675: A estrada menos percorrida

OPINIÃO

Na abertura da COP27, António Guterres pronunciou uma frase que terá feito pestanejar alguns chefes de Estado na estância turística de Sharm el Scheikh: “estamos numa autoestrada rumo ao inferno, com o pé no acelerador”.

Não sei se o SG da ONU se terá inspirado, ou não, numa frase impressa há 60 anos na obra seminal de Rachel Carson, Primavera Silenciosa, que abriu uma nova idade na consciência da crise ecológica e ambiental.

Também ela, bióloga com paixão por literatura, glosou um famoso poeta norte-americano quando escreveu: “Encontramo-nos agora numa encruzilhada, onde duas estradas divergem. Mas ao contrário das estradas do conhecido poema de Robert Frost [The Road not Taken, 1915] elas não são igualmente boas.

A estrada por onde há muito temos viajado é enganadoramente fácil, uma suave autoestrada na qual progredimos com grande velocidade, mas tendo no seu termo o desastre. A outra bifurcação da estrada, aquela “menos percorrida”, oferece a nossa última, a nossa única possibilidade de chegarmos à destinação que assegura a preservação da nossa Terra.”

Em 1962, quando Rachel Carson publicou o seu livro, a população mundial tinha atingido pouco mais de 3 mil milhões de almas. A concentração de dióxido de carbono na atmosfera tinha atingido 319 ppm (partes por milhão).

Nessa altura, as alterações climáticas eram um tema limitado apenas àquela pequena elite de cientistas mais preocupada com o futuro da humanidade do que com o avanço da sua carreira.

Neste mês de Novembro de 2022 galgámos a barreira dos 8 mil milhões de pessoas e atingimos em maio um pico de 421 ppm de CO2 (reconstruindo a concentração de há 3 milhões de anos).

Uma década depois de Rachel Carson, Donella Meadows e um grupo de colegas do MIT publicaram o notável relatório Os Limites do Crescimento, que hoje só podemos afirmar ter pecado por defeito (as alterações climáticas não eram ainda consideradas). Essa obra, tão corajosa como rigorosa, foi acolhida com uma enxurrada de insultos dos “optimistas” da esquerda e direita.

Por tudo isso, a pergunta correta que deveríamos colocar hoje é a seguinte: se não aceitámos os alertas de 1962 e 1972 — quando poderíamos, com alta probabilidade, ter conseguido uma mudança de modelo de civilização sem rupturas e um razoável grau de controlo — qual o sentido de esperar que em 2022 seja possível dar esse passo, que implicará dolorosas mudanças nos estilos de vida, em nome de um mundo habitável para os mais jovens?

Só poderíamos seguir a estrada “menos percorrida”, aceitando viver dentro dos limites biofísicos da Terra, se tivéssemos a bravura de derrubar o bezerro de ouro do crescimento económico exponencial e a mitologia do optimismo tecnológico. Infelizmente, os dirigentes que falaram depois de Guterres continuaram a acender velas à quimera do crescimento infinito, escoltado por uma séria de slogans vazios de conteúdo, como “economia circular” ou “crescimento verde”.

As próximas etapas da autoestrada do inferno já estão identificadas: primeiro, esburacar a litosfera e biosfera em busca de metais raros para a “transição energética”; depois, tentar travar o colapso ambiental com o aventureirismo febril da geoengenharia.

Para evitar esse destino, teríamos primeiro de nos cobrir de vergonha: pensámos a nossa identidade como livres filhos de Deus e, na verdade, comportamo-nos de acordo com os manuais de virologia: aniquilamos sem remorso a Terra, o corpo hospedeiro que nos deu e garante a vida.

Professor universitário

Diário de Notícias
Viriato Soromenho-Marques
12 Novembro 2022 — 00:07



 

595: O terramoto que ainda não acabou

OPINIÃO

Em 1955, no bicentenário do grande terramoto de Lisboa de 1 de Novembro 1755, o município da capital publicou uma antologia contendo os 3 textos de Kant (1724-1804), traduzidos por Luís Silveira, sobre essa catástrofe.

Os opúsculos de Kant – que procuravam explicar o grande sismo no quadro de leis naturais próprias autónomas, indiferentes tanto aos desígnios humanos como aos caprichos de uma qualquer divindade castigadora – são apenas uma parte dos muitos textos de grandes autores, como Voltaire e Rousseau, que foram profundamente afectados pela tragédia da mártir capital portuguesa, então uma das mais importantes cidades mundiais.

Ainda hoje abundam os ensaios que voltam à tripla catástrofe lisboeta (sismo, tsunami e incêndio) na perspectiva de avaliar o seu impacto filosófico e cultural na mudança da cosmovisão ocidental.

O que estava (e está) em causa consiste em compreender como o debate sobre o terramoto de 1755 provocou o corte abrupto com uma visão caracterizada pela confiança na bondade do mundo e no optimismo relativamente ao nosso lugar nele.

Os pensadores que mais influenciaram a primeira metade do século XVIII foram o alemão Leibniz, nos seus Ensaios de Teodiceia (1710), e o inglês Pope, no seu poema metafísico, Ensaio sobre o Homem (1732-4).

Leibniz ousou penetrar na mente divina, tentando decifrar o seu processo de escolha racional na criação do mundo. Concluiu que Deus era obrigado a “consentir” algum mal, como condição para que, na sua totalidade, este fosse o melhor dos mundos possíveis.

Numa linha, menos especulativa, mas convergente na substância, Pope vai defender que o mal é um erro da perspectiva humana. Nós não conseguimos vislumbrar “a grande cadeia do Ser”, na qual, tudo o que existe, mesmo o sofrimento, está no seu lugar necessário e adequado.

Foi precisamente contra esta lógica de alegre aceitação e submissão a um mundo de harmonia preestabelecida, que as interpretações da magna tragédia de Lisboa, por parte da inteligência europeia, se ergueram.

Como aceitar que 30.000 lisboetas tenham perecido, enquanto em Paris e Londres a vida continuava na sua distraída normalidade, perguntava Voltaire.

Como responsabilizar Deus pelos males do terramoto, quando Lisboa em vez de construir em extensão, amontoava os seus habitantes em 20 000 prédios de seis e até sete andares, admoestava Rousseau.

Kant, partiu da tragédia absurda de Lisboa para a sua grande aventura intelectual de refundar a filosofia através de uma crítica das potencialidades e limites da finita racionalidade humana. Importava não cometer o erro de confundir a vastidão do que podemos pensar com a exiguidade do que podemos conhecer. Depois do terramoto, Deus foi ilibado do mal.

A teodiceia eclipsou-se. A questão do mal passou a ser inteiramente da responsabilidade humana. O mal, transitou da especulação metafísica para o terreno de um bem maior a ser construído no tumultuoso campo da história.

267 anos depois desse dia crucial, onde nos encontramos nós? O saldo deste mundo, deixado sem reservas sob gestão e império humanos, só nos pode envergonhar: guerras totais, genocídios, holocaustos…e para cúmulo: o ataque sem tréguas contra a ecologia vital da nossa casa planetária e do nosso futuro comum.

Não surpreende que Martin Heidegger, numa entrevista à revista Der Spiegel, publicada a seu pedido só após a sua morte em 1976, tenha dito: “agora, só um deus nos poderá salvar”.

Professor universitário

Diário de Notícias
Viriato Soromenho-Marques
05 Novembro 2022 — 00:20



 

517: Frágil luz em noite espessa

OPINIÃO

Está a decorrer em Lisboa uma Conferência Internacional cujo tema é também um objectivo: “A Nossa Casa Comum é um Clima Estável”. Iniciativa do Grupo de Missão Clima Património Comum, que, sob coordenação da ONG Casa Comum da Humanidade e da Universidade do Porto, conta com o apoio institucional, entre outras entidades, da Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP).

Numa altura em que o sistema internacional se “esqueceu” das alterações climáticas para mergulhar na mais perigosa desordem desde 1945, esta conferência visa contribuir para lhe devolver um sentido de propósito e de unidade, através de uma revolução paradigmática (no sentido que Thomas S. Kuhn deu ao conceito em 1962) no direito internacional público.

A transição da breve e desastrada fase de poder unipolar dos EUA para um sistema multipolar regulado, com a estrutura multilateral das Nações Unidas como quadro de inclusão universal, poderá descarrilar numa guerra global, com consequências de malignidade incalculável. A Rússia teme os EUA. Os EUA querem evitar, por todos os meios, a afirmação da China como maior potência económica mundial.

Josep Borrell, o rosto da UE para um objecto inexistente (política externa e de segurança comum), confessou, num lapso de franqueza involuntária, a convicção profunda de quem governa os 27: a UE é um “jardim” que tem de ser defendido da “selva” (o resto do mundo) que a rodeia. Uma confissão do pânico de perder privilégios em estado quimicamente puro! O medo mergulha-nos na ira, faz-nos perder a lucidez, aprisiona-nos ao imediatismo.

O resultado é trágico. Temos hoje a humanidade fragmentada e à deriva, com os grandes do mundo a afiarem os seus machados de guerra e a voltarem as costas à marcha acelerada do colapso ambiental e climático global. O medo dos poderosos está a transformar a Terra num inferno para as gerações mais jovens e a intensificar o sofrimento e a pobreza à escala global.

Como sair deste letal labirinto? Criando uma ordem jurídica internacional em sintonia com o mais avançado conhecimento das ciências do Sistema-Terra sobre o nosso Planeta.

Desde 1988, que o estatuto jurídico do clima como “preocupação comum da humanidade” perpetua um equívoco grosseiro, que tem levado os Estados e os sistemas económicos sob sua jurisdição, a tratar o clima como nulidade jurídica e externalidade económica. Há aqui um duplo erro.

O primeiro, de diagnóstico, por desconhecer que o clima é uma “propriedade emergente”, resultante da combinação e equilíbrio de todos os campos e dinâmicas que constituem o software activo do Sistema-Terra (atmosfera, biosfera, etc.), absolutamente incompatível com a rígida concepção de soberania territorial prevalecente nas relações internacionais.

O segundo erro, de terapia, por conceber as negociações climáticas como um clube de poluidores, e não como uma assembleia universal permanente que incentive todos os contributos positivos para a preservação da estabilidade climática e ambiental global.

A proposta, já consagrada na lei portuguesa, do Clima como Património Comum da Humanidade (acalentada desde há 20 anos pelo incansável jurista Paulo Magalhães), oferece uma oportunidade única de viragem jurídica e ética para unir a humanidade na tarefa da salvação comum.

Que o novo nome da esperança seja proclamado em português, será a melhor homenagem à herança de Adriano Moreira que, tal como Vieira ou Pessoa, nunca deixou de conjugar a sorte de Portugal com o destino do mundo.

Professor universitário

Diário de Notícias
Viriato Soromenho-Marques
29 Outubro 2022 — 00:07



 

“Malhas que o império tece…”

– Só um “esclarecimento”: o 25’Abr’74 NÃO FOI UMA REVOLUÇÃO! As revoluções são feitas pelo Povo em armas. O que aconteceu foi um GOLPE DE ESTADO MILITAR que depois de executado, o povo apoiou.

OPINIÃO

O MFA, com a acção militar do 25 de Abril, permitiu a construção do período mais pacífico e democrático de sempre da nossa bissecular história constitucional.

Contudo, alimentar o mito de que se tratou de uma revolução que não foi paga com sangue e violência só diminui aquilo que Abril trouxe para a nossa vida colectiva. Vem esta reflexão a propósito de uma petição promovida por antigos militares africanos que lutaram na Guiné nas Forças Armadas Portugueses (FAP).

A pretensão desses militares, de lhes ser devolvida a nacionalidade portuguesa, foi noticiada pelo DN de 26 de Setembro, com um texto de Paula Sá e um artigo de opinião de um dos signatários da petição, Amadu Jao. O assunto é amplo, mas à partida gostaria de declarar que seria inaceitável essa pretensão não ser atendida.

Politicamente, o Estado Novo tem a responsabilidade histórica de ter desperdiçado o esforço de guerra dos 1.367,896 homens (443.649 dos quais de recrutamento local), que segundo o Estado Maior do Exército passaram pelas fileiras das FAP nas guerras do Ultramar entre 1961 e 1974.

Treze anos de sacrifícios e mobilização nacional – que fizeram Portugal ficar perto do Vietname do Norte no topo mundial da despesa militar – foram sacrificados à fantasia de uma guerra infinita, sem estar ao serviço de uma política que permitisse uma autonomia progressiva, sem exclusão de ninguém, dos territórios ultramarinos.

Essa teimosia conduziu ao preço maior da revolução de Abril, pago por milhões de cidadãos, vivendo sob a nossa administração, e que foram subitamente lançados para as tempestades da história.

Contudo, a jovem democracia não se encontra isenta de responsabilidades, em particular no caso dos antigos combatentes portugueses naturais da Guiné.

No Acordo de Argel, de 26 de Agosto de 1974, Portugal obteve do PAIGC a promessa de que os seus militares naturais da Guiné seriam respeitados, sendo até mencionado no artigo 26.º do Anexo a esse Acordo, que: “O Governo Português participará num plano de reintegração na vida civil dos cidadãos da República da Guiné-Bissau que prestem serviço militar nas forças armadas portuguesas e, em especial, dos graduados das companhias e comandos africanos.”

Portugal, comprometeu-se em troca, a “desarmar as tropas africanas” (artigo 17.º), pagando igualmente todos os vencimentos devidos até ao final de 1974 (24.º), e “…ainda as pensões de sangue, de invalidez e de reforma” devidas aos antigos combatentes com direito a tal.

Com uma vingativa brutalidade, o PAIGC, logo no Outono de 1974, começou a fuzilar os primeiros comandantes guineenses das FAP. Eduardo Dâmaso e Adelino Gomes referem numa investigação sobre o tema, que as certidões de óbito manifestavam uma rude sinceridade: “faleceu por fuzilamento”.

O tenente Abdulai Queta Jamanca foi o primeiro a ser assassinado. Quantos mais terão tombado? 700 parece ser o número mínimo. A cifra real poderá ser muito superior.

A investigadora da Universidade de Coimbra, Fátima da Cruz Rodrigues, especialista neste tema, também destaca a situação de crueldade excepcional a que foram submetidos esses combatentes, em comparação com os de Angola e de Moçambique.

A história não é um tribunal, nem serve para edificação das almas. O que esses guerreiros abandonados na derrocada do império pedem não é uma justiça impossível de satisfazer, mas o direito de acabarem os seus dias como cidadãos do país ao qual deram o seu sangue e confiaram as suas vidas.

Professor universitário

Diário de Notícias
Viriato Soromenho-Marques
08 Outubro 2022 — 08:26



 

388: Dentro do pandemónio

OPINIÃO

A sabotagem dos pipelines Nordstream 1 e 2 cortou brutalmente o cordão umbilical energético da Alemanha com a Rússia. Parece óbvio para todos de que se trata de terrorismo com origem num “actor estatal”, como disseram de imediato os responsáveis dinamarqueses e suecos. Inevitavelmente, Zelensky acusou a Rússia. Mas esse reflexo de Pavlov carece de justificação.

Seria totalmente irracional que Moscovo destruísse não apenas uma co-propriedade onde investiu 475 mil milhões de rublos, mas, sobretudo, seria absurdo que anulasse o seu instrumento principal de pressão contra as sanções da UE. Sem pipelines, Moscovo e Berlim ficam em mundos paralelos.

O jornal ECO noticiava que num tweet, Radoslaw Sikorski – ex-Ministro da Defesa e ex-MNE polaco, eurodeputado do PPE, e um peso pesado na política global -, agradeceu aos EUA os danos causados aos pipelines russos. Noutro tweet, Sikorski explicava que os “danos no Nordstream reduzem o espaço de manobra de Putin.

Se quiser retomar o fornecimento de gás à Europa, terá de conversar com os países que controlam os gasodutos Brotherhood [Ucrânia] e Yamal [Polónia]”.

O “agradecimento”, gravemente acusatório a Washington, vindo de um seu fã incondicional, apenas o compromete a ele. Contudo, revela também como os demónios europeus estão à solta.

O ódio à Alemanha, e não apenas à Rússia, faz hoje parte integrante da política oficial em Varsóvia, como ficou demonstrado no renovado pedido a Berlim por indemnizações pelas perdas da II Guerra Mundial.

A UE, que alguns adeptos do Dr. Pangloss consideram mais forte e unida do que nunca, recebe hoje sinais de menosprezo das chancelarias por esse mundo fora.

Com a CE de Von der Leyen, a “Europa Alemã”, que segundo o malogrado Ulrich Beck resultou da gestão da crise do euro por Angela Merkel, está febril. Para merecer respeito em política é preciso conhecer os seus interesses cruciais. E saber defendê-los.

A resposta europeia à invasão russa da Ucrânia foi desmesurada, ignorou completamente interesses e fragilidades, curvando-se num servilismo acrítico perante Biden. A coligação de Berlim destruiu, de um golpe, os alicerces de uma UE liderada pela Alemanha: segurança de abastecimento energético; estabilidade do euro; alguma (frágil) capacidade de manobra dentro da NATO.

Sem estratégia e à deriva, os próximos meses dirão até que ponto é que a estrada de auto-flagelação europeia terá alguma margem de mitigação.

A política em Portugal isolou-se numa exígua redoma de minudências. Os assuntos na agenda política minguaram. Para além de aceitarmos incondicionalmente a política monetária do BCE, já desistimos também de ponderar nas políticas externa e de defesa. Estamos a caminhar para uma situação em que a possibilidade de uma guerra nuclear limitada na Europa vai em crescendo.

E perante tal enormidade, escutamos o PM e o MNE a repetirem, mecanicamente, os mantras de Josep Borrell e de Jens Stoltenberg. Nem uma hesitação. Nem uma dúvida. Fica-nos como magna questão nacional, a eterna localização do novel aeroporto de Lisboa. Mesmo sem devastação bélica, a Europa empobrecida talvez acabe até por tornar excessiva a actual capacidade da Portela.

As torneiras que a Espanha fechou no Douro, congelando, com aviso prévio, a Convenção de Albufeira, dão-nos uma amostra da abundante solidariedade que nos aguarda num futuro cada vez mais fustigado pela crise ambiental e climática. Portugal foge da realidade, mas esta nunca se esquecerá de nós.

Professor universitário

Diário de Notícias
Viriato Soromenho-Marques
01 Outubro 2022 — 00:09



 

335: Da esperança à resistência

OPINIÃO

O Instituto de Ciências Sociais (ICS-UL) promoveu duas jornadas de reflexão sobre a primeira Conferência das Nações Unidas, realizada em Estocolmo, há 50 anos. Foi a ocasião para recordar, com olhar crítico e preocupações de futuro, os contributos pioneiros dessa conferência para uma consciência planetária sobre a crise global do ambiente.

Os seus impactos em Portugal foram especialmente analisados, evocando-se personalidades marcantes como José Correia da Cunha ou Gonçalo Ribeiro Telles. O que me parece mais notável, contudo, é o contraste entre 1972 e 2022.

Nessa altura a humanidade contava 3,8 mil milhões de almas. Hoje estamos à beira de 8 mil milhões de pessoas, lá para Novembro. As alterações climáticas eram um tema de debate científico, mas ainda não tinham começado a mudar o mundo de modo caótico, pela simples razão de que cerca de 80% das emissões antrópicas de gases de efeito de estufa – a causa motora da mutação climática – só ocorreram depois de 1972.

A diversidade biológica, apesar de muitas espécies já se encontrarem em perigo, era ainda pujante em comparação com a crítica situação da biodiversidade e dos ecossistemas em 2022. Mas a maior diferença parece-me residir no ânimo e na atitude. Em 1972, existia uma fortíssima esperança na capacidade humana para mudar o curso da história.

Em 22 de Abril de 1970, só nos EUA, mais de 20 milhões de cidadãos saíram às ruas a exigir políticas públicas de defesa do ambiente e da qualidade de vida. A 5 de Junho de 1973, foi celebrado em todo o mundo o Dia Mundial do Ambiente. Existiam problemas globais, sim, mas reinava uma dupla esperança.

Por um lado, a de que seria possível, uma habitação humana da Terra, que em vez de a destruir, respeitasse a sua generosa fertilidade sem ultrapassar os seus limites. A confiança, por outro lado, de que seria possível reconstruir o contrato social entre as nações e dentro delas fomentando mais justiça e igualdade.

As esperanças de 1972 confiavam na capacidade de iniciativa política, não apenas dos governos, mas também dos cidadãos. Pelo contrário, hoje, a política parece ter-se transformado num impotente observador de um destino que, de um modo ou de outro, se inclina para um desfecho fatal.

A crise ambiental e climática ampliou-se ao ponto de já termos ultrapassado várias linhas vermelhas. Apesar dos tratados, reuniões, e muita retórica de boas intenções, caminhamos para aquele ponto em que a crise (que tem sempre uma porta de saída, se houver coragem e lucidez) se transforma em colapso.

E como se isso não bastasse – ou talvez como sintoma de um misto de recalcamento e fuga para a frente, escondendo culpa e irresponsabilidade – as lideranças políticas em Moscovo e no Ocidente empurram os seus povos para uma guerra que cada vez mais parece estar condenada a transformar-se em imolação colectiva.

Na Rússia, há gestos de resistência à mobilização de 300 000 reservistas decretada por Putin. No Ocidente, os protestos contra o imenso sofrimento e destruição que a incompetente guerra económica das sanções está a causar, irão continuar a crescer.

Com Bruxelas dominada por uma demagogia belicista, talvez a Europa dos cidadãos e dos parlamentos nacionais se erga como o derradeiro reduto para tentar interromper esta contagem decrescente para uma catástrofe anunciada.

Quem sabe se o “Inverno do nosso descontentamento”, evocando a citação que Guterres fez de Steinbeck, poderá recolocar a política ao serviço da esperança.

Professor universitário

Diário de Notícias
Viriato Soromenho-Marques
24 Setembro 2022 — 00:07



 

290: Dos limites políticos da guerra

OPINIÃO

Os peritos militares que durante a guerra-fria aconselharam os governos, olhariam para o que está a suceder com a actual guerra na Ucrânia com incredulidade.

A razão por que nunca os EUA e a URSS, mais a multidão dos Estados seus dependentes, chegaram a um conflito directo foi a convicção, partilhada em Moscovo e Washington, de que uma guerra central dificilmente poderia ser controlada. A escalada, isto é, a subida de intensidade no conflito acabaria por conduzir ao colapso infernal de uma destruição mútua assegurada com o uso generalizado de armas atómicas.

Uma forma de homenagear a memória de Gorbachev será a de recordar que um dos seus méritos foi o de ter recusado a perigosa ilusão de que seria possível travar uma guerra nuclear limitada à Europa central (afectando “apenas” a RFA, a RDA, a Checoslováquia e a Polónia).

Na verdade, até ao quebrar do gelo entre a OTAN e o Pacto de Varsóvia pelas iniciativas de paz de Gorbachev, estavam vigentes, tanto a Ocidente como a Leste, doutrinas militares ofensivas que previam o eventual uso de armas nucleares tácticas no próprio campo de batalha. O general Bernard W. Rogers, SACEUR da OTAN, defendia o conceito do “ataque profundo” (strike deep), dando o seu nome àquela que ficou conhecida também como a doutrina da Air-Land Battle.

No lado soviético, a réplica foi dada pela doutrina dos Grupos Operacionais de Manobra, do marechal Nicolai Ogarkov, cuja insistência no reforço do orçamento militar soviético levaria ao seu afastamento, em 1984, mesmo antes da chegada de Gorbachev.

O que transforma a actual guerra na Ucrânia num escândalo global de segurança reside no facto de nela estarem envolvidas 4 das 5 maiores potências atómicas do planeta.

A importante vitória militar ucraniana em Kharkiv, que tornou visíveis e audíveis mesmo dentro da Rússia as críticas à condução da guerra por parte de Putin, torna mais urgente a pergunta que deveria ser colocada em todos os centros de decisão política dos países envolvidos. Quais os objectivos e quais os limites da acção militar?

O Secretário da Defesa dos EUA, Lloyd Austin, afirmou querer enfraquecer a Rússia. Kiev fala mesmo de “vitória”, tendo solicitado aos EUA armas capazes de projectar mísseis a 300 Km, bem dentro do território russo. Uma escalada bélica levará a cenários progressivamente mais horríveis.

O primeiro já é visível, a destruição das infra-estruturas de energia, transportes e comunicações ucranianas (fazendo lembrar a ofensiva aérea da OTAN contra a Sérvia em 1999), aumentando também o sofrimento das populações civis.

Mas mesmo que a sorte das armas continuasse a sorrir a Kiev e aliados, no limite, a possibilidade de perder a Crimeia, a base naval de Sebastopol e o acesso ao Mar Negro seriam considerados como uma “ameaça existencial” para a Rússia — com Putin ou sem Putin — podendo levar ao uso de armas nucleares tácticas contra as forças ucranianas.

Caberia, então, à OTAN a existencial decisão política de levar, ou não, o seu apoio à Ucrânia, apesar do país não estar coberto legalmente pelo artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte, ao ponto de envolver directamente as tropas e os povos da Aliança numa guerra que, rapidamente, se tornaria nuclear e de extermínio.

Nesta dança macabra, o encarniçamento belicista, em ambos os campos, é uma ameaça sobre o futuro colectivo, bem para lá do actual teatro bélico. O que sobra de racionalidade política tem de impor um limite à guerra, sob pena desta devorar tudo à sua volta.

Professor universitário

Diário de Notícias
Viriato Soromenho-Marques
17 Setembro 2022 — 00:07