902: Uma Catarse este Marcelo!

– Catarse: libertação de sentimentos ou emoções reprimidas, que conduz a uma sensação de alívio ou pacificação.

OPINIÃO

O próximo episódio do actual reality show líder de audiências em Portugal, em tudo dependerá da panache do Presidente (PR) Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa por terras do Islão.

Por lá, as snobeiras só são permitidas aos locais, a quem tem pergaminhos e o PR, se for bem-aconselhado, terá alguém a dizer-lhe ao ouvido, “olhe que apesar da lengalenga do ecumenismo, a sua condição lá, aos olhos deles, é a de Kafir! Não se esqueça disso, se faz favor.” O episódio gravado na zona da flash interview, logo após a vitória sobre a Nigéria por 4-0, fez o jogador-Presidente cair na sua própria armadilha.

Visivelmente “adrenalizado” pela exibição da equipa nacional, disse trá-lá-lá sobre direitos humanos, concentrou-se na equipa e na táctica da unidade colectiva e do consenso geral, confirmou que fisicamente estão em muito boa forma e que é preciso beber muita água, no ambiente que já encontraram no Catar.

Assumidamente o jogador preferido dos portugueses, porque também é aquele que procura incessantemente e encontra sempre as melhores contracenas, o jogador-Presidente foi novamente protagonista de um “PPPlay” gravado dentro de uma faculdade com muitas câmaras, microfones e pessoas com muitas dúvidas e disse: “Eu é que tive a ideia!”

As palavras deste jogador, cuja tertúlia nacional já admite que sofre de verborreia, tiveram o efeito diplomático esperado, já que no Catar quem não se sente, também não é filho de boa gente! Em resposta o governo do Catar chamou o Embaixador português no Emirado, para esclarecer as palavras, as motivações e as intenções do líder das audiências nacionais, o jogador que carrega o programa às costas.

Diversos especialistas chegam mesmo a dizer “sem este jogador, não há programa”, o que traduzido por especialistas em especialistas, se deve descodificar enquanto “sem este jogador, não há Portugal”!

Não temos imagens da convocatória para o nosso Embaixador se apresentar na porta 10-A do Palácio do nababo-Ministro, uma falha da produção que apenas confirma que há jogadores que são mais beneficiados que outros. Um clássico em todos os reality shows!

No último episódio, em tom de partida, o jogador-Presidente foi peremptório, irrevogável e disse: “Eu vou lá e vou lá falar também!” Esta mudança de casa, ultimamente muito debatida no Parlamento, é daqueles não-assuntos cuja passagem pelo processo e crivo constitucional, dá sempre muito palco a outros jogadores.

Porquê? Porque é daqueles “temas baunilha”, cujo debate pode ser usado para se dizer tudo, sem consequências para ninguém. Já estava garantido na cabeça do público que o seu jogador favorito iria ao Catar e o público é soberano!

O público, no fundo, gosta de se sentir representado e não compreenderia não ver o seu jogador favorito sentado na tribuna de honra, ladeado por homens de vestido comprido branco imaculado e uma túnica na cabeça. É que a beleza e a mais valia deste programa é fazer o espectador sentir-se parte da acção, sentir-se envolvido e jogador também.

Apesar de todas as polémicas na “casa do PP”, de Portugal, a verdade é que o algodão não engana e há já duas gerações que o público tem provas claras, há imagens, há registos e a verdade é que temos jogador e não concordo com os comentadores que dizem que é possível separar o jogador do Presidente.

Não senhor, são uma e a mesma pessoa e é por isso é que tem a capacidade de nos fazer sentir representados numa única figura. Porque é que acham que todos têm medo de ir a votos com ele?

Politólogo/arabista www.maghreb-machrek.pt (em reparação)
Escreve de acordo com a antiga ortografia

Diário de Notícias
Raul M. Braga Pires
25 Novembro 2022 — 06:10



 

Vou “Catar-vos” uma, duas, estórias

OPINIÃO

Catar 2022, esse “pronome verbal”, menos mal que “Chéquia”, lembra-me um particular mal-entendido entre um Embaixador e um funcionário de Embaixada, linguista e muito cioso do que é correcto. Foi esse mesmo funcionário que me informou que já poderia escrever dossiê sem aspas em vez de “dossier”, o que registei de imediato.

Também registei este “feito-diverso” que me relatou de um seu dia de trabalho em que tinha que dar seguimento a um ofício ou outro documento oficial, com destino ao Qatar, tendo o funcionário-linguista escrito Catar a rematar o destinatário.

O Embaixador não ignorou tal facto no exame final ao despacho, chamou o funcionário e diminui-o com um “como é possível confundir um nome com um verbo?” O funcionário insistiu que agora era assim (há 10 anos), que agora haviam regras novas.

O Embaixador não quis acreditar, tendo dito que mesmo que seja verdade, não colará em Portugal, porque é um verbo que implica piolhos! Assim se vê a força do futebol, de Chéquia a Catar!

O Irão, que sempre dissemos/ouvimos Irão, do verbo ir, nunca nos fez confusão e até nos sugere o exótico de todos os “kafiristões” que para lá estão! Irão em Portugal, Irã no Brasil. Chamar Irão ao Irã também é motivo de gozo no Brasil, já dizer Irã na Guiné-Bissau é fazer referência a uma religião e não a um país. Das idiossincrasias que desmentem o “todos diferentes, todos iguais”!

Quanto ao Catar 2022, fico contente por perceber que os estrangeiros, que são aqueles que falam estrangeiro, andam a menos de um mês do pontapé de saída a lamentarem-se pelo erro crasso que foi aceitarem organizar este Mundial no Catar. Até parecem portugueses estes estrangeiros! Alavancado nos petrodólares compraram tudo e os comprados não sabiam que quem paga manda? Parecem mesmo portugueses!

Em termos de grande política, este Mundial vai-se ficar pelas pequenas polémicas da mini-saia a caminho do estádio, do bêbado que começa a acompanhar aos gritos o chamamento para a oração, do mesmo bêbado apanhado a urinar na esquina, do fotógrafo que apontou a câmara para a esposa errada, quando só queria enquadrar o spoiler do aileron da biatura no strander do centro comercial e outros feitos diversos do género cultural. O que tenho visto nas reportagens televisivas tem sido demasia de avisos sobre “o respeito da nossa cultura”, quase de dedo em riste para a camera.

Ora para o Catar país, para o Médio Oriente e para o Islão em toda a sua extensão planetária, a grande política que poderá sair deste evento, em tudo depende da gestão destes comportamentos “a contra-cultura”, inconsequentes e fruto do culto do individual.

Contra-cultura sem aspas implicaria uma consciência política e politizada. Uma consciência e a malta que lá vai para ver a bola, fá-lo para se embebedar, se exibir e por vezes confrontar. É da gestão deste confronto que se fará a prova dos nove. Esta gestão também inclui o tratamento dado aos detidos.

O que se passar à porta fechada, dará sinais sobre o que as autoridades, A Cultura, para ser literal, estará preparada para alavancar a partir de 19 de Dezembro e marcar a agenda de um potencial Novo Médio Oriente no esboço da Nova Ordem Mundial.

Quanto à nossa selecção, acho que nem Irão Catar sonhos a Doha, começando pelo patético de equipas que nos calhou no grupo, que nos faz de favoritos, terminando no existencialismo de Cristiano Ronaldo, que de momento só me trás à memória uma cabeçada de Zidane a Materazzi na final do Mundial 2006.

Os psicólogos analisaram aquilo na altura como uma forma simbólica do cabeceador, em fim de carreira, destruir tudo o que tinha construído até aí. Um fim de ciclo, obrigaria a um último acto dramático num grande palco. Daquilo que nos conheço, acrescento que ser português é não ser capaz de lidar com a pressão de se ser favorito, ou o(s) melhor(es) do mundo!

Politólogo/arabista www.maghreb-machrek.pt

Escreve de acordo com a antiga ortografia

Diário de Notícias
Raúl M. Braga Pires
18 Novembro 2022 — 00:27



 

“Islamizar” a Democracia!

OPINIÃO

Há muito que penso sobre isto, sobre a imposição de um modelo político estanque concebido fora e imposto dentro. Ainda no contexto do Curso de Estudos Africanos que hoje termina no Instituto Universitário Militar, a Professora Edalina Rodrigues Sanches, do ISCTE-IUL, referiu, na sua comunicação da passada terça-feira, a necessidade de “africanizar a democracia”, a partir da sugestão do cada vez mais respeitado economista-diplomata bissau-guineense Carlos Lopes.

Foi nesse momento que “me caiu esta ficha” que me permite voltar à Tunísia, por exemplo, para tentar explicar, de novo, porque é que o recente processo de transição constitucional neste país magrebino entra na normalidade islâmica, mas também na anormalidade ocidental e, por isso mesmo, foi alvo de críticas, bem como se projectou no Presidente (PR) Kais Saied um novo Ben Ali.

A saber, os regimes democráticos definem-se pelo voto universal e secreto para homens e mulheres no acto da escolha política e, posteriormente, já no exercício do poder pelo(s) eleito(s), na separação de poderes. De forma resumida e até simplista, o PR não pode interferir na acção dos governos, nem dos tribunais e vice-versa.

Quanto ao ponto do universal, é tradição nestes países rotulados de árabes os polícias e os militares não poderem votar nas eleições, mas poderem fazê-lo nos referendos, tendo como premissa que por certo aprovarão a pergunta e/ou o projecto proposto pelo topo da pirâmide do poder.

Ora isto já nos faz “torcer o nariz”, do Cabo da Roca à Lapónia, dos Açores à Roménia, já que democracia é para militares e civis, polícias e ladrões, com todas as garantias de voto seguro.

Mas o mais curioso ainda, é que se falarmos com as populações destes países do “arco islâmico”, da Mauritânia à Indonésia, o que ouvimos, regra geral, é um “acho muito bem, já viu que assim não há o risco de um polícia me pegar pelo braço e me obrigar a votar no que ele quer!”

Isto também nos remete para um conceito muito divergente do nosso sobre o papel e os poderes das polícias e dos militares. Em Portugal, apesar de termos crescido com o “não comes a sopa chamo o polícia”, sempre soubemos que era a brincar.

Aquilo que para nós é visto como a manifestação de práticas dignas de um ditador, para quem toma a decisão de interferir é uma honra, no sentido em que está a cumprir um “sunnat”.

Saltando para a separação de poderes, ou melhor, para o que realmente foi uma ingerência do PR da Tunísia no Executivo, Legislativo e Judicial desde 25 de Julho de 2021 até 25 de Julho de 2022, dia que referendou a nova Constituição que, por sua vez, reforçou os poderes presidenciais.

Kais Saied interferiu? Sim, mas porquê? Porque a grande referência para os muçulmanos é Maomé, o Profeta do Islão e este, para unificar a Península Arábica e para fazer do Islão aquilo que ele é hoje, também teve de interferir junto das partes desavindas (tribos, clãs, regiões), procurando o impossível, a consensualidade.

Naturalmente noutro tempo, noutro modelo, por outros meios, mas o que ficou foi o exemplo que se tornou tradição, o chamado cumprimento do “sunnat” (de onde deriva o termo sunita e que se resume a fazer e dizer o que o Profeta fez e disse, da mesma maneira que o fez e o disse).

Em resumo, aquilo que para nós é visto como a manifestação de práticas dignas de um ditador, para quem toma a decisão de interferir é uma honra, no sentido em que está a cumprir um “sunnat“, a seguir os passos do seu líder de sempre, um quase sexto pilar do Islão!

Não sei como se islamiza a democracia, sei que não há interesse em ir-se por aí, mas também sei que a democracia enquanto adquirida do Ocidente é sempre vista a Sul enquanto elemento neocolonizador e que, como tal, deverá estar aberta à adaptação, à “africanização” proposta por Carlos Lopes e à “islamização” proposta por mim, sem saber como se faz!

Politólogo/arabista
www.maghreb-machrek.pt
Escreve de acordo com a antiga ortografia

Diário de Notícias
Raul M. Braga Pires
30 Setembro 2022 — 00:17