835: A fronteira quebrada no rio Bug

🇺🇦 SLAVA UKRAYINI 🇺🇦

POLÓNIA/SOLIDARIEDADE/UCRÂNIA

O afluxo de refugiados ucranianos à Polónia é um êxodo sem precedentes na história da Europa. A sua escala e a resposta maciça da sociedade polaca, que nove meses depois da invasão russa da Ucrânia acolhe mais de três milhões de ucranianos, apanhou todos de surpresa.

Se forem incluídas as pessoas da anterior onda de emigração da Ucrânia, que teve início em 2014 com a guerra no Donbas, vivem hoje na Polónia cerca de 3-3,5 milhões de ucranianos.
© Wojtek RADWANSKI / AFP

Alguns dias antes da guerra na Ucrânia, com a situação instável na fronteira Polónia-Bielorrússia forçada por imigrantes trazidos pelo regime de Minsk de vários países do mundo, ressoava na opinião pública polaca o debate sobre a capacidade de a Polónia aceitar refugiados. Os peritos no fenómeno das migrações enganaram-se.

Numa entrevista publicada pelo semanário Krytyka Liberalna, a 22 de Fevereiro, o professor Maciej Duszczyk, do Centro de Estudos sobre Migração da Universidade de Varsóvia, questionado se a Polónia seria capaz de receber um milhão de refugiados da Ucrânia, disse: “Definitivamente não.

O exemplo mais simples: vejamos o que aconteceu na Alemanha em 2015 e 2016, quando cerca de um milhão de refugiados acabou de chegar ao país. Os Estados alemães não conseguiram lidar com tal afluência de pessoas. A sociedade civil tinha de ser envolvida. E isto num país duas vezes maior que o nosso, com uma Administração muito mais eficiente e uma forte autoridade local descentralizada.”

No texto publicado apenas horas antes da invasão russa, Duszczyk previa que, no caso de uma vaga de refugiados, a Polónia poderia acolher entre 100 mil e 150 mil. Sublinhava que viveriam “em condições dramaticamente más”. A vida desenhou um cenário diferente.

70% dos polacos ajudam

De acordo com as autoridades polacas, entre 24 de Fevereiro e 11 de Novembro chegaram à Polónia 7,7 milhões de vítimas da invasão russa. Durante o mesmo período, 5,8 milhões de pessoas seguiram em direcção oposta.

O governo de Mateusz Morawiecki estima que desta onda de refugiados estejam actualmente a viver na Polónia cerca de 1,9 milhões de ucranianos e que 1,4 milhões terão encontrado alojamento em casas de famílias.

Os primeiros refugiados a chegar receberam alojamento principalmente em pavilhões desportivos e em instalações pertencentes à Igreja Católica. O facto que os ucranianos chegados serem na sua maioria cristãos ortodoxos não constituiu um problema.

A ajuda foi também direccionada para áreas ocupadas pela Rússia — só durante as primeiras quatro semanas da guerra a Igreja Católica polaca enviou 147 camiões e 180 outras grandes viaturas para a Ucrânia, transportando principalmente alimentos, num valor total de 5,5 milhões de euros. Nas semanas seguintes, o apoio à população ucraniana intensificou-se por parte de entidades tanto religiosas como seculares, mas também de instituições governamentais, autarquias e ONG.

As autoridades de Varsóvia estimam que a ajuda fornecida pelo Estado polaco aos refugiados tenha excedido os mil milhões de euros, dos quais 800 milhões foram desembolsados a partir de um fundo especial do governo.

Segundo o chefe do Instituto Polaco de Economia (PIE), Piotr Arak, mais de 70% dos polacos adultos já se juntaram na ajuda aos refugiados e durante os três primeiros meses do conflito os cidadãos doaram para este fim dois mil milhões de euros. “Graças a uma decisão sem precedentes das autoridades polacas, foram concedidos aos ucranianos os mesmos direitos que os polacos têm, com excepção da possibilidade de votar”, observou Arak.

Estimou que, se forem incluídas as pessoas da anterior onda de emigração da Ucrânia, que teve início em 2014 com a guerra no Donbas, vivem hoje na Polónia cerca de 3-3,5 milhões de ucranianos.

Refugiado, ou seja, cidadão

Os refugiados vindos do outro lado do rio Bug, após o início da guerra, têm na Polónia o direito a prestações familiares e de educação, entre elas um pagamento mensal de 110 euros por cada criança.

Recebem também assistência psicológica gratuita, alimentação e acesso a cuidados médicos. “Será difícil para nós retribuir a gentileza que aqui vivemos de muitas pessoas e instituições”, explica Olga, de Kiev, que desde Março encontrou abrigo na área metropolitana de Varsóvia. “Os procedimentos realizados por funcionários polacos no âmbito do acolhimento aos refugiados são muito eficientes.

No ponto de recepção temporária junto ao estádio do Legia foi-me dado em poucas horas tudo o que é preciso para viver: alojamento gratuito, um cartão para chamadas telefónicas e Internet, um número de identificação para registar os meus filhos na escola e ter acesso a um médico, bem como uma oportunidade de trabalho”, conta a ucraniana.

Outra vítima da guerra, Anna Yashina, cita as palavras do presidente Volodymyr Zelensky, quando este disse, em Março, que, graças à abertura dos polacos aos milhões de refugiados “de facto, já não há fronteira entre a Ucrânia e a Polónia”. Acrescentou que até que a guerra esteja terminada não tenciona regressar à terra natal.

A maioria dos refugiados adultos ucranianos não está desocupada. De acordo com o Ministério do Trabalho polaco, mais de 400 mil pessoas, ou cerca de 60% dos refugiados em idade activa, já encontraram um emprego. Mais de metade declara que está a ganhar melhor salário, comparando com a vida na Ucrânia.

Um estudo da Gremi Personal mostra que quase 52% dos refugiados ucranianos que trabalham na Polónia acreditam que a sua estada neste país lhes deu um melhor nível de vida.

O empresário Dominik Piwowarczyk, proprietário da empresa de comércio e serviços D&D, de Varsóvia, acredita que o aparecimento de refugiados ucranianos no mercado de trabalho polaco pode torná-lo mais dinâmico a longo prazo.

“Em vários lugares substituíram os polacos que emigraram para a Europa Ocidental nos últimos anos”, disse, salientando que permanece um mistério a questão da estabilidade das finanças públicas, sobrecarregadas com o pagamento de apoios sociais aos numerosos recém-chegados.

As autoridades da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) também apontam o pesado fardo que a ajuda concedida à Ucrânia representa para o orçamento do governo polaco.

Estimam que no final de Dezembro de 2022 as despesas relacionadas com a manutenção dos refugiados de guerra ascenderão na Polónia a 8,4 mil milhões de euros e serão as mais elevadas entre os países membros da organização.

Corações abertos e carteiras também

A 10 de Novembro, no Parlamento Europeu, representantes polacos argumentaram que as declarações generalizadas de solidariedade da UE para com as vítimas do conflito não chegam e que “a abertura dos corações deve ser acompanhada pela abertura das carteiras”.

Marta Majewska, presidente da câmara da cidade fronteiriça de Hrubieszów, participante do evento, disse acreditar que até ao momento as autoridades locais polacas não sentiram qualquer apoio por parte da UE. Acrescentou que a sua cidade, de 17 mil habitantes, só na primeira semana da guerra recebeu 10 mil vítimas do conflito.

“A palavra solidariedade […] assume hoje uma nova dimensão histórica e um novo significado. Nós, como Polónia, temos o direito de contar com esta solidariedade, temos o direito de esperar esta solidariedade”, disse Majewska em Bruxelas, recordando que mais de 90% dos ucranianos chegados à Polónia são mulheres e crianças.

Apesar de Bruxelas, desde o início da guerra, ter anunciado a sua prontidão para apoiar as vítimas, os primeiros fundos da UE destinados a este fim chegaram à Polónia apenas em Outubro — 144,6 milhões de euros. O ministro do Interior polaco, Mariusz Kamiński, admite que, embora a quantia seja “pequena face às necessidades”, este apoio mostra que a UE aprecia a Polónia.

Aponta que Varsóvia tinha solicitado a Bruxelas mais 40 milhões de euros, esperando, na sequência da destruição pela Rússia de infra-estruturas críticas ucranianas, uma nova vaga de migrantes no inverno. Segundo o eurodeputado Jan Olbrycht, a Europa deve fazer um ajustamento urgente no seu orçamento.

“A guerra mudou a situação. Não existem fundos suficientes no orçamento da UE para 2021-2027 que possam ser realojados, entre outras coisas, ao apoio económico-financeiro à Ucrânia”, observou o membro do partido de oposição Plataforma Cívica.

Entretanto, na sociedade polaca a disponibilidade para ajudar os ucranianos mistura-se com fadiga e até mesmo queixas. Uns pedem mais empenho da Comissão Europeia, enquanto outros exigem que os ucranianos cuidem por si da sua própria subsistência. “Os polacos já ajudaram demais, tirando dos seus próprios bolsos. Penso que alguns dos refugiados permanecem aqui apenas para beneficiar de apoio social.

Muitos deles receberam aqui apoio com o qual nem os próprios polacos podem contar”, aponta a enfermeira de Varsóvia Teresa Lis, salientando que muitos cidadãos polacos que pagam contribuições para a saúde pública foram “expulsos” das filas de espera dos hospitais e clínicas médicas para dar lugar aos ucranianos.

“A prioridade é agora dada aos ucranianos, o que irrita muitos doentes”, disse Lis, evidenciando que está aborrecida, entre outras coisas, com a grande presença na Polónia de médicos e enfermeiros ucranianos.

“Uma vez que há uma guerra na Ucrânia, o seu lugar é com os seus compatriotas que sofrem. As equipas médicas estrangeiras com fraco conhecimento da língua ucraniana não os substituirão lá”, acrescentou.

As 104 palavras polacas

Os peritos em segurança salientam que o afluxo maciço de ucranianos à Polónia é uma área de interesse para o Kremlin, com o alvo de espalhar fake news e manipulações, a intensificarem-se à medida que a guerra continua. O site CyberDefense24 aponta que a desinformação russa pode alimentar-se com o ressentimento histórico.

Salienta que a retórica utilizada por estas fontes apresenta frequentemente figuras controversas, como Stepan Bandera, co-fundador da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN-B), que através do Exército Insurrecto Ucraniano (UPA) levou a cabo a limpeza étnica da população polaca durante a II Guerra Mundial.

“A questão do alegado privilégio, principalmente financeiro, dos ucranianos na Polónia é também uma narrativa extremamente popular e antagónica. É de esperar que no contexto da inflação crescente e da situação cada vez mais difícil de muitas famílias polacas sejam usados estes slogans para fins de desinformação”, explicou.

Os manipuladores pró-russos também estão activos na Ucrânia, espalhando notícias sobre um alegado plano de Varsóvia de anexar territórios ucranianos. Apenas poucos se deixam enganar.

Segundo um inquérito apresentado pelo Top Lead, 97% dos ucranianos que vivem hoje na sua terra natal consideram a Polónia um país amigo. O presidente Zelensky falou sobre esta atitude na sexta-feira, por ocasião do 104.º aniversário da independência da Polónia.

Utilizou simbolicamente 104 palavras polacas para agradecer aos vizinhos o apoio, o qual ele supõe ficará impresso na memória dos ucranianos: “Recordarão como nos receberam, como nos ajudaram. Os polacos são nossos aliados, a vossa pátria é nossa irmã. A vossa amizade será para sempre. A nossa amizade será para sempre. O nosso amor, para sempre. Juntos seremos vitoriosos.”

dnot@dn.pt

Diário de Notícias
Marcin Zatyka
21 Novembro 2022 — 00:30



 

“O valor do povo ucraniano é uma inspiração para o mundo”, disse Sunak a Zelensky em Kiev

🇺🇦 SLAVA UKRAYINI 🇺🇦

UCRÂNIA/VISITA/SUNAK/PM INGLÊS

O primeiro-ministro britânico encontrou-se com Volodymyr Zelensky em Kiev para demonstrar a continuação do apoio do Reino Unido à Ucrânia durante a guerra.

© UKRAINIAN PRESIDENTIAL PRESS SERVICE / AFP

O novo primeiro-ministro britânico, Rishi Sunak, fez sua primeira visita a Kiev este sábado para reafirmar o apoio à Ucrânia na guerra com a Rússia, anunciaram os governos dos dois países.

“Desde os primeiros dias da guerra, a Ucrânia e o Reino Unido têm sido os aliados mais fortes”, escreveu o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, na plataforma Telegram, com um vídeo do seu encontro com Sunak em Kiev.

“É uma grande satisfação estar consigo no seu país”, afirmou Sunak ao lado de Zelensky no vídeo divulgado pela presidência ucraniana. “O valor do povo ucraniano é uma inspiração para o mundo”, acrescentou.

“Contaremos aos nossos netos esta história, como um povo orgulhoso e soberano enfrentou um ataque terrível, como lutaram, como se sacrificaram, como venceram”, completou.

O primeiro-ministro britânico está em Kiev para “confirmar o apoio contínuo do Reino Unido” à Ucrânia.

O Reino Unido “sabe o que significa lutar pela liberdade”, escreveu Sunak no Twitter. “Estamos com vocês neste caminho”, frisou.

Diário de Notícias
DN/AFP
19 Novembro 2022 — 14:48



 

644: Esclarecimento

Por decisão exclusivamente minha e sem pressão de qualquer origem, decidi deixar de publicar artigos completos sobre a guerra na Ucrânia, limitando-as ao mais essencial e com links directos às respectivas fontes.

Não tem a ver com qualquer tipo de abandono ou desistência de solidariedade com o sofrido povo ucraniano, martirizado pelos ORCS russonazis ☠️卐☠️ que entenderam que a Ucrânia não existe, é propriedade da Rússia e vai de invadir, assassinar civis, bombardear infra-estruturas essenciais à sobrevivência do povo, escolas, hospitais, creches, etc., mas há certas atitudes que, depois de reflectidas, originam tomadas de posição.

E a minha tomada de posição, neste sentido, foi o ter lido uma notícia em que o presidente Zelensky iria proceder à extensão da lei marcial e da mobilização geral.

“… Com a lei de mobilização, o Governo decretou a proibição de abandonar o país para todos os homens entre os 18 e os 60 anos que são elegíveis para serem recrutados.

Penso que esta é uma atitude idêntica à mobilização geral do russonazi ☠️卐☠️ putineiro e pergunto: homens até 60 anos a combater? Porventura depois de uma vida de trabalho, com família?

Não dou apoio a atitudes deste género, paciência! Zelensky baixou a pontuação na minha consideração que continua inabalável com o Povo da Ucrânia.

10.11.2022



 

525: Aumento do custo de vida faz crescer pedidos de ajuda

“… Além deste programa do Governo, as pessoas procuram apoio nas instituições sociais que fazem cada vez mais pedidos ao Banco Alimentar para conseguirem apoiar o número crescente de famílias que pedem ajuda, segundo a presidente, Isabel Jonet.” O problema é que mesmo com pedidos de ajuda ao Banco Alimentar, não existe qualquer tipo de resposta. Por que razão D. Isabel Jonet? Em contrapartida, atribui-se RSI a quem nunca trabalhou e NEGA-SE o RSI a quem efectuou descontos e pagou impostos ao Estado durante mais de trinta anos e está na situação de desempregado de longa duração, sem qualquer tipo de subsídios! Nem a porra do passe social gratuito de transportes públicos ainda foi concedido. É esta a merda de justiça “social”?

SOCIEDADE/CUSTO DE VIDA/AJUDA

Rita Valadas, presidente da Cáritas, revela que a ajuda está a ser procurada por pessoas de classe média e média-baixa, sobretudo porque o rendimento “dá cada vez para menos coisas”.

© Filipe Amorim / Global Imagens

O aumento do custo de vida está a provocar uma maior pressão junto das instituições de apoio alimentar como a Cáritas, que ajudam cada vez mais pessoas com emprego, mas cujo salário deixou de chegar para as despesas.

A presidente da Cáritas, Rita Valadas, disse à Lusa que a ajuda está a ser procurada por pessoas de classe média e média-baixa, uma vez que “o rendimento dá cada vez para menos coisas”.

Rita Valadas afirmou que esta é uma crise que se caracteriza por “um aumento brutal do custo de vida” e que tem sentido um acréscimo das dificuldades para dar resposta às solicitações.

É que, aos novos casos, juntam-se os que já eram anteriormente acompanhados desde a pandemia e que não conseguiram deixar de viver sem este apoio.

“As pessoas que se aproximaram de nós devido à pandemia não chegaram a conseguir autonomizar-se, porque, quando estavam a conseguir reprogramar a sua vida, vêem-se confrontadas com a dificuldade decorrente do aumento do custo de vida, das taxas de juro, e não têm condições para fazer essa retoma”, explicou Rita Valadas.

A presidente da Cáritas lembrou ainda que no período da crise social motivada pela pandemia, existiam moratórias e o ‘lay-off’, ao contrário das actuais “situações avulsas [como o pagamento único de 125 euros], que não resolvem a situação das pessoas senão pontualmente”.

Quem está mais próximo de se aproximar do limiar da pobreza é quem fica em maior risco de ter de recorrer a este tipo de apoios, concluiu.

“Quando o rendimento se altera, altera-se o risco, mas, quando a esse risco se acrescenta uma pressão do custo médio de subsistência, as dificuldades afectam pessoas que estão deste risco para baixo e o que antes um salário mínimo dava para pagar, hoje não dá, e os custos estão a subir e não sabemos quando vão parar”, sublinhou Rita Valadas.

Os que “batem à porta” da Cáritas, organização que trabalha em rede pelo país, têm dificuldades em pagar a renda de casa, a prestação da casa, a luz, a água ou outras contas importantes e na iminência de ficar sem esses serviços ou sem abrigo.

“Depois, a situação agudiza-se e traz outras necessidades”, acrescentou a presidente da organização, que distribui alimentação e também outros tipos de ajuda.

Primeiro, elencou, as pessoas começam por deixar de comprar determinados produtos que não são de primeira necessidade, depois passam a comprar marcas brancas, até que chegam ao momento em que, mesmo fazendo os cortes possíveis, “não têm como comprar o básico”.

Além das famílias, as instituições que fornecem alimentos no seu espaço ou ao domicílio “também estão a sofrer uma pressão enorme com o aumento dos custos dos bens”, referiu.

Rita Valadas mencionou a rede alargada pelo país e exortou quem quiser dar o seu contributo a procurar a Cáritas, as paróquias ou dioceses, que têm as suas estruturas de apoio, distribuição, respostas sociais e conseguem fazê-lo “em proximidade”.

A Cáritas apoiou no ano passado 120 mil pessoas, a pandemia levou a um aumento de “18 mil famílias a mais” e Rita Valadas estimou que este ano já tenha sido prestado auxílio a mais 20 mil pessoas, entre as quais muitas estrangeiras, sublinhou.

O que se sabe do impacto da crise em Portugal

Quase um terço da população portuguesa vivia em risco de pobreza em 2021, um número que já reflectia alguns efeitos da pandemia da covid-19, mas não da actual crise financeira.

Nos últimos meses, e na sequência da guerra na Ucrânia, o aumento dos preços foi uma constante em vários sectores. Este mês, a inflação em Portugal atingiu o valor mais alto desde há 30 anos (subiu para 10,2%), com impacto na vida da população.

Quase um quarto da população em risco de pobreza em 2021
Os dados oficiais mais recentes sobre pobreza em Portugal reportam a 2021. Nesse ano, a taxa de risco de pobreza ou exclusão social aumentou cerca de 12% face ao ano anterior para 22,4%.

Com quase um quarto da população portuguesa em risco de pobreza, 2021 registou o maior aumento anual do risco de pobreza em Portugal desde 2005, de acordo com o Observatório Nacional de Luta Contra a Pobreza, e a oitava taxa mais alta entre os países da União Europeia.

Mesmo após as transferências sociais, a taxa de risco de pobreza fixou-se nos 18,4% no ano passado, sendo a situação mais grave nas regiões autónomas dos Açores e Madeira, no Norte e Algarve.

Privação material e social atingiu 13,5% da população
Além do risco de pobreza, medido com base nos rendimentos individuais, as dificuldades económicas das famílias reflectem-se também na taxa de privação material e social que, em 2021, atingiu 13,5% da população, a sétima mais elevada da União Europeia.

Para 6% dos residentes em Portugal, a situação foi de privação severa, o que significa que não tiveram capacidade de suportar mais de quatro em nove encargos, que incluem o pagamento de rendas ou empréstimos, férias fora de casa, uma refeição de carne ou peixe de dois em dois dias, despesas inesperadas, telefone, televisão a cores, uma máquina de lavar, um carro e manter a casa adequadamente aquecida.

Antecipando os efeitos da inflação, o Observatório Nacional de Luta Contra a Pobreza alerta que, apesar de não se assistir a uma perda de rendimentos por parte da população portuguesa, os dados de 2022 deverão revelar a perda de poder de compra que atinge quer a população em emprego, quer a população sem emprego.

Idosos, desempregados e famílias mono-parentais são os mais vulneráveis
A pobreza e a privação material e social afectam, sobretudo, a população mais idosa, desempregados e as famílias mono-parentais.

De acordo com o relatório do Observatório Nacional da Luta Contra a Pobreza, divulgado em 17 de Outubro, cerca de 25% das pessoas com mais de 65 anos de idade encontravam-se em risco de pobreza no ano passado e 17,6% viviam em privação material e social.

A pobreza afectava 60,4% da população desempregada, sendo que 33% encontrava-se em situação de privação. No caso das famílias mono-parentais, as taxas de risco de pobreza e de privação material foram de 38,2% e 20,5%, respectivamente.

Dados do Eurostat divulgados na quinta-feira indicam que, no ano passado, 22,9% das crianças portuguesas com menos de 18 anos viviam em situação de pobreza, um valor abaixo da média da União Europeia (24,4%).

Inflação no valor mais alto em 30 anos
A taxa de variação homóloga do Índice de Preços no Consumidor terá aumentado para 10,2% em Outubro, face aos 9,28% de Setembro, atingindo o máximo desde maio de 1992, segundo a estimativa rápida divulgada pelo Instituto Nacional de Estatística na sexta-feira.

Já em Setembro a inflação tinha atingido um máximo em quase 30 anos, com a variação homóloga do Índice de Preços no Consumidor a fixar-se em 9,3%, a mais elevada desde Outubro de 1992.

O aumento dos preços tem-se feito sentir, sobretudo, no sector energético, habitação e alimentação. Por exemplo, segundo estimativas do Banco de Portugal, o custo de um cabaz básico de bens alimentares subiu 15% entre Outubro de 2021 e Agosto deste ano, com alguns produtos a dispararem 20%.

Consequências da inflação são mais severas para quem tem menos rendimentos
Os portugueses que recebem o salário mínimo têm actualmente menos 65 euros de poder de compra do que há um ano devido à inflação, segundo dados da Portada, que indicam ainda que as pessoas que recebem pensões mínimas de velhice e invalidez ficam, na prática, com menos 25,9 euros de poder de compra do que há um ano.

Já o Banco de Portugal alertou, no início do mês, que a inflação tem consequências mais severas para as famílias de menores rendimentos do que as de rendimento mais elevado, porque para as primeiras a inflação sente-se, sobretudo, no preço de bens essenciais.

Medidas de apoio às famílias incluem pagamento extraordinário de 125 euros
Em Setembro, o primeiro-ministro anunciou que os contribuintes com rendimento mensal até 2.700 euros iriam receber um pagamento extraordinário de 125 euros, sendo este valor atribuído por pessoa, e um subsídio de 50 euros por dependente.

Foi uma das medidas excepcionais do Governo de apoio às famílias para mitigar os efeitos da inflação e que inclui o pagamento aos pensionistas de 14 meses e meio de pensões, em vez dos habituais 14 meses.

Para as crianças, o Governo tinha anunciado ainda em Outubro do ano passado um complemento ao abono de família, destinado a 150 crianças e jovens com menos de 18 anos que vivem em situação de pobreza extrema. A Garantia para a Infância começou a ser paga em Setembro.

Mais de 108 mil pessoas recebem ajuda alimentar
Actualmente, mais de 108 mil pessoas beneficiam do cabaz alimentar do Programa de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas, que chegou a 134 mil pessoas desde Janeiro deste ano.

No final do mês de Setembro, a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social anunciou que está em curso a implementação de um novo modelo de apoio às pessoas mais carenciadas, que passará a ser feito através de cartão.

Além deste programa do Governo, as pessoas procuram apoio nas instituições sociais que fazem cada vez mais pedidos ao Banco Alimentar para conseguirem apoiar o número crescente de famílias que pedem ajuda, segundo a presidente, Isabel Jonet.

Diário de Notícias
DN/Lusa
30 Outubro 2022 — 10:51