757: Pais em privação do sono há anos

OPINIÃO

Muitos pais não dormem uma noite seguida há meses (ou mesmo anos) devido aos problemas de sono dos seus filhos. Falamos hoje das insónias e dos despertares nocturnos que têm um forte impacto negativo, quer na criança (com maior irritabilidade, birras, diminuição da atenção e concentração), quer na família (diminuição do tempo total de sono, com aumento de sonolência no dia seguinte, humor negativo e diminuição da capacidade de concentração no trabalho).

Estes problemas do sono são muito frequentes em crianças e, na maior parte das vezes, são ultrapassados sem que seja necessário uma intervenção especializada. No entanto, importa estar atento a alguns sinais de alerta que podem sugerir que a criança (e a família) esteja a precisar de ajuda.

Por exemplo, quando adormecer, se revela um processo complexo que requer condições especiais e, na ausência destas, o padrão de sono é adiado de forma significativa ou interrompido de forma disfuncional. Ainda, quando os despertares nocturnos requerem a intervenção do cuidador para que a criança volte a adormecer.

Os padrões de sono das crianças são muito diversos, pelo que não podemos dizer que existe um padrão que todas devem apresentar. Assim, é importante que os pais procurem adaptar-se ao temperamento do bebé, acalmando-o adequadamente quando este se mostra mais agitado.

De uma forma geral, sugere-se envolver a parte de baixo do seu corpo, dar-lhe um objecto de consolo, embalar e cantar (num tom de voz calmo e monocórdico), pegar ao colo, fazê-lo escutar um som contínuo e familiar (emitido pelos pais ou por um brinquedo) e manter um ambiente tranquilo (evitar brincadeiras muito excitantes quando se aproxima a hora de dormir).

Na maior parte das situações, os problemas de sono das crianças ultrapassam-se com a implementação regular e consistente de hábitos correctos.”

Igualmente importante é ensinar o bebé a readormecer sozinho, sem depender do adulto. Quando já apresenta um desenvolvimento que lhe permite dormir a maior parte da noite, o bebé tem de aprender a reorganizar-se depois de um ciclo de sono leve e despertar. Assim, o bebé deve ser capaz de acordar do sono leve, choramingar, remexer-se um pouco na cama e voltar a dormir calmamente.

Os pais que correm para o bebé cada vez que este se remexe, o tiram da cama, embalam ou dão comida, estão a ensinar-lhe que fazem parte da sua rotina para se confortar. É necessário que os pais se mantenham firmes, não cedendo face ao primeiro sinal de que a criança pode estar a acordar.

Assim, e por forma a evitar a chamada insónia comportamental (devido a hábitos incorrectos), deve ser definido um horário de sono regular e adequado à idade da criança (que deve manter-se sete noites por semana), bem como rotinas consistentes de ir para a cama – avise-a previamente que se aproxima a hora de dormir e implemente uma rotina com uma actividade relaxante. Os rituais de deitar transmitem segurança e previsibilidade e podem associar-se ao objecto de conforto.

A meio da noite, quando a criança despertar, ajude-a a encontrar esse objecto e fale-lhe docemente, para que saiba que está perto, mas não a retire da cama.

Na maior parte das situações, os problemas de sono das crianças ultrapassam-se com a implementação regular e consistente de hábitos correctos o que, não raras vezes, se afigura um desafio para os pais que, cansados e desejosos de dormir, acabam por ceder e esquecer os limites.

Lembremo-nos que, quanto mais cedo estes hábitos forem corrigidos, mais depressa a criança aprende a dormir sozinha. Em casa, todos agradecem.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

Diário de Notícias
Rute Agulhas
17 Novembro 2022 — 00:15



 

641: O que ajuda a aumentar o desejo sexual?

OPINIÃO

O desejo é a expressão da nossa individualidade, das nossas preferências, fantasias e imaginação. Assim, o desejo sexual permite manter a surpresa, o mistério e o erotismo numa relação.

Mas, com o tempo, muitas relações amorosas entram na rotina e surge alguma monotonia, tantas vezes inimiga do desejo sexual, que pode esbater-se ou mesmo desaparecer. O que fazer para que a chama do desejo se mantenha acesa?

Embora não existam receitas mágicas para aumentar o desejo erótico, sabemos que este tende a crescer perante o desconhecido, a novidade e a imprevisibilidade.

Falamos de ingredientes que apimentam a relação e ajudam a quebrar a rotina, na medida em que introduzem a surpresa e o inesperado. Por isso, é tão importante arriscar e surpreender o outro, explorando o relacionamento sexual de novas formas.

Também o mistério e a imaginação potenciam o desejo sexual. Os animais têm sexo, é verdade, mas os seres humanos são os únicos que têm uma vida erótica, aumentada pela imaginação. Aqui, falamos do importante papel das fantasias sexuais, que permitem sonhar e explorar novas sensações e actividades.

As fantasias sexuais possibilitam ainda assumir papéis diferentes em contextos muitas vezes impossíveis e podem funcionar como um estímulo sexual, aumentando a vontade em ter actividade sexual e a excitação durante a sua prática.

“O sexo não é algo que se faz, é um lugar a que se vai (…) é uma linguagem, não é apenas um comportamento.” Pois bem, façamos as malas e aprendamos essa linguagem para viajarmos até esse lugar!

E não, as fantasias sexuais não nos tornam promíscuos nem são necessariamente um sinal de que o relacionamento actual não é sentido como gratificante, até porque alguns estudos indicam que a maior parte das pessoas tem fantasias sexuais que envolvem os parceiros.

E devem os parceiros partilhar entre si as suas fantasias sexuais? Se ambos se sentirem confortáveis com essa partilha e conseguirem comunicar de forma saudável, sem críticas ou juízos de valor, claro que sim.

E quem sabe até, realizar algumas dessas fantasias, de forma mais ou menos realista ou encenada, o que poderá fortalecer a relação e a intimidade no casal.

Não esquecendo, naturalmente, o respeito por si e pelo parceiro, pelo que devem também partilhar os seus limites e aquilo que sentem de forma genuína. Sem tabus.

Como diz a psicoterapeuta Esther Perel, “o sexo não é algo que se faz, é um lugar a que se vai (…) é uma linguagem, não é apenas um comportamento”. Pois bem, façamos as malas e aprendamos essa linguagem para viajarmos até esse lugar!

Psicóloga clínica e forense terapeuta familiar e de casal

Diário de Notícias
Rute Agulhas
10 Novembro 2022 — 00:17



 

560: Celebrar os mortos é celebrar a vida

OPINIÃO

Com o início do mês de Novembro vemos os cemitérios aperaltarem-se de flores, homenagem que por muitos é feita a quem já partiu. Em passo de procissão, as pessoas vagueiam pelas ruas estreitas, ladeadas pelas campas e jazigos, recordando memórias tantas vezes molhadas pelas lágrimas da saudade.

E se muitos dedicam este dia específico para celebrar quem já partiu, tantos outros escolhem outras formas de o fazer. À sua maneira, recusando-se a ficar reféns de um dia marcado no calendário.

Independentemente das crenças de cada um, culturais ou religiosas, a perda de alguém querido reveste-se sempre de muita dor e sofrimento. A tristeza mistura-se com a revolta e com a raiva, surge a culpa, a incompreensão e só algum tempo mais tarde a serenidade da aceitação.

Falamos dos processos de luto, necessariamente muito próprios em cada pessoa, e que podem ser facilitados com a expressão emocional, a partilha e a entreajuda.

Mas não apenas de flores nas campas e de lágrimas têm de ser as celebrações de alguém que já morreu. Porque, afinal de contas, celebrar os mortos é não mais do que celebrar a vida e recordar aqueles que já estiveram fisicamente entre nós, e que permanecem, agora, de uma outra forma.

Para os mais novos, a participação nestes rituais acaba também por ter um efeito muito positivo, aprendendo que todas as emoções são válidas e que devem ser expressas sem receios.

Por isso, muitas pessoas escolhem celebrar os entes queridos que já morreram realizando actividades que antes faziam em conjunto. Seja um passeio num dado local que activa memórias positivas, seja cozinhando a comida favorita de quem já partiu ou ouvindo uma música especial, por exemplo.

Acaba por ser uma forma de trazer (ainda mais) para perto a pessoa que morreu. De a honrar e celebrar com a vida, de a sentir através das imagens, dos odores, dos sons ou dos sabores. E, ao mesmo tempo, de valorizar quem está ali ao lado, como que dizendo em surdina “tu importas”, “gosto de ti”, “quero-te perto”.

Para os mais novos, a participação nestes rituais acaba também por ter um efeito muito positivo, aprendendo que todas as emoções são válidas e que devem ser expressas sem receios.

Que podem sentir tristeza e saudades, a par de alegria e contentamento por fazerem algo que os aproxima mais ainda de quem já morreu. No fundo, os mais novos aprendem que celebrar os mortos, seja de que forma for, é não mais do que celebrar a vida.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

Diário de Notícias
Rute Agulhas
03 Novembro 2022 — 06:18



 

489: Superar um desgosto de amor

OPINIÃO

Quem nunca teve um desgosto de amor? O amor nem sempre é para a vida toda e, em muitas situações, é mesmo apenas “até que o tempo nos separe”. Falamos hoje da perda de uma relação afectiva importante e de algumas estratégias para melhor superar um desgosto de amor.

Com o fim de uma relação com alguém significativo, é natural que sejam activadas emoções mais desagradáveis. Pode sentir-se tristeza, angústia, medo, raiva ou uma sensação de vazio e abandono, por exemplo. Não existe um padrão de resposta universal e cada pessoa experiencia a sua perda de uma forma muito própria.

Aqui, importa salientar que não existem emoções boas ou más, sendo certo que todas elas podem revelar-se adaptativas e ajudar a gerir uma perda. Por isso, permita-se sentir as suas emoções, aceitando-as.

Expressar as emoções de uma forma ajustada é também fundamental neste processo de elaboração da perda. Deve falar-se sobre o que se sente com alguém de confiança e contrariar pensamentos como “não quero incomodar” ou “os outros não vão entender a minha dor”.

Ao colocar por palavras aquilo que pensa e sente estará a (re)construir uma narrativa sobre essa vivência, à qual pode aprender a dar outro significado com a ajuda de quem o escuta.

Escrever sobre aquilo que se sente também poderá ser uma óptima opção. A escrita terapêutica (ou journaling) é uma forma de terapia expressiva, em que se usa a palavra escrita como meio para processar e elaborar o que se viveu, resultando em benefícios terapêuticos.

A escrita terapêutica envolve processos cognitivos e emocionais, o que significa que a pessoa é ajudada a reflectir e a expressar o que sente e pensa, traduzindo para palavras as suas vivências presentes ou passadas.

Ao escrever, a pessoa expressa os seus pensamentos e emoções, encontrando uma oportunidade para aumentar o seu auto-conhecimento e desenvolvimento pessoal.

Da mesma forma que é importante encontrar espaços de reflexão e partilha, cuidar de si mesmo e mimar-se assume aqui um papel preponderante. Lembre-se dos três pilares do bem-estar psicológico – o sono, a alimentação e o exercício físico – e de como estes devem manter-se equilibrados para uma maior sensação de bem-estar.

Em paralelo, o isolamento social deve ser contrariado, pelo que conviver com pessoas de quem se gosta em contextos gratificantes e de lazer é algo que deve ser priorizado.

Em isolamento e sem estímulos mais distratores, é expectável que os pensamentos negativos surjam com maior frequência e intensidade, podendo mesmo tornar-se ruminantes.

Pensamentos estes que, não raras vezes, surgem totalmente armadilhados… por exemplo, “eu mereço isto”, “a culpa é toda minha/toda do outro”, “nunca serei feliz com alguém”, “ninguém gosta de mim”, “eu não valho nada”… armadilhas que levam a uma leitura distorcida da realidade e que, naturalmente, potenciam emoções mais desagradáveis e comportamentos mais desadequados. Com a ajuda de alguém, se necessário for, importa desconstruir e disputar esta forma de pensar.

Por fim, as redes sociais… depois de um corte relacional, seguir a outra pessoa através das redes sociais para saber o que faz, onde e com quem, revela-se uma estratégia contraproducente. Não ajuda em nada, em boa verdade. Liberte-se dessas amarras.

Os desgostos de amor fazem parte da vida e, tal como acontece com outras situações de crise, podem representar um risco acrescido de desorganização ou patologia ou, pelo contrário, uma oportunidade de aprendizagem e crescimento pessoal. Tudo depende das estratégias que adoptamos para lidar com eles.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

Diário de Notícias
Rute Agulhas
27 Outubro 2022 — 00:40



 

422: Casais que não têm sexo

OPINIÃO

Muitos casais não têm relações sexuais ou têm-nas com uma frequência muito baixa. E se, para alguns deles, isto representa um problema, outros sentem-se bem a viver desta forma.

A sexualidade é um aspecto central do ser humano ao longo da vida e relaciona-se com o sexo, identidades e papéis de género, orientação sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodução.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a sexualidade é vivida e expressa através de pensamentos, fantasias, desejos, crenças, atitudes, valores, comportamentos, práticas, papéis e relacionamentos.

Embora a sexualidade possa incluir todas estas dimensões, nem sempre estas são vividas ou expressas, tendo em conta a influência de factores biológicos, psicológicos, sociais, económicos, políticos, culturais, jurídicos, históricos, religiosos e espirituais.

Significa isto, antes de mais, que a sexualidade é muito mais do que sexo, envolvendo outros ingredientes tão importantes como o amor, o contacto, a ternura e a intimidade.

Uma sexualidade gratificante vai muito para além do desempenho sexual e implica também conseguir aceder ao seu mundo emocional e ao mundo emocional do outro.

Quando se vive a sexualidade com o foco exclusivo no desempenho, quase como uma obrigação, assiste-se a uma perda de sensualidade e de intimidade.

Manter uma vida sexual satisfatória revela-se um desafio para muitos casais, tantas vezes pressionados pelas expectativas, preconceitos e tabus, ao mesmo tempo que sentem o corpo mudar com o tempo e o acumular das preocupações. Neste contexto, é fácil perder-se algum espaço na intimidade do casal, em prol de outras prioridades, como os filhos, a casa ou o trabalho.

“Uma sexualidade gratificante vai muito para além do desempenho sexual e implica também conseguir aceder ao seu mundo emocional e ao mundo emocional do outro. Quando se vive a sexualidade com o foco exclusivo no desempenho, quase como uma obrigação, assiste-se a uma perda de sensualidade e de intimidade.”

Existem, assim, diversos factores ou situações que podem contribuir para uma diminuição do desejo e da actividade sexual, como sejam os problemas de saúde (física ou psicológica), o stresse, os efeitos secundários de medicação ou algum tipo de disfunção sexual.

Da mesma forma, a vivência de situações de crise negativas, as relações conflituosas, a fadiga, a indisponibilidade emocional e a monotonia sexual podem contribuir para esta diminuição do desejo e actividade sexual.

Não obstante a identificação destes factores, existem casais que se sentem bem “convivendo como irmãos”, como dizia alguém. Pois bem, não ter sexo não tem de ser, necessariamente, um problema, desde que seja compreendido e aceite por ambos os elementos do casal. Caso contrário, revela-se, sim, um problema.

Neste caso, importa identificar o que poderá estar a contribuir para uma diminuição da satisfação sexual e o que pode ser feito no sentido de reverter a situação, sendo certo que a procura de ajuda especializada pode revelar-se um caminho muito importante para muitos casais.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

Diário de Notícias
Rute Agulhas
13 Outubro 2022 — 00:35



 

375: Pais em stress

OPINIÃO

Ser pai ou mãe é um desafio enorme que permite experienciar emoções agradáveis e desagradáveis ao mesmo tempo. Por um lado, os pais sentem alegria, entusiasmo, amor, orgulho e tantas outras coisas boas e, por outro, ansiedade, culpa, medo, solidão…

Falamos hoje dos desafios da parentalidade e do stress parental ou, em algumas situações limite, do burnout parental.

Não se nasce a saber ser-se pai ou mãe, nem tão pouco as crianças trazem um livro de instruções. A parentalidade é um processo dinâmico e interactivo que se constrói na relação entre pais e filhos, influenciado por variáveis dos pais (p. ex., história de vida, recursos psicológicos, dinâmicas conjugais), da criança (p. ex., temperamento, comportamento) e do meio envolvente (p. ex., rede de apoio social).

Significa isto que a capacidade para exercer a parentalidade de uma forma ajustada e sensível, satisfazendo todas as necessidades da criança, não é algo tão linear como poderia pensar-se.

Depende de múltiplas variáveis que se influenciam mutuamente e que, ao longo do tempo e em diferentes fases do ciclo de vida familiar, podem ter um impacto diferente no funcionamento parental.

Neste processo de construção da parentalidade, os pais vivenciam frequentemente diversas situações indutoras de stress, como a pobreza ou a instabilidade profissional, os conflitos familiares ou o divórcio, as situações de doença ou a morte de um ente querido. Situações que exigem um conjunto de recursos que nem sempre os pais conseguem activar.

Adicionalmente, temos as expectativas e a pressão social, que empurram os pais para a procura de algo que simplesmente não existe: o mito dos pais perfeitos.

Reféns desta ideia e vivendo a um ritmo de vida alucinante, com um excesso de solicitações e, tantas vezes, sem qualquer equilíbrio entre a vida familiar e profissional, os pais questionam-se e colocam-se em causa. Será que estou a ser um bom pai ou uma boa mãe? Será que posso ser ainda melhor? Em que estou a falhar?

Depois, assiste-se a um verdadeiro excesso de informação, com orientações e sugestões de familiares, pediatras, psicólogos e afins, nem sempre coerentes entre si. Afinal de contas, porque é que os outros pais conseguem e eu não consigo? O que devo fazer?

E surgem os sentimentos de culpa.

Neste contexto, muitos pais sentem-se preocupados, ansiosos, tristes e sós. Distantes do ponto de vista emocional, desejam fugir, embora não saibam muito bem para onde, nem como.

Em situações limite, pode mesmo surgir o chamado burnout parental, caracterizado por uma exaustão intensa, física e mental, e um embotamento das emoções. Recorrendo a uma metáfora, é como se a vela se apagasse.

Para prevenir estas situações, os pais devem, antes de mais, apostar no seu auto-cuidado, relaxar e priorizar o prazer e o lazer, ao mesmo tempo que devem tentar equilibrar o tempo dedicado aos diferentes papéis que desempenham.

Significa, muitas vezes, dizer “não” às inúmeras solicitações que recebem e, acima de tudo, desconstruir a crença de que devem ser perfeitos.

Porque os pais não se querem perfeitos. Nada disso. Querem-se (parafraseando o psicanalista Winnicott) suficientemente bons.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

Diário de Notícias
Rute Agulhas
29 Setembro 2022 — 00:15



 

37: Por que é que as crianças não devem andar nuas em locais públicos?

OPINIÃO

Está calor e as crianças estão de férias, o que equivale a falar em piscina, praia e afins. Espaços públicos onde, muito frequentemente, nos deparamos com crianças nuas ou semi-nuas. Hoje reflectimos sobre a exposição do corpo das crianças e porque esta deverá ser evitada.

Importa salientar que é essencial que as crianças estabeleçam uma relação saudável com o seu corpo e se sintam bem na sua pele, sendo a aparência física uma dimensão muito importante da sua auto-estima. Assim, os riscos de que falaremos em seguida não devem ser confundidos com necessidade de esconder o corpo, por vergonha ou embaraço, mas sim com necessidade de protecção.

As crianças devem ser familiarizadas com os conceitos de partes privadas ou partes íntimas que, dito de uma forma muito simples (que até uma criança mais pequena compreende), são as partes do corpo que tapamos com a roupa interior. Falamos, naturalmente, dos órgãos genitais e do rabo e, nas raparigas, das mamas.

E por que é tão importante que as crianças aprendam desde cedo este conceito de partes privadas?

Porque estas partes do corpo não devem ser expostas ou tocadas de qualquer forma, por qualquer pessoa ou em qualquer contexto. A partir dos três anos de idade, as crianças conseguem já identificar as partes privadas do seu corpo e distinguir os diferentes tipos de toque, que associam a diferentes emoções, e devem desde logo ser ensinadas a reconhecer potenciais situações de risco ou perigo e a pedir ajuda a um adulto de confiança.

É muito fácil pegar num telemóvel e fotografar ou filmar uma criança que brinca descontraída à beira mar. E o que acontece depois a essas imagens?

Ou seja, devemos ensinar as crianças a proteger as suas partes privadas em determinados contextos, não as expondo de qualquer forma ou perante qualquer pessoa. Devemos transmitir-lhes a ideia de que apenas algumas pessoas podem ver ou tocar as suas partes privadas, nomeadamente, num contexto de saúde (p. ex., uma ida ao médico) ou de higiene (p. ex., o banho).

Assim, se despirmos as crianças na praia ou na piscina, deixando-as brincar livremente sob o olhar de tantas pessoas que não integram o seu círculo de confiança, estamos exactamente a contrariar aquela que deverá ser a mensagem principal: “O corpo é meu e deve ser protegido”.

Para muitas pessoas, esta é uma preocupação que parece estranha, tendo em conta que o corpo das crianças, pré-púbere, não deve ser relacionado com qualquer tipo de excitação sexual. No entanto, sabemos que assim não é. Para muitos agressores (homens e mulheres), a excitação sexual advém exactamente do facto de ser um corpo pueril, sem caracteres sexuais secundários.

E por isso, em locais públicos, existe um risco acrescido, não apenas de a criança ser alvo de olhares ou comentários desadequados, mas ainda de poder haver lugar à captação da sua imagem. É muito fácil pegar num telemóvel e fotografar ou filmar uma criança que brinca descontraída à beira mar. E o que acontece depois a essas imagens? Por quem são visualizadas? São partilhadas no mundo digital? Com que fins? Não sabemos.

Não se pretende, de forma alguma, diabolizar o corpo ou a nudez, mas tão-somente ajudar as crianças a crescer com a noção de que o corpo lhes pertence e é o seu maior tesouro. E aqui fica uma lengalenga que as crianças podem aprender:

“É tão bom aprender coisas que nos podem proteger!
O meu corpo é só meu e cada um tem o seu!
Só lhe pode tocar quem eu quiser!
Se alguém abusar, a uma pessoa amiga tenho de contar!
Pedir ajuda é importante e faz-me sentir confiante.
E devo dizer que não, sempre que sentir uma aflição.”
*

*In Alexandre, J., Agulhas, R., & Lopes, C. (2017). Picos e Avelã à descoberta da floresta do tesouro. Lisboa: Ideias com História.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

Diário de Notícias
Rute Agulhas
11 Agosto 2022 — 00:07