”.

O Presidente da República estava a falar para todo o governo, para a ministra da Presidência e, no limite, para citar o próprio presidente, para o primeiro-ministro, uma vez que é a ele quem compete “escolher e ser o responsável pelo que fazem os membros do governo”.

O presidente disse esta frase a propósito da polémica, ao tempo, com Pedro Nuno Santos, quando este foi desautorizado pelo líder do governo. Talvez seja tarde para o Presidente da República anunciar que não perdoará.

Tem havido, ao longo dos seus mandatos, outras, muitas outras, alturas em que as acções – ou inacções – do governo não deveriam ter merecido a complacência, o beneplácito e o silêncio de Belém. Ao escolher a mensageira de ocasião, o Presidente da República mandou o recado a todo o executivo.

Publicamente, quer a própria quer o primeiro-ministro já vieram em socorro do… presidente. “Está a fazer o que lhe compete”, disse a ministra. António Costa atribuiu pouca importância, dizendo que o Presidente da República tem momentos de “maior criatividade”.

Neste caso, está em causa, não só o que disse, mas, sobretudo, a forma como o disse. O ralhete e a ameaça de “não perdoar”, devem ser para levar a sério. A cara do presidente acompanhou o vigor das palavras.

Costa não o fez, não levou muito a sério o aviso, porque dá latitude à interpretação dos “poderes presidenciais”. E, na leitura de Costa, que não é um católico como Marcelo, deixou claro que a “nossa Constituição é bastante clara”, logo, quem escolhe ou demite membros do Governo não é o Presidente.

Este apenas os nomeia ou exonera, sob proposta do Primeiro-Ministro. Sabendo de tudo isto, Marcelo, o presidente, foi de uma clareza meridiana. Não vai perdoar ao governo, todo, deslizes no PRR. E há milhares de testemunhas.

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Cruz
08 Novembro 2022 — 00:05



 

547: Caderno de significados

OPINIÃO

Afinal. Quer dizer afinal que apesar de tudo, além do mais, em conclusão. Afinal, talvez haja recessão. Talvez. Talvez quer dizer que pode haver ou pode não haver, não é, afinal, certo.

A recessão que o governo negou que estava para vir pode, afinal, chegar. E a perda do poder de compra que o governo anunciou, até à aprovação do Orçamento do Estado na generalidade, que não aconteceria em 2023, afinal, parece, como a recessão, que talvez venha mesmo a acontecer.

O ministro das Finanças já, parece, se disponibilizou para implementar o aumento dos pensionistas, porque a inflação é maior do que aquilo que o governo esperava. Afinal, todo o documento foi feito com base em pressupostos que, já sabíamos todos, pareciam estar errados. Ou, pelo menos, demasiado optimistas.

A língua portuguesa tem, estima-se, quase 230 mil palavras. A cada uma delas corresponde um e só um significado, embora erradamente atribuamos sinónimos perfeitos a muitas delas. Por exemplo, lindo, bonito e belo são utilizados como sinónimos, mas as três palavras não querem dizer exactamente a mesma coisa.

Ou então a língua portuguesa não seria tão rica, variada e não disporia dos recursos estilísticos que a tornam no que de facto é. Isto porque as palavras têm demasiada importância no espaço público e no discurso político para que as utilizemos de forma imprecisa, vaga, errada ou, pior, propositadamente enganosa.

Recessão e austeridade não são sinónimos. Mas uma recessão leva a períodos de austeridade e de contenção. Perda de poder de compra quer dizer que, com o mesmo dinheiro nominal, se compram menos bens e serviços.

E, por fim, que quando a inflação está alta e, apesar de aumentos salariais, das pensões e dos apoios sociais, se esse aumento não corresponder ao valor da inflação, cada um de nós terá, na verdade, menos dinheiro disponível no fim do mês. Como dizia em tempos, aflito com os números, o agora secretário-geral das Nações Unidas, é “fazer as contas”.

Os políticos, sobretudo, porque eleitos e detentores da soberania popular que lhes é delegada, têm, antes de mais – e muito haveria a dizer nessa matéria – de cuidar bem da língua.

Mas, muito pior que os atropelos gramaticais, a ausência de concordâncias entre sujeito e predicado e a pobreza dos recursos – 230 mil palavras parecem não chegar – utilizados, é o facto de escolherem as palavras erradas.

Consoante estamos diante de discursos de esquerda ou de direita, aos mesmos conceitos são dadas diferentes fórmulas. Uns dizem “patrões”, “trabalhadores”, “grande capital”.

Outros escolhem para descrever a mesma realidade “empresários”, “colaboradores”, “grandes empresas”. A esquerda não hesita em dizer que nos tempos da troika Portugal viveu em austeridade. Agora, com um quadro de economia de guerra depois de uma economia de pandemia, a mesma esquerda recusa a ideia de austeridade.

Há outros exemplos da forma como a linguística é utilizada pelos fazedores de discursos e criadores de frases que demonstra bem que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Orçamentos a mais da direita são Orçamentos “rectificativos”, ou seja, assume-se que o primeiro Orçamento falhou e que é preciso rectificar, corrigir, melhorar. Se o caso se der com governos de esquerda, o “rectificativo” passa a ser um Orçamento “suplementar”, recusando a ideia de que se falhou na primeira versão, apenas se “acrescentou” algo mais, por causa da “incerteza”.

Muitos destes truques acabam por passar despercebidos à maioria dos cidadãos. Mas, ao serem utilizadas de forma intencional palavras que não transmitem a realidade, mas que a mascaram, iludem ou suavizam, o resultado é uma percepção errada dessa mesma realidade e do que ela pode trazer.

Na utopia da construção de país decente será possível, pergunto, sem ser preciso um caderno de significados, que, por sistema, nos possam dizer a verdade?

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Cruz
01 Novembro 2022 — 07:30



 

O “come-se-podes”

“… Recordo. Segundo a análise da Pordata, sem apoios sociais, a situação seria ainda mais dramática. Os apoios sociais, são, portanto, fundamentais para segurar a ténue rede que ainda suporta quase metade da população portuguesa.” Quais apoios sociais? Quais ajudas a quem deixou de receber subsídio de desemprego? Que razões para NEGAREM o RSI a quem nada tem nem nada recebe? Quais as razões para que nem resposta se obtém a pedido de ajuda ao Banco Alimentar? Porque negam o trabalho a quem tem 56 anos?

OPINIÃO

Sem apoios sociais, metade dos portugueses — cerca de 4,4 milhões de pessoas — são pobres ou, pior, vivem abaixo do limiar da pobreza.
Os números, divulgados pela Pordata, revelam um retrato nu, cru e mensurável de uma realidade que vai passando ao lado do dia a dia dos decisores políticos, dos empresários, dos discursos oficiais e dos anúncios e proclamações públicas.

Já sabíamos que este país não é para velhos — 1,6 milhões de idosos vive (?) com uma pensão abaixo do salário mínimo nacional — mas também está a deixar de ser um país para jovens, para a classe mais baixa e para crianças abaixo dos 18 anos que pertencem a famílias que, segundo os mesmos dados, do ponto de vista alimentar, conseguem, de dois em dois dias, ter acesso a uma refeição com peixe, carne, ovos ou uma alternativa vegetariana.

Ainda assim, há seis por centro da população que nem isso consegue garantir. Ou seja, que nem dia sim dia não consegue por na mesa carne, ovos, peixe ou vegetais.

Uma em cada quatro habitações não tem condições de habitabilidade. E 16 por centro da população não consegue aquecer convenientemente a casa durante o inverno. Há, ao mesmo tempo, cada vez mais famílias que não pagam IRS, porque os rendimentos que auferem não chegam para que o fisco lhes possa ir buscar uma parte do rendimento.

Ao mesmo tempo, há campanhas de redução do desperdício de alimentos, crus e cozinhados, ONG”s que distribuem a comida que sobra dos restaurantes e dos cafés e que teria como destino o lixo, programas para redução de sal e açúcar nos alimentos para combater a obesidade — nomeadamente infantil e juvenil — e um aumento do custo do cabaz básico dos alimentos.

Recordo. Segundo a análise da Pordata, sem apoios sociais, a situação seria ainda mais dramática. Os apoios sociais, são, portanto, fundamentais para segurar a ténue rede que ainda suporta quase metade da população portuguesa. Mas a questão deveria ser estrutural e não conjuntural, resolvida de forma definitiva e não com medidas que são sempre transitórias e nunca chegam.

A erradicação da pobreza deveria estar na prioridade de todo um país. Enquanto existisse um residente em Portugal com fome ou com má alimentação, com uma casa gelada ou insalubre, o combate deveria ser travado sem tréguas, sem ideologia, como um verdadeiro desígnio nacional.

Garantir as necessidades básicas de uma população — que, em cada vez maior número, é uma população que trabalha, recebe salário e continua sem sair da pobreza — é, apenas, dar o mínimo de dignidade humana a milhões de vidas de concidadãos que se limitam a sobreviver.

Para a tarefa, porque hercúlea, devem ser convocados todos, sem excepção — políticos, em primeiro lugar; mas também autarquias locais, grandes e pequenas empresas, instituições sociais e privadas, sociedade civil e “famosos”.

Só se e quando existir um plano nacional de erradicação da pobreza, com objectivos bem claros e definidos e um caminho para lá chegar, e só quando o plano estiver concluído, poderemos dizer que somos um país decente, para todos, com todos, que de facto não deixa ninguém para trás. A pobreza estrutural combate-se com políticas estruturais.

Custa ver a facilidade com o Estado despeja milhões e milhões de euros em actividades várias, supérfluas, de ostentação, afirmação de poder ou propaganda, quando, diz a Pordata, metade dos portugueses está no indigno limiar da pobreza. Ou abaixo dele.

Esta não é uma questão apenas para um governo, para um Orçamento ou para uma legislatura. É uma questão que deveria ser de todos, com a parte que cabe a cada um.

Há muito tempo, ficou-me na memória o nome escolhido para um cão. Era um bicho magro, irrequieto, “teimava” em ganir, ladrar, tentar escapar ao controlo da dona. Um rebelde. Ela, calmamente, só lhe dizia: “Anda prá-qui, come-se-podes”.

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Cruz
18 Outubro 2022 — 06:15



 

412: O princípio da incerteza

OPINIÃO

O acordo de concertação social que o Governo assinou com todos os parceiros sociais – menos a CGTP, o que não é nada de novo – é uma boa notícia. Num tempo de “incerteza”, como lembrou o primeiro-ministro, é importante haver “diálogo, confiança e previsibilidade”. Já a liturgia da assinatura, tem mais que se lhe diga.

Era domingo à tarde e, decerto, nenhum dos que estiveram no Palácio Foz teria nada mais interessante, importante ou divertido para fazer do que ir emoldurar o evento, bem pensado pela comunicação do governo. Na véspera da entrega do Orçamento do Estado e antes de um conselho de ministros extraordinário para aprovar o orçamento, incluindo já as medidas acabadas de assinar.

O momento solene deu tempo, antes da chegada de Costa à sala, de mostrar ao povo que não estava a ver os canais generalistas, sorrisos e abraços, cumprimentos e afectos, mesuras e salamaleques de salão. A descontracção que reinava dentro do palácio e os longos minutos de espera, deixaram perceber que era mesmo a festa da concertação.

A confederação do Comércio, assinou o documento, mas não foi à encenação, por discordar “do método”. UGT, patrões, agricultura e turismo também criticaram “o método e a pressa”, mas sempre anuíram em participar no momento. A discussão foi feita a mata-cavalos, apenas em duas reuniões, para não dar grande tempo para reflexões, negociações e cedências.

Ainda assim, os signatários deixaram claro que se “avançou muito” e que a versão final está muito longe do rascunho inicial. Da agricultura, em guerra com a ministra do sector, vieram elogios para Medina, o senhor das Finanças. Da UGT, num momento de rara comoção dos trabalhadores, a gratidão pública à ministra do Trabalho.

Mas, disse Mário Mourão, “este é o acordo possível”. Do lado dos patrões, a ideia de que, aqueles todos, que se aplaudiam mutuamente, foram “pouco ambiciosos”. E, “se os astros se alinharem”, talvez este acordo traga, de facto, mais rendimentos, melhores salários e maior competitividade.

Eles, os parceiros, sabem, que António Costa sabe que, confrontados, todos, com o princípio da incerteza, um acordo menos mau é melhor que nenhum. E que, como vários oradores deixaram claro, este é “o princípio do caminho” e não o fim dele. Um caminho “para uma legislatura”, até 2026, com compromissos escritos.

Costa, o mestre da política, das cerimónias e o dono da bola, sublinhou, humilde, que “nenhuma maioria se basta a si própria”. O mesmo Costa que, há poucas semanas, dizia aos seus deputados que não deveriam envergonhar-se da “maioria absoluta”. O mesmo autor da imagem de que, sem distracções, vai por as “mãozinhas” no volante e seguir em frente, sem distracções.

Costa sabe que não pode contar com nenhum partido dentro do parlamento. Esmagou a esquerda, acantonou a direita, tem maioria absoluta e, como em tempos disse o pai de Cavaco Silva sobre as presidenciais, “são todos contra ele”. Nos partidos, Costa tem todos contra ele e o PS está sozinho. Com maioria, mas sozinho.

Logo, se não pode contar com a oposição, só pode contar com a concertação, para acalmar a contestação social, tentar contentar todos os sectores, dar “esperança, previsibilidade e estabilidade” e, sobretudo, estender uma passadeira negocial para quatro anos.

O acordo “possível”, “apressado”, “pouco ambicioso” e que, de facto, fez “aproximar posições” é, de longe, o maior trunfo deste governo, que vai exibir tantas vezes quantas as que tiver de recordar que há uma maioria absoluta.

Antes da matiné de domingo, da abertura dos jornais da hora de almoço de ontem e da apresentação em detalhe do Orçamento, Costa ainda fez a vontade a Marcelo e revelou as linhas macroeconómicas antes do dia de ontem. Um caso (sério) de política.

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Cruz
11 Outubro 2022 — 00:05



 

362: O voto, essa arma silenciosa

OPINIÃO

Nós, os eleitores, os que escolhemos votar, quando riscamos com a caneta um quadrado no boletim de voto, fazemo-lo por várias razões. Por ideologia, por afinidade, por instinto, porque queremos estar do lado quem ganha. Mas também votámos com a carteira, com medo e, às vezes por vingança, irritação, fastio ou revolta.

Não há uma única e simples explicação para o porquê de cada voto, em cada momento, sobretudo naquilo a que se convencionou chamar o “eleitorado flutuante” que é, no fundo, quem decide cada eleição.

Na suprema liberdade e solidão da cabine de voto, cada um de nós, e das nossas circunstâncias, faz uma escolha. Individual. No fim do dia, quando se fazem as contas, a maioria ganha. E nem sempre ganha aquele em quem votámos.

A democracia é “o pior de todos os sistemas, à excepção de todos os outros”. A cada pessoa corresponde um voto, a soberania é do povo e o povo “tem sempre” razão nas escolhas que faz. Mas, mais do que isso, importa perceber o porquê de determinadas opções.

Mais uma vez, a “explicação” não é simples, linear e única. Da Polónia, da Hungria, da Suécia e, agora, de Itália, chegam sinais semelhantes. Um padrão. Estará a maioria do povo destes países, toda enganada, iludida ou errada? Ou, pelo contrário, o voto individual e livre dentro da cabine é uma chamada de atenção, um grito de revolta, uma vontade de vingança, um

Talvez seja tudo isso, em doses diferentes.

O fim da mediação clássica, a ligação directa entre eleitores e eleitos, o individualismo no lugar da preocupação com o colectivo, o poder facilitista e acrítico das redes sociais, a impreparação dos políticos, o desfasamento entre a realidade do dia a dia e os discursos eloquentes, as promessas que não se cumprem, a perda do poder de compra, os salários estagnados, a sensação de impunidade, a perda de confiança nos governantes e a ideia de que “eles são todos iguais” são a ignição para populismos, radicalismos e extremismos.

“O voto individual e livre dentro da cabine é uma chamada de atenção, um grito de revolta, uma vontade de vingança, um gesto de indiferença ou um desejo de esperança?”

“Se não construirmos a democracia todos os dias, estamos a destruir a democracia todos os dias”. A frase, de Marcelo Rebelo de Sousa, sexta-feira, no discurso dos 200 Anos da Constituição de 1822, é um aviso sério, mas sereno, ao que pode estar para vir.

Uma classe política que não dá respostas aos anseios da população, que governa a pensar em eleições e não em gerações, que se limita a “gerir” o país em vez de o reformar, fazer crescer e avançar, leva, inevitavelmente ao desânimo, a descrença e ao encolher de ombros.

E, depois, temos a União Europeia. Nas duas faces da mesma moeda, há o lado “bom”, de sentimento de protecção, de cooperação, de solidariedade e de financiamento.

E, do outro lado, o distanciamento dos cidadãos, a burocracia, os interesses dos grandes países em detrimento dos pequenos, a simplificação de normas e leis que, muitas vezes, não levam em conta a especificidade de cada país e, claro, a primazia da economia sobre a política. A União começou por ser económica e é nessas águas que melhor se move. “É a economia, estúpido.”

Mas se a economia não for social, se não tiver impacto real na vida dos cidadãos, se os salários não crescerem, se as condições de vida não melhorarem, se os cuidados de saúde forem lentos, se a educação estiver desajustada, a justiça lenta e a segurança social pobre… no momento do voto, na tal cabine de solidão e liberdade, os cidadãos vão escutar quem lhes deu esperança. Ou quem lhes disse para se revoltarem.

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Cruz
27 Setembro 2022 — 00:05



 

O “rival” e o adversário

“… A sociedade somos nós. E todos somos responsáveis pelo “estado a que isto chegou”… Estou fora desses grunhos labregos meu… Actualmente o futebol deixou de existir. É um negócio de mercenários e de escravos. Prefiro o râguebi.

OPINIÃO

Quis o destino que nos últimos 18 anos tivesse estado praticamente todos os fins de semana em campos e estádios de futebol. Desde 2004 até hoje, já assisti a centenas, talvez milhares de jogos de futebol, desde os chamados “escalões de formação” até desafios entre equipas de seniores das mais variadas divisões, desde as muito amadoras, às semi-profissionais.

O nível de violência verbal entre jogadores, jogadores e árbitros, árbitros e dirigentes, treinadores, atletas e árbitros é, só por si, um indicador de como a tribo do futebol – tenham os atletas 6, 10, 16 ou 30 anos – se comporta, de forma absolutamente selvagem e impune.

No futebol, logo desde cedo, tornou-se “normal” os miúdos insultarem-se e agredirem-se, os pais destratarem os árbitros e envolverem-se em confrontos com outros pais, da outra equipa.

Já vi de tudo. Dirigentes a espancar adversários, jogadores em cenas de pancadaria e o mesmo nas bancadas entre pais; árbitros insultados e ameaçados, e outros, árbitros, a fazerem gestos obscenos e sem perdão para as bancadas.

Já segurei em duas crianças de colo, enquanto mãe delas era atirada pelos degraus da bancada, sem dó nem piedade; já vi pais a desafiarem árbitros para a porrada no fim dos jogos, e já assisti a árbitros a fazerem o mesmo.

A tendência natural dos pais para a “protecção” dos filhos, a emoção e a irracionalidade do futebol e, sobretudo, a impunidade ou a sensação dela acontecem todas as semanas, há décadas, em quase todos os campos de futebol do país. E estamos a falar de escalões de “formação”, onde às vezes se ouve, das bancadas “dá cabo dele”, ou “parte-lhe a perna”. Nada disto chega à opinião pública.

Já vi claques – bando de miúdos desgovernados – num jogo de formação a espancarem uma senhora de idade que tinha ido ver o jogo do neto, que jogava na equipa adversária. Ou “rival”, como agora se diz. Deixou de haver adversários, hoje há rivais ou inimigos.

Deixou de haver respeito, antes de mais, pelo desporto em geral e pelo jogo em particular. A sociedade “dos brandos costumes” que esteve fora das notícias até ao 25 de Abril, nunca foi de brandos costumes e a violência sempre fez parte. Hoje, está pior.

Quando, nas ligas profissionais, os casos deste género chegam às notícias, abre-se a boca de espanto, as redes enchem-se de comunicados e as virgens ofendidas que comandam todo o sistema do futebol fazem de conta que não são parte do problema.

Crianças em tronco nu a verem um jogo, crianças cuspidas e insultadas porque são do clube adversário, espancamento e lutas à porta dos estádios, violência gratuita só porque, na rua, um grupo de rufias se cruza com outro cidadão que apoia o clube adversário… tudo isto faz parte do dia a dia e são actos que a indústria do futebol faz de conta que não vê.

Quando se permite, nas ligas profissionais e televisionadas, que os jogadores insultem os árbitros e se insultem uns aos outros, quando se percebe pelos lábios a linguagem que é utilizada, quando os treinadores vêm dizer que isso é “futebol”, quando normalizamos o que deve ser excepção, quando somos permissivos com o que não deve ter tolerância tornamo-nos, todos, cúmplices.

A sociedade somos nós. E todos somos responsáveis pelo “estado a que isto chegou”. E, como o exemplo vem de cima, é de cima que temos de começar a modificar comportamentos. Os miúdos crescem a ver os seus ídolos a praguejar, a insultar, a espumar, a provocar, a troçar e a agredir o outro.

Além de tudo isto, a cultura da “vitória” a qualquer custo e a desvalorização do jogo pelo jogo, do respeito pelo adversário e pelos espectadores, e das mais elementares regras de bom senso, que não se legisla, fazem dos campos de jogos uma selva e não uma festa.

De cada vez que um atleta que perde uma final, e recebe a medalha de finalista vencido, e a retira imediatamente do peito, é um sinal de profundo desrespeito pela competição e pela essência do desporto. E, até, por si mesmo, que lutou para estar naquela final. E perdeu. Só pode ganhar um.

Não, o desporto – e o futebol em particular – não é uma festa. É um reflexo medonho da sociedade tolerante que não temos sido capazes de construir.

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Cruz
20 Setembro 2022 — 00:17



 

210: Não nos podem processar a todos

– no Reino Unido e em Itália, há já pequenos movimentos de cidadãos, apartidários e sem agenda política, que desafiam, livremente, outros cidadãos a não pagar as contas de energia e gás. Não se trata sequer de uma tomada de posição por discordância com os diferentes governos. Trata-se, apenas e só, de deixar de pagar uma factura que se tornou incomportável, exorbitante, imoral, injusta e que, no limite, leva a que se tenham de fazer opções: ou se pagam as contas da luz e do gás, ou se cumpre com os empréstimos ou o arrendamento da casa, ou se come.

OPINIÃO

Nos dias anteriores à queda do Muro de Berlim, do lado Oriental, o povo da RDA começou a sair à rua. Primeiro, umas poucas centenas de pessoas, com medo. Depois, alguns milhares que, timidamente, arriscaram a vida para estar na rua. Em poucos dias, as centenas eram milhares e os milhares eram, já, milhões.

O noticiário do canal público da RDA não transmitia os protestos e as manifestações, silenciosas, mas elas estavam a existir. E acabaram por se revelar decisivas. Mais tarde, já derrubado o muro, um dos manifestantes diria que, sim, tinha sido um risco, mas quando “as massas” – na linguagem marxista – são em tão grande número, não é possível “matá-los a todos”.

Foi, também, assim, além das ordens pouco claras e da cumplicidade dos agentes da fronteira, que a Alemanha acabaria por se reunificar. E que o mundo sofreria uma das maiores transformações do século XX.

Em 1993, em Portugal uma “geração rasca” lutava contra o aumento das propinas. Entre outros protestos e manifestações mais ou menos ortodoxas, quatro estudantes do ensino superior, diante da então ministra da educação, Manuela Ferreira Leite, baixaram as calças e mostraram oito nádegas. Naqueles quatro rabos estava escrita uma mensagem simples: “Não Pago”.

Nada lhes aconteceu de especial, a mensagem passou, fosse pela originalidade do protesto, pelo choque com que a sociedade recebeu a forma escolhida para expressar uma vontade, fosse pela razão que, então, assistia aos estudantes. A revolta estudantil já tinha história na estória do princípio da queda do Estado Novo.

Muitos milhares – incluindo o primeiro ministro de 1993, Cavaco Silva – participaram nas manifestações e plenários de então. Mais uma vez, mesmo com a PIDE, o regime não podia prender todos os milhares e milhares de estudantes que desafiavam o poder. Deteve alguns, julgou outros. Mas “as massas” transformaram o impossível em possível.

Por estes dias, em 2022, pelo menos no Reino Unido e em Itália, há já pequenos movimentos de cidadãos, apartidários e sem agenda política, que desafiam, livremente, outros cidadãos a não pagar as contas de energia e gás. Não se trata sequer de uma tomada de posição por discordância com os diferentes governos.

Trata-se, apenas e só, de deixar de pagar uma factura que se tornou incomportável, exorbitante, imoral, injusta e que, no limite, leva a que se tenham de fazer opções: ou se pagam as contas da luz e do gás, ou se cumpre com os empréstimos ou o arrendamento da casa, ou se come.

A inflação, a economia de guerra, o aumentos dos bens alimentares para números estratosféricos, a subida das prestações do crédito à habitação, os preços das rendas, da gasolina, da energia, do gás… a manutenção dos salários de todos quantos não trabalham na função pública, o desequilíbrio familiar entre as receitas, que são as mesmas ou menores e as despesas, que sobrem sem parar e que, dizem os manuais de economia, nunca mais voltarão a encolher cria o caldo perfeito para que “as massas” comecem a reagir. Primeiro, como em Berlim, serão umas centenas.

Depois, uns milhares. Por mim, espero que sejam milhões a dizer que não pagam. Que não é possível trabalhar seis meses em cada 12 para o Estado.

Que já basta de impostos altos e serviços apenas medíocres. Que o estado tem de ser, não o subsidiador, atirando dinheiro para cima dos problemas, mas um regulador a sério e que, como lhe compete, fixe preços máximos para determinados bens e serviços essenciais.

Que farão a EDP, a GALP e outras “operadoras” do mercado da electricidade e do gás se um país inteiro deixar de pagar? E que respostas terá o estado e o governo se um país inteiro deixar de pagar? Corta a energia? Processa um povo inteiro? Leva a tribunal milhões de cidadãos que, pura e simplesmente, têm de fazer opções para sobreviver?

A história diz-nos que não é possível “prende-los a todos”. Também não é possível “processá-los” a todos. Nem julgá-los a todos. Bem sabemos, diz o povo, que mais depressa vai preso um pilha galinhas do que um criminoso que usa colarinho branco. Mas, se formos todos, mesmo todos, o que é que “eles” nos podem fazer?

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Cruz
06 Setembro 2022 — 00:15



 

110: Sou um robot

– Ao contrário do cronista, não me considero “robotizado” embora utilize diariamente todas as ferramentas disponíveis que ele menciona. E sim, tenho os mesmos problemas dele no que toca às encomendas online. É INCONCEBÍVEL uma pessoa ter de ficar em casa durante TODO O EXPEDIENTE, ou seja das 09:00 às 18:00 horas à espera de uma encomenda sem que seja informada de uma janela horária em que a dita encomenda seria entregue. E sim, também já me aconteceu ter sido avisado da chegada de uma encomenda no dia tal às tantas horas, ela não chegar nem sequer um aviso por SMS de tal facto. Ou seja, quem compra online PAGA OS PORTES DE ENVIO e as empresas, particularmente as transportadoras, estão-se completamente borrifando para os clientes que as sustentam e pagam os ordenados aos seus funcionários. Sim, porque se não fosse o pagamento dos PORTES DE ENVIO, como é que elas, as transportadoras, sobreviviam?

OPINIÃO

A digitalização, a sociedade da informação, a tecnologia, a velocidade de navegação e os serviços online são, naturalmente um bem inestimável para a sociedade do século XXI. Há toda uma nova forma de comunicarmos, de nos relacionarmos, entre nós e com as mais diversas instituições com que temos de lidar no dia a dia, seja o banco online, seguros, administração pública, compras, pagamentos, encomendar comida e outros bens que nos chegam a casa, tudo através do telemóvel ou do computador.

Uma maravilha tecnológica que, supostamente, nos poupa tempo, deslocações, agiliza o quotidiano, elimina papéis, derruba barreiras e faz de nós uns felizes tecnológicos.

Tamanha facilidade e, sobretudo, acesso, tem, no entanto, um lado bastante negro e sinistro, desesperante e de uma exasperante impotência.

Muitos serviços, hoje, funcionam sem um único número de telefone para onde se possa ligar e tentar falar com alguém que nos possa ouvir e esclarecer. Nos sítios da Internet das mais variadas organizações, públicas e privadas, quando temos dúvidas, aparece-nos uma lista de “perguntas frequente”. Se essas não deram resposta ao nosso pedido, problema, dúvida ou questão, há sempre um chat para nos esclarecer. Ligue-se o chat.

– Bom dia, sou Anastácio e sou o seu assistente virtual.

É um robot, com nome e tudo, que nos pede palavras simples e ideias claras. Aquela inteligência, artificial, está apenas programada para dar sempre as mesmas respostas a perguntas-tipo. As tais “perguntas frequentes”. Como se todos os utilizadores – já não somos pessoas, somos utilizadores – fossem estúpidos e não percebessem o básico.

Mas que, em regra, não atende às nossas dúvidas. Como se trata de uma máquina com nome de gente, e que até nos responde, passado algum tempo começamos a enervar-nos com o interlocutor, porque já nos esquecemos que, do outro lado não está, na verdade, ninguém.

Um destes dias, o robot percebeu que já não tinha respostas e escreveu que ia chamar um “colega” para ajudar a resolver. O colega, humano, também não tem nome, nem rosto, embora esteja mesmo lá, vivo, e de carne e osso.

A este colega do robot, já podemos escrever uns impropérios, que ele percebe, ou “desabafar”. Acontece que o colega do robot, não é um, mas comporta-se como tal. Quando muito, diz que “lamenta” a situação, seja ela qual for. E, de lamento em lamento, esbarramos num muro intransponível. Até desistirmos. Sem resolver.

Esta semana, a encomenda – feita online – e já paga – online – deveria chegar entre “as 09.00 e as 13.00”. Não basta que nos obriguem a ficar quatro horas à espera, naquilo a que chamam – online – janela temporal. Uma manhã inteira de nervos, a olhar para o relógio, sempre à espera da encomenda, sem podermos abandonar o local, não vá a encomenda chegar e termos ido só tomar um café ali ao lado.

Uma janela temporal que nos obriga a uma ginástica laboral, pedir favores a colegas para trocarem de horário, como se todos tivéssemos uma manhã – ou uma tarde – inteira, para ficar à espera da encomenda. Duas da tarde, a encomenda não chega, três da tarde, ainda não veio, através do telefone podemos “seguir” a encomenda, está parada, não passou da fase de “recolha” para “está a caminho”.

E não há para onde ligar. Seja, então, o chat. Lá está o Anastácio, o robot, não consegue ajudar porque não está programado para explicar o que não tem explicação, passa ao colega humano, o colega não tem voz, só tecla, no chat, não há número fixo, diz que vai ver, é humano, vai mais além que o colega artificial, mas inteligente, anda à procura, afinal, são quase quatro da tarde, a encomenda não chegou nem vai chegar, “lamento”, há atrasos nas entregas, vamos ter de reagendar, só daqui a dez (!!) dias, antes não é possível, “lamento a situação”, mais um agendamento, mais uma “janela temporal” de uma manhã inteira, e que aconteceria se não tivesse ido ao chat, seriam cinco da tarde e ainda esperava pela encomenda, nem um telefonema, uma SMS, um aviso, um mail, qualquer coisa a dizer que “lamentamos” e que a encomenda não vai chegar.

Então, e como se reclama online? Onde está o livro de reclamações, aquele livro físico e fora de moda, em papel, com três cópias, em que uma delas vai para a administração pública… onde está no chat o direito a reclamar, o robot não sabe, o colega humano sabe, está no lado inferior esquerdo da página online.

E então, para onde vai a reclamação, fica só no site ou chegará ao destino? Isso ele já não sabe, nem por ser humano, será que vale a pena reclamar, se for só para nos responderem de volta que “lamentam” a situação, lamentar não é pedir desculpa, nem assumir a responsabilidade, é apenas uma palavra de circunstância, também eu lamento muita coisa e, depois desta camada de nervos online, sem poder falar com ninguém, lá se foram os planos, a encomenda deveria chegar hoje para poder ter tudo pronto amanhã, e agora, mais dez dias à espera, e se acontece o mesmo, e se daqui a dez dias não chega nada, e se me vão dizer outra vez que lamentam, que há atrasos, que isto e que aquilo.

O anonimato do online não responsabiliza ninguém. Ninguém, literalmente, dá a cara. Parece que estamos a falar com robot. E estamos mesmo, sejam artificiais ou humanos transformados neles.

Jornalista

Diário de Notícias
Pedro Cruz
23 Agosto 2022 — 00:05