80: Voyager, a mais longa missão da NASA, está a celebrar 45 anos

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Esta imagem de arquivo tirada no JPL da NASA a 23 de Março de 1977, mostra engenheiros a preparar a nave espacial Voyager 2 antes do seu lançamento mais tarde nesse ano.
Crédito: NASA/JPL-Caltech

As sondas gémeas Voyager da NASA tornaram-se, de certa forma, cápsulas do tempo: cada uma delas transporta um leitor de cartuchos de oito pistas para gravação de dados, têm cerca de 3 milhões de vezes menos memória que os telemóveis modernos e transmitem dados cerca de 38.000 vezes mais devagar do que uma ligação 5G.

No entanto, as Voyagers permanecem na vanguarda da exploração espacial. Geridas e operadas pelo JPL da NASA no sul do estado norte-americano da Califórnia, são as únicas sondas a explorar o espaço interestelar – o oceano galáctico através do qual o nosso Sol e os seus planetas viajam.

O Sol e os planetas residem na heliosfera, uma bolha protectora criada pelo campo magnético do Sol e pelo fluxo exterior do vento solar (partículas carregadas do Sol).

Os investigadores – alguns deles mais jovens do que as duas naves espaciais distantes – estão a combinar as observações da Voyager com dados de missões mais recentes para obter uma imagem mais completa do nosso Sol e de como a heliosfera interage com o espaço interestelar.

“A frota de missões heliofísicas fornece conhecimentos inestimáveis sobre o nosso Sol, desde a compreensão da coroa ou da parte mais exterior da atmosfera do Sol, até ao estudo dos impactos do Sol por todo o Sistema Solar, incluindo aqui na Terra, na nossa atmosfera e no espaço interestelar”, disse Nicola Fox, director da Divisão de Heliofísica na sede da NASA em Washington.

“Nos últimos 45 anos, as missões Voyager têm sido parte integrante no fornecimento deste conhecimento e têm ajudado a mudar a nossa compreensão do Sol e da sua influência de formas que nenhuma outra nave espacial pode”.

As Voyagers são também embaixadoras, cada uma transportando um disco dourado que contém imagens de vida na Terra, diagramas de princípios científicos básicos e áudio que inclui sons da natureza, saudações em várias línguas e música.

Os discos revestidos a ouro servem como uma “mensagem cósmica numa garrafa” para qualquer civilização que possa encontrar as sondas espaciais. Ao ritmo que o ouro decai no espaço e é corroído pela radiação cósmica, os discos durarão mais de mil milhões de anos.

Para lá das expectativas

A Voyager 2 foi lançada no dia 20 de Agosto de 1977, rapidamente seguida pela Voyager 1 no dia 5 de Setembro. Ambas as sondas viajaram até Júpiter e Saturno, com a Voyager 1 a mover-se mais depressa e a alcançá-los primeiro. Juntas, as sondas revelaram muito sobre os dois maiores planetas do Sistema Solar e suas luas.

A Voyager 2 também se tornou a primeira e única nave espacial a passar perto de Úrano (em 1986) e de Neptuno (em 1989), fornecendo à humanidade vistas notáveis destes mundos distantes – e mais informações sobre eles.

Enquanto a Voyager 2 realizava estes “flybys”, a Voyager 1 dirigia-se para a fronteira da heliosfera. Ao dela sair em 2012, a Voyager 1 descobriu que a heliosfera bloqueia 70% dos raios cósmicos, ou partículas energéticas criadas por estrelas em explosão.

A Voyager 2, após completar as suas explorações planetárias, continuou até à fronteira da heliosfera, saindo em 2018. Os dados combinados desta região, pelas sondas gémeas, desafiaram as teorias anteriores sobre a forma exacta da heliosfera.

“Hoje, à medida que ambas as Voyagers exploram o espaço interestelar, estão a fornecer à humanidade observações de um território desconhecido”, disse Linda Spilker, cientista adjunta do projecto Voyager no JPL.

“Esta é a primeira vez que conseguimos estudar directamente como uma estrela, o nosso Sol, interage com as partículas e campos magnéticos fora da nossa heliosfera, ajudando os cientistas a compreender a vizinhança local entre as estrelas, derrotando algumas das teorias sobre esta região e fornecendo informações chave para missões futuras”.

A longa viagem

Ao longo dos anos, a equipa Voyager habituou-se a superar os desafios que surgem com a operação de naves espaciais tão maduras, apelando por vezes à perícia de colegas reformados ou estudando documentos escritos há décadas atrás.

Cada Voyager é alimentada por um gerador termoeléctrico de radio-isótopos contendo plutónio, que emite calor que é convertido em electricidade. À medida que o plutónio decai, a produção de calor diminui e as Voyagers perdem electricidade.

Para compensar, a equipa desligou todos os sistemas não essenciais e alguns outrora considerados essenciais, incluindo aquecedores que protegem os instrumentos ainda em funcionamento contra as temperaturas geladas do espaço.

Todos os cinco instrumentos que tiveram os seus aquecedores desligados desde 2019 ainda estão a trabalhar, apesar de estarem bem abaixo das temperaturas mais baixas a que alguma vez foram testados.

Recentemente, a Voyager 1 começou a ter um problema que fez com que a informação sobre o estado de um dos seus sistemas a bordo se tornasse confusa. Apesar disso, o sistema e a nave espacial continuam a funcionar normalmente, sugerindo que o problema está na produção dos dados de estado, não no sistema em si.

A sonda continua a enviar observações científicas enquanto a equipa de engenharia tenta resolver o problema ou encontrar uma forma de o contornar.

“As Voyagers continuaram a fazer descobertas surpreendentes, inspirando uma nova geração de cientistas e engenheiros”, disse Suzanne Dodd, gestora do projecto Voyager no JPL.

“Não sabemos quanto tempo a missão vai ainda durar, mas podemos ter a certeza de que as naves espaciais vão proporcionar ainda mais surpresas científicas à medida que se afastam cada vez mais da Terra”.

Astronomia On-line
19 de Agosto de 2022