Mercearia solidária em Ponta Delgada “é bóia de salvação” para famílias de fracos recursos

– Seria excelente existirem mais “mercearias solidárias” pelo País dado que a inflação, o aumento do custo de vida, o desemprego, os (des)apoios das instituições sociais a quem mais necessita, seriam uma ajuda fantástica para atenuar a (sobre)vivência de muitas pessoas em dificuldades extremas de sobrevivência. E seria também uma forma dos produtores colocarem os seus produtos directamente à venda por preços mais acessíveis.

MERCEARIAS SOLIDÁRIAS // BÓIAS DE SALVAÇÃO

A mercearia solidária pretende proporcionar aos habitantes do bairro na freguesia do Livramento alimentos de primeira necessidade a preços mais baixos do que os praticados no mercado. Esta abre três vezes por semana.

Foto EDUARDO COSTA/LUSA

Inaugurada há um mês, a mercearia solidária do bairro social Santo António, em Ponta Delgada, nos Açores, tem clientes fidelizados e é uma “bóia de salvação” para os moradores, a maioria em situação de desemprego e com baixos rendimentos.

O projecto nasceu pelas mãos da associação Solidaried’Arte, para proporcionar aos habitantes do bairro na freguesia do Livramento, concelho de Ponta Delgada, ilha de São Miguel, alimentos de primeira necessidade a preços mais baixos do que os praticados no mercado.

“Essa mercearia é um pouco uma bóia de salvação”, disse à agência Lusa Carmen Bettencourt, coordenadora do projecto da mercearia solidária e comunitária.

© EDUARDO COSTA/LUSA

Além de proporcionar preços mais baixos num bairro onde existem “dificuldades sócio-económicas e várias problemáticas”, como o desemprego, o projecto tem outra mais-valia identificada pela responsável: evita a deslocação dos moradores para pequenas compras do dia-a-dia.

“Na maioria, estas pessoas não têm transporte próprio. Estão distantes das lojas e os horários dos autocarros não são muito compatíveis com a população”, acrescentou a coordenadora do projecto.

Com a ajuda de voluntários e crianças do bairro, os responsáveis instalaram a mercearia solidária em contentores cedidos pela autarquia de Ponta Delgada.

No interior, as prateleiras exibem dezenas de produtos de primeira necessidade, como alguns enlatados, leite, massas ou fraldas e ainda artigos de higiene.

Existem também produtos frescos, fruto de uma parceria com o projecto de inclusão social Casa dos Manaias, desenvolvido pela autarquia de Ponta Delgada, e que tem uma horta.

Segundo Carmen Bettencourt, esses produtos cultivados são adquiridos pela associação para comercialização na mercearia, onde também estão à venda algumas peças de cerâmica elaboradas pelos utentes do projecto Casa dos Manaias.

“A ideia é termos os bens de primeira necessidade para qualquer morador, no seu dia a dia. Se faltar, por exemplo polpa tomate para o jantar, já têm um local bem perto, em vez de andarem quilómetros”, explicou.

Foto EDUARDO COSTA/LUSA

Entre os produtos mais solicitados, segundo a responsável, estão “artigos mais pesados”, como as caixas de pó para a máquina de lavar roupa ou “vários pacotes de leite.

“Estamos a apostar um pouco naquilo que a população pede”, assinalou.

A mercearia já conta com “cerca de 10 clientes fidelizados” que compram regularmente determinados produtos.

“Acreditamos que, no futuro, essa fidelização será em maior número”, referiu a responsável do projecto, implementado num bairro onde residem 64 famílias.

A mercearia solidária abre três vezes por semana, às terças, quintas e sextas-feiras, entre as 10:00 e 12:30.

“Este horário vai ao encontro das necessidades da população, na sequência de um questionário que elaboramos junto dos moradores”, explicou Carmen Bettencourt.

O acesso é exclusivo para os 64 agregados familiares que residem no bairro, mediante a apresentação de um cartão próprio para as compras.

“Numa fase inicial, os moradores foram à Junta de Freguesia solicitar um atestado de residência que comprova a composição do agregado familiar e ficaram com um cartão de acesso à mercearia”, especificou a coordenadora do projecto.

Para a associação Solidaried’Arte, a intenção “não é fazer concorrência desleal” ao mercado, mas “ajudar” as famílias de fracos recursos.

“Estamos aqui de ombro a ombro com a população e nunca com o objectivo de lucro. A percentagem que conseguimos angariar será toda aplicada na compra de mais produtos para a mercearia, porque não vivemos apenas de doações”, frisou Carmen Bettencourt.

Outra das ideias do projecto da mercearia solidária e comunitária passa também por promover uma educação ambiental, sensibilizando a população para a aquisição de produtos frescos.

“Seleccionamos, por mês, um produto e colocamos em exposição receitas de culinária que podem ser feitas com o produto seleccionado”, descreveu.

A coordenadora considera que “já se criou uma relação com a população”.

“E somos muito bem aceites”, assegurou.

Além da parceria com a Câmara Municipal de Ponta Delgada, o projecto é financiado pela Direcção Regional da Juventude, através do programa Jovens Mais.

Diário de Notícias
DN/Lusa
04 Dezembro 2022 — 07:00



 

1072: Aeroporto: há novidades

OPINIÃO

Nenhuma conclusão substitui o estudo que o Governo mandou fazer sobre a melhor localização para o aeroporto de Lisboa. Mas há novas pistas, fruto do debate promovido pelo Conselho Económico e Social e o Público.

No quadro abaixo ficam alguns dos pontos fortes e fracos de cada projecto apresentados na terça-feira. As premissas da análise são estas:

IMPACTO NO AMBIENTE: não há tema mais crítico para a construção de um aeroporto em qualquer ponto do mundo. Olhando para as seis hipóteses em análise, talvez apenas Alverca (que já tem uma pista, numa área menos crítica do estuário) ou Santarém (numa zona menos sensível) escapem. Alcochete e Montijo são indubitavelmente as piores pelas consequências ecológicas em redor.

Manter a Portela tem um impacto pesado sobre os habitantes da capital – daí as dúvidas sobre se se deve diminuir a operação, ou pura e simplesmente acabar. Nem o presidente da Câmara, Carlos Moedas, consegue dizer qual escolhe…

CUSTO DE INVESTIMENTO: a grande novidade veio da Vinci-ANA. Afinal, não há aeroportos grátis, ao contrário do que António Costa deu a entender quanto ao Montijo. Ficou subentendido nas afirmações do líder da Vinci que ou a ANA paga o aeroporto com os lucros que não entrega ao Estado, ou o Estado paga tudo.

Só a melhoria da Portela fica por conta dos franceses (ou não?). Portanto, não é indiferente querermos um aeroporto + acessos cuja escala pode ir de 500 milhões (Alverca) até 8 mil milhões (Alcochete).

Não sendo certo, Santarém começou por assinalar mil milhões para a primeira fase, tal como o Montijo. Acessos já construídos: Alverca e Santarém são claramente os melhores.

ATÉ 30 MINUTOS DE LISBOA: este ponto é decisivo e não se mede em quilómetros, mas em tempo de acesso. A Portela é imbatível – já está na cidade. Alverca e Montijo estão mais perto, Alcochete, Ota e Santarém mais longe. No entanto, todas as soluções de transporte os colocam a 30 minutos da capital.

Mais: se a alta velocidade ficar no subterrâneo do aeroporto escolhido, não é por este critério que Santarém – o mais distante – fica de fora. E quanto ao resto das regiões em redor da capital? Em população abrangida, Santarém também é o que marca mais pontos neste item.

NAVEGAÇÃO AÉREA: o maior argumento contra Alverca sempre foi o de ter uma pista conflituante com a da Portela, mas a nova proposta traz até três pistas sem conflitos de tráfego. A presidente da autoridade de navegação aérea (NAV) confirmou essa plausibilidade na terça-feira.

Ora, se é assim, Alverca passa a ser uma hipótese muito próxima, barata e de impacto mais reduzido do que, por exemplo, Montijo – apesar de também estar no estuário e ambas terem contra si a questão das aves.

A Ota, com a serra da Montejunto a limitar a operação aérea, e os frequentes nevoeiros, sempre foi má hipótese. A Portela, com uma só pista, tem os problemas conhecidos. Santarém e Alcochete parecem ser os que têm menos limitações de expansão.

FUTURO: no estudo do professor de Coimbra, Pais Antunes, especialista em mobilidade, o crescimento do tráfego aéreo global até 2050 é de apenas 2 a 4%. Nas suas contas, a capital portuguesa só necessitaria de construir mais uma pista, além da actual.

Queremos um aeroporto que possa crescer muito mais? O ministro Pedro Nuno Santos não quer um futuro pequenino. Só que a vantagem deste processo é que qualquer solução só crescerá por fases e o dinheiro impõe a realidade. Alcochete, Ota, Santarém, mas até Alverca (ainda que mais limitada), têm espaço para crescer gradualmente. Se houver procura.

Conclusão: não perdemos 50 anos a adiar. Pura e simplesmente não tivemos capacidade de realizar mais endividamento para um enorme investimento público.

Entretanto, se levarmos o comboio de alta velocidade ao novo aeroporto, garantirmos um custo decente e gradual, e minimizarmos o impacto na capital pela chegada de aviões mais limpos, o tempo deu-nos uma melhor solução. E não destruímos nem o estuário do Tejo, nem a muralha de sobreiros e biodiversidade ambiental da margem Sul. Seria notável.

Jornalista

Diário de Notícias
Daniel Deusdado
04 Dezembro 2022 — 07:00



 

‘Gone with the wind’ (‘Foi com o vento’)

OPINIÃO

Atenas, na pandemia, andou livre de turistas, havendo espaço e vagar para a vermos na beleza antiga, graças a Zeus.

Entre as muitas maravilhas, a Torre dos Ventos, ou Horológio de Andrónico, do nome do seu erector, o astrónomo macedónio Andrónico de Cirro.

Construída por volta de 50 a.C., com doze metros de altura, todos inteirinhos em mármore, tem planta octognal, com cada um dos lados a representar uma divindade eólica: Bóreas, do norte, Kaikias, de nordeste, Eurus, de leste, Apeliotes, de sueste, Lips, de soeste, Zéfiro, de oeste, e Siroco, de noroeste. No interior, houve em tempos uma clepsidra, movida a água vinda da Acrópole, e no topo um cata-vento, naturalmente, pois era a Torre dos Ventos.

Ao início, o cata-vento de Atenas tinha no cimo uma enorme figura de bronze do Tritão, o deus do mar com cauda de peixe cujo tridente apontava para o nome do vento que o arejava, mas é possível, até provável, que mais tarde passasse a ostentar um galo, pois assim foi determinado no século IX, quando o Papa Nicolau I ordenou que os cata-ventos das igrejas e das abadias tivessem no topo um galináceo cantante, em alusão ao galo que cantou três vezes antes da aurora raiar e, sobretudo, à indecisão de São Pedro, que tanto jurava Cristo como O negava a pés juntos.

À semelhança do santo, também os cata-ventos viram para um lado e para outro, consoante o vento que levam ou trazem, não sendo essa, obviamente, a primeira nem a última associação entre os ventos e os deuses.

Na Grécia antiga, existiu, inclusive, a crença numa imaculada concepção eólica, pois dizia-se que Bóreas, o vento gelado setentrional, soprava com tal vigor que era capaz de engravidar as éguas que estivessem a pastar nos campos com os quartos traseiros virados para norte, e que assim eram fecundadas sem qualquer intervenção de um macho.

De resto, já os antigos egípcios acreditavam que não havia abutres machos, e que a fertilização das fêmeas se fazia pela força do vento, algo que Plínio aplicaria às perdizes, mas com uma nuance: segundo ele, existiam perdizes machos e fêmeas, mas estas engravidavam por um vento soprado pelos machos, não havendo, pois, qualquer contacto carnal, tese que, por seu turno, Virgílio aplicaria às éguas da Lusitânia.

Em árabe, a palavra para vento é ruh, que tanto pode significar “respiração” como “espírito” e em hebraico usa-se ruach, que também pode querer dizer “criação” ou “divindade”.

As antigas divindades helénicas do vento chamavam-se Anemoi, que deriva de anima, “alma”, e que por sua vez deu o nome às anémonas; e é também grega a palavra pneuma, que tanto poderia dizer “respiração”, como “sopro”, como “alma” ou “espírito”, abrangendo, portanto, desde os pneus dos automóveis até pneumologia, ramo dos estudos teológicos que se ocupa do Espírito Santo. Sem maçar muito com etimologias, diga-se tão-só que ventilação vem de ventus, obviamente, e que no inglês e no nórdico antigos se usavam as palavras windoge ou vindauge, ambas com o significado de “olho do vento”.

Das crenças e tradições ligadas ao vento, uma das mais belas que conheço é a dos moinhos ingleses, desde sempre foram usados como fonte de energia e tracção, mas também como sinal de aviso para o perigo próximo, seja um incêndio a galopar ao longe, seja a aproximação de um exército inimigo, seja, enfim, a aparição indesejada de um cobrador de impostos.

E a tradição era esta: quando morria um moleiro, tiravam-se as vinte de tábuas dos braços do moinho, e este permanecia silencioso e imóvel durante um tempo – dez, quinze, vinte dias, ou mais -, fazendo luto pelo seu dono (se fosse a mulher do moleiro, tiravam-se dezanove tábuas; num filho criança tiravam-se treze tábuas, na morte dos pais, onze tábuas; na morte do filho de um primo, uma tábua apenas).

Noutras paragens, muitas, acredita-se que os ventos são espíritos de gente que morreu recentemente e em várias culturas existe uma figura que serve de guardião dos ventos, como Éolo, na Grécia clássica, ou Feng Po Po, o deus do vento na sabedoria chinesa antiga, um ancião de barbas brancas e barrete azul, que consigo transporta um saco amarelo chamado “Mãe dos Ventos”, de onde vai libertando ventos em várias direcções.

Muitos povos índios da América, como os Iroqueses ou os Algonquinos, acreditavam que um deus maligno tinha os ventos aprisionados numa caverna, crença também partilhada pelos Batuk da Malásia ou pelos Maori da Nova Zelândia, numa comunhão universal de mitos e lendas que sempre surpreende e intriga, mas que talvez se explique por uma razão singela: nunca conseguimos ver um vento, mas apenas os seus efeitos, que ora surgem sob a forma de suaves brisas, ora de tempestades arrasadoras. A invisibilidade do vento e a volatilidade dos seus humores prestam-se, pois, e muito, a que os associemos aos deuses.

Os ventos são sempre masculinos, ou quase sempre, e há-os bons e maus (“de Espanha nem bom vento…”). Entre estes últimos, destaca-se o föhn, um vento quente e descendente dos Alpes, cujo nome vem do gótico fôn, que significa “fogo”, pois o föhn traz consigo um risco real de incêndio; ou o sirocco, um vento quente de Primavera, vindo do Saara, e que tem vários nomes, mas também o mistral, do latim magistralis, esse um sopro frio de noroeste, com rajadas que percorrem o Vale do Reno, e do qual já Estrabão dizia ser “um vento impetuoso e terrível”.

Se os Himalaias protegem a Índia das frentes frias mais vigorosas, a Itália está salvaguardada pelos Alpes e a Espanha pelos Pirenéus. Já a América Norte não tem uma cordilheira que bloqueie o fluxo para sul dos ventos frios setentrionais e, por vezes, uma maré de ar polar chega até ao Golfo do México.

Em contrapartida, no Canadá e a leste das Montanhas Rochosas há um vento bom, quente e seco, o chinook, considerado um “devorador de neve”, cujos uivos são prenúncio de que o Inverno acabou.

Ao que parece, a maior rajada de vento do mundo, produzida por um tornado, foi registada em 12 de Abril de 1934, no cume do Monte Washington, na cordilheira dos Apalaches, e atingiu a incrível velocidade de 370 quilómetros por hora. E o sítio mais ventoso do planeta é uma montanha na extremidade da Antárctida, onde há um vento constante, que sopra a 60 quilómetros por hora, todos os dias todas as noites do ano.

E que dizer da “Tornado Alley”, uma região que atravessa o Kansas, o Oklahoma e o Missouri, e de onde nascem cerca de 700 tornados por ano? Ou que pensar quando nos dizem que um furacão mediano precipita cerca de 20 000 milhões de água por dia, o equivalente em energia a 500 mil bombas atómicas? (o furacão Betsy, de 1965, é considerado o maior desastre natural da história dos EUA, tendo provocado prejuízos superiores a mil milhões de dólares).

Mais espantoso ainda é sabermos que o interior de um monstro desses – ou seja, o “olho” do furacão, com cerca de 20 quilómetros de diâmetro – é anormalmente calmo e sereno e muitas vezes está cheio de aves que tranquilamente rodopiam em seu seio.

Numa vertigem imparável, a intensidade e a violência das tempestades tem vindo a aumentar de forma assustadora: em Outubro de 2018, uma tempestade de vento e de chuva atingiu extensas zonas dos Alpes orientais, com rajadas de velocidade superior a 200km/hora, que destruíram dezenas de milhares de hectares de bosque.

Como mamíferos que andam erectos sobre uma base de sustentação reduzida (ou, se quisermos, sobre uma superfície que corresponde apenas a 2% de todo o nosso corpo), geralmente não gostamos dos ventos, desde logo por essa razão biológica elementar.

Dos poucos ventos que apreciamos, e que consideramos benignos, destacam-se as brisas de curta duração, suaves e refrescantes, ou moderadamente tépidas, como o imbat, que aflora as costas quentes da Tunísia; o datoo, que traz ar fresco da costa oeste do Atlântico através de Gibraltar; o vento de baixo de Portugal; o medina, de Cádis; o kapalihua, no Havai; ou o libeccio, que ameniza os escaldantes (e porquíssimos) Verões napolitanos.

Tudo quanto aqui é dito encontra-se num tratado completíssimo, Uma História Natural do Vento, do malogrado Lyall Watson, obra que a esclarecida editora Bazarov, de Arcozelo, deu à estampa em 2020, e que no final traz um exaustivo dicionário de todos os ventos que neste mundo existem.

Ali sabemos, entre tantas coisas, que as névoas e secas avermelhadas vindas do Saara (lembram-se delas, há poucos meses?) são transportadas em direcção aos pólos e pousam em sítios tão distantes como a Cornualha e Devon e produzem chuvas de lama tão vermelhas que por vezes são confundidas com sangue.

É fenómeno antigo: já Gregório de Tours dizia que, no ano 582 d.C., uma “chuva de sangue” aterrorizou de tal forma os habitantes de Paris que estes rasgaram as vestes em sinal de pânico.

E é fenómeno cíclico: em 1846, as sarjetas da Provença ficaram cheias de lama vermelha e, em 1859, na Alemanha, uma área de 30 mil quilómetros quadrados ficou toda coberta por um manto róseo, arenoso; em 1901, houve copiosas “chuvas de sangue” em Espanha e em Portugal e, em Abril de 1926, estima-se que a Europa tenha sido inundada por dois milhões de toneladas de lama do Saara, a qual voltou a atacar a Suíça, em 1936, e o Luxemburgo, em 1947.

Se dúvidas houvesse sobre a interacção entre clima e cultura humana, bastaria dizer que o nascimento de todas as civilizações primitivas ocorreu ao longo de uma isotérmica em que a temperatura média anual é de 20º C e, sempre que essa temperatura coincidia com uma humidade razoável e terra arável, florescia uma nova civilização com uma regularidade infalível. Assim foi com os egípcios, com os fenícios, com os assírios e com os babilónios, com os persas, com os chineses, com os aztecas, os maias e os incas.

Terá havido, sem dúvida, civilizações que despontaram e medraram em ambientes mais agrestes e a temperaturas mais baixas, mas só o fizeram depois de terem desenvolvido técnicas que lhes permitiram controlar os efeitos do clima e manter a temperatura na média amena de 20º C, não mais, não menos.

Aliás, muito do que lemos na Bíblia, mormente no Velho Testamento, mais não são do que narrativas sobre desastres climáticos e, segundo se crê, o registo mais antigo de um tornado foi feito pelo profeta Ezequiel, no ano 600 a.C., quando disse: “Então olhei e contemplei uma terrível tempestade que se aproximava vinda do Norte: uma nuvem enorme, com relâmpagos e raios intensos, cercada por forte luz brilhante.

O centro do fogo parecia metal reluzente” (e para quem julgue que a Bíblia é um livro sensaborão, atente-se no versículo hard core de Ezequiel 23:20, “desejou ardentemente os seus amantes, cujos membros eram com os de jumentos e cuja ejaculação era como a dos cavalos”).

O clima e os ventos foram de tal forma importantes para dominar o mundo que em torno deles sempre existiram mistérios e ocultações. Os marinheiros árabes guardavam ciosamente os seus segredos dos ventos, pois aqui residia o senhorio das costas de África e do Golfo Pérsico, numa área que se estendia pelo Mar Vermelho e pelo Índico adentro, até aos ricos domínios de Oriente, que Alexandre tentou em vão conquistar, mas que só seriam abertos pela intrepidez do nosso camarada Vasco, o da Gama.

Foram os ventos alísios, de resto, que favoreceram o achamento do Brasil e, como nota Lyall Watson, é essa “propensão para oeste” dos alísios, que persistiu até aos dias das grandes embarcações de aço do início do século XX, que explica, em larga medida, o superior desenvolvimento do Brasil, em contraste com a estagnação e o esquecimento a que Angola foi votada.

Ao longo da História, o curso de muitas batalhas foi determinado pelos ventos, ou ajudado por eles, como sucedeu com a derrota da Invencível Armada, em 1588, e, três séculos antes, em 1281, com a destruição da frota de Kublai Khan pelos shimpu, os “ventos divinos” que protegeram o Japão dos invasores mongóis (ainda hoje se encontram destroços dos navios do Khan nas costas de Takashima), para não falarmos do triunfo de Temístocles sobre Xerxes, em Salamina: se os gregos não tivessem vencido os persas, não teria existido o século de Péricles, as esculturas de Praxiteles, a democracia ateniense, a filosofia de Platão e de Sócrates e, no fundo, toda a civilização ocidental, tal como a conhecemos e vivemos. É grande o poder do vento.

Não admira, assim, que os homens desde sempre tenham tentado dominá-lo. No Árctico canadiano, quando o vento soprava semanas a fio, impedindo os inuítes de saírem para caçar, estes faziam longos chicotes com algas marinhas e açoitavam o ar, gritando “Taba! Já chega!”.

Na Gronelândia, escolhia-se uma mulher que tivesse dado à luz recentemente e que se dirigia para a tempestade, enchia os pulmões de ar e regressava para casa com os ventos cativos no interior do seu corpo.

Nos Xhosa da África do Sul, um sacerdote cuspia uma poção na direcção do vento, para que este serenasse, e, na Índia, homens santos enfrentavam as tempestades sozinhos, munidos de um bastão e de uma tocha flamejante.

Na antiga Gália, venerava-se uma sacerdotisa, a barbagouin, que tinha o poder de gerar ventos e, no século XIX, Walter Scott ainda encontrou várias “bruxas dos ventos” na ilha de Man, havendo mulheres nas Shetland que vendiam ventos sob a forma de lenços atados.

Hoje, pouco resta dos moinhos de vento que pontuaram os cumes da Europa e que se calavam à morte dos seus moleiros. Chegaram a ser mais de 18 mil só na Alemanha, sete mil entre Portugal e Espanha, dez mil na Inglaterra, outros tantos na Holanda. Vemo-los agora sob novas vestes, as das eólicas que desfiguram a paisagem, mas que tão necessárias são para nos livrarmos das energias fósseis.

No recente A Planta do Mundo – Aventuras de Plantas e Pessoas (Pergaminho, 2022), diz-nos Stefano Mancuso que a principal adversidade com que as árvores se debatem, pelo menos na Europa, é o vento, ao qual se devem mais de 50% dos danos sofridos pelos nossos bosques, os quais são ameaçados não apenas pelos incêndios (apenas 16% dos danos), nem pelos elementos patogénicos ou pelos insectos, mas simplesmente por acção eólica.

As perdas de árvores causadas pelo vento não cessam de crescer desde os anos 1950 e duplicaram de 1970 a 2010, passando de cerca de 50 milhões a 100 milhões de metros cúbicos. Desse modo, reduz-se em cerca de 30% a capacidade de fixação do CO² nas áreas afectadas por este massacre ventoso.

E, numa vertigem imparável, a intensidade e a violência das tempestades tem vindo a aumentar de forma assustadora: em Outubro de 2018, uma tempestade de vento e de chuva atingiu extensas zonas dos Alpes orientais, com rajadas de velocidade superior a 200km/hora, que destruíram dezenas de milhares de hectares de bosque.

Desde há muito que se sabe que a deflorestação aumenta exponencialmente o poder destruidor dos ventos. Há quem diga, inclusivamente, que o mistral teve origem no abate em massa das árvores das Cevenas, perpetrado nos tempos do imperador Augusto.

Subitamente desnudado, o bosque impenetrável deu lugar a uma paisagem desolada, feita de calhaus e de arbustos, que Robert Louis Stevenson, montado num burro, descreveu admiravelmente em Os Prazeres dos Lugares Inóspitos (Relógio D”Água, 2016).

Talvez seja exagero atribuir a origem de um vento à acção de um só homem, mesmo que imperador de Roma, mas o facto é que abundam exemplos, tristes exemplos, em que a imprevidência e a avidez humanas potenciaram brutalmente o poder destruidor dos ventos.

Num livro acabado de sair, As Últimas Colheitas (Vogais, Outubro de 2022), um relato demolidor dos efeitos da agricultura intensiva sobre as alterações climáticas, Philip Lymbery fala-nos da chegada em massa, nos anos 1920, de novos colonos às Grandes Planícies americanas, atraídos pelas promessas de prosperidade feitas pelos poderes públicos, por grupos económicos e por especuladores.

Encorajados pelos preços elevados dos cereais a seguir à Primeira Guerra, milhares ou milhões de famílias precipitaram-se então sobre a terra virgem. O Departamento Federal dos Solos garantia que aquele era “o único recurso que não pode ser esgotado, não pode ser gasto”.

Na década de 1920, naquilo que ficou conhecido como “a grande lavra”, foram revolvidos, destruídos, milhões de hectares de cobertura de erva, para em sua substituição se plantar trigo numa escala nunca vista, com o auxílio de máquinas e tractores. No imediato, a produção disparou 300%, houve excedentes colossais de cereais e, logo, uma abrupta queda de preços.

Os agricultores viram-se então no dilema de diminuírem a produção para manter os preços em alta ou de a aumentarem ainda mais, optando por esta última solução, que veio a revelar-se desastrosa. Enquanto continuavam a lavrar cega e incessantemente, vieram oito anos de seca, instalou-se a aridez, e, como nos conta Philip Lymbery, a ausência de chuvas implicou que as plantas recém-cultivadas não conseguiram crescer, deixando o solo exposto.

Os campos outrora verdes acabaram por secar. Os preços caíram mais, ainda mais, milhares de agricultores entraram em falência, milhões de hectares de antigo prado ficaram despidos, expostos aos ventos que sopravam ferozmente sobre a terra seca e poeirenta, levando a que grandes extensões se fendessem e separassem, uma dor de alma.

Então ergueram-se grandes ventos, começaram as tempestades de poeira. Em alguns locais, as nuvens de pó e terra seca chegavam aos três quilómetros de altura, ofuscando a luz do sol, cobrindo campos e cidades de um manto denso, acastanhado, impedindo as pessoas de saírem sequer à rua.

O Dust Bowl, nome por que ficou conhecido, devastou, como uma praga bíblica, o oeste do Kansas, o leste do Colorado, o nordeste do Novo México e zonas enclave do Oklahoma e do Texas.

Estima-se que, em 1934, 40 milhões de terra agrícola tenham perdido a totalidade ou a maior parte do seu solo arável para os ventos. Em certas localidades, a poeira matou 90% das galinhas, as vacas deixaram de dar leite, o gado solto no pasto ficou cego, com os olhos como que colados.

Cerca de dois milhões de pessoas abandonaram os estados da Dust Bowl na década de 1930, um êxodo terrível que seria narrado por John Steinbeck em As Vinhas da Ira e captado em imagens cruciantes de fotógrafos como Walker Evans, Dorothea Lange, Russell Lee ou Arthur Rothstein.

No rescaldo das tempestades, surgiram as lebres famintas. Os agricultores tinham matado os coiotes, o que agravou a praga dos coelhos bravos, que agora competiam com os humanos pelo pouco que restava no solo.

As comunidades organizaram então batidas impiedosas, em que os coelhos eram encaminhados para enormes redis e aí açoitados até à morte com bastões e mocas, numa orgia de sangue e dor.

Ainda hoje há quem não consiga esquecer os berros lancinantes de milhares de coelhos massacrados, o barulho ensurdecedor que faziam enquanto eram mortos à paulada por homens, por mulheres, por crianças.

O Dust Bowl e os seus ventos foram um trágico exemplo, mais um, daquilo a que podem conduzir a cupidez e a estupidez humanas. Estupidez que ainda hoje em dia persiste naqueles que ainda teimam em negar as alterações climáticas e a sua origem humana.

Alguns, por ignorância ou má-fé, vão ao ponto de invocar a História e convocar o passado, com isso pretendendo dizer que outrora também houve mudanças do clima, pelo que as de hoje não serão certamente diferentes, seja na sua gravidade e alcance, seja na ausência de responsabilidade humana na sua génese.

Há um par de meses, um terço do Paquistão ficou submerso pelas cheias, que causaram de imediato 800 vítimas mortais, esperando-se muitas mais, devido às epidemias e às doenças. António Guterres afirmou nunca ter visto uma “carnificina climática” semelhante.

Por cá, perante uma tragédia daquelas, alguns imbecis (sem surpresa, os mesmos imbecis que questionam os confinamentos e as vacinas da Covid, que salvaram 19,8 milhões de vidas) não acharam melhor do que caricaturar Guterres e os seus insistentes alertas, alertas que, note-se, são partilhados de forma esmagadora pela comunidade científica: um estudo de 2021, publicado na revista Environmental Research Letters, concluiu que 99% dos trabalhos publicados sobre a matéria reconhecem que as actuais alterações climáticas têm origem humana.

De um lado, 99% de cientistas; do outro, 1% de idiotas. Parole al vento, dizem os italianos. E nós também.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

Diário de Notícias
António Araújo
04 Dezembro 2022 — 07:00



 

1066: Iluminação de Natal em Lisboa arranca oficialmente segunda-feira

🇵🇹 LISBOA // ILUMINAÇÃO NATAL

As iluminações de Natal este ano estarão com um horário reduzido, decisão da Câmara Municipal de Lisboa para garantir poupanças de 50% no consumo de energia.

© Gerardo Santos / Global Imagens

O arranque oficial das iluminações de Natal em Lisboa está marcado para esta segunda-feira, dia 5 de Dezembro, às 19h na Praça do Comércio. O evento irá contar com a presença do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, e a União de Associações de Comércio e Serviços.

As iluminações de Natal este ano estarão com um horário reduzido, decisão da Câmara Municipal de Lisboa para garantir poupanças de 50% no consumo de energia. As luzes vão estar nos habituais locais da cidade, mas com recurso a lâmpadas de baixo consumo com tecnologia LED”.

Segundo o comunicado enviado às redacções, a CML “já tinha informado que as tradicionais iluminações de Natal em Lisboa só iriam entrar em funcionamento mais tarde do que o habitual, e decidiu também reduzir o período em que as mesmas estarão em funcionamento”

“A poupança dos recursos do planeta é algo que nos preocupa verdadeiramente. E com isso em mente procuramos sempre optar por garantias na utilização das mais recentes técnicas de poupança”, lê-se em comunicado da CML, acrescentado ainda que as iluminações “têm sido um dos pontos altos de estímulo ao comércio em Lisboa e constituem uma tradição fortemente enraizada por todos”.

As luzes vão estar acesas das 18h às 23h de domingo a quinta-feira. Sextas e sábado as luzes vão estar ligadas até à meia-noite. Na noite de Natal e de passagem de ano ficarão ligadas até à 1 da manhã.

Diário de Notícias
DN
03 Dezembro 2022 — 16:18



 

1065: A Minha Cozinha

Caçarola de Tiras de Frango com Cogumelos e Natas

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Ingredientes:

– 400 g de tiras de frango (Strogonoff)
– 250 g de macarrão riscado
– 100 g de cebola em cubos
– 1 dente de alho
– 200 g de cogumelos laminados
– 200 ml de Creme Vegetal de soja
– azeite extra-virgem q.b.
– 1 dl de vinho branco
– alecrim, manjericão, cominhos q.b.
– tempero de alho e pimentão doce q.b.
– noz-moscada moída q.b.
– pimenta preta q.b.
– 1 col. de sopa de molho de soja
– sumo de limão q.b.
– flor de sal q.b.

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Preparação:

01.- Tempere as tiras de frango com a quantidade desejada de flor de sal, alecrim, manjericão, tempero de alho e pimentão doce, molho de soja, pimenta preta e reserve no frigorífico até à confecção. Num tacho ao lume, com um fio de azeite, coloque a cebola e o alho, deixe alourar enquanto coze a massa temperada com um cubo para massas, um fio de azeite até ficar al dente, não muito cozida.

02.- Junte ao refogado do tacho as tiras de frango e deixe cozinhar até estarem tenras. Adicione o vinho branco e deixe evaporar completamente.

03.- Tempere com uma pitada de flor de sal, cominhos, adicione os cogumelos e deixe cozinhar até os cogumelos ficarem macios. Por fim, junte um pouco de noz-moscada moída e as natas de soja e deixe engrossar um pouco.

04.- Escorra a massa e misture-a com o preparado da carne. Para finalizar, tempere com o sumo de limão e sirva de imediato, com uma salada simples.

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03.12.2022



 

1061: Astrónomos observam auto-controlo estelar em acção

CIÊNCIA  // ASTRONOMIA

Composição de RCW 36 (ver versão não legendada).
Crédito: raios-X – NASA/CXC/Centro de Investigação Ames/L. Bonne et al.; infravermelho – ESA/NASA/JPL-Caltech/Observatório Espacial Herschel/JPL/IPAC

Muitos factores podem limitar o tamanho de um grupo, incluindo factores externos sobre os quais os membros não têm qualquer controlo. Os astrónomos descobriram que grupos de estrelas em certos ambientes, porém, podem regular-se a si próprios.

Um novo estudo revelou que as estrelas num enxame têm “auto-controlo”, o que significa que apenas permitem que um número limitado de estrelas cresça antes que os membros maiores e mais brilhantes expulsem a maior parte do gás do sistema.

Este processo deveria abrandar drasticamente o nascimento de novas estrelas, o que se alinharia melhor com as previsões dos astrónomos quanto à rapidez com que as estrelas se formam nos enxames.

Este estudo combina dados de vários telescópios, incluindo o Observatório de raios-X Chandra da NASA, o SOFIA (Stratospheric Observatory for Infrared Astronomy) da NASA, o telescópio APEX (Atacama Pathfinder EXperiment) e o telescópio Herschel da ESA.

O alvo das observações foi RCW 36, uma grande nuvem de gás chamada região HII composta principalmente de átomos de hidrogénio que foram ionizados – ou seja, despojados dos seus electrões. Esta região de formação estelar está localizada na Via Láctea a cerca de 2900 anos-luz da Terra.

Os dados infravermelhos do Herschel são mostrados a vermelho, laranja e verde e os raios-X a azul, com fontes pontuais a branco. A direcção norte está 32 graus para a esquerda da vertical.

RCW 36 contém um enxame de estrelas jovens e duas cavidades – ou vazios – esculpidas no gás hidrogénio ionizado, estendendo-se em direcções opostas.

Há também um anel de gás que envolve o enxame entre as cavidades, formando uma cintura em torno das cavidades em forma de ampulheta. Estas características estão rotuladas na imagem.

O gás quente com uma temperatura de cerca de dois 2 milhões K (3,6 milhões de graus Celsius), irradiando raios-X que são detectados pelo Chandra, está concentrado perto do centro de RCW 36, perto das duas estrelas mais quentes e massivas do enxame.

Estas estrelas são uma das principais fontes de gás quente. Uma grande quantidade do resto do gás quente encontra-se fora das cavidades, depois de ter vazado através das bordas das cavidades.

Os dados do SOFIA e do APEX mostram que o anel contém gás frio e denso (com temperaturas típicas de 15 a 25 K, ou -433º C a -415º C) e está a expandir-se a 3200-6400 km/h.

Os dados do SOFIA mostram que no perímetro de ambas as cavidades estão conchas de gás frio a expandir-se a 16.000 km/h, provavelmente sendo levadas para fora devido à pressão do gás quente observado com o Chandra.

O gás quente, mais a radiação das estrelas no enxame, também limpou cavidades ainda maiores em torno de RCW 36, formando uma estrutura em forma de boneca-russa. Estas características estão rotuladas numa imagem, pelo Herschel, cobrindo uma área maior, que também mostra o campo de visão do Chandra e as outras estruturas aqui descritas.

Os níveis de intensidade nessa imagem foram ajustados para mostrar as cavidades maiores tão claramente quanto possível, causando a saturação de grande parte das regiões interiores próximas das cavidades de RCW 36. Nessa imagem o norte está na vertical.

Os investigadores também vêm evidências, nos dados do SOFIA, de algum gás frio à volta do anel a ser ejectado de RCW 36 a velocidades ainda mais elevadas de cerca de 48.000 km/h, com o equivalente a 170 massas terrestres por ano a serem empurradas para fora.

As velocidades de expansão das diferentes estruturas aqui descritas, e o ritmo de ejecção de massa, mostram que a maior parte do gás frio dentro de cerca de três anos-luz do centro da região HII pode ser ejectado em 1 a 2 milhões de anos.

Isto irá limpar a matéria-prima necessária para formar estrelas, suprimindo o seu nascimento continuado na região. Os astrónomos chamam a este processo onde as estrelas podem regular-se a si próprias, “feedback estelar”. Resultados como este ajudam-nos a compreender o papel que o feedback estelar desempenha no processo de formação estelar.

Astronomia On-line
2 de Dezembro de 2022



 

1056: Passes e bilhetes da Carris Metropolitana sem aumentos em 2023 na região de Lisboa

– Seria excelente que o sr. Carlos Moedas não se “esquecesse” e agisse rapidamente no sentido de conceder GRATUITIDADE de passes aos DESEMPREGADOS DE LONGA DURAÇÃO que, já sem subsídios de qualquer espécie por parte da “Segurança” Social, têm de (sobre)viver à custa de familiares (enquanto estes puderem e/ou forem vivos!). Esta gratuitidade apenas foi concedida a >65 anos e a estudantes. Os DESEMPREGADOS não são seres humanos?

CARRIS  // TRANSPORTES PÚBLICOS // PASSES E BILHETES

Preços não mudam “mesmo tendo em conta que a Taxa de Actualização Tarifária permitida pela Autoridade de Mobilidade e Transportes para os títulos de transporte ocasionais (bilhetes) em 2023 é de 6,11%, e que essa mesma taxa irá ser aplicada, com grande probabilidade, na generalidade do país”, declarou a Área Metropolitana de Lisboa (AML)

© (Câmara Municipal da Moita)

Os passes do tarifário “Navegante” e os bilhetes ocasionais da Carris Metropolitana vão manter em 2023 os preços que são praticados este ano, anunciou esta sexta-feira a Área Metropolitana de Lisboa (AML).

Numa nota, a AML, que é autoridade de transporte, revela que tomou a decisão de manter os valores de 2022 dos títulos ocasionais da Carris Metropolitana para, entre outros objectivos, promover a utilização dos transportes públicos colectivos em toda a região.

Esta decisão acontece “mesmo tendo em conta que a Taxa de Actualização Tarifária permitida pela Autoridade de Mobilidade e Transportes para os títulos de transporte ocasionais (bilhetes) em 2023 é de 6,11%, e que essa mesma taxa irá ser aplicada, com grande probabilidade, na generalidade do país”, salientou a AML.

A Carris Metropolitana gere as redes municipais de 15 dos 18 municípios (uma vez que dentro dos concelhos do Barreiro, Cascais e Lisboa mantém-se tudo como está) e a totalidade da operação intermunicipal dos 18 concelhos metropolitanos.

A marca única Carris Metropolitana passa, em 01 de Janeiro de 2023, a assegurar o transporte de passageiros dentro de cada um dos concelhos de Amadora, Oeiras, Sintra, Loures, Mafra, Odivelas e Vila Franca de Xira, todos na margem norte do Tejo, onde deixam de operar as actuais empresas de transporte.

Desde 01 de Junho já é responsável pelo transporte de passageiros dentro dos municípios de Almada, Seixal, Sesimbra, Alcochete, Moita, Montijo, Palmela e Setúbal, na margem sul.

Na rede municipal do Barreiro, o transporte continua a ser feito pelo operador interno Transportes Colectivos do Barreiro (TCB), em Cascais pela Mobi Cascais e em Lisboa pela Carris.

Para quem se desloca de um concelho para outro (incluindo Barreiro, Cascais e Lisboa), o transporte público rodoviário intermunicipal será sempre feito pela Carris Metropolitana.

A operação na margem norte deveria ter sido iniciada em Setembro, mas os problemas verificados na margem sul fez com que fosse adiada para 01 de Janeiro.

Diário de Notícias
DN/Lusa
02 Dezembro 2022 — 18:38



 

1040: China. O estremecer do dragão

OPINIÃO

Em Dezembro, no mercado de Whuan, onde se comercializavam animais vivos, surgiu na China um vírus respiratório que se transformou numa pandemia mundial.

Durante meses as autoridades chinesas ocultaram ao mundo a existência desse vírus. Só a 20 de Janeiro de 2020 a OMS deu a conhecer a covid-19, tendo declarado o vírus como uma Emergência de Saúde Pública Internacional.

Desde o surgimento do vírus que as autoridades chinesas transformaram um assunto de Saúde Pública numa questão política. Sistematicamente, negaram o acesso a Whuan de instituições e autoridades de saúde mundiais.

Li Wenliang, o jovem médico que tudo fez para alertar as autoridades chinesas da existência do vírus foi silenciado e as suas advertências não foram escutadas.

Em vez de enfrentar o problema do Covid 19 numa perspectiva científica e de colaboração com os países ocidentais, a China escolheu o isolamento e “correu em pista própria”, tendo desenvolvido, com pouco sucesso, o seu próprio sistema de vacinação.

Assim, as vacinas de produção chinesas revelaram uma acentuada falta de qualidade, não tendo conseguido o objectivo de proteger a população, sobretudo os mais idosos.

Hoje a China está num beco sem saída, sem vacinas eficientes e sem uma efectiva imunidade de grupo, também por não possibilitar uma maior circulação das suas populações.

Ao invés de uma abordagem mais científica a China politizou a questão Covid 19, optando por uma prática de severa restrição de liberdade de movimento dos seus cidadãos, com manifesto resultado negativo para a sua economia e, por via dela, para a economia mundial.

A chamada política do covid-zero transformou-se, assim, na primeira grande derrota de Xi Jinping, que lhe pode trazer graves problemas na afirmação dos seus objectivos políticos, no curto e médio prazo.

A população chinesa, sobretudo das cidades mais populosas, como Xangai, Pequim, Guangzhou ou Chonqing, viu-se confrontada com a obrigatoriedade de permanecer nas suas residências por períodos que chegam a atingir os cem dias.

Em relação à covid-zero, a China está hoje a pagar o preço de uma política de saúde isolacionista, pouco transparente e de fraca cooperação internacional.

Temos, pois, como consequência o resultado dessa política baseada na repressão e na restrição da liberdade dos cidadãos.

Cidadãos fechados nas suas casas durante meses sem poderem sair, operários impedidos de abandonar as fábricas, interagindo com colegas que entretanto se infectaram. Prédios inteiros com apartamentos cujas famílias enfrentam sérias dificuldades para se deslocarem ao exterior e desenvolverem a sua habitual rotina quotidiana.

Desta maneira o inimaginável aconteceu. Em Xangai elementos populares criticaram o Partido Comunista chinês e Xi Jinping, exigindo a sua demissão. Estudantes da Universidade de Tsinghua, protestaram em Pequim contra a política covid-zero. Em Hong Kong voltaram a ouvir-se as vozes de protesto contra as autoridades centrais de Pequim.

Para resolver uma situação de revolta social, que parece ser grave, a China, como habitualmente, escolheu a via da repressão. Jornalistas estrangeiros detidos, prisão de cidadãos chineses, manipulação das redes sociais para esconder os protestos da população.

A política de Xi Jinping da covid-zero mostra que a China persiste no carácter isolacionista e repressivo das suas políticas. Numa matéria que é também de interesse mundial não se articula com os países que podem dar um assinalável contributo para a saúde da população chinesa.

Num país que tem uma densidade populacional de 1,4 mil milhões de seres humanos, não tentar todos os instrumentos ao dispor para resolver uma gravíssimo problema de Saúde Pública, é uma atitude criminosa e desumana.

O que da parte das autoridades chinesas não parece ser grande novidade.

Jornalista

Diário de Notícias
António Capinha
02 Dezembro 2022 — 06:30



 

1039: Colocar os pontos nos is

OPINIÃO

A reunião desta semana em Bucareste dos ministros dos Negócios Estrangeiros da NATO deu mais atenção à China que às opções possíveis em relação à Rússia de Vladimir Putin.

Ora, na minha opinião, Putin é a questão fundamental, a maior ameaça para a paz na Europa e a estabilidade mundial. Pode alterar, sem grandes demoras e de modo profundo, a ordem internacional tal como a praticamos há décadas.

A importância dada à questão chinesa voltou a mostrar quem marca a agenda da Aliança Atlântica. Para os EUA, a China é a inquietação principal. E quer fazê-la entrar nas prioridades da NATO, apesar de se tratar de um repto distante da razão de ser da organização.

A NATO global está fora das possibilidades dos países europeus e não deve ser vista como um objectivo. O fracasso da experiência no Afeganistão lembra-nos isso todos os dias. Para a Aliança como um todo, o que conta é a paz e a segurança na Europa. E é aí que existe, agora, um risco muito sério.

A relação entre os EUA e a China é uma matéria complexa, que combina rivalidades económicas com dimensões de segurança e preocupações de influência política. Economia, segurança e diplomacia são problemáticas inseparáveis.

A competição entre as grandes potências faz-se nessas três frentes. Assim sendo, Washington não quer aceitar a concorrência da China no Extremo Oriente ou num qualquer arquipélago perdido no Pacífico. Esse será um dos espaços geoestratégicos mais importantes nos próximos anos, para as duas super-potências.

Curiosamente, os EUA não ficam particularmente aflitos ao ver a China cada vez mais presente em África, no Irão ou no Paquistão, na Ásia Central, sem falar de Myanmar.

Os EUA são uma potência global, mas não têm a mesma escala de interesses em todas as partes do mundo. Nessa matéria, a China parece ter uma ambição mais abrangente. Mas também é um facto que a população chinesa é quatro vezes mais numerosa que a americana e isso é muita boca para alimentar e manter calada.

Para nós, europeus, a China é vista acima de tudo como um importante parceiro económico. Mesmo quando dizemos que é um “rival sistémico”, como agora é moda repetir.

Mas não se entende bem o que contém essa expressão, para além de significar que a China apoia regimes que nós consideramos autocráticos e controla matérias-primas que são essenciais para as indústrias do futuro.

Charles Michel, o presidente do Conselho Europeu, esteve ontem em Beijing com Xi Jinping. Foi, de ambos os lados, um gesto de cortesia. Isso é importante. Michel terá aproveitado o encontro para explicar a posição europeia sobre a Ucrânia e as sanções contra a Rússia bem como para partilhar o desejo de ver a China desempenhar um papel mais activo junto de Vladimir Putin. A mensagem de Michel terá sido positiva, restando saber como, quando e se Xi lhe dará seguimento.

Voltando à questão central do momento, sou dos que advogam uma posição muito clara em relação a Putin. Os ataques contra as infra-estruturas eléctricas, em pleno inverno, são crimes de guerra, que se acrescentam aos já praticados e à ilegalidade da agressão.

Por mais geradores e outra ajuda humanitária que chegue ao país, muitas dezenas ou mesmo centenas de milhares de ucranianos, sobretudo os de maior idade, irão morrer de frio.

Estes crimes e todos os outros ligados à agressão russa terão de ser trazidos à barra de um tribunal internacional constituído propositadamente para o efeito, como foram os casos do Ruanda ou da Jugoslávia. O próprio Putin deverá sentar-se no banco da frente, entre os acusados.

E é preciso que se diga isto claramente. Acreditar, como Jens Stoltenberg e outros, que a guerra acabará à mesa das negociações é diplomaticamente correto, mas no quadro actual praticamente impossível.

Não vejo a actual direcção russa pronta para se retirar dos territórios ocupados. Tem de ser expulsa ou convencida a sair. E para isso, a Ucrânia precisa de todo o apoio possível e da assistência de uma coligação de países aliados.

Não cabe à NATO organizar uma coligação dessas. Mas alguns dos seus Estados-membros devem começar a falar dessa possibilidade, fora do quadro da Aliança Atlântica.

E dar um prazo a Putin para que cesse as hostilidades. Esta agressão deve ser transformada numa oportunidade para definir uma nova arquitectura de segurança na Europa.

Conselheiro em segurança internacional.
Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

Diário de Notícias
Victor Ângelo
02 Dezembro 2022 — 06:07



 

1038: Há aqui uma coisa que já começa a ser desagradável

OPINIÃO

Sim, pareceria claro que não se pode, enquanto presidente de câmara, entregar 300 mil euros a um promotor imobiliário e ver o tempo passar, nada acontecer, nem pavilhão, nem casita, nem uma tenda, pelo menos, e nada fazer sobre o assunto, a não ser quando ele chega aos jornais.

Sim, pareceria também claro que dois secretários de Estado não podem vir em público menorizar o seu ministro e contrariar as suas intenções políticas, puxando para si e para os seus pés enregelados, neste tempo de começo de frio, essa manta, essa grande manta (de tecido, não das profundezas abissais), que se chama o nome do primeiro-ministro, para os confortar nessas pequenas canalhices que, toda a gente sabe – especialmente os secretários de Estado -, só se fazem em privado e nunca em público, a não ser quando se quer mandar a roupa de cama toda ao chão e recomeçar de novo, com o lençol de baixo bem esticado, a maçada de mudar a fronha e sempre a boa da manta por cima.

E sim, pareceria igualmente cristalino que o primeiro-ministro e o ministro das Obras Públicas deveriam ter sido mutuamente solidários e publicamente decentes na apresentação de uma decisão para um novo aeroporto em Portugal, privando os portugueses da sua novela acastelhanada, que em tempos só seria admitida entre homem e mulher, mas que, agora, felizmente, pode ser homoafetiva, mas que, infelizmente, apenas demonstrou que o primeiro-ministro, quando se engana, esgatanha tudo e todos para parecer que acerta, e que o ministro, quando acerta, esgatanha tudo e todos para parecer que se engana.

“(…) Agora que veio o frio e a chuva e o quase inverno, talvez a silly season possa acabar no espírito de quem por cá manda, até porque há aí uns detalhes, tipo guerra, inflação, empobrecimento, dificuldade em pagar contas e empréstimos, que, se calhar, merecem gente mais – como a conversa da moda gosta de chamar – focada.”

E pois, do mesmo modo, pode não ser imediatamente perceptível como uma Lei de Incompatibilidades de Titulares de Cargos Públicos, que foi alterada em 2019 por a anterior ser, afinal, pouco clara nas incompatibilidades que atirava ao lombo público dos titulares, continua em 2022, a ser pouco clara nas incompatibilidades que fixa, talvez sim, talvez não, venha a redução teleológica, o parecer da Procuradoria-Geral, a jurisprudência do Supremo Tribunal Administrativo e mais quem queira assumir o andor.

E, pois, num país normal uma ministra não deveria responder a uma confederação representativa do sector que tutela que, se se queixam, talvez devessem ter votado no mesmo partido de que a mesma ministra padece ou, pelo menos, não aconselhar a não votar no dito, o que me parece alto critério público para ser apresentado como justificação no contexto de uma discussão sobre atrasos de entregas de apoios a agricultores em virtude da seca – logo a seca e os agricultores, duas coisas absolutamente sazonais entre nós.

Enfim, agora que veio o frio e a chuva e o quase inverno, talvez a silly season possa acabar no espírito de quem por cá manda, até porque há aí uns detalhes, tipo guerra, inflação, empobrecimento, dificuldade em pagar contas e empréstimos, que, se calhar, merecem gente mais – como a conversa da moda gosta de chamar – focada. E não apenas focada em focarem-se uns aos outros.

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

Diário de Notícias
Miguel Romão
02 Dezembro 2022 — 06:12