214: Serviço Nacional de Saúde III

OPINIÃO

Retomo, mais uma vez o tema Serviço Nacional de Saúde. Abordei o tema quando a Ministra Marta Temido se demitiu.

Ainda não temos a menor ideia de quem a substituirá! Dá tempo.

Em artigo anterior referi ter o SNS sido criado porque era indispensável dar uma resposta política à forma como os cuidados de saúde eram prestados antes do 25 de Abril de 1974, seguindo exemplos do que se fazia nos países do norte da Europa, sem que na sua génese tivesse havido uma definição filosófica geral orientadora do que deveria ser um Serviço de Saúde de âmbito nacional.

Agregaram-se vontades políticas, juntaram-se hospitais e médicos e nasceu um Serviço que se foi adaptando à necessidade do tempo.

Um parênteses para ilustrar o que penso, contando rapidamente um estudo feito por um grupo de cientistas que colocou quatro macacos numa jaula tendo no meio uma escada com umas bananas no topo.

Quando um macaco começava a subir a escada com o fito de chegar às bananas, os outros eram “regados” com um jacto de água gélida o que os levou a reagir passado algum tempo. Sempre que um deles se tentava a subir a escada, era imediatamente desaconselhado pelos outros através de uma forte dose de pancada até que nenhum mais se tentou. Então, um dos macacos foi substituído por um “novo”, que não conhecendo a história, aventurou-se escada a cima. Levou pancada sem perceber porque a levava. E assim por diante, até não restar nenhum do grupo original.

No entanto, os que foram substituindo os originais, mesmo sem serem regados não deixavam que os outros subissem até às bananas, concluindo os investigadores que se fosse possível perguntar a qualquer deles porque é que batiam nos outros, a resposta seria algo assim: ” não sei, mas sempre foi assim por aqui”!

Ora bem, por tudo, ou quase tudo, o que tenho lido, ouvido e visto na comunicação social e nas redes, também sociais, o Serviço Nacional de Saúde continua a ser banana no topo da escada.

Os macacos são os portugueses que tentam entender porque é, tendo um Serviço que deveria ser Nacional, que deveria ser um Serviço Público ao serviço de todos e à medida de cada um, continuam a levar banhos gélidos cada vez que tentam a aventura de chegar ao topo da escada.

Aqui, na vida real, quem investiga (ia dizer instiga, mas não seria politicamente correcto) o comportamento dos portugueses, levando-os a crer que “por aqui sempre foi assim”, são todos os que têm a responsabilidade de pugnar para que o Serviço sirva de facto quem dele necessita: são os políticos que se deixam enredar por argumentos sem fundo e sem nexo, são os responsáveis corporativos (todos, Ordens, Sindicatos, associações de classe, etc.) que se “aproveitam” das necessidades básicas de saúde para levarem a água aos seus moinhos reivindicativos, esquecendo, todos também, que só podem reivindicar porque foi criado um Serviço Nacional de Saúde que se tornou muito maior do que o “simples” acto de prestar isso mesmo: cuidados de saúde.

Foram criadas carreiras inexistentes, foram criados cursos universitários inexistentes, foram criadas condições para que através do Serviço Público os privados pudessem recrutar mão de obra paga a peso de ouro, porque quem pode, paga também a peso de ouro.

Não devemos, nem podemos esquecer o muito que mudou a sociedade em relação aos anos 80 e 90 do Século passado e que o SNS tem de se adaptar às novas realidades do terceiro milénio, onde muitos dos valores do Século XX já não têm lugar!

Há que investir em novos paradigmas, há que mudar mentalidades, há que motivar a causa pública, há que mudar o bastante para que os macacos possam chegar às bananas nem que para isso seja preciso mudar os ocupantes e pôr lá os que instigam e deixar os antigos ocupantes investigarem os porquês das decisões e dizer que apesar de “por aqui ter sido sempre assim”, isso não significa que não possa ser mudado.

Vamos deitar fora o que temos?

Claro que não!

Temos de ter a coragem e a sapiência bastantes para levar para diante as mudanças indispensáveis, independentemente do que digam as vozes dos comentadores e influenciadores que se utilizam do espaço de comentário para ajudar a atirar jactos de água gelada para quem precisa dela pelo menos tépida.

As oportunidades não surgem muitas vezes e esta é uma oportunidade que não pode ser jogada pela borda fora, mesmo que o Primeiro-Ministro já tenha dito que se desengane quem pensa que a política vai mudar.

Não se esqueça, caro Senhor Primeiro-Ministro, que se pode mudar muita coisa sem necessariamente ter de mudar de política.

Haja vontade e coragem, Senhor Primeiro-Ministro, haja vontade e coragem!

Médico

Diário de Notícias
Pedro Melvill Araújo
05 Setembro 2022 — 22:16



 

196: Serviço Nacional de Saúde II

OPINIÃO

Retomo o tema Serviço Nacional de Saúde. Abordei o tema quando a Ministra Marta Temido se demitiu. (Serviço Nacional de Saúde I)

Sem ainda saber quem a substituirá, deixo algumas ideias.

Como já referi em artigo anterior, o SNS foi criado porque era indispensável dar uma resposta política à forma como os cuidados de saúde eram prestados antes do 25 de Abril de 1974, seguindo exemplos do que se fazia nos países do norte da Europa.

Mas não houve na sua génese uma definição filosófica geral orientadora do que deveria ser um Serviço de Saúde de âmbito nacional.

Agregaram-se vontades políticas, juntaram-se hospitais e médicos e nasceu um Serviço que se foi adaptando à necessidade do tempo.

Nasceu dos hospitais e dos médicos hospitalares, e cresceu para os hospitais e médicos hospitalares.

O utente veio depois – não gosto do termo utente, mas era o que havia na altura.

Vamos pensar o Serviço Nacional de Saúde, imaginando-o como um recém-nascido que nascendo em ambiente hospitalar, tem à sua espera um médico pediatra que o examina, mede, pesa, uma enfermeira que o acolhe, limpa e o leva ao colo da mãe.

Aqui já estão dois profissionais de saúde. A mãe foi acompanhada por médico e enfermeira obstetras que garantiram que tudo correria bem. Mais dois profissionais. O pai acompanhou e foi vendo que, para que tudo tivesse corrido bem, eram também necessários outros profissionais, auxiliares e outros, que garantiam que tudo estava no seu lugar.

Continua tudo a correr bem e o bebé vai para casa, onde tem a visita dos avós materno e paterno, depois de ter ido ao centro de saúde fazer o teste do pezinho, a cargo de uma enfermeira, e é observado por um médico, o médico da família que vai tratando da “normalidade” dos avós. E a vida corre segura.

Mas, pode haver alguma doença, do bebé, da mãe, do pai, dos avós, e para isso, o médico da família, se achar necessário, recorre a outros colegas para o ajudarem seja no diagnóstico, seja nas terapêuticas.

Bem, até agora já temos cerca de uma dezena de profissionais de saúde, só para um bebé e sua família. Mas não pensável que cada cidadão vá ter um médico, enfermeiro ou outro profissional só para si. Estes profissionais estão habilitados para observarem, tratarem, cuidarem de um número muito maior de pacientes, sãos ou com alguma patologia.

E assim se vão criando os serviços e as diferenciações indispensáveis para que tudo corra da melhor forma possível.

O bebé nasceu num hospital, num Serviço de Obstetrícia, onde havia um serviço de Neonatologia e de Pediatria, com médicos e enfermeiros preparados para o receberem são ou doente.

Mas, caso necessário fosse, no mesmo hospital haveria outros serviços com outros médicos de outras especialidades aptos a tratarem, em conjunto com todos os outros profissionais de saúde, da mãe, do pai, dos avós, tios e primos do bebé, cada um com a sua doença (ou não), referenciados pelo médico da família que os atende no centro de saúde.

O Serviço Nacional de Saúde tem de ter o paciente, mesmo que não necessitando de cuidados inadiáveis, como o centro de toda a sua actividade, congregando à sua volta todos os profissionais necessários para que a sua saúde individual seja um desígnio nacional.

É partindo do bebé e dos profissionais necessários ao seu bem-estar, alargando ao agregado familiar com a intervenção de outros profissionais, que podemos ir construindo um Serviço Nacional através da avaliação das necessidades, locais, regionais e nacionais em termos de recursos, humanos e físicos, para que se possam implementar os vários Serviços de Cuidados Primários em Centros de Saúde e Cuidados Diferenciados em ambiente hospitalar.

Enquanto o Serviço Nacional de Saúde, tal como o conhecemos for uma hospitalocracia e um terreno fértil de reivindicações políticas corporativas, não haverá um verdadeiro espírito de Serviço Público, logo não haverá um verdadeiro Serviço Nacional de Saúde.

Mudam-se os tempos mudam-se as vontades, e sem mudanças estruturais de paradigmas, dificilmente teremos um Serviço Nacional, mas sim uma manta de retalhos de muitos serviços locais, enredados em várias e complexas teias de interesses reivindicativos, campo fértil para a política barata e populista que se tem visto ao longo dos anos da existência do SNS.

Há que ter coragem na mudança necessária para que seja da base que se parte para o topo, tal como preconizava Maslow. Sem a garantia de que as necessidades básicas estão asseguradas, nenhum recém-nascido terá a garantia de que a sua Saúde será a qualidade que todos almejamos nem a excelência que o País tem a obrigação de providenciar.

Médico

Diário de Notícias
Pedro Melvill Araújo
02 Setembro 2022 — 22:54


 

166: Serviço Nacional de Saúde

OPINIÃO

A Ministra Marta Temido demitiu-se.

Não sei as suas razões, nem as próximas nem as longínquas, mas creio poder adivinhá-las. Mas as mesmas, sejam quais forem, não são para aqui chamadas. Já sabemos o que por aí vem, com uns a dizerem cobras e lagartos e outros a adoçarem a pílula sem, nem uns nem outros, discutirem o fundamental.

E o fundamental é o Serviço Nacional de Saúde.

Criado por António Arnaut em 1979, o SNS propunha-se a proporcionar cuidados de saúde tendencialmente gratuitos à população portuguesa, à semelhança do que era feito em muitos países europeus, nos quais a filosofia de um “estado-providência” era, à época, dominante. Cabia ao estado cuidar da saúde da sua população.

Sendo Portugal um país pobre e atrasado em relação aos países do norte europeu onde vingava esta forma de cuidados de saúde, esta viragem trouxe uma substancial melhoria em todos os aspectos dos acessos a cuidados hospitalares diferenciados gratuitos a uma enorme parte da população portuguesa.

Nem que fosse só por isso, já teria valido a pena apostar num Serviço Nacional.

Mas, acompanhando esta importante reforma estrutural, vieram a reboque muitas outras, como a criação das carreiras médicas, das carreiras de enfermagem e de tantos técnicos de diagnóstico e terapêutica, abrindo portas a outros tantos cursos universitários até então inexistentes.

Reforço que o SNS não pode ser olhado só pelo prisma de prestação de cuidados de saúde. Tem de ser olhado como uma porta escancarada ao estudo e à formação de milhares de jovens que viram abrirem-se novas oportunidades e novas carreiras de nível universitário.

Criou-se assim um mundo complexo de oportunidades, mas também um mundo complexo de reivindicações mais ou menos justas, com maior ou menor cariz político, com o respectivo aproveitamento por todos os quadrantes da política portuguesa.

Faltou no entanto ao SNS um fio condutor da sua filosofia geral. Criaram-se estruturas hospitalares, centros de saúde, autónomos na gestão de recursos, sem enquadrá-los numa óptica de Serviço comum a todos quantos têm por obrigação atender os doentes que os procuram, isto é, um paciente de Trás-os-Montes ou do Alentejo deveria ter a mesma qualidade de cuidados que um paciente de Coimbra ou Lisboa.

Na realidade, o que nos apercebemos, é que um profissional, médico ou outro, de uma unidade de saúde, seja de cuidados primários ou diferenciados, sente que em primeiro lugar faz parte daquela unidade que lhe paga o ordenado e só depois se lembra que integra um universo muito maior, grande como o País.

O paradigma deveria ser, em primeiro lugar fazer parte de um Serviço que é nacional, presta serviço numa unidade X, e que por isso vai dar o seu melhor para que a sua unidade seja reconhecida dentro do universo muito mais abrangente que é o Serviço Nacional.

E é aqui, na criação de novos paradigmas gerais, com foco numa relação diferente entre Cuidados Primários e Cuidados Diferenciados, uma relação de proximidade e cumplicidade, numa retoma de formação com nível universitário (há actualmente universidades em todos os cantos de Portugal), numa motivação permanente de serviço público (com ordenados capazes de atrair os jovens em início de carreira mas também os mais velhos com capacidade formativa), fomentando o orgulho de ser e pertencer a um Serviço Nacional que presta os cuidados que foram, em última análise, o que motivou a escolha da profissão.

O Serviço Nacional de Saúde tem de se actualizar passando a ser encarado como um Sistema Nacional que integre todos os agentes públicos e privados e da área social, sob pena de ter sido em vão que a Ministra Marta Temido tenha pedido a demissão. Se o fez foi porque sentiu já não ter capacidade agregadora e é pegando no que ainda não foi feito que o Governo tem de actuar daqui em diante.

Demitir-se em vão, morrer em vão, não é, nunca, uma solução!

P.S. – esta opinião é pessoal e independente de qualquer força político/partidária.

Médico

Diário de Notícias
Pedro Melvill Araújo
31 Agosto 2022 — 00:04