815: É o sistema energético, estúpido

OPINIÃO

As pessoas comuns em todo o mundo estão a sofrer com dois problemas enormes e sobrepostos: o aumento do custo de vida e as consequências de um clima que aquece rapidamente. No Corno de África, 22 milhões de pessoas correm o risco de fome extrema, devido a quatro anos consecutivos sem chuva e ao aumento dos preços mundiais dos cereais.

Para piorar as coisas, os altos preços dos combustíveis, exacerbados pela invasão russa à Ucrânia, estão a colocar comunidades e empresas em toda a África à beira do colapso. Na Europa, um verão com um recorde de altas temperaturas está prestes a dar lugar a um inverno paralisante, já que o alto custo do gás eleva os preços da energia para todos.

Embora se deva ter cuidado para não simplificar demasiado os problemas globais que se manifestam de maneira diferente em diferentes regiões, é impossível ignorar a causa primordial das actuais crises de alimentos, energia e custo de vida: o nosso sistema energético dependente dos combustíveis fósseis está avariado.

Durante muitos anos, a indústria de combustíveis fósseis argumentou que os seus produtos ofereciam um caminho rápido para a energia barata e o desenvolvimento económico. No entanto, esta afirmação provou estar errada várias vezes.

Décadas de desenvolvimento de combustíveis fósseis não serviram os 600 milhões de pessoas (um número que continua a aumentar) na África Subsariana que ainda não têm acesso a energia.

Os preços dos combustíveis fósseis são inerentemente voláteis e são as comunidades vulneráveis ​​que mais sofrem com as flutuações descontroladas nos mercados mundiais de hidrocarbonetos. No Reino Unido, o aumento dos preços do gás devem aumentar em 80% as contas da energia doméstica neste ano.

Nos próximos meses, muitas famílias de baixo rendimento serão forçadas a escolher entre o aquecimento da casa e a comida na mesa. Enquanto isso, empresas como a BP, Chevron, ExxonMobil, Total e Shell obtiveram lucros de 59 mil milhões de dólares apenas no segundo trimestre deste ano.

Pior, a dor que muitos já estão a sentir neste ano empalidece, se comparada com o que nos espera se continuarmos a queimar combustíveis fósseis. No início deste ano, o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas alertou que, se quisermos evitar cenários catastróficos de aquecimento, não podemos construir nenhuma nova infra-estrutura de combustível fóssil e temos de eliminar rapidamente os combustíveis fósseis que já utilizamos.

Da mesma forma, em 2021, o director da Agência Internacional de Energia declarou que “se os governos levarem a sério a crise climática, não poderá haver novos investimentos em petróleo, gás e carvão, a partir de agora — a partir deste ano”.

Seria uma loucura pensar que o actual amontoado de crises mundiais pode ser resolvido com os nossos actuais sistemas energéticos. Mais investimentos em infra-estruturas e exploração de combustíveis fósseis resultarão em mais dor e incerteza para as famílias, maiores concentrações de lucros e riqueza e condições climáticas inabitáveis ​​para milhares de milhões de pessoas.

Mas é a isso que estamos a assistir: a OCDE e a AIE relataram que os subsídios governamentais aos combustíveis fósseis em todo o mundo quase duplicaram em 2021, atingindo os 697 mil milhões de dólares.

Se queremos uma energia confiável, limpa e acessível para todos, a solução mais rápida e eficaz é aumentar o investimento em energias renováveis, eficiência energética e redes energéticas integradas.

A electricidade proveniente das energias solar e eólica é, agora, mais barata do que a electricidade proveniente do gás e os preços não sofrem flutuações perigosas.

No Reino Unido, onde sucessivos governos não conseguiram liderar na criação de capacidade nas energias renováveis, os proprietários das casas estão a assumir a responsabilidade de instalar painéis solares, porque sabem que o investimento ficará pago com facturas de energia mais baixas.

As energias renováveis ​​também são uma forma mais rápida e barata de expandir o acesso à energia na África rural. Por estarem localizadas mais próximas do ponto de consumo, elas demonstraram ser mais viáveis economicamente do que construir linhas de transmissão a partir de centrais eléctricas a gás.

Na concretização da mudança de que precisamos em todo o sistema, os governos dos países desenvolvidos podem financiar as suas próprias participações.

Mas também têm de fazer mais para ajudar a financiar a transição energética do Sul Global. A Agência Internacional de Energias Renováveis calcula que África precisará de investimentos anuais de 70 mil milhões de dólares para garantir o acesso a energia limpa para todos.

De um modo mais geral, serão necessários investimentos em larga escala nas cadeias de fornecimento solar para reduzir a dependência de muitos países da China, que se tornou outra grande fonte de risco económico, com as interrupções no fornecimento a alimentar os aumentos de preços.

No período que antecedeu a COP26, no mês de Novembro do ano passado, o fosso mundial no financiamento climático foi um tópico importante. Mas a promessa feita pelo mundo rico, em 2009, de fornecer ao mundo em desenvolvimento pelo menos 100 mil milhões de dólares em financiamento climático por ano, até 2020, ainda está por cumprir.

Sem um aumento substancial do financiamento público e privado por parte das economias avançadas, não haverá uma transição global para um sistema energético melhor.

Uma vez que esses investimentos beneficiarão a todos, tanto o Norte Global, como os bancos de desenvolvimento e as instituições privadas têm de estar à altura da situação na COP27.

As crises energéticas e o custo de vida estão a afectar pessoas em todo o mundo — do norte da Inglaterra e do norte do Uganda à Florida e ao Paquistão, que ainda está a recuperar das inundações catastróficas deste verão.

Com o tempo, os investimentos em resiliência e energia limpa ficarão pagas, em contraste com os investimentos que canalizam lucros para algumas multinacionais e petroestados desonestos e belicistas.

A menos que tiremos partido do momento, a estagnação democrática, a crescente desigualdade, a agitação social e outros problemas estruturais e sistémicos cada vez mais profundos irão, provavelmente, ficar ainda piores. Se tomarmos as decisões certas hoje, podemos criar as condições para um futuro mais estável, igualitário e próspero.

Vanessa Nakate é uma activista pela justiça climática do Uganda.
Rachel Kyte, ex-enviada climática da ONU, é reitora da Escola Fletcher da Universidade Tufts.

© Project Syndicate, 2022.

Diário de Notícias
Vanessa Nakate e Rachel Kyte
20 Novembro 2022 — 01:06