418: Os russos

OPINIÃO

A Rússia tem tudo – ou tinha, já veremos – para ser uma grande nação do século XXI. Teria de livrar-se dos tiques autocráticos, identificar e resolver os problemas da economia, confiar na sociedade civil e nos cidadãos, atender à crise demográfica.

Mas a Rússia não é o único com estas questões, nem elas são impossíveis de enfrentar – querendo, é claro. Esta devia ser (já há algum tempo, aliás) a agenda do poder russo para o século XXI, em vez da loucura senil de partir em guerra contra a Ucrânia e mais de meio mundo.

A Federação Russa, libertada por Gorbachev da sopa ideológica soviética, tinha todas as condições para emergir como grande país, mundialmente admirado. É uma nação milenar. Estende-se até ao Pacífico, pela vastidão euro-asiática, onde brilham cidades históricas como Vladimir, Novgorod, Moscovo, São Petersburgo.

Teve grandes monarcas como Pedro I, o Grande, Catarina II, Alexandre I (que venceu Napoleão). A literatura tem nomes como Pushkin, Gogol, Dostoievski, Tolstoi, Tchekhov, Anna Akhmatova.

O poeta Boris Pasternak tornou-se mundialmente famoso com uma novela, banida pela URSS: Doutor Jivago. Daria um filme soberbo, romântico, de banda sonora memorável – ganhou cinco Óscares e cinco Globos de Ouro. Pasternak foi distinguido com o Nobel da Literatura. Quatro outros escritores russos também: Bunin, Sholokhov, Solzhenitsyn, Brodsky.

A arquitectura tem edifícios e monumentos notáveis e são sem conta os seus pintores de renome: Argunov, Borovikovsky, Ivanov, Shishkin, Kandinsky, Marc Chagall, tantos outros.

Na música, brilham compositores extraordinários – Tchaikovsky, Rimsky-Korsakov, Rachmaninoff, Stravinsky, Prokofiev, Shostakovich – e intérpretes de excepção: Oistrakh, Rostropovich, Richter. São mestres no bailado, com Pavlova, Nijinsky, Plisetskaya, Nureyev e Baryshnikov. E quem não se curva diante dos espectáculos do Bolshoi e do Mariinski?

São inúmeros os seus vultos na ciência, como Lomonosov, Pavlov, Sakharov. Os russos têm, ainda, vasta e antiga história de inovação, em todos os domínios, desde os mais sofisticados ou científicos aos prosaicos e comuns, como as montanhas-russas (onde tanto nos divertimos), os bifes strogonoff, as bonecas Matrioska, o extintor de espuma, a balalaica. E há a história e tradição da Igreja Ortodoxa, a dos judeus e a dos cossacos, com o sopro das estepes.

Tudo isto – e muito mais – faz parte da história e cultura europeias e, em rigor, do mundo. Chegados à era da aldeia global, só um poder completamente demente, decrépito e tresloucado escolhe trocar tudo isto por um paiol de munições e um arsenal de mísseis, bombas e ameaças nucleares.

Só um poder cego e abrutalhado troca o encanto, a admiração e a influência do soft power por acicatar o ódio sanguinário e cavar a fractura cruel.

A Rússia também tem grandes desportistas. Para citar apenas alguns exemplos, Sharapova e Marat Safin, no ténis; no futebol, o lendário Lev Yashin (único guarda-redes do mundo a ganhar a Bola de Ouro) e Arshavin; Karpov e Kasparov, no xadrez.

A violência traiçoeira que Putin faz desabar sobre a Ucrânia desencadeou espontânea resposta do mundo do desporto, banindo a participação russa em provas internacionais e no quadro Olímpico: do futebol ao hóquei no gelo, do basquetebol ao ténis, da canoagem ao andebol, da natação à ginástica, etc.

Uma metáfora do isolamento a que Putin, Medvedev, Lavrov e tutti quanti conduzem o país. De modo invulgar, a cidadania do desporto ditou uma palavra clara contra a brutalidade e a infâmia das ordens de Putin. Não! O desporto aponta o caminho à comunidade política internacional. Um safanão para despertar.

A agressão da Rússia sobre a Ucrânia, que vive dias e horas dramáticos, é inteiramente contra-natura, pois realmente são irmãs. A Rússia engrandece-se se respeitar o mais pequeno. E também se destrói, se o quiser esmagar.

Por cada dia que passa desta guerra, a imagem e a memória que vamos guardando dos russos não são as delícias literárias no Anna Karénina“, de Tolstoi, mas o pântano dos horrores no arraso de Mariupol; não é a maravilha coral de O Canto da Floresta, de Shostakovich, mas os gemidos e gritos enterrados nas valas comuns em Bucha e Izium; não é a majestade admirável dos templos ortodoxos ou dos grandes monumentos, mas a demolição, à bomba, de escolas, hospitais, teatros, bairros, infra-estruturas civis, para infundir o terror. E estou a dizer pouco: seja do imenso legado cultural desperdiçado, seja deste presente enormemente detestável.

Os russos têm de respeitar a história, a arte, a cultura, a religião e a identidade dos ucranianos. Não se salvarão se o não fizerem. Serão tanto maiores, quanto mais o fizerem.

Os russos têm de beber da inspiração da sua história e dos seus escritores e artistas, não da intoxicação pela mentira e pela cicuta que jorram do Kremlin. Têm de libertar o Kremlin e livrar-se a si próprios da maldição de Putin.

Quando se foca os olhos apenas no passado na ilusão de o refazer, é certo repetir os seus horrores, não é nada certo reeditar as grandezas. O mundo, hoje, não está para conquistas; quer paz e entendimentos.

Como é possível sentar-se no Conselho de Segurança das Nações Unidas um poder que usa como instrumento da política externa e de defesa uma coisa que dá pelo nome de “Grupo Wagner”? Não é um poder decente. É a sua própria caricatura.

Advogado e ex-líder do CDS.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

Diário de Notícias
Ribeiro e Castro
12 Outubro 2022 — 00:35



 

267: A moção Lavrov

OPINIÃO

Considero fraca, no plano da opinião pública e do debate político, a acção ocidental face à brutalidade da agressão do Kremlin sobre a Ucrânia e ao extremo perigo para a paz na Europa e no mundo. A resposta no apoio político e militar foi muito positiva, acima até do que poderia esperar-se.

Mas, passada a excitação inicial, o discurso político arrefeceu e não se substanciou no esforço incessante de exposição da ilegitimidade da agressão, de listagem exaustiva das atrocidades cometidas, de manutenção de um nível elevado de condenação pela opinião pública, de alargamento do repúdio internacional.

O discurso político e a parte visível da acção diplomática como que entraram numa normalidade indolente, sem verve e chama, nem ousadia e arrojo.

Esta guerra tem coincidido com um namoro irresponsável com o poder nuclear: ameaças ocasionais de escalada, proferidas por Putin e outras vozes do Kremlin; acções militares nas centrais nucleares de Chernobyl e Zaporíjia; o bloqueio pela Rússia, em 27 de Agosto, do acordo final na 10.ª conferência do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, acordo aceite pelos restantes 191 signatários; e anúncio, há dias, de a Coreia de Kim Jong-un, grande amigo de Putin, ter aprovado a lei que autoriza ataques nucleares automáticos.

Estes factos estouvados enaltecem o gesto notável da Ucrânia, que, três anos após aceder à independência, renunciou à totalidade do arsenal nuclear que possuía, por herança da União Soviética. Era o terceiro maior do mundo. Parte foi desmantelada, parte foi transferida para a Rússia, conforme os acordos celebrados.

O pilar destes acordos é o Memorando de Budapeste, assinado em 5 de Dezembro de 1994, entre Ucrânia, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos. O Memorando comprometia estas três potências a “respeitarem a independência e soberania e as fronteiras existentes da Ucrânia” e a não “ameaçarem, nem usarem a força contra a integridade territorial ou independência política da Ucrânia”.

Os quatro líderes (Kuchma, Yeltsin, Major e Clinton) declararam-se “empenhados em continuar o processo de construção política, segurança militar e económica numa Europa indivisa” e “confirmaram que os compromissos da OSCE na área de Direitos Humanos, economia e segurança representam a pedra angular do espaço de segurança comum europeu e ajudam a garantir que os países e povos neste espaço não sejam submetidos à ameaça de força militar”.

Este espírito, luminoso e promissor, era servido pelo parágrafo 4.º do Memorando de Budapeste, em que Rússia, Reino Unido e EUA “reafirmam o seu compromisso de procurar uma acção imediata do Conselho de Segurança das Nações Unidas para prestar assistência à Ucrânia”, se esta fosse vítima de agressão.

O Conselho de Segurança é, nos termos da Carta das Nações Unidas (artigo 24.º, n.º 1), o órgão a que está conferida “a principal responsabilidade na manutenção da paz e da segurança internacionais”.

Reino Unido e Estados Unidos bem podiam apresentar uma moção (ou outra proposta adequada) ao Conselho de Segurança para apreciar a invasão da Ucrânia e os perigos nucleares envolvidos, à luz dos compromissos do Memorando e do direito das Nações Unidas e da OSCE. Os dois países podiam também convidar a Federação Russa a associar-se à moção, tal como se associou ao Memorando de Budapeste.

Poderia chamar-se Moção Lavrov, em homenagem ao Representante Permanente da Federação Russa em Nova Iorque que, em conjunto com os outros três embaixadores, assinou a comunicação formal às Nações Unidas, em 7 de Dezembro de 1994, do Memorando e da Declaração Conjunta dos líderes nacionais.

Dessas quatro testemunhas qualificadas, duas já morreram: o ucraniano Anatoliy Zlenko e, falecida um mês após esta guerra começar, a americana Madeleine Albright. O terceiro, o britânico David Hannay, provavelmente apreciaria esta Moção, mais ainda se Sergey Lavrov estivesse à altura dela e da sua assinatura de 1994.

Seria muito interessante ver a diplomacia e a política movimentarem-se em torno deste eixo, o eixo certo.

Advogado e ex-líder do CDS.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

Diário de Notícias
Ribeiro e Castro
14 Setembro 2022 — 00:07