905: O campeonato no Qatar e a final em Moscovo

“… Essa é a táctica russa para os meses do frio: uma rendição da Ucrânia com base no sofrimento dos ucranianos, em casas geladas e sem água, em empresas paradas, em hospitais arrasados. Por isso fazem criminosamente chover dia e noite sobre a Ucrânia dezenas de mísseis e de drones que visam destruir a infra-estrutura eléctrica do país. Já conseguiram desmantelar o sistema de abastecimento de água em Kyiv. Estes são crimes contra as populações civis, muito próximos da figura jurídica do genocídio. Os comentadores que não denunciem essas práticas, são, no meu modo de ver, cúmplices desses crimes.”

OPINIÃO

Escrever sem mencionar o Campeonato Mundial de Futebol, que se iniciou esta semana no Qatar, poderia ser visto como pedante. Nessa armadilha, não quero cair. Assim, do que se passou até agora, saliento a coragem da selecção iraniana, que permaneceu em silêncio, sem o cantar, quando o seu hino nacional foi tocado.

Essa atitude foi extraordinária. Marcou de modo expressivo o apoio dos jogadores ao povo do seu país, que está há semanas nas ruas a desafiar o poder medieval dos clérigos xiitas e a lutar pela liberdade e a igualdade no tratamento de todos, homens e mulheres. Não se trata de misturar futebol com política.

Há outros, no topo de Estado, a fazê-lo. É, sim, lembrar que os direitos humanos devem estar acima de tudo. Sempre que se fizer política nessa base, ao nível doméstico e internacional, o mundo será muito diferente, mais harmonioso e benevolente. E menos cínico, no campo político.

O espectáculo que decorre no Qatar serve para nos recordar três factos maiores. Primeiro, a diversidade das nações do globo. A cultura de cada uma delas deve ser respeitada e apreciada.

Temos sempre a possibilidade de aprender algo com os outros. E não há lugar para o racismo, nem no desporto nem na vida quotidiana. Segundo, há rios de dinheiro em torno do futebol. Já não falo dos milhares de milhões gastos pelo país anfitrião.

Menciono, apenas, que as grandes selecções de futebol estão no hemisfério norte: dos 32 participantes no torneio, cerca de 22 provêm dos países mais ricos. O jogo é praticado em quase todos os cantos do mundo, as grandes estrelas são conhecidas por toda a parte, mas sem recursos não há vitórias, sem moeda sonante os clubes e as selecções não passam da cepa torta.

Terceiro, o futebol faz reviver os nacionalismos primários, o vale tudo desde que se ganhe, incluindo a bênção da mão de Deus, na célebre versão de Maradona. Não é o melhor que deve ganhar, mas sim a minha selecção. Isso não é desporto, é a cegueira do vale tudo, de velinha acesa e fé em Deus.

Por falar em velinhas, lembro que os militares de Vladimir Putin estão a tentar reduzir a Ucrânia a um país que deverá passar o inverno à luz das candeias.

Essa é a táctica russa para os meses do frio: uma rendição da Ucrânia com base no sofrimento dos ucranianos, em casas geladas e sem água, em empresas paradas, em hospitais arrasados.

Por isso fazem criminosamente chover dia e noite sobre a Ucrânia dezenas de mísseis e de drones que visam destruir a infra-estrutura eléctrica do país. Já conseguiram desmantelar o sistema de abastecimento de água em Kyiv.

Estes são crimes contra as populações civis, muito próximos da figura jurídica do genocídio. Os comentadores que não denunciem essas práticas, são, no meu modo de ver, cúmplices desses crimes.

Mas a táctica russa poderá não resultar. Não há nenhum indício visível de negociações e quem fala de um ultimato russo deve ser frequentador habitual das ruas do desvario.

É verdade que a Rússia dá sinais de querer negociar, não só por estar a perder no terreno, mas também por causa do isolamento diplomático que a guerra lhe tem provocado. Mas não quer aceitar a única possibilidade de acabar com a guerra: uma retirada negociada dos territórios ocupados.

Do lado ucraniano, a resposta política foi transmitida ao G20 pelo presidente Zelensky. E a resposta militar assenta em dois grandes pilares: no reforço da defesa antiaérea e na preparação e contínua projecção de vários grupos de operações especiais.

Estes grupos funcionam como pontas de lança, capazes de se infiltrar para lá da margem leste do rio Dnipro, para além de Kherson e no Donbass, de se aproximar das zonas costeiras do mar de Azov, da Crimeia inclusive.

Deverão causar grandes estragos e debandadas às massas de recrutas russos, que não têm experiência de guerra e que pelo seu número e necessidades logísticas são um alvo relativamente fácil de identificar.

O objectivo é atingir o moral russo. Uma vez tal conseguido, tudo pode acontecer, ou no Kremlin ou à mesa das negociações. Mas, sobretudo no Kremlin. Sem comparações com Doha, a verdade é que ainda não se sabe como nem quando terminará o embate.

Conselheiro em segurança internacional.
Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

Diário de Notícias
Victor Ângelo
25 Novembro 2022 — 06:20



 

797: Do G20 ao inverno ucraniano

“… não subscrevo a teoria delirante desta ser uma guerra entre a Rússia e os EUA, utilizando a Ucrânia como pretexto. Esta é uma invasão decidida por Vladimir Putin. Tem como vítimas o povo, a cultura e as aspirações democráticas ucranianas. Apregoar que é um confronto entre a NATO e o povo russo é fazer o jogo de Putin e da sua clique corrupta de oligarcas e de criminosos de guerra.”

OPINIÃO

A reunião do G20 na Indonésia decorreu de uma forma construtiva. Apesar da guerra na Europa, das tensões à volta de Taiwan, da existência de vários conflitos em diversas partes do globo, da rivalidade entre a China e os EUA e de outros desafios, os líderes presentes em Bali quiseram transmitir uma mensagem positiva. As discussões de grupo e as reuniões bilaterais foram intensas.

A declaração aprovada foi engenhosamente trabalhada pelo presidente indonésio, Joko Widodo, à volta dos grandes temas que exigem uma cooperação económica global – a transição energética, o clima, as pandemias, a segurança alimentar, a fluidez do comércio internacional e das cadeias de abastecimento, a dívida pública dos países mais vulneráveis e a transformação digital.

A preocupação de fundo foi a de manter a dimensão económica como o eixo central do G20. Mas a cimeira não podia ignorar o que se passa na Ucrânia. Assim, a questão ucraniana ocupou uma parte dos debates e foi incluída na declaração final, onde surge como uma preocupação de topo.

No essencial, os membros do G20 sublinham ser inadmissível o recurso ou a chantagem às armas nucleares, e defendem o primado da resolução pacífica dos conflitos e os princípios da Carta das Nações Unidas. A maioria dos participantes exige que a investida termine, se aplique um cessar-fogo e se defina um acordo de paz duradouro para a região.

O debate sobre esta crise mostrou claramente o isolamento político internacional em que Vladimir Putin colocou a Rússia. Mesmo quando a declaração final diz que existem outras maneiras de ver as causas do conflito, não houve hesitação em citar que a Assembleia Geral da ONU já havia condenado a agressão russa.

O Presidente Volodymyr Zelensky, que tinha recebido um convite especial para uma intervenção por vídeo-chamada, percebeu a atmosfera existente na sala e, por isso, apresentou um plano de paz com uma dezena de pontos.

É um plano coerente, que pode ser resumido assim: retirada das forças invasoras de todos os territórios ucranianos; punição dos criminosos de guerra; compensação dos danos causados à Ucrânia; realização de uma conferência sobre a segurança e a boa vizinhança naquela parte da Europa.

É evidente que Putin não irá aceitar no futuro próximo qualquer discussão nessa base. Qual poderá então ser a evolução provável do conflito? E que devem fazer os aliados da Ucrânia? Pergunto assim porque não subscrevo a teoria delirante desta ser uma guerra entre a Rússia e os EUA, utilizando a Ucrânia como pretexto.

Esta é uma invasão decidida por Vladimir Putin. Tem como vítimas o povo, a cultura e as aspirações democráticas ucranianas. Apregoar que é um confronto entre a NATO e o povo russo é fazer o jogo de Putin e da sua clique corrupta de oligarcas e de criminosos de guerra.

O conflito deve evoluir no sentido do reforço político-militar da Ucrânia. Só desde 24 de Fevereiro, a ajuda militar norte-americana já anda à volta de 18,2 mil milhões de dólares. Deve continuar, quer com artilharia de longo alcance e de última geração, quer ainda com o fornecimento de meios de defesa antiaérea.

Do lado europeu, a assistência militar deverá atingir os 18 mil milhões, em 2023, no que respeita ao apoio humanitário e ao funcionamento da administração pública. Estes montantes são significativos. São, porém, indispensáveis para manter as capacidades combativas e administrativas da Ucrânia.

E representam muito menos dinheiro que os mais de 55 mil milhões gastos anualmente com a controversa Política Agrícola Comum. E a Ucrânia já mostrou que sabe transformar esses fundos em vitórias contra os ocupantes.

E as negociações de paz, são para quando? Dependem fundamentalmente da posição russa. Se tomarem a decisão política de se retirar – o que deveriam fazer já -, a Ucrânia poderá negociar uma retirada ordenada e o tipo de relações que deverão existir entre estes dois vizinhos. Infelizmente, não vejo no horizonte nenhum processo negocial virado para a paz. Nem mesmo para um cessar-fogo.

Antes pelo contrário, os ucranianos têm de manter a pressão operacional sobre as forças invasoras durante todo o inverno, para evitar que elas aproveitem qualquer tipo de pausa para se reorganizarem ou se reabastecer. Mesmo no tempo da chuva e da neve, a contra-ofensiva ucraniana não pode ficar congelada.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

Diário de Notícias
Victor Ângelo
18 Novembro 2022 — 00:30



 

660: Da COP27 à cimeira do G20

OPINIÃO

Está a decorrer em Sharm el-Sheikh, na famosa estação balnear egípcia, a 27.ª conferência das Nações Unidas sobre as alterações climáticas – a COP27.

Trata-se de um longo processo, que se iniciou em 1992, na chamada Cimeira da Terra, no Rio de Janeiro. Foi então, há trinta anos, que se começou a pensar numa resposta global às consequências dramáticas das alterações climáticas.

Esta feira anual é, na minha opinião, a reunião mais frustrante da ONU: os participantes sabem o que é preciso fazer – e não é feito! – para reduzir as emissões de gases nefastos e atenuar as alterações climáticas.

Mais ainda, há cada vez menos gente a negar a evidência de que estamos numa trajectória destruidora do planeta, excepto talvez os admiradores do intelectualmente desonesto Donald Trump e os magnatas do petróleo.

Apesar disso, cada nova COP serve apenas para repetir o que já foi dito, para reconhecer que se bateram novos recordes de poluição em terra, nos rios, oceanos e atmosfera, que milhares de organismos vivos estão a desaparecer rapidamente e que os fenómenos meteorológicos extremos são cada vez mais numerosos e de maior impacto. Sendo que apenas 24 países dos 193 que compõem as Nações Unidas têm um plano oficial sobre a acção climática.

No caso português, foi aprovada a Lei de Bases do Clima (Lei nº 98/2021, de 31 de Dezembro), mas falta lançar um debate nacional sobre o problema. Ora, em virtude da sua localização geográfica, todo virado para o Atlântico e a dois passos do Sahel, Portugal é um dos países europeus mais vulneráveis em matéria de alterações climáticas.

Está sujeito a longos períodos de seca, à contínua desertificação de partes do território nacional, incluindo às poeiras vindas do Norte de África, à erosão e a tempestades marítimas, à ocorrência de incêndios de grande envergadura, bem como a um caótico, primitivo e ganancioso desordenamento do território. No seu conjunto, este é um tema que por sistema não aparece nas discussões que têm lugar na nossa praça pública. Por que será?

Nesta COP27, o exemplo que todos têm presente refere-se às recentes cheias no Paquistão, que trouxeram um enorme nível de miséria adicional a cerca de 33 milhões de pessoas e fizeram a economia nacional e familiar perder mais de 40 mil milhões de dólares americanos.

Mas não há acordo sobre quem deve pagar os prejuízos e ajudar a população paquistanesa, que contribui menos de 1% para a emissão total dos gases que provocam o aquecimento global, e que é, e continuará a ser, uma das nações que mais sofrerá com o aumento médio das temperaturas.

Temos aqui, aliás, quatro das grandes questões que estes encontros não conseguem resolver.

Por um lado, a questão do financiamento de tudo o que tem de ver com a prevenção, o combate e a resposta às alterações climáticas. Por outro, o reconhecimento de que as consequências mais negativas ocorrem nos países mais pobres. A destruição da natureza, dos recursos básicos e das infra-estruturas prejudicam de modo particularmente grave esses países.

Como terceiro aspecto, os países mais desenvolvidos são, de longe, os maiores poluidores e por isso devem aceitar o princípio que quem mais polui mais deve contribuir para um fundo comum, que financie a regeneração da natureza, as vítimas dos desastres naturais e dos câmbios climáticos bem como o desenvolvimento das fontes renováveis de energia.

Finalmente, um quarto ponto fundamental: os países mais ricos têm de reestruturar sem demoras o seu modo de vida, que é, de longe, o factor determinante para o aumento das fragilidades dos povos mais vulneráveis e da natureza.

Os últimos dias da COP27 coincidem com a realização em Bali, na Indonésia, da Cimeira do G20 deste ano (15-16 de Novembro). Os países do G20 são responsáveis por mais de 80% das emissões globais de gases de efeito de estufa.

Um dos três temas centrais deste G20 é sobre a Transição Energética Sustentável, sendo os outros dois dedicados à saúde num mundo global e à transformação digital.

Seria marcadamente importante ver os líderes dos estados mais ricos do mundo, e que mais poluem, dar uma enfâse política e pragmática especial ao que vier a ser aprovado em Sharm El-Sheikh.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

Diário de Notícias
Victor Ângelo
11 Novembro 2022 — 00:25



 

586: Falar da guerra, para construir a paz

“… É fundamental derrotar uma filosofia política que, estando à cabeça do maior país do nosso continente e de um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, olha de alto para nós de modo imperial.”

OPINIÃO

Este ano, a cena internacional não tem sido falha de acontecimentos trágicos. E ainda não sabemos em que fase da tragédia nos encontramos. O enredo faz pensar no Templo da Sagrada Família em Barcelona, obra-prima de Gaudí: vai sendo construído, conforme se pode.

Todavia, num contexto bem mais complicado, pois não se percebe como irá acabar nem quem irá colocar a última pedra no edifício, se edifício terminado vier a haver.

Como disse Vladimir Putin, no fórum anual do Clube de Valdai, na semana passada em Moscovo, “temos provavelmente à nossa frente a década mais perigosa, imprevisível e ao mesmo tempo a mais importante desde o fim da Segunda Guerra Mundial”.

Sabe do que fala, por ser um dos principais arquitectos da crise actual. Porém, à velocidade a que os acontecimentos estão a evoluir, uma década afigura-se como um tempo sem fim. Tudo pode acontecer amanhã ou nos dias seguintes.

É esse o meu alerta. Começa a ser urgente travar Putin tão rapidamente quanto possível. Infelizmente, ao ponto a que as coisas chegaram, já não se trata apenas de pôr um termo à agressão contra a Ucrânia. É isso e muito mais.

É fundamental derrotar uma filosofia política que, estando à cabeça do maior país do nosso continente e de um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, olha de alto para nós de modo imperial.

Contrariar essa visão imperialista não quer necessariamente dizer guerra, que é um horror que as nações civilizadas não desejam e uma palavra que já não se usa na linguagem europeia contemporânea, nem mesmo por quem manda executar “uma operação militar especial”.

Não se trata também de procurar criar um impasse, porque os últimos meses já mostraram que a dissuasão tem os seus limites e os conflitos congelados são como vulcões adormecidos. Tratar-se-ia, numa primeira fase, de definir claramente um conjunto de condições, que o Kremlin teria de respeitar.

Não seria um ultimato, mas um enunciado claro de um conjunto de regras básicas de boa convivência entre Estados vizinhos. Perguntar-me-ão quem estabeleceria essas linhas vermelhas. O ideal seria a União Europeia ou a Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE). Mas não tenhamos ilusões.

Nem uma nem a outra têm a unidade política necessária. Também não podem tais linhas ser definidas por uma organização de natureza militar, pois conviria que fossem acima de tudo políticas, diplomáticas, financeiras, económicas e comerciais, complementares às decisões do G7, mas fora desse grupo, para permitir a participação de pequenos Estados vizinhos da Rússia.

A hipótese mais viável seria a de um conjunto de países europeus, todos membros da NATO, uma mistura de músculo económico com uma forte determinação política e a capacidade de recorrer à protecção da Aliança Atlântica, em caso de necessidade.

Essa coligação ad-hoc adoptaria uma hostilidade híbrida, mas suficientemente clara, em relação ao poder de Putin. Este teria apenas duas opções: ou responder na mesma moeda híbrida, o que pouco afectaria esses países, ou sonhar com uma resposta bélica, o que traria de imediato a NATO para o teatro de operações.

A minha leitura é que Putin não quer entrar num conflito armado com a NATO. As conclusões que está a tirar da campanha contra a Ucrânia parecem óbvias: a parte clássica das forças armadas russas é mais fachada do que realidade; milhões de cidadãos russos descrêem da necessidade da guerra; a capacidade logística das forças armadas nacionais roça o medíocre; e os estrategas militares têm medo dos políticos e de lhes contar a verdade nua e crua.

Na realidade, apelo claramente ao uso máximo da força política, nas suas múltiplas vertentes, por estar convencido que estamos a chegar a uma encruzilhada: por um lado, existe no horizonte um sério risco do alargamento do conflito, para além das fronteiras da Ucrânia; por outro, a liderança russa poderá estar agora mais pronta do que há uns tempos para iniciar um processo de negociações.

O volte-face respeitante à circulação dos navios cerealíferos – o Kremlin passou de uma posição muito dura a uma moderada num par de dias, sem que houvesse qualquer razão que justificasse a mudança de política – significa, no meu entender, que há vontade de sair do imbróglio em que se meteram a 24 de Fevereiro.

Por isso, este meu texto é, acima de tudo, uma chamada de atenção: se se apertar o Kremlin com a sabedoria política necessária, é possível que se possa começar a falar de um processo de paz a breve trecho.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

Diário de Notícias
Victor Ângelo
04 Novembro 2022 — 00:50



 

500: Rishi Sunak e o perigo das maiorias de poder absoluto

– …“A convicção de que a política é um serviço público, um compromisso patriótico, um sacrifício pessoal, parece andar muita afastada das inquietações dos políticos.”

OPINIÃO

A confusão política no Reino Unido nas últimas semanas veio avivar-me três ideias. Primeiro, que um governo de maioria absoluta tem uma enorme propensão para cometer erros políticos graves.

Segundo, que tende a agravar esses erros, continuando a cavar o buraco aberto, para tentar disfarçar as asneiras cometidas, sem dar parte de fraco. Terceiro, que a liderança de um governo desse tipo é uma questão fundamental.

Regra geral, o líder rodeia-se de fiéis servidores, de ministros e conselheiros cuja carreira política depende do chefe e por isso, não ousam criticar ou dar um parecer que não seja do agrado do seu patrono.

Dito sem rodeios, as maiorias absolutas permitem, tantas vezes, que haja estabilidade no quadro de uma governação errada, oportunista, corrupta, mesmo, e feita de clientelas políticas.

Prefiro as coligações governativas, como existem nos países mais avançados da Europa. Só assim se consegue ter em conta os interesses dos diversos segmentos que compõem as nossas realidades sociais.

As sociedades europeias actuais são complexas e não podem ser reduzidas aos velhos conceitos, extremamente redutores, de esquerda ou direita, de socialistas, por um lado, e conservadores, por outro. Isso são estórias do século passado.

O conceito de democracia parlamentar tem de evoluir, ir além da noção de metade mais um, e reflectir a heterogeneidade dos tecidos sociais que definem as sociedades plurais de hoje. É altura de passar às maiorias qualificadas e às coligações políticas que respondam às preocupações de uma proporção considerável dos cidadãos.

A boa liderança define-se pela capacidade de criar alianças alargadas. Do outro lado, a má liderança caracteriza-se pelo desprezo pelas oposições, o sarcasmo parlamentar e a incapacidade de estabelecer um diálogo produtivo com as forças concorrentes. A arrogância de um governante é a sua pior conselheira.

Não sei se Rishi Sunak, o novo-primeiro ministro britânico, ou outros mais perto da nossa porta, têm alguma noção do que acabo de escrever. Até podem ter, mas o seu desassossego continua a ser o de manter o controlo do poder, pelo poder, na vã glória de mandar, e não necessariamente por um futuro melhor para as suas respectivas nações.

A convicção de que a política é um serviço público, um compromisso patriótico, um sacrifício pessoal, parece andar muita afastada das inquietações dos políticos.

A impressão que fica é que veem o poder como uma questão narcisista e um espectáculo de opereta, em que os coches e os vestidos de gala passaram a ser substituídos por carros de grande cilindrada e a projecção frequente do seu ego na praça pública.

Sunak foi buscar os actores que haviam servido no governo de tolos de Boris Johnson e mais um ou dois radicais, como a ministra do Interior, Suella Braverman, para tentar um equilíbrio impossível, no seio do Partido Conservador. Deveria ter ido à procura de caras novas, que era isso que uma boa parte dos eleitores esperaria.

Tinha 357 membros do parlamento por onde escolher. Voltou aos mesmos e perdeu assim a oportunidade de mostrar que tem coragem política e de que fala a sério, quando advoga o rejuvenescimento da classe dirigente.

Cometeu o mesmo erro de outros, noutras paragens, que trazem para o governo quem os serviu nas câmaras municipais ou em gabinetes ministeriais passados. Um líder rodeado de fiéis servidores é um político a caminho da derrocada.

Na realidade, tudo isto mostra que dois fantasmas continuam a vaguear pela política britânica, e a aterrorizá-la. Um deles, é o fantasminha extravagante de Boris Johnson, que embora tenha perdido influência, continua a fazer medo e a ser uma personalidade de referência para uma parte da população, graças aos favores que goza em certos meios ultranacionalistas da comunicação social, sobretudo ao nível dos tablóides. Mas o fantasma gigante é o Brexit.

Hoje, existe uma maior consciência de que a saída da UE foi um erro histórico. Só que os dirigentes dos principais partidos não ousam voltar a colocar a questão em cima da mesa. Nem mesmo os Trabalhistas. É um fantasma intocável, cuja dessacralização seria capaz de fracturar as famílias políticas.

Por isso, com Rishi Sunak ou com o líder trabalhista, Keir Starmer, o Reino Unido irá perdendo peso. Até do ponto de vista militar, o que é bem preocupante, se olharmos para o horizonte de gravíssimos desafios que as democracias europeias têm pela frente.

Conselheiro em segurança internacional
Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

Diário de Notícias
Victor Ângelo
28 Outubro 2022 — 00:21



 

461: O futuro de Xi Jinping e o nosso

OPINIÃO

Na semana em que decorre o 20.º Congresso do Partido Comunista Chinês (PCC), confesso-me um leitor assíduo de Confúcio. Por isso e pelo respeito que tenho pela cultura chinesa, lamento a ausência dos seus aforismos como fontes de inspiração na reunião magna do PCC.

Por exemplo, Confúcio defendia que cada um, sobretudo quem exercesse a autoridade, cumprisse o seu dever de forma verdadeira, com sinceridade, integridade e coragem moral.

Não creio que os cerca de 2.300 delegados ao congresso estejam a proceder assim. Limitam-se a bater palmas e a vergar a mola ao chefe do partido, Xi Jinping.

O congresso é um mero ritual de consagração do culto da personalidade do líder. Uma extraordinária encenação política, em que cada um se limita a desempenhar a coreografia que lhe foi atribuída.

O próprio Xi, que de certeza leu Confúcio, deve ter-se esquecido de uma das lições que considero particularmente importantes. “Havia quatro coisas com as quais o Mestre recusava ter qualquer relação: recusava-se a fazer conjecturas ou a ser dogmático; recusava-se a ser inflexível ou egocêntrico” (Livro IX, § 4 dos Analectos).

As imagens do congresso mostram Xi Jinping no centro de tudo, com um discurso rígido sobre Taiwan, Hong Kong, Xinjiang e o problema uigure, e ataques acirrados contra os EUA e o Ocidente. Muitos dos actuais dirigentes, se pudessem, não teriam aprovado a nomeação de Xi para um terceiro mandato.

A eternização do líder recordar-lhes-á os tempos loucos e tenebrosos de Mao Zedong. A prática fora abolida pouco tempo depois da sua morte, para evitar uma repetição dos extremismos e da violência da época maoista. Voltou agora, por vontade de Xi.

A convicção de que o Ocidente está em decadência, e que a China será a super-potência de amanhã, é um erro perigoso. Voltando aos ensinamentos de Confúcio, ele tinha por hábito repetir que, numa sociedade disciplinada e bem governada, deve haver espaço para a crítica e para a contestação ordenada dos líderes e das instituições.

Caso contrário, mais tarde ou mais cedo, instalar-se-á uma ditadura e todas as ditaduras, sobretudo quando se trata de subjugar 1,4 mil milhões de cidadãos, levam fatalmente à explosão social. Mesmo num país tipo Big Brother, onde existe uma câmara de vigilância para cada sete cidadãos e toda uma parafernália de controlos por inteligência artificial.

Uma ditadura, sobretudo quando as dificuldades económicas se começam a fazer sentir – a taxa de desemprego jovem é de 20% na China -, é, na hora da verdade, um gigante com pés de barro. Por muitas diferenças culturais que possam existir entre a população chinesa, o resto do mundo e nós, a aspiração pela liberdade é algo de universal.

Essa é, na minha opinião, a principal fragilidade da China de hoje, com um regime não apenas de partido único, mas acima de tudo, com um líder incontestável. Um regime ditatorial não é sólido. Tem uma força e estabilidade aparentes, mas com o tempo, por várias razões possíveis, acabará por ruir.

Isto não significa que não reconheça os progressos obtidos nos dez anos da governação de Xi Jinping. Quero, no entanto, sublinhar que ele deveria ter permitido a renovação da direcção política do país, incluindo a promoção de uma nova geração de mulheres dirigentes – os órgãos principais do PCC são compostos de homens de fato escuro, cabelos pintados de preto, para esconder a idade, 24 no Politburo, e apenas uma mulher, nenhuma na Comissão Política Permanente.

E que, passados dez anos no poder, o congresso deveria ser o momento de fazer o balanço e de ceder o cargo, como fora estatuído há quatro décadas.

Agora, para se manter na liderança, precisa de um argumento forte. Esse argumento é Taiwan. Xi precisa de controlar as empresas produtoras de microprocessadores da geração mais recente, que são em grande parte produzidos em Taiwan.

Sem esses chips não poderá fazer avançar rapidamente a sua produção de sistemas militares avançados, hipersónicos, autónomos (inteligência artificial) e de vigilância e espionagem em larga escala. Recentemente, os EUA dificultaram ainda mais o acesso de Beijing a essas tecnologias. Há que ir buscá-las a Taiwan. Por outro lado, Xi Jinping quer ficar na história da China como o reunificador do país.

Conseguiu controlar Hong Kong e subjugar Macau. Mas o grande troféu chama-se Taiwan. Pode, no entanto, ser uma ambição desastrosa, para a China, para a região e para uma boa parte do nosso mundo.

Conselheiro em segurança internacional
Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

Diário de Notícias
Victor Ângelo
21 Outubro 2022 — 00:27



 

394: Quanto vale o optimismo?

OPINIÃO

Podemos entrar no último trimestre de 2022 com uma nota de optimismo, de esperança que a parte final deste ano possa ser um tempo positivo de viragem? Pergunto isto sabendo que é muito difícil, numa situação tão complexa e perigosa como a que agora vivemos, ser-se ao mesmo tempo realista e optimista. O optimismo é uma postura combativa, uma interpretação dos factos que procura sublinhar as tendências positivas.

O optimismo constrói-se e faz falta. Mas não pode ser um exercício de ilusão ou de engano. A situação actual é demasiado grave, não se compadece com fantasias, ausências de realismo ou matreirices políticas, como por aí vemos.

Alguns dirão que as presentes ofensivas ucranianas e as dificuldades políticas que Vladimir Putin tem encontrado na sua frente interna são animadoras.

A curto prazo, podem ser vistas assim. Mas ainda estamos muito longe do fim da agressão. O regresso à paz tem custos enormes, que a Ucrânia não conseguirá suportar sozinha, sem uma ajuda permanente e efectiva dos seus aliados.

Ora, do lado europeu, as promessas são muitas – por exemplo, 10 mil milhões de euros prometidos como ajuda financeira pela Comissão Europeia e apenas pouco mais de mil milhões transferidos até esta data. É verdade que esta semana foi assinado um memorando entre a Comissão e a Ucrânia, que deverá libertar sem mais demoras 5 mil milhões.

Destinam-se ao pagamento dos salários e das pensões e aliviar um pouco a pressão sobre as finanças públicas ucranianas. E depois? A ajuda financeira, e não apenas a militar, vai ser necessária por muito tempo. Está a Europa pronta para tal? A resposta terá de ser afirmativa. Mas não são favas contadas.

Outro tipo de optimistas sublinhará que os mercados financeiros recuperaram bastante durante os primeiros dias de Outubro. Ignoram, todavia, que os investidores institucionais continuam a diminuir o peso das acções nas suas carteiras – uma atitude prudente de quem antevê uma grande crise económica – e que apenas os investidores individuais e os especuladores estão a colocar dinheiro no mercado accionista, muitos por tolice, e alguns porque há maneira de ganhar uns bons cobres numa situação de grande volatilidade.

Na verdade, os mercados financeiros andam aos pulos e aos saltos, mas a tendência é para voltar aos valores anteriores a 2020, antes da loucura que foi o tempo da pandemia e a derrocada de 2022.

Este outono e inverno serão um momento muito crítico para as economias e para a estabilidade política na Europa. Chegaremos ao fim ou mais coesos e com uma união mais forte, ou então profundamente divididos, com cada Estado a puxar a brasa ao seu umbigo nacional. Para se ir no bom sentido, será necessário actuar em três frentes.

Num acordo sobre as questões energéticas, com um quadro de referência comum, que seja respeitado por todos. Num apoio sem falhas à luta legítima e vital pela soberania e a democracia na Ucrânia. E numa posição firme, inequívoca e certeira – estratégica – perante as ameaças de Vladimir Putin.

Aqui, no caso do Kremlin, temos de compreender que as questões centrais são duas: estão Vladimir Putin e a sua clique, Dmitry Medvedev, Nikolai Patrushev, Mikhail Mishustin e outros, numa trajectória suicidaria, como as suas declarações sobre o recurso a todo o tipo de armamentos o fazem pensar? E o que devemos fazer para evitar uma tragédia desse género?

Não menciono o tchetcheno Ramzan Kadyrov, porque os russos que detêm o poder federal o olham do alto da sua xenofobia de eslavos como um peso pluma marginal, pouco mais do que folclore. A sua promoção a coronel-general é para o calar.

Tudo isto tem um preço – exige muitos sacrifícios, muito debate e clareza política sobre os cenários possíveis, os perigos maiores e as respostas mais adequadas. Na realidade, ser-se optimista tem custos, mas vale a pena. Temos de estar prontos para defender o nosso futuro.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

Diário de Notícias
Victor Ângelo
07 Outubro 2022 — 00:30



 

383: Os avanços da extrema-direita europeia: um novo normal?

OPINIÃO

Em Abril, num total de 199 lugares, Viktor Orbán passou a contar com 135 eleitos no Parlamento húngaro. Nas Legislativas de Junho, o partido de Marine Le Pen saltou de 8 para 89 deputados.

Há cerca de três semanas, o partido ultra-direitista Democratas Suecos conseguiu 20,5% dos votos e a coligação conservadora de que faz parte obteve a maioria na Assembleia Nacional da Suécia.

Agora, em Itália, a extrema-direita e os seus aliados conseguiram eleger cerca de três vezes mais deputados e senadores que o centro-esquerda.

O partido de Giorgia Meloni, o grande vencedor destas eleições, passou de 4% dos votos em 2018 para 26%. Esse partido, Fratelli d’Italia, foi o mais votado, apesar de as suas raízes serem de inspiração fascista.

A esta lista pode acrescentar-se o partido no poder na Polónia (Lei e Justiça), o Vox em Espanha, que já é a terceira força política no Congresso dos Deputados, a Alternativa para a Alemanha (AfD) e outros, incluindo o Chega.

A extrema-direita está a ganhar terreno no espaço europeu. Surge, assim, uma questão muito directa: o que leva os eleitores a votarem por Meloni ou pelos seus aparentados, nestes diferentes países?

Personalizo e digo Meloni, como diria Orbán ou Le Pen, ou mesmo Ventura, porque estes partidos são, de um modo geral, construídos à volta de uma personagem política, que encabeça a agremiação e procura fazer coincidir a imagem do partido com a do líder. Ainda agora, Fratelli d’Italia nos mostrou este facto: o nome da dirigente aparece primeiro e é escrito em letras mais gordas do que o nome do partido.

O partido é uma mera câmara de eco, que existe apenas para repetir e amplificar a mensagem do chefe. Nestes partidos extremistas não existe um directório político. O líder é o pastor de um aglomerado de carneirinhos, ao qual se misturam alguns lobos esfomeados de poder.

Para responder à questão, creio poder dizer que se vota nessa gente por três razões principais.

Porque eles são ultranacionalistas e profundamente conservadores, numa altura de incertezas, de medos colectivos e de grandes confusões em termos de valores culturais e sociais.

As fronteiras nacionais e a tradição oferecem, a muitos eleitores, um refúgio que eles não descortinam nos espaços mais vastos, do tipo UE, nas alianças entre países ou nas instituições multilaterais.

Também, porque esses partidos encenam pôr em causa as elites, incluindo os oportunistas da política, mostrando, ao mesmo tempo, roupagens de ocasião em defesa dos cidadãos comuns. Giorgia Meloni insiste, frequentemente, nas suas origens proletárias, para sublinhar que é uma das nossas e não o produto das classes tradicionalmente dominantes e de nome sonante.

Ainda, porque os partidos que representavam o protesto, o descontentamento social, desapareceram da cena política, como é o caso dos comunistas por essa Europa fora, ou passaram a fazer parte do centro moderado, dentro ou às portas dos governos.

Já os novos movimentos de protesto, à esquerda, gastam demasiado tempo com questões comportamentais, que interessam apenas a certas franjas sociais, e não dão uma atenção suficiente aos problemas do quotidiano dos mais vulneráveis.

São, na realidade elitistas de um outro tipo, uma pequena burguesia intelectual desconectada de quem tenta sobreviver no labirinto suburbano da vida.

É assim que se cultiva e crescem as Meloni de hoje. O simplismo das soluções que propõem faz o resto.

Os italianos votaram como melhor lhes pareceu. O que me preocupa, enquanto europeísta, não é a visão da futura primeira-ministra. Parece ter a astúcia política suficiente para compreender que uma cadeia de confrontações com Bruxelas não beneficia a Itália.

E que o apoio à Ucrânia é no interesse de todos nós. Também não vejo grandes problemas do lado de Sílvio Berlusconi, que deverá ficar tranquilo com a presidência do Senado. Preocupa-me, isso sim, Matteo Salvini, um xenófobo militante que desconhece o que significa o realismo político.

Aquilo que agora parece uma aliança estável, para uma legislatura – coisa inédita na Itália moderna -, tem imensas fragilidades internas. Que serão agravadas pelas fracturas existentes no país e pelos problemas que a UE tem pela frente. Veremos.

Conselheiro em Segurança Internacional.
Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

Diário de Notícias
Victor Ângelo
30 Setembro 2022 — 00:19



 

325: Putin procurou sequestrar a agenda da Assembleia Geral

OPINIÃO

António Guterres abriu a sessão de alto nível da Assembleia Geral das Nações Unidas deste ano com uma frase muito forte. Afirmou que estamos metidos, a nível mundial, numa grande embrulhada, perigosa e multidimensional: às fracturas geopolíticas e às alterações climáticas, acrescentou os riscos em matéria de segurança alimentar, a escalada dos preços dos bens essenciais, as desigualdades, os conflitos armados e a violência contra as populações civis, que causam tragédias humanitárias em vários países.

Perante tudo isto, e a paralisia dos mecanismos internacionais criados para resolver estes problemas, disse ver no horizonte imediato um inverno de descontentamento global.

Foi um discurso realista. Para evitar uma leitura inteiramente pessimista das suas palavras, Guterres propôs algumas medidas concretas e sublinhou que apenas a cooperação internacional – e não a política de blocos e de confrontação – poderá encontrar as respostas adequadas.

As medidas que propôs concentraram-se sobretudo nas áreas do apoio ao desenvolvimento e ambientais. Faltou uma referência mais política que sublinhasse o imperativo da reforma do Conselho de Segurança e uma exortação à Rússia para que cesse a agressão contra a Ucrânia.

Não obteria grandes resultados com esses apelos, é verdade. Mas, enquanto líder da ONU, teria sido fundamental mencionar essas duas questões, que se encontram no âmago e na génese de uma boa parte dos problemas actuais.

Este segmento da Assembleia Geral (AG) trouxe a Nova Iorque um grande número de chefes de Estado, de governo e de ministros dos negócios estrangeiros. Não vieram apenas por esta ser a primeira assembleia inteiramente presencial, depois das restrições impostas pela pandemia do coronavírus nos dois anos anteriores.

Vejo na grande afluência deste ano, e na azáfama diplomática que decorre em simultâneo com o plenário, indicadores claros da importância que muitos países continuam a atribuir ao pilar político das Nações Unidas. Este período oferece oportunidades inigualáveis para toda uma série de encontros entre os dirigentes políticos dos mais diversos pontos do mundo.

E a diplomacia é mais produtiva, quando se baseia em discussões frente a frente. A política internacional, aprendi ao longo da minha vida profissional, tem muito a ver com o tipo de vínculos que se conseguem estabelecer, com o relacionamento pessoal entre quem de facto detém o poder de decisão.

Guterres queria que a Assembleia Geral fosse abrangente e não apenas sobre a agressão contra a Ucrânia e as divisões que daí advêm. Em boa medida, os principais oradores procuraram responder a essa preocupação.

Mesmo aqueles que não podiam deixar de condenar a Rússia, como Emmanuel Macron, que fez um dos discursos mais incisivos e brilhantes, ou Joe Biden, abordaram os grandes temas de fundo e manifestaram a sua vontade de reforçar os mecanismos multilaterais.

Um exemplo disso foi a realização, em paralelo, de uma cimeira sobre a segurança alimentar, organizada conjuntamente pelos EUA, a UE e a União Africana.

Quem não quis ouvir o secretário-geral foi Vladimir Putin. Não só não veio a Nova Iorque – a última vez que participou numa AG foi em 2015 – como mostrou, uma vez mais, que sabe explorar os momentos mais oportunos para se tentar apoderar da agenda internacional.

Assim, no segundo dia da AG e nas vésperas de uma reunião extraordinária do Conselho de Segurança, ao nível ministerial – incluindo Sergey Lavrov -, o presidente russo ameaçou com uma nova escalada do conflito.

Anunciou uma mobilização militar excepcional, confirmou as farsas que serão os “referendos” desta semana nos territórios ocupados pela força e voltou a dar a entender que está pronto para utilizar todo o tipo de armamento, o nuclear incluído.

Estas declarações passaram a ser o tema dominante em Nova Iorque e empurraram os outros grandes desafios para o rodapé das discussões. Assim se vê que Putin é actualmente o grande desestabilizador da ordem internacional. Representa também um perigo muito real, que não pode deixar de ser levado a sério.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

Diário de Notícias
Victor Ângelo
23 Setembro 2022 — 00:15



 

283: O estado da UE é satisfatório

OPINIÃO

A Conferência sobre o Futuro da Europa terminou oficialmente em maio de 2022, após um ano de variados debates. Produziu 49 recomendações, que, tal como o resto da iniciativa, passaram ao lado do cidadão comum. Uma delas, apenas uma, foi mencionada no discurso desta semana de Ursula von der Leyen sobre o estado da União: dar uma atenção especial à saúde mental dos europeus, porque “muitos sentem-se ansiosos e perdidos”.

Compreendo a importância do assunto, sobretudo nestes tempos de incertezas, de fragilidades e de envelhecimento das populações europeias. Mas quem me parece andar verdadeiramente perdido são certos políticos, a começar por muitos no Parlamento Europeu (PE).

No exacto dia em que a presidente da Comissão Europeia (CE) discursou, o Diário de Notícias publicou uma entrevista com a líder dos socialistas europeus no PE, Iratxe Garcia Pérez. Foram três páginas de banalidades. Nada de excepcional: teríamos percorrido labirintos similares com muitos outros deputados europeus.

A intervenção de von der Leyen foi mais política e concreta, como seria de esperar. Deve ser considerada, no geral, como positiva. Seria um erro, neste momento de múltiplos desafios existenciais, procurar minar a autoridade da CE e, em particular, da sua presidente.

A crise criada pela agressão russa contra a Ucrânia foi um tema central – esta é uma guerra contra o nosso presente e futuro, contra a nossa democracia, parafraseando o que disse.

Abriu a hipótese do acesso livre da Ucrânia ao mercado único europeu, mas não mencionou, nem o deveria fazer, a não ser de modo muito subtil, o facto de que cerca de 50% do apoio militar prometido às forças armadas ucranianas pelos países da UE ainda estar na gaveta.

A Alemanha, o seu país de origem, é aliás dos mais reticentes e atrasados no fornecimento dessa ajuda, apesar de ter todas as condições materiais para o fazer. Essa é uma falha estratégica que Olaf Scholz e a sua coligação terão de corrigir sem mais demoras.

Poderia ter feito, isso sim, um apelo à continuidade da coesão entre os estados-membros, no que respeita às sanções contra a Rússia. Afirmou, é verdade, que as sanções são para durar. Mas é preciso insistir na importância da unidade de acção.

Existe o risco, após as eleições legislativas de 25 de Setembro, que o próximo governo italiano quebre essa unidade. A extrema-direita italiana, como também acontece noutras partes da Europa, está muito próxima das posições de Putin – e dos seus financiamentos. Vende facilmente a cooperação com Putin como se se tratasse de patriotismo.

Mas não é só na Itália, ou na Hungria de Orbán, ou na Suécia de agora. Na parte oriental da Alemanha está a ganhar força um populismo anti-sanções. Vamos ter um inverno difícil em termos de energia, de inflação e de descontentamento. Precisamos, por isso, de respostas e apoios concretos, e de narrativas políticas sinceras.

A questão da energia foi, efectivamente, um outro grande tema da comunicação de von der Leyen. A tributação, a título excepcional, dos lucros inesperados e injustificados das grandes empresas do sector renovável, do nuclear ou do carvão é uma proposta que merece ser apoiada.

Essas receitas fiscais extraordinárias devem, no entanto, ser utilizadas para ajudar directamente as famílias e manter em actividade as empresas economicamente viáveis, mas profundamente fragilizadas pelos custos extraordinários dos transportes, da electricidade e do gás.

Também frisou que este é o momento de investir em larga escala nas energias renováveis. E de avançar com a implementação dos planos nacionais de recuperação e inovação, aprovados no quadro do NextGenerationEU há quase dois anos, mas que continuam com uma taxa de execução bastante baixa – do pacote total de 800 mil milhões de euros, apenas cerca de 100 mil milhões foram utilizados até agora.

Temos uma Europa sem capacidade para aplicar, com seriedade e controlo, as somas necessárias à sua modernização e resiliência.

Não quero terminar sem referir que existem neste momento na UE 21 terminais portuários de Gás Natural Liquefeito (GNL). A Espanha tem o maior número: seis. Além disso, conta-se no espaço europeu mais 7 em construção e 24 em projecto. É um exagero incompreensível, quando a aposta futura é a de sair das energias fósseis.

Conselheiro em segurança internacional.

Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

Diário de Notícias
Victor Ângelo
16 Setembro 2022 — 00:21