Entrevistámos uma portuguesa que vive no Catar. “Para comprar um cartão de telemóvel, o meu marido tem de estar comigo”

QATAR/DIREITOS/MULHERES

Como é ser mulher no Catar? A MAGG entrevistou uma portuguesa que, sob anonimato, conta como é o dia a dia no país que recebe o Mundial do Futebol, dos direitos aos deveres, passando pelas restrições à liberdade, até à ilusão que o dinheiro pode proporcionar.

Fotografia de banco de imagens, captada no Museu da Arte Islâmica em Doha, no Catar Unsplash / Eea Ikeda

“Viste a cerimónia de abertura do Mundial? Viste lá alguma mulher sentada na zona onde estava o emir? Não estava lá uma única mulher”. Paula (nome fictício) vive no Catar há oito anos.

O marido, José (nome fictício), que trabalha numa empresa estatal, está naquele país há 13. A portuguesa falou com a MAGG sobre como é ser mulher, estrangeira, não muçulmana, a viver naquele país do Médio Oriente.

Gianni Infantino, presidente da FIFA com o emir do Catar, Sheikh Tamim bin Hamad al-Thani, o príncipe herdeiro do trono e o primeiro ministro da Arábia Saudita durante o Equador – Catar. créditos: Harold Cunningham / FIFA

Concede a entrevista sob anonimato com receio de represálias. Antes de iniciarmos a conversa, feita através de uma aplicação de videoconferência, Paula liga a VPN do telemóvel, para que o seu IP (rótulo numérico atribuído a cada dispositivo conectado a uma rede de computadores) não esteja localizado no Catar.

Paula começa por utilizar uma expressão pouco abonatória para definir as duas portuguesas que, numa reportagem do “JN”, disseram que “ser mulher no Catar é melhor do que em Portugal”.

Mas já voltaremos a esse tema. Paula mudou-se para o Catar para se juntar ao marido. Tinha, desde o início, a ideia de arranjar trabalho, mas o processo para um estrangeiro, ainda para mais mulher, é “complicado”.

“Aqui, para trabalhares, ou vens com contrato fechado e tens um sponsor [patrocinador] porque, sem isso, não podes trabalhar”, explica.

No Catar (assim como no Bahrain, Kuwait, Oman, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Jordânia e Líbano) vigora o sistema da kafala. Kafala significa “garantia” em árabe. Um migrante, para poder trabalhar naquele país, precisa sempre de ser patrocinado por um cidadão ou empresa catari.

“O mesmo que acontece com os trabalhadores migrantes [da construção civil] acontece com qualquer pessoa. Para mudares de emprego tens de pedir autorização à tua entidade patronal. O teu sponsor é, basicamente, quem cuida de ti.

Até há bem pouco tempo, para sair do país, o meu marido tinha de pedir uma autorização à entidade patronal. Sem isso, ele chegava à alfândega e ficava retido no país. Que é o que acontece à maior parte dos emigrantes aqui. Ficas preso. Nada disso é um mito. Eles ficam-te com o passaporte”, conta Paula.

Embora, no início de 2022, o Catar tenha feito algumas reformas no sistema da kafala, abolindo a necessidade de autorização do patrocinador para o migrante abandonar o país, o sistema ainda cria desigualdades para os trabalhadores estrangeiros.

De acordo com o think tank norte-americano Council on Foreign Relations, este sistema “deixa os trabalhadores vulneráveis à exploração e nega-lhes direitos laborais como, por exemplo, iniciar uma acção judicial contra a entidade patronal ou fazer parte de um sindicato”.

“Além disso, e porque os vistos de trabalho e residência estão ligados e apenas os patrocinadores os podem renovar ou terminar, o sistema permite que cidadãos privados — e não o Estado — controlem o estatuto legal dos trabalhadores, criando um desequilíbrio de poder que propicia a exploração”, pode ler-se num relatório do Council on Foreign Relations.

Paula dá-nos o exemplo do porteiro do seu prédio, que “há meses que não tem folgas e trabalha 12 horas por dia”. Perguntamos-lhe se é catari. “Não. Os cataris aqui, ou não trabalham, ou têm grandes cargos de chefia em grandes empresas”.

O Catar tem uma população de 2,6 milhões. 313 mil são cataris e os restantes são expatriados. O que faz com que praticamente todos os trabalhos sejam feitos por estrangeiros. “E mesmo aí há castas. No atendimento ao público, nos restaurantes, lojas, a maioria são filipinos. São também amas e empregadas domésticas.

Tudo o que seja seguranças, são africanos, do Gana, do Uganda. Muito cá em baixo, no fundo da tabela, estão os trabalhadores da construção civil, que são nepaleses, bengalis. Mesmo entre os brancos há sectarização. [Primeiro] os americanos, canadianos, franceses, britânicos. Depois vai descendo na tabela”, conta.

“Na alfândega, a partir do momento em que dou entrada do passaporte, o meu marido recebe uma SMS”

Olhando para trás, Paula admite que não estava preparada para a realidade que encontrou. “O primeiro ano foi muito mau para mim. Quando cheguei já estava um calor descomunal.

De Maio a Setembro, não consegues fazer 300 metros na rua a pé. Mas o trabalho na rua nunca para. De construção civil aos condutores das empresas de delivery, eles estão debaixo de 40, 50 graus. Sempre.”

Para conseguir trabalhar no Catar, Paula viu-se perante um dilema. “Eu não queria estar presa a um sponsor, então a única solução era casarmos. O meu marido é o meu sponsor”.

Pedimos a Paula que nos explique o que é que, na prática, isso significa. “Para abrir uma conta no banco, tratar de assuntos em instituições públicas, comprar um cartão de telemóvel, ele tem de estar comigo. O meu número de telemóvel vai ficar para sempre associado ao meu passaporte.” 

Por não ser muçulmana (a religião está explícita nos passaportes no Catar), a portuguesa não precisa de autorização do marido para viajar. O mesmo não acontece com as mulheres que professam a religião islâmica, que precisam de “uma autorização por escrito” para sair do país.

“Eu não preciso dessa autorização mas, na alfândega, a partir do momento em que dou entrada do passaporte, o meu marido recebe uma sms. Ele não me pode impedir, mas tem conhecimento que eu saí do país. Se ele sair do país, eu não sei de nada.

Mas, sendo o meu sponsor, ele recebe, tal como a entidade patronal dele recebe”. A portuguesa explica que teve de tomar a decisão entre colocar a sua liberdade nas mãos de uma empresa ou nas do marido.

“No pior dos cenários, prefiro que seja o meu marido a ser o meu sponsor. Para nós, mulheres europeias, não direi que é humilhante, mas é quase como antes do 25 de Abril em Portugal. A vantagem que eu tenho é que ele não me pode impedir [de sair do país].”

O grupo de amigas de Paula é maioritariamente composto por mulheres muçulmanas, de outras nacionalidades que não a catari. A portuguesa explica que a forma como as amigas seguem os costumes varia muito, desde usarem o hijab até consumirem álcool e carne de porco. “Tenho uma amiga que não bebe álcool à frente do marido mas, quando sai connosco, faz isso tudo”.

Paula conta também que, para comprarem álcool e carne de porco, existem duas lojas específicas no Catar (uma das quais abriu há um mês), nas quais só os não muçulmanos podem entrar e com autorização do sponsor.

Apesar de ser um país muçulmano, a portuguesa explica que há uma divisão muito clara entre os cataris e os restantes cidadãos, mesmo os que seguem o Islão. “As mulheres usam véu e vestem-se de preto. Os cataris jogam numa liga completamente diferente da nossa.

Conheço muito poucas pessoas que se dão com cataris. Eles são muito reservados. Também temos de contextualizar e perceber que, há 50 anos, eles viviam como os beduínos no deserto. E, de repente, encontram jazidas de gás e petróleo e são o terceiro maior exportador de gás no mundo.”

Paula salienta também que, por causa da riqueza do país, a população local tem uma série de benefícios. “Os cataris aqui têm direitos que nós não temos. Não pagam água, luz e gás, têm uma mesada que os Estado lhes paga [mínimo 4.000 euros, de acordo com a Society for Human Resource Management].

Por isso é que há essa adoração pelo emir. Se perguntar em Portugal aos 15% que votaram no André Ventura, eles de certeza que iam achar isto o máximo. E eu acredito muito sinceramente que, se Portugal tivesse o dinheiro que eles têm aqui, a maior parte das pessoas muito rapidamente deixava as liberdades para terceiro, quarto plano.”

“Nunca falei mal do Catar nas minhas redes sociais porque sei que isso traz consequências”

Paula diz que nunca foi discriminada no Catar por ser mulher porque nunca se pôs “a jeito”. Queremos saber o que isso significa e a portuguesa dá exemplos práticos. “Não vou para lado nenhum com os ombros à mostra nem nunca andei a mostrar os meus joelhos. Tenho uma colega que, num centro comercial, foi barrada porque notava-se um bocado do joelho.”

Demonstrações de afecto entre homens e mulheres, roupa mais reveladora são proibidos em espaços públicos. A portuguesa explica que na zona residencial The Pearl, uma ilha artificial em Doha, exclusivamente habitada por expatriados, as regras são mais relaxadas. “Aquilo é uma bolha de expatriados, brancos. Os cataris não vivem ali.”

Questionamos Paula sobre a existência de pessoas LGBTQ no Catar e a resposta é irónica. “Não existem homossexuais no Catar. Isso é uma doença”. A portuguesa diz que fala sobre o tema com as amigas mas que isso, bem como temas relacionados com o Mundial de futebol, não ultrapassam as conversas pessoais.

Mesmo a propósito do Mundial, nunca falei mal do Catar nas minhas redes sociais porque sei que isso traz consequências. Isso é seguríssimo!”.

Num país tão rico, Paula explica que, para uma mulher expatriada, é fácil “alienar-se”. “Vives ali naquela bolhinha, passas a vida nos centros comerciais, metes uma ama em casa 24 horas por dia e pagas 200 euros por mês, porque é o salário mínimo aqui…”.

Tanto em Portugal como no Catar, nem Paula nem o marido escondem que são ateus e que apoiam os direitos da comunidade LGBTQ. “Não posso aceitar que, em pleno século XXI, continuem a achar que a homossexualidade é uma doença quando toda a gente sabe que aqui no Catar há homossexuais. E cataris! E consegues topá-los”.

Paula dá o exemplo de Nas Mohamed, um activista pelos direitos LGBTQ que teve de fugir do Catar. E explica que, no caso das mulheres, ao contrário das ocidentais, é muito difícil deixar a família para trás e começar uma vida do zero num país estrangeiro. “Esta é a realidade que elas conhecem.”

Relações amorosas e sexo fora do casamento são proibidos (e punidas por lei). Mas os homens podem casar até quatro vezes em simultâneo. Nos restaurantes existe uma secção para casais e famílias e outra para pessoas solteiras.

À excepção dos hotéis de cinco estrelas, onde o consumo de álcool é permitido, as mulheres muçulmanas não andam sozinhas (leia-se, sem a companhia de um homem).

“Esta é uma sociedade muito machista”, relembra Paula, alertando, contudo, que a educação muçulmana não é igual à ocidental. “Na cabeça das muçulmanas, o homem tem a obrigação de sustentar a mulher e o dinheiro que elas ganham é para elas comprarem as coisas delas.

E para muitas mulheres, principalmente estas expatriadas ocidentais que embarcam nesta cultura de ‘o meu marido tem que me bancar’. De facto, os salários dos homens ocidentais são muito altos, é muito fácil tu embarcares nesta loucura de passar o cartão.

Porque é possível. Nunca na vida me imaginei a entrar num hotel de cinco estrelas para ir jantar e agora faço-o com alguma frequência”, reconhece Paula, salientando que o faz sobretudo para poder beber “uns canecos com umas amigas”.

Compensa viver no Catar, apesar de tudo? “Sim, compensa. Para já, tens de ter objectivos traçados. Aqui não tens reforma, não fazes descontos para a segurança social.

Eu sei que, quando sair daqui, saio com o dinheiro que juntei”, explica Paula, salientando que a permanência de um estrangeiro no Catar é sempre temporária. “Tu és um convidado aqui. Quando eles quiserem, mandam-te embora”, alerta.

“Se esta é uma sociedade com que me identifico? Não é nem nunca será”, diz Paula. Questionamos se pretende continuar a viver naquele país. “Estamos numa idade em que estamos velhos para trabalhar em Portugal, mas demasiado novos para nos reformarmos. Enquanto na balança o positivo se sobrepuser ao negativo, vamos ficando”, relativiza.

Um dos temas mais falados, quer nos últimos meses, quer agora, que o Mundial já começou, é a violação dos direitos humanos dos migrantes que trabalharam na construção dos estádios, que resultou num número de mortes ainda por determinar.

Paula diz que “até 15 dias antes do Mundial começar, era 24 sobre 24 horas”. “O Catar é um estaleiro. Em todo o lado vês um prédio a ser construído, por pessoas que trabalham 24 sobre 24 horas”, conta Paula.

A portuguesa explica que os trabalhadores da construção civil vivem “fora de Doha”. “Eles vivem em contentores de três, quatro andares, que são basicamente casotas com camaratas e aqueles desgraçados vivem lá, longe da cidade.

Além de trabalharem 12 horas por dia, seis dias por semana, depois ainda têm essa deslocação, que lhes rouba ainda mais tempo”, conta Paula.  Como é que se quebra esse ciclo? Não se quebra. “Tanto o Catar como o Dubai são países onde há muito dinheiro. O dinheiro tem de circular.”

Paula reconhece que em Portugal também existe exploração de mão de obra migrante, como no caso dos trabalhadores da estufas em Odemira. “Mas aqui é chocante. É mais de um milhão de pessoas que vive assim. Não tem comparação possível. Mal ou bem, quero acreditar que o português ainda consegue ter coração e há solidariedade.

E isso não fica mascarado. Aqui, o objectivo é esconder. Tudo se esconde. Eles são muito parecidos connosco nesse aspecto, na questão do orgulho ferido. Imagino que, para o Catar, o que o Infantino fez ontem [sábado, 19 de Novembro, uma referência a este discurso do presidente da FIFA], foi por achas na fogueira!”.

“Eles sabem perfeitamente quantos caixões transportaram”

“Catar não respeita os direitos humanos. Mas, enfim, esqueçamos isto”, disse o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, após a partida particular de Portugal frente à Nigéria. A verdade é que a bola já rola no Catar e a Selecção Nacional foi recebida com entusiasmo.

Apesar de não ter uma relação muito próxima com a comunidade expatriada portuguesa, Paula afirma: “Eu e o meu marido somos dos poucos que não estamos a delirar com o futebol. A maioria é capaz de estar horas à espera do autocarro do Cristiano Ronaldo”, ironiza.

“Nunca me manifestei contra o Mundial pelos motivos óbvios, mas não consigo dissociar e é isso que me choca e deixa triste. Como é que as pessoas que vivem aqui, que testemunharam esta realidade todos os dias, como é que conseguem? Mas não só os portugueses!”.

Fan Festival, evento de abertura da fanzone do Mundial do Catar, no sábado, 19 de Novembro créditos: Patrick Smith / FIFA

Paula diz que vai acompanhar os jogos de Portugal, mas que não consegue esquecer o caminho percorrido até aqui. “Para mim, o Mundial está podre e carregadinho de sangue.

E ainda mais me deixa revoltada a maior parte dessas mulheres portuguesas [referindo à tal reportagem do “JN”], que está toda contente com o Mundial, e que o Catar é a última Coca Cola no deserto, é que os maridos delas são pilotos da Qatar Airways e eles sabem perfeitamente quantos caixões transportaram.

Isso é uma discussão que me fica muitas vezes entalada porque elas têm conhecimento disso”, diz, referindo-se às mortes de migrantes nas obras de preparação do Mundial. “As causas de morte são sempre naturais, o que eu acho engraçado, porque a média de idades dos trabalhadores da construção civil há-de ser 30 anos, ou menos”, salienta Paula.

De acordo com os dados oficiais das autoridades do Catar, entre 2011 e 2020 morreram 15.799 cidadãos estrangeiros naquele país. Não é possível determinar que mortes estiveram directamente relacionadas com o Mundial.

No entanto, o “The Guardian” avançou, numa investigação publicada em 2021 que, desde a atribuição do Mundial ao Catar, morreram 6500 trabalhadores migrantes.

MAGG
Raquel Costa
21 Nov 2022 15:24



 

821: O Mundial em que o negócio está acima dos direitos humanos

MUNDIAL/FUTEBOL/QATAR/DIREITOS HUMANOS

Uma década, muitas mortes e controvérsias, e mais de 200 mil milhões de euros depois, a prova mais polémica da história do futebol, arranca hoje no Qatar e termina a 18 de Dezembro.

O “Mundial da vergonha”, como tem sido insistentemente chamado, tem hoje início com o jogo de abertura entre o Qatar, o país anfitrião, e o Equador (16.00, RTP1).

Uma competição marcada por polémicas e uma enorme contestação devido a temas sensíveis, como as 6750 vidas perdidas na construção dos estádios, o desrespeito pelos direitos humanos, as perseguições à comunidade LGBTQI+ e a corrupção envolvida na escolha do país para organizar a prova, que será a última de dois dos melhores jogadores de sempre: Ronaldo e Messi.

Para chegar a Doha, o Mundial percorreu um longo e tortuoso caminho, por entre montanhas de dinheiro, símbolo da corrupção que fez cair a cúpula do futebol mundial, e vales de corpos sem vida de milhares de trabalhadores, num absoluto desprezo pelos direitos fundamentais e dignidade humana. Contra os críticos, o Qatar prometeu o melhor Campeonato do Mundo de Futebol de sempre.

Pretensão assente no maior investimento alguma vez feito num evento desportivo – a factura já passou dos 200 mil milhões de euros, nove vezes mais do que os 11 mil milhões gastos no Rússia2018.

Segundo várias organizações de direitos humanos, incluindo a Amnistia Internacional (AI), desde o início das obras (2010) até Outubro, morreram 6750 trabalhadores na construção dos estádios. Todos oriundos da Índia, Bangladesh, Nepal e Sri Lanka.

A FIFA e o Qatar admitem apenas três (!) mortes nas obras e mais 36 trabalhadores que perderam a vida devido a causas naturais. Como no país não há autópsias, é impossível saber ao certo o número de vítimas.

Mas, confiando nas embaixadas dos países de origem, cerca de um quarto dos 30 mil operários (com salários de 264 euros) não chegou a ver o início do Mundial que ajudou a construir.

O que levou a AI a pedir aos organizadores 433 milhões de euros para o fundo de apoio às famílias das vítimas e aos sobreviventes. Um pedido recusado, apesar do organismo estimar lucros de três mil milhões.

As tímidas e esporádicas intervenções públicas de jogadores, treinadores e federações, também envergonham o mundo do futebol, tantas vezes elogiado pelo humanismo e carácter solidário.

Jogadores como Bruno Fernandes e Mats Hummel lembraram que o torneio “custou a vida a milhares de pessoas”, e, pelo menos, oito capitães, incluindo os da Alemanha, Dinamarca e Inglaterra, prometeram usar braçadeiras arco-íris em homenagem à oprimida comunidade LGBTI+.

Para evitar o escalar de protestos nos relvados, a FIFA endereçou uma carta a pedir às selecções que “não deixem que o futebol seja arrastado para batalhas políticas e ideológicas”, lembrando que “respeita todas as opiniões e crenças, sem pretender dar lições de moral ao resto do mundo”.

Na realidade, a FIFA e o Qatar andaram sempre de mãos dadas. Ainda ontem, Gianni Infantino, líder do organismo que rege o futebol mundial, acusou os europeus de hipocrisia na questão dos migrantes que morreram na construção dos estádios.

“Não quero dar nenhuma lição de vida, mas o que está a acontecer aqui é profundamente injusto. Pelo que nós, europeus, temos feito nos últimos 3000 anos, devemos desculpar-nos nos próximos 3000 anos antes de começar a dar lições de moral às pessoas que são apenas hipocrisia”, atirou.

Entre os líderes mundiais, quase todos levantaram a voz em defesa dos direitos humanos, mas foram muito poucos os que que boicotaram a competição – as poucas excepções foram a família real e o governo da Dinamarca.

Blatter: o porta voz do “erro”

Em 2010, a atribuição da organização do maior evento desportivo a seguir aos Jogos Olímpicos a um país do tamanho de Trás os Montes, com menos de três milhões de habitantes (72% homens) e sem tradição futebolística causou perplexidade.

O cheque em branco convenceu a FIFA, mas saiu caro à cúpula do futebol mundial, com o então presidente da FIFA, Joseph Blatter, e o então líder da UEFA, Michel Platini, destituídos e acusados de corrupção em tribunal.

O francês terá retirado o apoio à candidatura dos EUA e influenciado os membros do Comité a votarem no Qatar, depois de um encontro no Eliseu promovido pelo então presidente Sarkozy com o príncipe e actual emir do Qatar, Tamim bin Hamad bin Khalifa Al Thani, que prometeu reforçar os investimentos em França, incluindo a aquisição do PSG (o que aconteceu em 2011).

O Qatar venceu os EUA (14 votos contra 8) e Platini não demorou a ser perseguido pela justiça suíça, com o apoio do FBI, por crimes fiscais dos quais foi absolvido.

Blatter também foi acusado de corrupção e absolvido, embora condenado por irregularidades financeiras durante o mandato como presidente da FIFA. Ele que em 2010 justificou a escolha do Qatar com a aposta em “novos territórios”, há dias admitiu ter sido “um erro”.

Não só pela questão dos direitos humanos, como pelos constrangimentos na calendarização, por ser jogado no inverno e a meio da época na Europa, que fornece 70% dos 831 jogadores. Em Portugal, a I Liga só será retomada a 28 de Dezembro.

O primeiro Mundial num país do Médio Oriente obrigou ainda a adiar a pretensão do novo presidente da FIFA, Gianni Infantino, de aumentar de 32 para 48 as selecções na fase final, por falta de estádios para o alargamento – oito em vez dos habituais 12.

Estádios faraónicos, topo de gama, climatizados, reutilizáveis e alguns com apenas um mês de vida, como o inovador Estádio 974, que receberá o Portugal-Gana, no dia 24, construído com 974 contentores.

Mundial amigo do ambiente?

Independente desde 1971, o Qatar é um símbolo de ostentação entre os biliões do petróleo, a grandiosidade e a modernidade, sem esquecer os arcaísmos islâmicos que o fazem regredir aos olhos do mundo quando negam direitos às mulheres ou criminalizam as opções sexuais.

Um relatório da ONU descreveu o país como “quase uma sociedade de castas baseada na nacionalidade”, onde o emir controla os poderes executivo, legislativo e judicial.

O dinheiro nunca foi um problema, mas o bolso dos adeptos promete sofrer com isso. Um bilhete pode custar até 800 euros (ver a final pode chegar 2225) e uma cerveja 15 euros, e tem de ser consumida em locais próprios para não ir contra as regras do país (foi proibida a venda nos estádios e zonas circundantes), que é o terceiro mais rico do Mundo, graças ao ouro negro (petróleo) e à maior reserva de gás natural do mundo, que o torna num dos maiores emissores de gases com efeito de estufa.

Apesar disso, os organizadores atestam um Mundial amigo do ambiente e o primeiro de sempre a atingir a neutralidade carbónica, embora um relatório do Carbon Market Watch conclua que se trata de uma “contabilidade criativa”.

Certo é que Doha nunca teve tanta vida nas ruas, mesmo sem a beleza feminina despida de preconceitos que fez das bancadas de outros Mundiais um espectáculo dentro do próprio jogo.

Agora, será o Mundo capaz de assistir ao futebol sem pensar em conjunturas geopolíticas, fundamentalismos religiosos e opressão de mulheres e migrantes?

Perante tanta discórdia e polémica, só mesmo o futebol dentro das quatro linhas poderá salvar esta competição. Portugal “não é favorito, mas é candidato”, nas palavras de Fernando Santos.

E os principais candidatos são os suspeitos do costume: Brasil, Argentina, Alemanha e a campeã França. Até à final de dia 18, haverá muito futebol todos os dias. Mas a cruzada pelos direitos humanos não vai parar certamente.

isaura.almeida@dn.pt

Diário de Notícias
Isaura Almeida
20 Novembro 2022 — 00:48



 

799: A “sinistra viagem” de Marcelo e Costa ao Qatar. “Tenham vergonha!”

– “… Vão “pagos por quem? Por contribuintes, quando estamos em crise económica, com inflação e guerra? Ora tomem juízo! Decência, decoro e frugalidade exigem-se!”“. Eu respondo: vão pagos pelos tótós dos contribuintes, especialmente aqueles de baixos recursos financeiros mas de altas taxas de impostos! Não lhes sai da algibeira deles! Viajam, comem e bebem por esse mundo fora à pala dos impostos cobrados e esbulhados aos contribuintes! Alguma dúvida?

SINISTRA VIAGEM/QATAR/FUTEBOL

Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa admitem ir ao Qatar durante o Mundial 2022, alegando que vão apoiar a Selecção e defender os direitos humanos. E recebem uma onda de críticas a lembrar os gastos do Estado em tempos de crise e sendo acusados de estar a legitimar uma “monarquia arcaica e repressiva”.

Tiago Petinga / Lusa

Nas vésperas da abertura do Mundial 2022, há uma chuva de críticas quanto à organização do torneio no Qatar, um país onde a homossexualidade é crime e onde os direitos das mulheres não estão consagrados, além de ser acusado de violar os direitos humanos, nomeadamente no caso de trabalhadores imigrantes.

Em Portugal, o tema é a possível ida de Marcelo Rebelo de Sousa, de António Costa e também do presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, ao país, um tema que tem sido muito discutido na praça pública e que vai ser votado pelo Parlamento na próxima segunda-feira.

Nas redes sociais, há muito quem proteste contra essa possibilidade, incluindo a socialista Ana Gomes que questiona “a que título” o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República, o primeiro-ministro, qual “gato e periquito”, vão ao Qatar “em representação do Estado, esquecendo Direitos Humanos”.

Vão “pagos por quem? Por contribuintes, quando estamos em crise económica, com inflação e guerra? Ora tomem juízo! Decência, decoro e frugalidade exigem-se!”, escreve Ana Gomes no seu perfil no Twitter.

Mais adiante, Ana Gomes acrescenta que “apoiar a Selecção Nacional de futebol ou de caça a gambuzinos não é tarefa que se exija a primeiro-ministro ou Presidente da República”. “Pelo contrário, deviam era combater promiscuidade entre futebol, negócios e política“, acrescenta, frisando que só se entende que se esqueçam da “corrupção e calquem direitos humanos” por um “despudorado populismo”.

Pelo meio destas mensagens, Ana Gomes também partilha a publicação de um utilizador do Twitter que lembra que Marcelo alega que vai ao Qatar defender os direitos humanos, mas que “nunca foi a Odemira, nos últimos três anos, para fazer valer a voz de imigrantes que são vítimas de patrões selvagens e de redes mafiosas acolhidas de bolsos aberto pelo regime”.

A economista Susana Peralta fala, por seu turno, da “sinistra viagem das três mais altas figuras do Estado” português ao Qatar numa crónica no Público, onde defende que a ida àquele país “legitima a lavagem desta monarquia arcaica e repressiva, em nosso nome”.

Susana Peralta nota ainda que subscreve “a carta dirigida às três figuras cimeiras do Estado pelo presidente e pelo vice-presidente da Frente Cívica, Paulo de Morais e João Paulo Batalha, na qual lhes apelam para que não se desloquem ao Qatar“.

Os autores desta carta consideram “imorais e ilegítimos quaisquer gestos de legitimação, e até de celebração” da “barbárie civilizacional” que é o Qatar 22.

A economista nota ainda que Marcelo, Costa e Santos Silva “não são uns adeptos quaisquer”. “Se não têm eles vergonha, pensem na nossa e fiquem em casa“, aconselha.

Marcelo diz que vai ao Qatar defender os direitos humanos

Na passada quinta-feira, Marcelo assumiu que “o Qatar não respeita os direitos humanos”, mas recomendou “esqueçamos isto”, frisando que pretende assistir ao Portugal-Gana naquele país, na estreia da Selecção no Mundial 2022 a 24 de Novembro.

Essas declarações causaram muita polémica e o Presidente da República veio, entretanto, justificar que estava “nervoso” com o futebol.

As declarações de Marcelo deixaram o director executivo da Amnistia Internacional (AMI) Portugal, Pedro Neto, “estupefacto”. Pedro Neto também desafiou o Presidente da República a não ir ao Qatar.

Ora, Marcelo já disse que se o Parlamento aprovar, vai assistir ao jogo da Selecção naquele país, reforçando que é sócio da AMI e que não tem visto “muitos chefes de Estado a serem tão veementes e tão claros na condenação do que se passa em termos de direitos humanos no Qatar”.

O Presidente da República também reforça que quando um chefe de Estado visita países com um regime não democrático, fá-lo “pelo interesse nacional”, caso contrário “não se poderia visitar três quartos do mundo”, nem receber ou ter relações com esses países, porque são “ditaduras”.

Marcelo defende ainda que uma das razões para ir ao Qatar são “os direitos humanos em termos de liberdades das pessoas” e dos “trabalhadores que trabalharam na construção dos estádios e cuja situação é dramática”.

“Apoiamos a Selecção no Qatar, em França, na China, na Rússia”

O primeiro-ministro nota também que os responsáveis políticos portugueses estarão no Mundial 2022 a apoiar a Selecção Nacional e não a violação dos direitos humanos ou a discriminação das mulheres no Qatar.

“O Campeonato do Mundo é onde é. Todos temos uma posição sobre o que é o Qatar”, mas “quando formos lá não vamos seguramente apoiar o regime do Qatar, a violação dos direitos humanos e a discriminação das mulheres no Qatar”, realça António Costa.

“Quando formos lá, vamos apoiar a Selecção Nacional, a Selecção de todos os portugueses, a Selecção que veste a bandeira”, sublinha o primeiro-ministro.

Apoiamos no Qatar, em França, na Índia, na China, na Rússia. Apoiamos onde a Selecção estiver. É a nossa Selecção. E nós estamos sempre com a nossa Selecção, porque a Selecção veste a nossa bandeira”, constata ainda António Costa.

Susana Valente, ZAP // Lusa
19 Novembro, 2022