593: Sem testes gratuitos e isolamento pago é difícil conter transmissão, mas hospitais estão preparados

SAÚDE PÚBLICA/PANDEMIA/COVID-19

O que aí vem ninguém sabe, mas há uma expectativa. E esta é: mesmo que a infecção por SARS-CoV-2 se mantenha elevada, o impacto da doença covid-19 será muito menor do que no início de 2021, quando ainda não havia vacinação. Neste momento, nos hospitais a preparação para eventuais surtos é permanente, mas a saúde pública alerta: “É preciso vigilância mais apertada no número de casos.” Reuniões do Infarmed regressam dia 11.

Portugal e outros países que deixaram estratégia de testagem massiva registam agora menos casos por milhão de habitantes.

Quase três anos depois e com mais um inverno à porta, regressa a imprevisibilidade em relação à infecção pelo vírus que invadiu o mundo a partir da China, no final de 2019 – o SARS-CoV-2. Sobretudo porque não há garantias de que não apareçam novas variantes que substituam a Ómicron, dominante desde o início deste ano em todo o mundo, ou novas sub-variantes desta.

Sobre as que apareceram recentemente, a BQ1 e a BQ1.1, identificadas na Nigéria, e que estão a substituir a BA.5, ainda pouco se sabe quanto ao seu impacto.

Até agora, a percepção que existe é a de que estas sub-variantes podem ser mais transmissíveis do que as anteriores, mas menos agressivas na doença grave e com protecção das vacinas que existem. E esta é também a esperança de quem está no terreno, na saúde pública, a gerir hospitais e na medicina intensiva.

Ao DN, o diretor clínico do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (CHULN), que inclui os Hospitais de Santa Maria e Pulido Valente, assume a imprevisibilidade: “O que aí vem ninguém sabe”, mas em termos de preparação “já estamos permanentemente, desde há quase três anos”. Luís Pinheiro diz até que, na sua opinião, “a nível de unidades hospitalares há uma preparação global muito maior”.

O presidente do Colégio da Especialidade de Medicina Intensiva da Ordem dos Médicos, José Artur Paiva, concorda que “o país está mais preparado nesta área” e que “mau seria se não fosse assim”, depois do “curso intensivo que tivemos nos primeiros dois anos”, mas o presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP) alerta para o facto de ser esperado um aumento significativo de infecções e de eventuais surtos – como destacou também, na semana passada, a própria Organização Mundial de Saúde, pedindo aos países que se preparassem -, e o que está a acontecer é que

“Muitas pessoas positivas não se testam nem cumprem isolamento”, fazendo com que não haja um retrato real da infecção no país e que a transmissão aumente.

Por isso mesmo pede ao governo que defina orientações e directrizes e que faça regressar medidas como a testagem e o apoio ao isolamento.

Gustavo Tato Borges concorda que “o país tem muito mais experiência do que no início da pandemia para lidar com novos casos de covid-19. Não só ao nível da saúde, mas também do cidadão, tendo em conta o conhecimento e os hábitos que se adquiriram.

Portanto, está melhor preparado para lidar com a situação no caso de poderem existir novos surtos”, mas relativamente à área da saúde pública “é fundamental uma monitorização mais apertada dos casos, que deixou de existir com o fim do estado de alerta.

Não é voltarmos a ter de contactar telefonicamente todos os infectados, mas é voltarmos a ter mais facilidade no diagnóstico. Ou seja, precisamos que a população volte a ter testes gratuitos disponíveis nas farmácias para ter o diagnóstico rapidamente”, diz.

Acrescentando: “Não existindo isto, então que se comece a fazer a vigilância da carga viral da covid-19 nas águas residuais, que é um indicador extremamente importante para se perceber a circulação do vírus e o impacto que a infecção poderá ter ao nível da doença e da sua gravidade.”

Desta forma, explica ao DN, “poderemos estar mais tranquilos. Ou seja, se ficarmos a saber que não há uma carga viral elevada nas águas residuais e que os internamentos não estão a aumentar, quer dizer que a situação está controlada.

Mas se houver uma carga viral elevada nas águas residuais e os internamentos a aumentar, então teremos de fazer alguma coisa rapidamente para impedir a circulação do vírus na comunidade”.

Por outro lado, o médico argumenta ser também fundamental a manutenção do isolamento dos casos positivos com o respectivo apoio, salário pago a 100% durante os cinco dias.

“A maior parte das pessoas não se testa porque não arrisca a que lhe digam que tem de ficar em casa. Muitas já ganham tão pouco que não podem ganhar menos e passam à frente deste crivo quando o isolamento de cinco dias continua a ser muito importante.”

E explica porquê: “Não podemos pensar só no caso das empresas. Temos de pensar também nos lares e em outras instituições que lidam com idosos ou com pessoas mais vulneráveis, porque os seus funcionários também irão trabalhar positivos.

Há uns que são assintomáticos, e já escapam ao controlo, os outros não arriscam ficar em casa, podendo estar a contaminar as pessoas mais vulneráveis. E será difícil não haver disseminação da transmissão.”

Se não continuamos a monitorizar “a incidência da doença, não sabemos o número de infecções reais que temos e não sabemos em que ponto estamos.

Se não continuamos a monitorizar “a incidência da doença, não sabemos o número de infecções reais que temos e não sabemos em que ponto estamos. O que estamos a fazer é a monitorizar os internamentos gerais, enfermarias e cuidados intensivos, e os óbitos.

Esperemos que não se comece a tomar medidas só quando os internamentos atingirem níveis preocupantes”, frisa, reforçando mais uma vez que “uma medida restrita só tem efeitos entre três a quatro semanas. Primeiro baixam os casos, depois os internamentos, e só depois os óbitos”.

Neste momento, destaca Gustavo Tato Borges, “desconhece-se quais são as medidas que estão pensadas pelo governo e pelas autoridades de saúde para este inverno. Mas é importante que haja um plano de vigilância e orientações que sejam divulgados, porque as que existem são do tempo do estado de alerta em vigor e estão desactualizadas”.

Isto porque, apesar de haver sempre imprevisibilidade, nos anos anteriores havia muitas medidas que permitiam “mitigar a transmissão da infecção, agora não”. Nesta quinta-feira, o ministro da Saúde anunciou que as reuniões do Infarmed, entre governo e peritos, regressam dia 11.

Os dados divulgados pela plataforma internacional, Our World in Data revelam que Portugal não regista das piores situações no quadro europeu, sobretudo em relação a países como Alemanha, França e Itália. Mas há uma diferença enorme. Estes países mantêm a testagem massiva, daí que consigam identificar maior número de casos e ter maior vigilância através da incidência. Espanha está melhor do que Portugal, mas tem as mesmas regras.

Hospitais preparados para eventuais surtos

Em relação às unidades hospitalares, os circuitos separados para doentes respiratórios e não respiratórios mantêm-se, mas há algumas alterações na gestão de camas e de recursos.

Como explica o director clínico do CHULN, Luís Pinheiro, “os circuitos separados mantêm-se, os doentes não circulam misturados, seja no espaço da urgência, de enfermaria ou em áreas comuns, mas há maior flexibilidade na gestão dos recursos e dos espaços”.

Ou seja, “a filosofia do início da pandemia que levou à criação de enfermarias estritamente dedicadas a doentes com covid-19 mudou completamente e o que fazemos agora é colocar os doentes positivos em espaços próprios, naturalmente separados dos outros, mas nas enfermarias em que devem tratar a sua doença base, porque a realidade dos últimos meses é que o facto de um doente estar positivo para a infecção SARS-CoV-2 não significa que tenha covid-19. Foi internado por outra patologia e testou positivo”.

Isto mesmo está a ser feito em Santa Maria e em muitas outras unidades. A prioridade agora é tratar os doentes que tiveram de entrar no hospital porque tiveram um AVC ou outra situação nas áreas correspondentes, embora dentro destas enfermarias haja salas para doentes positivos e salas para os outros doentes. Luís Pinheiro salienta: “Não temos um número de camas alocadas e vazias à espera de doentes com covid-19, como havia anteriormente. Isso hoje seria um desperdício.

O que temos é um modelo de organização mais flexível e mais ágil, que adaptaremos conforme a evolução da pandemia, reconvertendo salas de enfermarias para que os doentes se mantenham separados dos outros mas tenham o tratamento adequado à sua patologia.”

“Não temos um número de camas alocadas e vazias à espera de doentes com covid-19, como havia anteriormente. Isso hoje seria um desperdício.

A sua expectativa é de que, embora possa “haver um aumento de transmissão da infecção, o que é natural, e um maior número de doentes a testar positivo e doentes internados com covid-19, o impacto desta seja significativamente menos grave do que foi no passado, não só pelas característica do vírus, mas também pela vacinação da população com doses de reforço, como está a ser feito agora”.

Por exemplo, nesta semana a instituição que dirige tinha “um doente com covid internado em UCI, mas até há muito pouco tempo não tínhamos nenhum.

Nas enfermarias temos cerca de 30 positivos, mas, como digo, estes não são sinónimo de doença – a maioria, cerca de 60% a 65%, testou positivo à covid e tem de estar separado dos outros, mas a tratar as suas doenças originais”. Um número que diz “manter-se estável desde há várias semanas”.

Como médico, reforça que “o que aí vem nenhum de nós sabe. Há sempre uma incógnita em relação ao vírus e às variantes ou sub-variantes que venham a predominar”. E isto é o que o incomoda mais, embora tenha “a expectativa de que se passe a viver mais com a infecção pelo SARS-CoV-2 do que com a covid-19”.

Esta será mais uma que deverá “fazer parte do conjunto de patologias infecciosas respiratórias com as quais já lidamos e a fazer parte da rotina que é a nossa resposta clínica, para lidarmos com a doença de forma mais organizada e menos dramática”.

UCI. Há camas instaladas mas não activas por falta de recursos

O presidente do Colégio da Especialidade de Medicina Intensiva da Ordem dos Médicos, José Artur Paiva, concorda que, nesta altura, “o país está mais preparado para lidar com a covid-19 nesta área do que no início de 2020”. E isto porque “se saltou de 620 camas, no final de 2019, para 860”.

Assim, “há uma capacitação muito significativa dos cuidados intensivos”, mas alerta que ainda “há camas instaladas que não estão activas por falta de recursos humanos, sobretudo de enfermeiros, e, como se sabe, um médico ou um enfermeiro para esta área não se forma em duas semanas. Este é um problema que convém resolver a breve prazo”.

José Artur Paiva recorda que a capacitação que a pandemia trouxe à medicina intensiva fez “com que se aumentasse o número de camas e melhorou também a capacidade em termos de quartos de isolamento”. Por isto, e por todo o saber, ou melhor, “pelo curso intensivo que ganhámos nestes quase três anos, mau seria se os hospitais não estivessem preparados”.

Na sua opinião, “os profissionais estão mais conscientes e ganharam conhecimento da doença e de como a tratar, o que é muito importante comparado com o que vivíamos em Março e em Abril de 2020”, destacando ainda que, “do ponto de vista de capacidade das unidades de medicina intensiva e de quartos isolados, estamos agora perto da média europeia, quando naquela altura éramos dos piores países”.

Ao olhar para o próximo inverno, o presidente do colégio da especialidade espera que na área da medicina intensiva este possa ser “encarado de uma forma significativamente diferente dos dois Invernos anteriores”.

Isto é, em termos de organização, “mais do que ter áreas de cuidados intensivos divididos para doentes com covid-19 e não covid, parece-me mais importante que o doente seja internado nas áreas adequadas à sua patologia”, defende, explicando: “Um doente que precisa de cuidados críticos porque teve um AVC ou uma hemorragia cerebral deve ir para a área onde são fornecidos os cuidados neuro-críticos, o mesmo em relação a doente com traumatismo grave, e nestas áreas devem ser usados os quartos de isolamento que permitam a prevenção da transmissão da infecção.”

“Depois de dois anos em que o nosso contacto com o vírus influenza foi muito baixo, os quadros de gripe podem assumir uma gravidade acima daquilo que era normal no período pré-pandémico”.

À partida, reforça também, o próximo inverno será “um pouco imprevisível”. E por dois factores. Por um lado, porque “a percepção que se tem agora das novas sub-variantes é a de que são mais transmissíveis mas provocam menos doença grave, nomeadamente às pessoas que não têm quadros de imunodeficiência e que realizaram o suporte vacinal, mas, repito, ainda não temos certezas”.

Por outro lado, não sabemos como se irá comportar o vírus da gripe. “Depois de dois anos em que o nosso contacto com o vírus influenza foi muito baixo, os quadros de gripe podem assumir uma gravidade acima daquilo que era normal no período pré-pandémico, havendo ainda todos os outros agentes respiratórios de infecção vírica ou bacteriana.

E em termos de medicina intensiva esta é uma fase do ano em que há claramente uma procura de camas de UCI mais elevada.” No entanto, “a expectativa não é muito pessimista em relação a casos graves de covid-19”.

O DN contactou há uma semana autoridades da saúde nacional, nomeadamente a Direcção-Geral da Saúde, para saber qual a situação real que se vive no país, comparando-a com outros países europeus, assim como que plano de vigilância está a ser preparado para este inverno, que recomendações vão ser feitas e em que pé está o projecto de vigilância em simultâneo covid-19/gripe. Até ao fecho desta edição não obteve respostas.

Presidente da ANMSP pede para que Governo mantenha obrigatoriedade de máscara nos serviços de saúde, senão será difícil conter transmissão

Cuidados a ter

Unidades de Saúde

O presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública recomenda que o Governo mantenha a obrigatoriedade do uso de máscara nos serviços de saúde, senão o contágio será inevitável nestas situações. Gustavo Tato Borges diz saber que há ACES em que os médicos de família ainda usam acrílicos como separadores e viseiras, e que estas devem ser mantidas para se protegerem a eles próprios.

População

Em relação aos utentes, o primeiro conselho vai para aqueles que estão a ser chamados para a dose de reforço. “Façam-na rapidamente, quanto mais depressa tivermos uma cobertura vacinal adequada com esta dose de reforço mais depressa poderemos ter uma protecção acrescida na população”.

Sintomas

É preciso que cada um de nós esteja atento aos sintomas e que não os menospreze. Se estiver com um quadro de sintomas respiratórios é importante que imediatamente – sendo a mais adequada para proteger os outros a SP2, que é de bico de pato, e não tanto a cirúrgica. Quando se está com sintomas deve evitar-se visitar pessoas vulneráveis e contactar com outras de forma prolongada.

Ventilação

Apesar de se estar a entrar na época do frio é muito importante a ventilação, em casa, empresas e até mesmo em locais de convívio deve abrir-se regularmente as janelas os espaços onde estamos a trabalhar ou a conviver voltando a fechar para permanecer.

Teletrabalho

O médico relembra ainda: “Sempre que se puder recorrer ao teletrabalho, deve fazer-se. É a forma de se poder minimizar a disseminação da doença”. É que há sempre alguém mais vulnerável, que mesmo com a vacinação, poderá pagar um preço mais elevado.

Gustavo Tato Borges diz que os últimos dois anos foram “um período estranho da nossa vida, mas o teletrabalho, o uso de máscara e o arejamento dos espaços devem passar a ser coisas comuns do nosso dia”.

Diário de Notícias
Ana Mafalda Inácio
05 Novembro 2022 — 00:16