849: Vulcanismo extremo pode ter alterado o clima de Vénus

CIÊNCIA/ASTRONOMIA/VÉNUS

Maat Mons é apresentado nesta perspectiva tridimensional, gerada por computador, da superfície de Vénus. O ponto de vista situa-se a 634 quilómetros para norte de Maat Mons, a uma altitude de 3 quilómetros. Os fluxos de lava estendem-se por centenas de quilómetros através das planícies fracturadas vistas em primeiro plano, até à base de Maat Mons. Os dados de radar de abertura sintética da missão Magellan da NASA foram combinados com altimetria de radar para desenvolver um mapa tridimensional da superfície. A escala vertical nesta perspectiva foi exagerada 10 vezes.
Crédito: NASA/JPL

Um novo artigo científico da NASA sugere que a actividade vulcânica, que durou centenas a milhares de séculos e que libertou quantidades massivas de material, pode ter ajudado a transformar Vénus de um mundo temperado e húmido para a estufa ácida que é hoje.

O artigo também discute estas “grandes províncias ígneas” na história da Terra que causaram várias extinções em massa no nosso próprio planeta há milhões de anos atrás.

“Ao compreender o registo de grandes províncias ígneas na Terra e em Vénus, podemos determinar se estes acontecimentos podem ter causado a actual condição de Vénus”, disse o Dr. Michael J. Way, do GISS (Goddard Institute for Space Studies) da NASA em Nova Iorque. Way é o autor principal do artigo, publicado a 22 de Abril na revista The Planetary Science Journal.

As grandes províncias ígneas são os produtos de períodos de vulcanismo em grande escala que duram dezenas de milhares ou até mesmo centenas de milhares de anos.

Podem depositar cerca de 500.000 quilómetros cúbicos de rocha vulcânica à superfície. No limite superior, poderá significar rocha fundida suficiente para enterrar toda a Península Ibérica a quase um quilómetro de profundidade.

Hoje, Vénus tem temperaturas superficiais que rondam em média os 464º C e uma atmosfera com cerca de 90 vezes a pressão da Terra ao nível do mar. De acordo com o estudo, as enormes erupções vulcânicas podem ter dado início a estas condições infernais algures na história antiga de Vénus.

Em particular, a ocorrência de várias dessas erupções num curto espaço de tempo geológico (um milhão de anos) poderia ter levado a um efeito de estufa que deu início à transição do planeta de húmido e temperado para quente e seco.

Oitenta por cento da superfície total de Vénus está coberta por grandes campos de rocha vulcânica solidificada, disse Way. “Embora ainda não estejamos certo da frequência com que ocorreram os acontecimentos que criaram estes campos, devemos ser capazes de a estimar estudando a própria história da Terra”.

A vida na Terra sofreu pelo menos cinco grandes eventos de extinção em massa desde a origem da vida multicelular há cerca de 540 milhões de anos, cada um dos quais dizimando mais de 50% da vida animal em todo o planeta.

Segundo este estudo e outros anteriores, a maioria destes eventos de extinção foram causados ou exacerbados pelos tipos de erupções que produzem grandes províncias ígneas.

No caso da Terra, as perturbações climáticas provocadas por estes eventos não foram suficientes para causar um efeito de estufa extremo como ocorreu em Vénus, por razões que Way e outros cientistas ainda estão a trabalhar para determinar.

As próximas missões da NASA a Vénus, programadas para o final desta década – a missão DAVINCI (Deep Atmosphere Venus Investigation of Noble gases, Chemistry, and Imaging) e a missão VERITAS (Venus Emissivity, Radio science, InSAR, Topography, And Spectroscopy) – visam estudar a origem, história e estado actual de Vénus em detalhes sem precedentes.

“Um objectivo principal da DAVINCI é melhor determinar a história da água em Vénus e quando esta pode ter desaparecido, fornecendo mais informações sobre como o clima de Vénus mudou ao longo do tempo”, disse Way.

A missão DAVINCI precederá a VERITAS, um orbitador concebido para investigar a superfície e o interior de Vénus, para melhor compreender a sua história vulcânica e volátil e, assim, o percurso de Vénus até ao seu estado actual.

Os dados de ambas as missões podem ajudar os cientistas a melhor determinar o registo exacto de como Vénus pode ter passado de húmido e temperado para seco e escaldante.

Pode também ajudar-nos a compreender melhor como o vulcanismo aqui na Terra afectou a vida no passado e como poderá a continuar a fazê-lo no futuro.

Astronomia On-line
22 de Novembro de 2022